De camisa amarela

Jurupoca #37 – Desde o Belo – 28/8 a 3/9, 2020 — Ano 2


REMISSÃO – Carlos Drummond de Andrade

Tua memória, pasto de poesia,
tua poesia, pasto dos vulgares,
vão se engastando numa coisa fria
a que tu chamas: vida, e seus pesares.

Mas, pesares de quê? perguntaria,
se esse travo de angústia nos cantares,
se o que dorme na base da elegia
vai correndo e secando pelos ares,

e nada resta, mesmo, do que escreves
e te forçou ao exílio das palavras,
senão contentamento de escrever,

enquanto o tempo, em suas formas breves
ou longas, que sutil interpretavas,
se evapora no fundo do teu ser?

Este é o sétimo número da Ju com extratos dos poetas reunidos por José Lino Grünewald na antologia Grandes sonetos da nossa língua (Nova Fronteira, 1987). O soneto drummondiano vem originalmente do Claro enigma (1951).

Amilcar de Castro. Jardim das Esculturas do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 797 × 800. Foto: Domínio público, via Wikimedia Commons

Obra de Amilcar, poema incluído no Moral das horas (Manduruvá, 2013) surgiu, creio, da memória do escultor e das impressões de suas figurações em aço corten.

Eu o via muito entrar e sair do seu antigo ateliê da rua Goiás, no Belo. E pude entrevistá-lo na faina de repórter de cultura, entre o final dos 1980 e o começo da outra década.

Retenho seu rosto forte, anguloso, e a fala seca e direta.

Para o leitor interessado em sua obra recomendo o ensaio a ele dedicado por Rodrigo Naves em A forma difícil (Editora Ática, 1996). É magnífico.


 Obra de Amilcar

cidade-suma
sumário seccionado
aço roído ao ar exsuda
seu óxido

pele exangue

Do Moral das Horas (2013)



Opa! Vamos apear?

Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos, como me lembram todo ano a essa época Beto Guedes e Ronaldo Bastos, não haverá, desgraçadamente, como brotar o perdão onde a gente plantou, no cantar de Sol de primavera.

A capa da Piauí de agosto tem uma extensão para homenagear, com cem mil pontos de luz, cada um dos seres, em igual quantidade, levados pelo Sars-Cov-2, uma pessoa, duas pessoas, três pessoas… cem mil pessoas.

Deste então precisamos de mais, talvez, nesta quinta-feira, quando arremato esse texto, de mais 18 mil pontos de luz além daqueles.

Talvez você tenha se inteirado de algo do debate sobre a reação diferenciada do brasileiro diante da mortandade atual. Outros povos, na Europa, na Ásia, mesmo nos EUA, se afirma, sentem mais e demonstram mais seu espanto, sua dor, são mais solidários diante da aniquilação, com as lágrimas, com a opressão no peito de milhares de famílias que não podem sequer receber o consolo do abraço forte de um amigo ou familiar distante pela perda de seus queridos e amados.

Além deste traço que, creio, também reafirma a tal cordialidade tão nossa, segundo Sergio Buarque de Holanda, característica que nos faz voltar para o que é próximo e pessoal, avessos que somos à noção de comunidade estendida, ao sentido comum do marco civilizatório, pois além desse traço, dizia, convivemos com um presidente e seus defensores que desprezam, senão negam a devastação da praga, com álibis dos mais canalhas como morre “só quem tem comorbidade”, “quem não é atleta”, “quem não toma cloroquina” e sandices que tais do nosso franco jumentíssimo.

Neste setembro e na primavera que se anuncia, é pena, queridos Guedes e Bastos, ainda estaremos sob trevas espessas, envergonhados, massacrados pela desonra, pelo vexame.

Não consigo ter esperança, confesso, além de torcer por dias melhores, pela produção de uma vacina eficaz e segura que nos permita, quem sabe, olhar para o saldo da terra devastada e tentar seguir em frente.

Um abraço, e mais uma vez obrigado pela leitura. Sinceramente,

Antônio Siúves


Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?



O fim dos mundos

“Foi a partir de minha terra natal que as trevas começaram a tomar conta do mundo”, diz Amin Maalouf em O naufrágio das civilizações (Vestígio Editora). O jornalista, professor e escritor, libanês de nascimento, francês e europeu por adoção, refere-se ao Levante, região que corresponde mais ou menos ao Oriente Médio atual, e às frustrações de um sonho civilizatório universalista jamais realizado. O melhor de sua análise é o sabor da prosa, a serenidade de um estilo decantado pela idade já avançada, e o testemunho de quem viu de perto como tudo começou a escurecer. Maalouf procura entender a “tendência ao fatiamento e à tribalização” dominante em nossos dias. “Quando os herdeiros das maiores civilizações e os portadores dos sonhos mais universais se metamorfoseiam em tribos raivosas e vingativas, como não esperar o pior para a continuação da aventura humana?”, indaga. Ele estabelece, para clareza de pensamento, dois grandes marcos temporais do retrocesso, moral e geopolítico. A guerra árabe-israelense de junho de 1967 é o primeiro. Os povos derrotados e humilhados jamais se recompuseram daquele fracasso, como lograram alemães e japoneses, nos casos mais notórios, compara o autor, depois de destroçados e ocupados pelo inimigo. Nações se dissolveram e o extremismo islamita mais sanguinário assumiu as rédeas da política, a partir do cisma teológico entre sunitas e xiitas, além do premente ódio aos colonizadores “infiéis”, muito compreensível, aliás. A disputa por influência planetária durante a Guerra Fria entre os polos soviético e norte-americano só fez aprofundar os descaminhos, com mais morticínio em massa na Indonésia, no Camboja, no Afeganistão, e desorientação geral sobre o futuro. Novembro de 1979 é o outro padrão desde o qual Maalouf desenrola a meada de suas reflexões. O autor define como revoluções conservadores o Thatcherismo, seguido pelo Reaganismo, a virada na China com Deng Xiaoping na direção de um “capitalismo de Estado”, a revolução iraniana de Khomeini, e mexidas mais pontuais no tabuleiro, como a eleição ao papado de Karol Wojtyla, no ano anterior. O ultraliberalismo lançou as bases da desigualdade e do atual populismo, diz Maalouf, e da queda da URSS, em 1989, império que já claudicava por seus muitos erros e crimes. Ele não poupa os desvios da esquerda, ao trocar o estandarte do humanismo universalista pela luta identitária e “corporativista”, ao lamentar os reveses, para ele irreversíveis, do projeto europeu, do descrédito da social democracia e da cacofonia populista que se espalhou pelo mundo no novo milênio. “O que caracteriza a humanidade de nossos dias não é uma tendência a se reagrupar no seio de vastíssimas coletividades”, observa, “mas uma propensão à fragmentação, à divisão, com frequência, entre violência e amargura”. Maalouf escreveu seu livro ao entrar na casa dos 70 anos. A aceleração dos avanços da ciência e tecnologia e os progressos da globalização, da libertação de forças econômicas responsáveis por tirar grandes massas humana das da miséria extrema, não detiveram o retrocesso a que se refere em sua obra. Empacamos ou regredimos, afirma o autor, na convivência entre diferentes comunidades humanas, ou no urgente enfrentamento da emergência climática. O ressentimento ampliou os limites da democracia liberal, estamos quase n’água, a pique, na imagem do Titanic a que recorre. Ao esboçar o perfil do “espírito do tempo”, Maalouf não dá muita bola para o papel das novas tecnologias de comunicação e da economia digital, ou não se aprofunda muito sobre seus efeitos na política e no comportamento. Mas isso não atrapalha uma leitura agradável e instrutiva do início ao fim.


