Uma entrevista (e um roteiro) imperdíveis

SteinerEm uma entrevista imperdível no Babelia do El País, traduzida pela versão brasileira do jornal, George Steiner comenta o roteiro essencial das ideias para a compreensão do mundo neste momento.

O filósofo e ensaísta literário, combalido ao 88 anos, mas perfeitamente lúcido, foi visitado em sua casa em Cambridge, na Inglaterra, por Borja Hermoso.

Os temas da conversa tratam de questões que importam a quem queira se localizar sobre o chamado espírito da época.

O declínio da educação e a perda da memória; o dinheiro como um valor absoluto (“O cheiro do dinheiro nos sufoca, e isso não tem nada a ver com o capitalismo ou o marxismo”); a psicanálise em baixa conta:

A psicanálise é um luxo da burguesia. Para mim, a dignidade humana consiste em ter segredos, e a ideia de pagar alguém para ouvir seus segredos e intimidades me enoja. É como a confissão, mas com um cheque. É o segredo que nos torna fortes, por isso todos meus trabalhos sobre Antígona, que diz: “Posso estar errada, mas continuo sendo eu”. De qualquer forma, a psicanálise está em plena crise. Lembre-se das palavras magníficas de Karl Kraus, o satirista vienense: “A psicanálise é a única cura que inventou sua doença”);

A centralidade da ciência:

“(…) Com certeza haverá duas ou três grandes novas descobertas científicas no campo da genética que introduzirão problemas de ordem moral terrivelmente complexos. Por exemplo: permitiremos que se manipulem as células de um feto?”;

A crise da política, visível com o fenômeno Donald Trump, o Brexit etc., e um alerta sobre as consequências de renunciarmos a ela:

(…) existe uma gigantesca abdicação da política. A política tem perdido terreno no mundo todo, as pessoas já não acreditam nela, e isso é muito perigoso. É Aristóteles quem diz: “Se você não quer entrar na política, na ágora pública, e prefere ficar em sua vida privada, então não venha se queixar depois de que são os bandidos que governam”;

A queda da tradição humanista da literatura e das artes:

(…) Se você e eu fôssemos cientistas, o tom da nossa conversa seria outro, seria muito mais otimista, pois hoje, toda semana a ciência descobre alguma coisa nova que não conhecíamos na semana passada. Em contrapartida –e isso que lhe digo é totalmente irracional, e espero estar enganado–, o instinto me diz que não teremos amanhã nenhum novo Shakespeare, um novo Mozart ou Beethoven, nem um Michelangelo, um Dante ou um Cervantes. Mas eu sei que teremos um novo Newton, um novo Einstein, um novo Darwin… Sem dúvida alguma. Isso me assusta, porque uma cultura desprovida de grandes obras estéticas é uma cultura pobre. Estamos muito distantes dos gigantes do passado. Espero estar enganado e que o próximo Proust ou Joyce esteja nascendo na casa aqui na frente! (…).

A vocação intelectual de Steiner “se compara à dos construtores de catedrais que reuniam, com perícia, e razão a técnica e a beleza e as punham a serviço de uma experiência mística”, diz Enrique Lynch em um comentário sobre o filósofo entrevistado no Babelia e não traduzido pelo El País Brasil.

Quem já teve o prazer de ler um ensaio de Steiner entende, como diz Lynch, a maneira única como ele consegue nos levar pela mão através do espaço da cultura europeia, tanto a clássica como a moderna, e nos fazer participar de uma espécie de rito iniciático.

Em outro comentário, Jordi Llovet define Steiner como “um humanista crepuscular” e “polímata renascentista”.

Um outro trecho da entrevista é ilustrativo sobre a diferença que faz a inteligência de um mestre, interessada em compreender o mundo antes de enunciar grandes verdades.