Tecnolatria

O astrofísico, filósofo (além de uma porção de outras expertises) espanhol Juan Arnau diz em entrevista ao diário El País que estamos em pleno “triunfo da tecnolatria”. As humanidades se colocaram de joelhos diante da ciência, declara. O entrevistador quer saber se a radicalização e a polarização são ameaças de novos totalitarismos. Arnau diz que sim. “Seguimos no binário, por efeito da tecnologia e da preponderância dos algoritmos”, argumenta. “As redes sociais, além disso, tendem a uniformizar o pensamento. E isso é a morte do pensar. O dataísmo supõe sua aniquilação”, afirma.


Em modo digital

Arnau bateria uma boa bola com o médico e neurocientista Miguel Nicolelis sobre o novo livro do brasileiro que acaba de sair, O verdadeiro criador de tudo – Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos (Editora Crítica). André Cáceres fez uma excelente análise do livro. Comento apenas um dos aspectos que mais me despertaram atenção, ainda sem ter acabado minha leitura. Nicolelis suspeita que “a convivência quase contínua com computadores pode afetar a forma como o cérebro funciona e, no limite, nos transformar em meros zumbis digitais orgânicos”. A conclusão se baseia na plasticidade neutral, o fascinante atributo da autoadaptação cortical. “Os neurônios alteram propriedades e morfologia e até a distribuição e a intensidade das sinapses”, explica. Outra coisa é que um cérebro de primata adulto, no dizer de Nicolelis, é influenciado por modificações ocorridas dentro e fora do nosso corpo. A ampliação de nossa dependência dos sistemas digitais, aplicativos e algoritmos estabelece uma “verdadeira simbiose e pode afetar o cérebro”, por meio dessa plasticidade. Operar no modo digital atende padrões artificiais de aceleração, eficácia e produtividade. Nicolelis receia que essa simbiose acabará por eliminar, e mais cedo do que possamos imaginar, o caráter humano definido pela criatividade, intuição, inteligência, compaixão e empatia pelo próximo.


Aceleração e significado

Li com muito gosto o perfil de Lorenzo Mammì na revista Piauí de agosto, que quase me chega em setembro. Mammì, um ítalo-brasileiro de baixa estatura, forte e sacudido, professor de filosofia medieval na USP, tradutor de Santo Agostinho desde o latim, talvez seja nosso melhor intérprete de João Gilberto e da Bossa Nova. Suas críticas musicais, sobre a importância do LP, por exemplo, são sempre iluminadoras. A matéria da revista tem como fundo a questão sobre o que deu errado com a “promessa de felicidade” que certa classe média decantava, e que só fez afundar mais e mais no pântano da realidade brasileira. O título é Utopias e ruínas – O Brasil da bossa nova e o de hoje… A era de ouro da cultura brasileira, dos anos 1950 em diante, também alicerçou o que viria depois da ditadura e seríamos hoje, como o inchaço das cidades e o aumento da violência urbana. Mammì olha para a violência como traço da mesma cordialidade identificada por Sergio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, ou a contraface da cordialidade que favorece a convivência e a proximidade. “Onde faltam regras impessoais e as relações são resolvidas caso a caso”, lemos na reportagem de Rafael Cariello, “a passagem do afeto à agressão se dá com assustadora facilidade”. Mammì nos ajuda a distinguir o consumo cultural praticado nos anos 1960 e 1970 da atual maquinaria de liquidação. “Se você pensar, todos os grandes movimentos da década de 1960 foram também movimentos de consumo: o disco, a motocicleta, o cinema, a roupa”, pondera. “Você tinha a possibilidade de dar peso e importância ao que seria supérfluo, mas não com uma aceleração tal que tornasse tudo obsoleto o tempo todo”. Vivemos hoje em permanente falta de tempo e liberdade, em uma vertiginosa aceleração. “As coisas se diluem quanto aceleram a um tal ponto que impedem uma apropriação reflexiva. Isso impede que as coisas criem significado”, diz Mammì.


E dizer mais o quê?

Vivemos um presente que parece permanente, eternamente vácuo, de um single a outro, na música, sem tempo para ouvir um novo álbum do começo ao fim; de post em post, hashtag em hashtag. Em grande medida, desaprendemos a ler em profundidade, e nos desinteressamos pela crítica e a reflexão. Creio que isso é o mesmo que dizer que nos afastamos do outro, do mundo, e nos voltamos mais e mais para dentro de nós próprios, nossas próprias respostas ególatras. 


O melhor amigo do  homem é o bode

Juan Arnau é um dos nomes da série recente de entrevista curtas e diretas lançadas pelo El País, em formato pingue-pongue no jargão do jornalismo, a mesma que traz o filósofo e escritor basco Fernando Savater (na captura de tela acima). Morador de San Sebastián, ele viveu longamente com proteção policial, depois de ser jurado pelos assassinos do ETA. Bissexual, amante do txakolí, o ótimo vinho branco regional, ele revela grande sinceridade e lucidez em seus livros, crônicas e entrevistas que concede, além de bom humor. Diz no papo com Borja Hermoso, editor de cultura do jornal, que o melhor amigo do homem não é cão, mas o bode expiatório. Sempre conseguimos colocar a culpa no outro, ele diz. Em nossa época, de seguidas pandemias de vitimismo, então, isso é batata! Me senti honrado por sua opinião sobre o terrorista, que lhe dá medo, e o defensor do terrorismo, de quem sente asco. Gostei sobretudo de sua consideração sobre drogas e o sexo e seus descontentes ideólogos. “O sexo está ligado à nossa natureza como seres determinados por forças que não conhecemos”, ele diz. “Por isso essas ideias de autodeterminação de gênero me parecem uma estupidez. Crer que se pode determinar seu sexo é como crer que se pode determinar sua estatura ou idade”, prossegue, antes de alertar: “Há bárbaros que dizem a crianças de seis anos que podem escolher um sexo ou outro. Isso é o mais destrutivo que se pode fazer com uma personalidade.”


“Por isso essas ideias de autodeterminação de gênero me parecem uma estupidez. Crer que se pode determinar seu sexo é como crer que se pode determinar sua estatura ou idade. Há bárbaros que dizem a crianças de seis anos que podem escolher um sexo ou outro. Isso é o mais destrutivo que se pode fazer com uma personalidade.”

Fernando savate

ROSA PASSOS (Rosa Maria Farias Passos, Salvador, 1952) canta CAMISA AMARELA, de ARY BARROSO  (Ary Evangelista Barroso, Ubá, MG, 1903 – Rio de Janeiro, 1964).

Violonista, compositora e prodigiosa intérprete de todos os gêneros, fadada ao jazz e à carreira internacional, Rosa incluiu Camisa amarela em seu álbum de 1997, Letra & música de Ary Barroso, com o violonista e guitarrista Lula Galvão.

Talvez seja quem, na MPB, melhor fale a língua do jazz, com grande propriedade, o que demonstrar quando imprime nesse samba a cadência, a divisão e a suavidade que enaltecem a composição de Ary.

Camisa amarela é lançada a 31 de março de 1939, interpretada, lindamente, por Aracy de Almeida, apenas um ano depois de Carmem Miranda ganhar as paradas com a Camisa listada de Assis Valente [ver Ju # 34].

O novo samba vai, igualmente, se tornar um clássico da nossa música popular. Se não era uma resposta de Ary, nosso ubaense pegava o mesmo mote da crônica carnavalesca carioca sob o ponto de vista da mulher sofrida por seu homem desvairado.

É, por assim dizer, um metassamba, gravado no mesmo ano de Aquarela do Brasil, este samba-exaltação, gênero inventado por Ary, que iria ganhar Hollywood e o mundo.

“A protagonista [de Camisa amarela] narra as proezas do amante folião que volta sempre aos seus braços, passada a brincadeira”, comenta Zuza Homem de Melo e Jairo Severiano no primeiro volume de A canção do tempo – 85 anos de músicas brasileiras (Editora 34, 2015).

“Procurando dar uma impressão de realidade à história, Ary chega a localizá-la no tempo e no espaço, com a citação de músicas do carnaval de 39 — Florisbela e Jardineira — e lugares do Rio — o Largo da Lapa, a Avenida (Rio Branco) e a Galeria (Cruzeiro)”, prosseguem esses autores.

O próprio Ary gravaria a canção em 1956, acompanhando-se ao piano, com todas as justas pausas e erres fortes da época. Também há lindos registros de Gal Costa, Nara Leão e Caetano Veloso.


Camisa amarela foi registrada na bela voz da cantora portuguesa Maria da Graça no filme O Pátio das cantigas, de 1942, dirigido por Francisco Ribeiro, aduza-se aqui como curiosidade.

O fraseado redondo de Ary, o português muitíssimo bem tratado, com colocações pronominais já extintas da oralidade brasileira, e mesmo da escrita, a ternura expressa pela amante, a mulher “cheia de perdão”, como exaltaria mais tarde Vinicius de Morais, fixa esse samba num tempo da delicadeza da canção popular.

CAMISA AMARELA — Ary Barroso

Encontrei o meu pedaço na avenida
De camisa amarela
Cantando a Florisbela, oi, a Florisbela
Convidei-o a voltar pra casa
Em minha companhia
Exibiu-me um sorriso de ironia
Desapareceu no turbilhão da galeria

Não estava nada bom
O meu pedaço na verdade
Estava bem mamado
Bem chumbado, atravessado
Foi por aí cambaleando
Se acabando num cordão
Com o reco-reco na mão

Mais tarde o encontrei
Num café zurrapa
Do Largo da Lapa
Folião de raça
Tomando o quarto copo de cachaça
Isto não é chalaça

Voltou às sete horas da manhã
Mas só na quarta feira
Cantando A Jardineira, oi, A Jardineira
Me pediu ainda zonzo
Um copo d'água com bicarbonato

O meu pedaço estava ruim de fato
Pois caiu na cama
E não tirou nem o sapato
E roncou uma semana
Despertou mal humorado
Quis brigar comigo
Que perigo, mas não ligo!
O meu pedaço me domina
Me fascina, ele é o tal
Por isso não levo a mal

Pegou a camisa, a camisa amarela
E botou fogo nela
Gosto dele assim
Passada a brincadeira
E ele é pra mim
Meu Sinhô do Bonfim.
 

Té ‘rrupiei, nu!

“Estou preocupado com a Amazônia”, diz Al Gore, ex-vice-presidente norte-americano. “Quero explorar os recursos da Amazônia com os EUA”, devolve ¡Caveirão.38!. “Não entendi o que você quer dizer”, encerra Al Gore, se virando e caindo fora daquela fria. Estrupício! O “diálogo” constrangedor e desconcertante, intermediado pelo ministro Arnesto, o funesto, ocorreu no Fórum de Davos, na Suíça, em 2019. “Ninguém queria ficar perto de Bolsonaro”, disse ao Globo Marcus Vetter, diretor do documentário O fórum. Ao ver a cena, que, como se diz, viralizou, té ‘rrupiei, nu!, cá nos recessos de minh’alma mineira.


O Haiti é ou não é aqui?

O assunto esfriou. Deu vez à hashtag da pergunta endereçada ao presidente Massaranduba, isto é, ¡Caveirão.38!, sobre os tais depósitos do Queiroz na conta da primeira-dama Xexele. Mas esta Ju não esquece um assunto sério assim sem menos. Soubemos por dr. Fontes Fidedignas que o arcebispo do Belo e presidente da CNBB, dom Walmor de Oliveira de Azevedo, adormecera e sonhara com a própria declaração condenatória à interrupção da gravidez da criança capixaba violentada. Após um pecaminoso wet dream, sua eminência reverendíssima despertara, por obra d’algum milagre, ao som da música Haiti (Gilberto Gil e Caetano Veloso), tocada em alto volume no rádio-relógio de seu amplo claustro, justamente na parte da letra que lhe serviria de carapuça: “…E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto / E nenhum no marginal…”. O religioso, baiano de Cocos, ao se levantar rumo ao W.C. se pusera aos berros, movido pela mais atroz e santa fúria: “Crime hediondo! Crime hediondo!”.


Cangaço

Enquanto isso, quase ao mesmo tempo, a cangaceira Sara Virgulina convocava seu bando de bandidos intergaláticos virtuais e analógicos para torturar mais uma vez a criança barbarizada. Médicos foram acossados e a demência, mais uma vez, reinou em Pindorama.



Eu algoritmo, tu algoritmas

O título de capa do caderno de ex-cultura da Folha, hoje mais para editoria de Secos e Molhados, aliás verdadeira loja de Raimundo Joãozinho, que fica logo ali, depois da ponte dos Machado, à direita de quem segue rumo a Itabira do Mato Dentro, terrinha boa de CDA. A máquina de caça-clique de ex-cultura padronizou enunciados no imperativo: entenda, pau pra toda obra, ou saiba. A redação parece movida por algoritmos, e o Nicolelis tem razão! Claro, a turminha imberbe da editoria, dedicado mercado de pulgas do new journalism cultural forjado na Barão de Limeira, tem muito a nos ensinar, entre um clique e outro. Lá se conjuga o verbo algoritmar, eu algoritmo, tu algoritmas etc. 

A editoria de ex-cultura da Folha flagrada em pleno esforço de reportagem caça-clique. 
Foto: Antônio Siúves

Harrison

No dia 29 de novembro de 2001, uma quinta-feira, diante de uma mesa fria de granito da redação de O Tempo, na avenida Babita Camargos, em Contagem, recebíamos no Magazine a notícia da morte prematura do ex-beatle George Harrison. Abrimos várias páginas do caderno para registrar com dignidade a perda de um artista tão querido por multidões e por cada um de nós que amamos suas canções, sua timidez e integridade paciente. Ao titular nossa “capa poster” pensei em algo simples e direto. “Obrigado pelo sonho”, manchetei garrafal. Durante muito tempo me descia uma lágrima só de pensar naquele título. Músicos e beatlemaníacos me ligaram no dia seguinte para nos felicitar. Lembrei disso agora ao ler um artigo/reportagem muito bem feito, especialmente para o Estadão por Carlos Oliveira sobre uma nova edição de All Things Must Pass, a caixa caprichada de 3 LPs lançada há 50 anos e que iria afogar as mágoas dos fãs, entristecidos com o anuncio recente do fim dos Beatles. Olivia e Dhani Harrison, viúva e filho, estão à frente do projeto, que terá registros inéditos e uma canção de Harrison e Bob Dylan nunca lançada oficialmente, chamada Window Window.

Canção amiga

Saiu uma beleza a versão de Canção amiga (Carlos Drummond de Andrade – Milton Nascimento) com Leila Pinheiro e o grupo Seis com Casca, do álbum que acabam de lançar pelo selo Azul Music.


Cisne

Deslumbrante, pelo menos, o single de Arthur e Lívia Nestrovski do novo álbum de pai e filha, Sarabanda, apresentado neste clipe aqui de Cisne, parceria de Arthur com o compositor francês Camille Saint-Saëns (1835-1921), mais uma das suas com os clássicos, e me lembro, por exemplo, entre muitas, de sua tradução da Ode à Alegria para a gravação da Osesp da 9ª Sinfonia de Beethoven, e sua Serenata, música de Franz Schubert e Ludwig Rellstab, que, na voz de Chico César virou trilha da novela  Velho Chico, da Globo. Gosto até mais da versão dessa música com a dupla parental, introduzida com uma citação de A saudade mata a gente, de Braguinha.



«Miserável mundo novo: Conservadores, uni-vos!. No Estadão da Arte.»

«O Gramsci da direita brasileira – Antes a maior influência de Jair Bolsonaro, a ambição de Olavo de Carvalho é estabelecer no Brasil a hegemonia nacionalista e cultural de uma nova direita. Na Dissent, em inglês.»

«Livro de 1794, ‘Viagem ao redor do meu quarto’ mostra como burlar o tédio da quarentena. O Globo.»

«Leonardo Padura constrói a grande novela do exílio cubano. El País, em espanhol.»

«Feliz aniversário: Paula Toller completa 58 anos (…) e fala sobre feminismo no rock e memes sobre ‘juventude eterna’. No Globo

«Os 80 anos de Acertei no milhar. Rádio Batuta.»

«Gilberto Gil | Concerto de Cordas & Máquinas de Ritmo (Show Completo). Vídeo da Biscoito Fino.»


«Bach marca o retorno do pianista Lang Lang – Por anos ele não quis tocar as ‘Variações Goldberg’ em público, mas agora lança duas gravações. Joshua Baron, The New York Times, via Estadão

«O radicalismo de Woody Guthrie. Na Jacobin, em inglês.»

«O rosto de Tiradentes – Sete anos de pesquisas, com a consulta de 300 imagens, permitiram mostrar como foi construído o rosto que está em monumentos, quadros, cédulas, moedas e selos. Elio Gaspari, em O Globo

«A canção que levava ao suicídio. No El País, em espanhol.» 

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

O que os guias de viagem não revelam

Guias

Como escolher um guia de viagem e tirar o melhor proveito das melhores publicações do gênero, assim como de outras fontes indispensáveis ao turista interessado em cultura — livros, jornais, internet e o que estiver à mão.  É do que trata o texto abaixo, parte do inédito Livro de Viagem — Estratégias, dicas e vivências de um turista literário e cultural


O QUE OS GUIAS DE VIAGEM DO DR. STRABO NÃO REVELAM

Os guias de viagem do Dr. Strabo vendem como pão quente na Holanda. O Guia da América do Norte e o Guia do Oeste e do Norte da Espanha contam entre dezenas de títulos publicados em centenas de edições e tiragem espetacular. Dr. Strabo é o alter ego e meio de vida do professor de “línguas mortas” Herman Mussert, tradutor dedicado dos poetas latinos Virgílio e Horácio . Do ponto de vista intelectual, Mussert e Strabo são como Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Se você é apaixonado por Lisboa, como o autor destas linhas, há de ver interesse nesta luta de egos. Acompanhe uma confissão de Mussert:

“Toda a cidade é um adeus. A borda da Europa, a última costa do primeiro mundo, é lá que o continente corroído afunda no mar, se dissolve na bruma infinita que o oceano faz lembrar, hoje. Esta cidade não pertence ao presente; aqui é mais cedo porque é mais tarde. O agora banal ainda não chegou; Lisboa é relutante. Esta deve ser a palavra. Esta cidade protela o momento da partida; é aqui que a Europa diz adeus a si mesma. Canções letárgicas, suave decadência, grande beleza. Memória, adiamento da metamorfose. Nenhuma dessas coisas entraria no Guia de viagem do Dr. Strabo. Eu mando os tolos para as tavernas de fado, para sua dose de saudade processada. Slauerhoff e Pessoa eu guardo para mim, ainda que não os mencione; guio os pobres coitados ao Mouraria e ao Brasileira, para uma xícara de café, e para o resto eu preferiria manter a boca fechada. Não direi uma palavra sobre as mudanças de alma do poeta alcoólico, para a persona líquida, multiforme que ainda percorre as ruas de Lisboa em todo o seu brilho sombrio, que se insinuou invisivelmente em tabacarias, embarcadouros, muros, cafés escuros onde Slauerhoff e ele facilmente poderiam estar juntos, sem saber.”

Jan Jacob Slauerhoff (1898-1936) é poeta e romancista holandês desconhecido no Brasil. Fernando Pessoa, o enorme poeta dos heterônimos, a quem se voltará neste livro. A passagem acima foi extraída de A Seguinte História:, novela do escritor holandês Cees Nooteboom publicada em 1993 e vencedora do Prêmio Literário Europeu. Além de buscar a “alma” de Lisboa, o texto ilustra de modo original o limite dos guias de viagem. É preciso notar que Nooteboom, que também é poeta e viajante contumaz, escreveu, ele mesmo, diversos relatos de viagem pelo mundo, inclusive um sobre a Bahia, em 1968. Seu nome está sempre entre os favoritos ao Nobel.

Antes de melhor situar o alcance dos guias — como o turista não vive sem este bom serviço —, falemos um pouco deles e de seus complementos.

chanceleiros
Nos fundos da Casa Visconde de Chanceleiros (Sabrosa, Portugal). Foto de Antônio Siúves

Há guias muitos bons. Obrigado à feroz concorrência no mercado de viagens. Os melhores, entre Michelin, Lonely Planet, Time Out, Baedeker, Rough Guide, Frommer’s, Geoguia, Fodor’s e tutti quanti serão os mais atualizados. Neles, você achará, por óbvio, a informação que melhor quadre com seus planos, orçamento, sua curiosidade, suas preferências e seu humor.

A viagem cultural é cultivada pela aristocracia europeia há séculos. Do chamado Grand Tour da nobreza surgiu o embrião dos guias atuais, aí para o final dos 1600. Eram narrativas com observações sobre arte, arquitetura e antiguidades, geralmente dedicadas à Itália. Os guias como os conhecemos, com informação e avaliações estreladas, são da primeira metade dos 1800. (Goethe viaja à Itália apoiado no guia de viagem do historiador e crítico de arte Johann Jacob Volkmann, editado em Leipzig, em 1770).

Um dos mais velhuscos é o alemão Baedeker, que me deu o prazer apenas em 2013, em uma edição em inglês, quando me preparava para viajar à Andaluzia. Karl Baedeker publicou o primeiro livro para excursionistas com seu nome em 1830. O poeta norte-americano e Nobel de Literatura T.S. Eliot “homenageou” o guia no poema Burbank com um Baedeker: Bleistein com um charuto, escrito em Londres, no ano de 1919. Embora se refiram a um judeu, os versos parecem ironizar o gosto burguês pela viagem. É típico do antissemita e nariz- empinado Eliot. Eis duas das estrofes, na tradução de Ivan Junqueira:

Burbank cruzou uma pequena ponte
 E escolheu um hotel de custo baixo;
Volupina, a princesa, ali chegando,
 Uniu-se a ele, e Burbank veio abaixo.

(…)

De um modo ou de outro, assim era Bleistein:
 Cotovelos e joelhos com um vago
Arco alquebrado, as mãos espalmadas,
 Um vienense semita de Chicago.

Guardo dezenas de guias, que ainda vão me servir por muito tempo no que trazem de permanente e vai se repetindo a cada reedição. No Brasil, os estoques das livrarias em geral são limitados. Quanto antes você os encomendar, ou baixar em seu Kindle, melhor, já que alguns títulos terão de vir importados.

Ao planejar meu roteiro, gosto de cruzar avaliações e impressões distintas de três ou quatro guias. Embora a maior parte desses volumes seja escrita por equipes, há sempre um colaborador principal. Ele conhece mais intimamente a cidade ou uma parte da cidade retratada. Percorreu cada bairro, ruela e beco atrás de novidades para agradar você e o patrão.

O Lonely Planet, publicado no país pela Editora Globo, tem excelentes roteiros de Paris. Meus preferidos são os das galerias, mercados e a Volta literária no Quartier Latin. Em um par de horas, avistam-se os apartamentos onde James Joyce, Ernest Hemingway, Paul Verlaine, George Orwell e outros grandes autores do século 20 viveram e produziram suas obras.

O Time Out e o Rough Guide (editado pelo Publifolha) de Lisboa são enxutos e valiosos, como o Frommer’s de Buenos Aires. Da robusta e pesada edição Lonely Planet sobre a Itália, vou aos poucos e sem piedade extraindo os cadernos regionais, conforme minha excursão pela Bota.

Comparando as avaliações do Baedeker e o português Geoguia, ambos importados, pude fazer ótimas escolhas de hotéis na Andaluzia. Uma delas foi a Casa de los Azulejos, em Córdoba, com boas instalações, simpatia, um lindo pátio com jardins e fonte, a preço módico. Avaliações seguem critérios técnicos, mas sempre há um grau de subjetividade quando se conferem pontos, ou uma, duas ou três estrelas. Os juízos do guia alemão e do português são complementares na apreciação que cada leitor possa fazer deles.

Também gosto de mapas. Guardo-os aos montes em caixas e espalhados pela casa. Vão desde mapas da Europa inteira aos pequenos planos de cidades que nos dão nos escritórios de turismo. Como disse no capítulo anterior, prefiro conjugar aplicativos no celular com tecnologias tão boas quanto a roda, como é o livro. Não rejeito tablets e um dia quem sabe até venha “vestir” uns óculos da Google e o que mais se inventar. Mas não me furto ao prazer de usar a caneta colorida para demarcar caminhadas do hotel e endereços dos guias, ou traçar roteiros em um pedaço de mapa aberto na rua ou num café.

Não vejo muita graça no Google Street View. Muito raramente abro essa ferramenta para rever um lugar saudoso, exceto quando indispensável. A visão geral que um mapa nos oferece nos diz muito mais de onde estivemos e iremos. Às vezes lembram os filmes que assistimos e em alguma cena reencontramos uma praia, um bar ou esquina familiar.

Guias

Enquanto folho e refolho os guias, faço incursões na internet. Em geral, confiro, como fazem milhares de leitores, as indicações das reportagens 36 Hours, do The New York Times, que saem nos fins de semana. Tirei dessa abençoada série ótimas dicas sobre o que ver, onde comer e me hospedar. Divirjo de seus avaliadores por vezes, mas os bendigo com mais frequência. Com sorte, à véspera de seu embarque para Hanói ou Chicago, o jornal soltará uma matéria fresquinha sobre uma dessas cidades, ajuizando o que há de mais novo e excitante por lá. Atualizar as indicações dos guias é a melhor serventia de seções como essa.

O jornalão norte-americano mantém uma editoria de viagem (Travel) provavelmente maior que as congêneres dos grandes jornais brasileiros somadas. Além de 36 Hours, publicam-se com regularidade despachos de seus críticos de artes, comida e vinhos.  A leitura do wine writer Isaac Asimov me guiou com grande proveito na Rioja e no Triângulo de Ouro do Jerez; uma reportagem assinada por Gisela Williams, de novembro de 2007, me chamou atenção para a entrada da região do Douro no mapa mundi dos grandes vinhos. (Para fazer justiça: entre minhas fontes sobre terroir, fermentação malolática e otras cositas más figura sempre o crítico brasileiro Jorge Lucki e sua página semanal no Valor Econômico.)

Graças a outro experto do NYT, o colunista Frank Bruni —escritor e jornalista polivalente, antes mandachuva da crítica de restaurantes do jornal — consegui recompensar uma noite a mais em Lisboa, em 2012, depois de problemas com um voo para Roma [leia mais sobre o episódio nos Diários].

Também navego no El País e The Guardian. Estão entre meus jornais favoritos e praticam com grande originalidade o jornalismo cultural voltado à viagem. Um correspondente do jornal britânico me deixou à vontade nas ruas de Logronho, no norte da Espanha, com raríssimos turistas à volta, a conferir o circuito de pintxos (tapas na língua basca, ou euskera) e a concorrência entre os bares das calles Laurel e San Agustín. Valorizo, com cuidado, as indicações do blog El Viajero, do El País. Certa vez, sugeri ao jornalista responsável a correção de alguns erros em um post sobre gastronomia mineira — e fui completamente ignorado: dois anos depois, os erros continuavam na página.

Buscas no Google e nos sites dos jornais pedem método e calma. Se o primeiro nos leva antes ao interesse de seus anunciantes ou ao que — supõem seus algoritmos metidos — sejam os nossos, os últimos empacam com frequência. Procuro associar precisamente meu objeto, por exemplo: NYT+vinhos+Douro+Portugal.

Entro devagar em sites e blogs de viagem. Há muito jabá na área (jabá é jargão entre jornalistas para agrados e propinas regulares oferecidos por empresas e governos). Tal praga, que infelizmente ainda acomete o jornalismo de viagem praticado no Brasil, contamina muito da informação que se põe na rede. [No final do livro há uma relação de endereços confiáveis e outras referências.]

Guias

O Guia de Lisboa do Dr. Strabo, como vimos, não é o livro aberto da alma de Herman Mussert.  Ao comprar um guia, pagamos por informação objetiva e útil. O turista se vale dele para sondar o terreno, fazer escolhas, se planejar. O que faz cada um de nós perceber e experimentar a viagem deste ou daquele jeito — a despeito da beleza dos lugares — está além dele. O viajante conta com o repertório que tem para filtrar ideias e sensações. Cultura e arte são referências significantes, guias internos por assim dizer.

O leitor de Marcel Proust que for a Veneza será tentado a chegar até Pádua, distante apenas 15 minutos de trem da estação Mestre. Nem que seja para dar um pulo à Cappella degli Scrovegni, também chamada Arena, e paquerar os afrescos de Giotto. Além de repassar suas lições de historiada arte, há de se recordar do narrador de Em Busca do Tempo Perdido, nesta passagem do final de A Fugitiva —penúltimo dos sete livros que compõem o romance (a tradução é de Carlos Drummond de Andrade):

“(…) Na véspera de nossa partida, quisemos chegar até Pádua, onde se acham aqueles “vícios” e aquelas “virtudes” cujas reproduções me dera Swann; depois de atravessar, com o sol a pino, o jardim da Arena, entrei na capela dos Giotto, em que a abóbada inteira e os fundos da pintura a fresco são tão azuis que é como se também o dia radioso houvesse transposto o umbral em companhia do visitante, indo por um momento colocar na frescura da sombra o seu céu límpido, apenas um pouco mais escuro porque se desembaraçou dos raios dourados da luz, como nessas pausas breves que interrompem os dias mais claros, quando, sem que se visse qualquer nuvem, e tendo o sol virado sua pálpebra por um instante para mais longe, o azul, mas doce ainda, se obscurece. (…).”

O livrão de Proust pode não ser o melhor exemplo de literatura de viagem, embora a viagem seja um tema caro ao autor. Já os livros de Nooteboom e Sebald misturam memória, relato de viagem e história. Sebald, a propósito, também visita a capela Scrovegni. Está na página 69 de Vertigem outro tipo de perspectiva das pinturas que o turista que for a Pádua pode conferir. Em vez do encantamento que os afrescos do pintor florentino inspiram a Marcel (ou a um grande pintor do século passado: “Encontrei três reproduções de Giotto em Pádua, que envio a você. Giotto é para mim o ápice dos meus desejos” — de uma carta de Henri Matisse, já perto da morte, ao amigo Pierre Bonnard), o que admira o autor alemão, incomodado pelo calor dos infernos, é “o lamento silencioso erguido havia quase sete séculos pelos anjos que pairam sobre a infinita desventura”. Ele ainda observa que “em sua dor, os próprios anjos haviam franzido de tal modo as sobrancelhas que se poderia supô-los de olhos vendados”.

O narrador de A Seguinte História: viaja de Amsterdã a Lisboa e segue então de navio até o Rio Amazonas. Quem refizer o itinerário há de ter Mussert também como uma espécie de guia, apesar dele mesmo. Poderá então casar o gozo da viagem com o da leitura:

 “Em Manaus, atravessamos a linha que dividia o Amazonas e o rio Negro, a água preta correndo lado a lado com a marrom, no meio da corrente, dois tons desafiando a interação, a água negra da morte polida como ônix, a marrom bronzeada e forte, falando de distância, de selva.”

Em Austerlitz, Sebald deixa o leitor terrificado com a descrição da Centraal Station de Antuérpia e da arquitetura da Salle des pas perdus; espantado com as observações sobre a construção da nova Biblioteca Nacional de Paris; admirado com a descrição das paisagens do País de Gales; contemplativo, ao refazer um trajeto de trem na periferia de Londres ao chegar à Liverpool Station:

“Eu mirava a paisagem plana, quase sem árvores, os enormes campos marrons (…), as hortas, os arbustos desfolhados recobertos de clematites secas que crescem nos taludes (…) a feia visão dos fundos dos prédios enfileirados junto aos quais corre a ferrovia nos subúrbios da metrópole.”

Eu pensei nesta página ao chegar a Londres, quando o Eurostar começava a perder velocidade. A memória do texto me fez sentir, de certa maneira, mais ambientado ao desembarcar em St. Pancras num início de tarde chuvoso.

Bons livros de história começam onde a visão do guia de viagem já não enxerga. Danúbio, do germanista italiano Claudio Magris, acompanha o trajeto do rio europeu da nascente, na Alemanha, à foz, entre a Romênia e a Ucrânia. Em cada tópico ou parada, ele repassa as marcas da história e da cultura que vicejaram nas cidades às margens do rio de muitos nomes: Donau, Dunaj, Duna, Dunav, Dunărea, Dunay.

Com erudição, Magris reflete no diário de viagem sobre as marcas deixadas pelas obras de Kafka, Wittgenstein, Freud, Haydn, mas também pelos atos e omissões do carrasco nazista Adolf Eichmann e do Comandante em Auschwitz Rudolf Höss. Lemos o livro como roteiros para esquetes do “teatro do século” daquela civilização intricada. Em Linz, na Áustria, ao retratar o escritor Adalbert Stifter, ele, talvez sem se dar conta, vê a si próprio:

“De 1848 a 1868, ou seja, até sua morte, Stifter olhava das suas janelas para o Danúbio, a amada paisagem austríaca que lhe parecia conter séculos de história que se tornaram natureza, impérios e tradições absorvidos pela terra como folhas e árvores pulverizadas. (…).”

O gênero também está bem representado por A Lebre com Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal. O escritor descreve suas viagens por Londres, Paris, Viena e Tóquio para reconstituir os passos de sua família judia. O pretexto e contar a história dos proprietários de uma coleção de miniaturas japonesas. O turista que viajar a uma das três capitais encontrará grande valor na leitura dessa obra. [Leia mais sobre o livro em Peregrinações culturais.]

Arte e cinema ampliam do mesmo jeito o horizonte do turismo cultural. O observador atento de algumas paisagens de Renoir, Monet ou Pissarro terá uma visão dupla de certos recantos do Sena, ao se distrair em Paris. “É evidente que os olhos se formem em consonância com os objetos que divisaram desde a infância”, diz Goethe, ao refletir sobre a obra de Veronese e concluir que o artista “há de ver com maior clareza e limpidez do que outros homens”.

Ainda em Paris, ao se deixar levar pelas ruas do Marais e, à porta de uma velha escola, deparar a placa alusiva ao envio de seus ex-alunos aos campos nazistas, o cinéfilo talvez tente se apoiar em uma cena de Adeus, Meninos, de Louis Malle. Quando flanar por Roma, em cada esquina vai se ver assediado — e também reconfortado — pela memória de quilômetros de fotogramas rodados naquelas ruas e praças.

Perde-se muito ao zanzar por cidades europeias sem um domínio básico de arquitetura e história da arte. É dar mole à síndrome do viajante infeliz. Para o turista pronto haverá interesses dentro e fora dos museus. Saber identificar e apreciar os artifícios das construções — de ruínas etruscas ou grego-romanas ao arrojo dos prédios de Frank Gehry ou Norman Foster, com o gótico, o renascentista, o barroco e outros estilos a permear os séculos — ajuda a se pensar a ocupação do espaço urbano. Também é uma forma de abordar o ideário dos homens em cada época e compará-lo ao nosso.

O ciclo da viagem é mais rico para o turista que se deixa conduzi pela cultura. Para quem já rodou por livros, quadros e filmes, a vista do Grande Canal de Veneza será ainda mais excitante. Do camarote VIP franqueado por Shakespeares, Canalettos e Viscontis assistirá por um instante ao desfile dos sucessos que eternizaram a Serenissima Repubblica di Venezia. Ondas desbordantes de comércio, guerra,  tragédia, arte, e invenção vão inundar seus olhos.

O interesse cultural pode sim tornar um passeio por ruas de Paris ou Roma uma experiência estética em si. Presente e passado formam uma rede inextricável de vivos e mortos que se estende como por camadas geológicas.

Como diz o escritor espanhol Antonio Muñoz Molina, escrevendo sobre o Prêmio Nobel de Literatura de 2014, “a Paris de [Patrick] Modiano, como a Dublin de Joyce é uma cidade literal e a metáfora de um estado de espírito”.  O viajante que tenha lido estes e outros autores não se prenderá às aparências. “Os aparecidos e desaparecidos povoam a literatura, e a cidade por onde se movem está igualmente feita de lugares reais e visíveis e outros que já na o existem”, diz Muñoz Molina no mesmo artigo.

Visto dos desfiladeiros das villas de Ravello, no sul da Itália, o mar Tirreno ressoa viagens de Ulisses cantadas por Homero. Estar em Paris, Berlim, Viena, Zurique ou São Petersburgo é um convite e uma oportunidade a considerar a saga marxista narrada por Edmund Wilson em Rumo à Estação Finlândia.  Cenas de filmes de Fellini, Rossellini e Scola nos assombram em Roma tanto quanto a presença desconcertante do passado imperial em cada esquina.

A memória abre portas para o turista cultural. Os mapas do Google que nos guiam tornam-se rotas mais intrigantes se as sobrepomos às cartas de portulano que carregamos em nós.

O viajante que se deixa puxar pela memória vai entender melhor o mundo em que se mete — para o bem e para o mal. Pode ser pela glória e pela honra. Pode ser pela culpa ou nódoa que se enraízam na história de um país. A Paris ou a Berlim de hoje — para dizer isso de outra forma — não serão bem conhecidas se não forem ajuizadas na relação que ambas tiveram e têm com o flagelo do Nazismo. Quem percorrer a Espanha sem uma noção das diferenças culturais entre suas regiões autônomas ou a Itália — e não levar a em conta a indisposição entre sulistas e nortenhos — também estará exposto à síndrome do viajante infeliz.

Guias

Leia também: apresentação do livro e fragmentos dos Diários e partes dos Souvenirs: Poemas de Viagem e O Averno no Arno ou meu inferno em Florença.

A viagem até um editor

DSC01620
Bilbao, indicações em basco. Foto: Antônio Siúves

 

O JS publica uma novo trecho do Livro de viagem — Estratégias, dicas e vivências de um turista literário e cultural.

Já caíram no jornal os Poemas de Viagem e O Averno no Arno ou meu inferno em Florença, textos que integram os Souvenirs, na terceira e última parte do volume.

Seguem-se o Plano de Voo, uma apresentação da obra, e alguns excertos dos Diários, com registros de passagens por Bilbao e País Basco, na Espanha.

PLANO DE VOO

“Turismo também é cultura, como se sabe. Mas mais divertido é quando a cultura se transforma em turismo.”

Terramarear – Peripécias de dois turistas culturais, de Ruy Castro e Heloisa Seixas

Um modo de viajar é coisa tão pessoal quanto o gosto por livros, filmes e quadros, bem como a motivação e o sentido que cercam a viagem. Em uma época de excursões curtas e facilitadas, o turismo de massa se confunde com experiência cultural. A forma de usufruir essa experiência é que distingue a viagem, como o conteúdo define o viajante.

A viagem como extensão da vida cultural e certa maneira de praticá-la são temas deste livro, e o prazer de viajar é a meada cujo fio se pretende puxar para orientar os rumos da conversa.

O objetivo é compartir o que talvez possa se nomear um estilo de viagem dentro do gênero de turismo chamado turismo cultural — com desapego ao conceito acadêmico ou institucional que se tenha da modalidade. Signos, arranjos, vivência e o proveito que se tem antes, durante e depois da viagem são paradas obrigatórias na exploração do assunto.

Espera-se que a leitura seja atrativa para o leitor empenhado em se aperfeiçoar no turismo cultural, mas também para o viajante inveterado. Este haverá de cotejar suas vivências às do autor, e também seus ideais aos dele. Que as rotas, os livros e as obras de arte apontadas, os exemplos e uma ou outra sugestão possam ser úteis a ambos.

O primeiro capítulo cuida de estabelecer um rumo para a jornada, isto é, de assentar o que a viagem pode significar em nossas vidas. O mérito dos preparativos, a importância relativa dos guias e do que se leva por bagagem na prevenção da “síndrome do viajante infeliz” é discutida nos capítulos 2 e 3.

Em seguida, procura-se tratar com brevidade cada marco que define a “arquitetura da viagem”: o tempo ideal para se viajar, o “melhor” meio de transporte, a escolha do hotel, a visitação a museus e a dimensão que a comida e o vinho representam nos dias atuais, se passados pelo filtro da crítica à cultura. O capítulo 11 dá atenção particular aos ritos e peregrinações de um viajante guiado pelo amor aos livros e às artes. Encerra a primeira parte uma reflexão acerca de viagem e memória.

O intuito dos Diários, com extratos de notas de viagem do autor, contidos na segunda parte, é ilustrar ideias e caminhos traçados no livro. Podem ser lidos como rotas, programas testados e highlights das cidades. Algum entusiasmo e algum registro mais íntimo marcam estas anotações.

Os Souvenirs — na terceira parte — reúnem uma reportagem sobre a Rioja, a principal rota do vinho no norte da Espanha, a crônica de um tortuoso episódio de viagem em Florença envolvendo celebridades da literatura mundial e cinco poemas de viagem que equivalem a um diário de bordo.

Referências a obras e sugestões a que se faz menção nos textos podem ser encontradas no final do volume.

Por simples afinidade do autor a remissão a viagens a cidades europeias predominam largamente no livro.

estética 068
Estética (Vista de Bilbao). Foto: José Fontán

 

EXCERTOS DOS DIÁRIOS

Bilbao e região, San Sebastián e La Rioja

— Voo agradável a Bilbao (Bizkaia), desde Barcelona, numa manhã de domingo. José e Inês nos esperam carinhosamente. Vamos segui-los de carro até a cidade fria e densa de vapor. Paramos em um mirante com vista para a ría, a cidade, o mar e o verde cerrado no horizonte estético. Ficamos no “opulento”, segundo um guia, Hotel Carlton, graças a uma pechincha de ocasião. Logo a uma ronda de pintxos (tapas) no casco antíguo, a cidade velha, com José, Inês e amigos que nos apresentam, entre eles o queniano Fecade, que é guia turístico aqui. Na feirinha da primeira parada, compro uma edição de bolso de Asesinato em el Comité Central, um das primeiras histórias de Pepe Carvalho, inédita no Brasil. A ronda é nossa via sacra dos anos de faculdade. Vinhos e tapas, tapas e vinhos. Todo o norte espanhol é uma farra para o amante dos brancos, com seus Albariños, Godellos e o indizivelmente genuíno Txakoli, de gosto misterioso como o euskera, a língua basca. —


— José convida o grupo a almoçar a cerca de um quilômetro de onde estávamos, no aprazível Porrue, Alameda de Rekalde, 4. Banqueteamos. Frutos do mar, carne assada e verduras. Depois seguimos para o Guggenheim, bem perto dali. Do lado da alameda,  o Café restaurante Bosta (cinco em euskera). —

 

DSC01577
O café bilbaíno (cinco, em português). Foto: Antônio Siúves

— Álacre embriaguez. Álegres reflexos do sol da tarde aquosa sobre as chapas de titânio do Guggenheim. Minha tontura não é suficiente para tornar interessante o Puppy florido de Jeff Koons, postado como gigantesco pet de guarda do Guggenheim. Do outro lado uma aranha de Louise Bourgeois, velha conhecida de bienais de São Paulo. José, sempre gentil, havia nos conseguido as entradas. Joseph Beuys e sua cracas no primeiro piso, acolá paredões de aço recurvos de Richard Serra. Arte e entretenimento, arte-ostentação neta de Andy Warhol. Então resolvo entrar na brincadeira pós-pós. Emito alguns sons dignos de Neandertais para ouvir os ecos que ressoam entre das chapas de Serra. Uma monitora vem me chamar atenção. José, por perto, me socorre e diz a moça para ir cuidar de turistas sóbrios menos inofensivos. —

Puffy refeito
Puppy, obra de Jeff Koons ao redor do Museu Guggenheim Bilbao. Foto: Paulo José Ribeiro Teixeira

— José me apresenta um artista digno do renome que desfruta, o escultor basco Eduardo Chillida. Seu Consejo al espacio V me lembra nosso Amilcar de Castro, seu contemporâneo e confrade na arte de interpretar recriar o espaço. A escultura em bloco de alabastro Lo profundo es el aire é eloquente e sensual.  —


Um Mark Rothko, do Guggenheim de Bilbao, País Basco, Espanha
Um Mark Rothko, do Guggenheim de Bilbao, País Basco, Espanha

— “As pessoas que choram diante dos meus quadros têm a mesma experiência religiosa que eu experimentei”, disse Mark Rothko.  Na tela sem título pintada entre 1952-53, bordas alaranjadas entre fresta de vermelho esmaecido conformam barras amarelas em semitons sobre uma terceira barra, na base, menos larga, em vermelho sangue sobre o amarelo evidente. A liberdade airosa e seu limite horizontal. —


— Impressionado e deliciado com o metrô de da cidade, projetado por Norman Foster. Forma marcada por elegância e beleza e função combinados com ousadia para dar à cidade mais um dos atrativos que a colocam no circuito planetário do turismo cultural. Penso que por esse tempo Bilbao já tenha superado as dores do polo industrial que, em decadência, deu lugar ao nascimento da nova cidade forjada, como também superado o cisma cultural criado pelo Guggenheim, seu centro de gravidade miliardário. A Bilbao atual será a síntese desse movimento. —


— Na tarde seguinte, José nos leva à melhor a cidade. Vamos pela margem direita da Ría, com a vista do centro de indústria naval do outro lado — veem-se armadores, gruas, antigos fornos siderúrgicos de Vizcaya. Em Getxo, o amigo nos mostrou a ponte colgada. Caminho até o belo monumento ao engenheiro Evaristo de Churruca y Brunet, que projetou a transformação do porto de Bilbao. A escultura de Miguel García de Salazar representa a peleja entre o homem e Netuno pelo domínio do mar (nada disso sabem dos portugueses? ora pois). Ainda em Getxo, José nos faz ver as residências aristocráticas do bairro de Neguri, na direção da praia de Ereaga até o Puerto Viejo de Algorta. Paramos num pequeno bar cravado na encosta onde vivem pescadores, para um aperitivo. Comemos percebes e outros bichos marinhos de aspecto extraterreno. —

Etarras editado
Os dizeres, em euskera, ou basco, pedem que os prisioneiros condenados do ETA cumpram suas sentenças no território pátrio.

— Na manhã seguinte, saímos de Bilbao rumo a San Sebastián pela autoestrada. Na parada em um posto de gasolina, José me aponta as montanhas do Duranguesado e o Amboto, refúgio da deusa Mari. “É o monte sagrado dos bascos presidindo a paisagem”, ele diz. —


— Nos desviamos em direção a Amorebieta-Gernika e passamos ao largo de Guernica. “Guernica foi bombardeada pelos alemães a serviço de Franco por ser símbolo da imemorial democracia e organização política das cidades (aldeias) bascas”, comenta José. —


— Depois de percorrer a margem esquerda da Ría de Guernica, também chamada Ría de Mundaka, na reserva ecológica de Urdaibai, paramos à frente num alto de estrada para apreciar a linda praia de Laga, de areias acobreadas com a maré baixa. Dali, avistamos o cabo Ogoño e o mar Cantábrico profundamente verde. —

DSC01615
Praia de Laga, na na reserva ecológica de Urdaibai, País Basco. Foto: Antônio Siúves

 

— Depois de franquear o cabo Ogoño, paramos no povoado de Elantxobe; com o céu semiaberto, passeamos em meio aos espigões do porto. Estacionamos em seguida em Lekeitio, outro povoado onde predomina o euskera. Em uma varanda do porto, pedimos uma roda de pintxos e Taxkoli para reassentar o coração. —


— Com “el mareo de las chicas”, como José se refere às irmãs enjoadas no trajeto curvo da estrada, adiantamos o percurso até Getaria, perdendo a oportunidade de conhecer outras aldeias onde raramente vão turistas: Ondarroa, Motriko, Deba, Zumaia, lista o bom José, também desolado. —


— Em Getaria, perto do porto, comemos no espaçoso restaurante Mayflower. Sopa de peixe, bochechas de merluza e outros pratos simples e ricos da cozinha espanhola. Nada cai melhor em um dia frio que uma boa sopa de pescado. O prato é reconfortante e inspirador.  Com vinhos Txakoli e Albariño, a conta dá cerca de 40 € por casal. Pagaríamos quatro vezes isso no Brasil, por pura pretensão dos senhores chefs, além do mau hábito da clientela. Isso me lembra Mark Rothko, que gostava de comida chinesa, dizer, à época de sua malgrada comissão para o Four Seasons, que achava indecente alguém pagar mais de US$ 5 por uma refeição. —


— Ni neu = nem eu; norekin = com quem. —


— Herri mina equivale à nossa saudade. —