Pergunta – O senhor diferencia a “alta” cultura e a “baixa” cultura, como fazem alguns intelectuais de renome, visivelmente incomodados com formas da cultura popular como os quadrinhos, a arte urbana, o pop ou o rock, para as quais se chegou a criar o rótulo de “civilização do espetáculo”?
Resposta – Vou lhe dizer uma coisa: Shakespeare teria adorado a televisão. Ele escreveria para a televisão. E não, eu não faço esse tipo de distinção. O que realmente me entristece é que as pequenas livrarias, os teatros de bairro e as lojas de discos estejam fechando. Por outro lado, os museus estão cada vez mais cheios, a multidões lotam as grandes exposições, as salas de concerto estão cheias… Portanto, cuidado, porque esses processos são muito complexos e diversificados para se querer fazer julgamentos generalizantes. O senhor Mohammed Ali era também um fenômeno estético. Como um deus grego. Homero teria entendido perfeitamente Mohammed Ali.

Li esta entrevista no sábado. No domingo fui tomar um pouco de sol nas ruas de Belo Horizonte. Me assustei com o parque fantasma que virou a praça da Savassi. Não havia um café ou uma banca de jornal abertos às onze horas da manhã.

Há muito arrancaram daquele coração da cidade seus dois cinemas e restam duas ou três livrarias de tantas que existiram.

BH é um fenômeno único de pobreza cultural, de fragilidade e incapacidade de resistir ao filistinismo tecnológico em voga.


P.s.: Recomendo aqui mais uma vez , senão toda a série de vídeos de o melhor programa de TV já feito, ao menos a de George Steiner.

Um brinde ao Bloomsday

O aniversário do dia no qual se passa a epopeia popular de Leopold Bloom deve ser festejado publicamente ou com alguma leitura e um bom trago de uísque


Festejar o Bloomsday é reverenciar a obra de Joyce,
a literatura, a beleza, os vivos e os mortos


 

“Naquele dia, você fez de mim um homem”, o escritor irlandês James Joyce (1882-1941) disse à mulher, Nora Barnacle, lembrando o primeiro encontro do casal.

Bloomsday

Foto: reprodução da internet

Em 16 de junho de 1904, tal era o dia, transcorre o romance Ulisses, que, como todo mundo sabe, é um pináculo do modernismo literário e da história da literatura.

Tal é o Dia de Bloom, o Bloomsday, ou de Leopoldo Bloom, judeu remediado de classe média, captador de anúncios, inteligente, sensível, imaginoso, xará do herói grego da epopeia de Homero, em cuja estrutura Joyce arquitetou sua própria história, pau a pau, transformando a literatura, revirando as artes e convertendo a vida de qualquer leitor que tenha enveredado por suas páginas.

O Bloomsday, hoje, deve ser festejado publicamente, em um dos eventos programados em Dublin, a cidade onde o Ulisses acontece, refundada por Joyce, e no mundo inteiro, ou simplesmente com alguma leitura do livro e um bom trago de uísque.

Festejar o Bloomsday é reverenciar a obra de Joyce, a literatura, a beleza, os vivos e os mortos.

 

 

Para o Chico, 70, amanhã

[Atualizado em 08/01/2015]

Em homenagem aos 70 anos de Francisco Buarque de Hollanda, amanhã, entre tantas e tudo mais, deixo aqui um capítulo do meu livro inédito encalhado Meu Boi Morreu – O último carnaval em Primavera, cujo título, O Disco da Samambaia, se refere ao LP de 1978.

Creio que o narrado, a influência cultural, literária e artística da alta música popular brasileira, possa ser comungado com leitores que, naquela quadra dos 1970, também não dispunham de muitos livros em casa e viviam em pequenas cidades do interior do Brasil sem muita oferta espiritual além das missas na matriz e quermesses.

Acrescento que o personagem do narrador, ao redor dos 17 anos, nem sonhava que mais tarde, como jornalista cultural, teria a oportunidade de entrevistar Chico por três vezes e escrever sobre seus discos e shows.

Meu Boi Morreu – O último carnaval em Primavera é do gênero ficção autobiográfica, de que muito se fala outra vez, graças ao sucesso do norueguês Karl Ove Knausgård e da série “Minha Luta”.

Aqui, um pouco mais do “Meu Boi…”

Eis o capítulo do livro, em PDF: O Disco da Samambaia.

Para ouvir o Disco da Samambaia: