Sustentável peso da decadência

O fenômeno de uma cultura exaurida, estática e repetitiva
pode ter vindo para durar,

afirma Ross Douthat em seu novo livro

Jurupoca_60 — 26/2 a 4/3/2021 — Ano 2

Félicien Rops: Pornokratès (1978, Museu Rops, Namur, Bélgica). Foto: domínio público (via Wikimedia Commons)

Na foto do alto: Thomas Couture: Os romanos da decadência (1847, Museu de Orsay, Paris). Foto: domínio público (via Wikimedia Commons)


Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

De onde vêm o mal-estar, a indisposição, o cansaço, o enjoo pela repetição, essa sensação que anda no radar, senão na alma da sociedade ou, como prefiro, do mundo?

Quando o avanço da inteligência artificial expõe os limites do cérebro e a fragilidade do espírito humano, e a conexão universal flagra nosso vazio, talvez se possa perguntar: haverá desta vez, como há décadas se anuncia e crê, algo de novo sob o sol?

Então o mundo estará mesmo caidaço?, e mais uma vez em franca e sustentável décadence, a repetir de modo próprio a história de romanos, chineses, otomanos e outras civilizações?

Mas, e a roda-viva da internet: notícias, mercados interligados, a constância dos aplicativos, e a maravilha do celular a mediar a imediatez da vida e a corrosão das horas?

Com essa pressa toda, a Terra parece girar mais rápido, e o progresso humano a dar saltos de uma Isinbayeva a cada 10 ou 20 anos.

Ilusão, ilusão, veja as coisas como ela são, pondera Ross Douthat, a quem já volto.

Desde os anos 1970, a tecnologia avança praticamente num único vetor: o aprimoramento das comunicações, da automação e da simulação.

Por mais que a ciência nos surpreenda pronta e favoravelmente, como nas vacinas contra o Corona, as “profecias” sobre a cura do câncer e os transplantes de órgãos prêt-à-porter estão para lá da linha do horizonte.

Há décadas, a economia mundial dá de lado ou cresce pouco.

As instituições democráticas perdem seu tônus em toda parte.

As artes e cultura, de tanto se repetir, parecem esclerosadas.

E há a crise demográfica.

Os índices de natalidade dos países desenvolvidos há muito ficam aquém da taxa de reposição. Quando uma população envelhece, há menos trabalhadores, menos famílias para cuidar dos velhos, e menos jovens com cérebros frescos para impulsionar a economia e a tecnologia.

Bom, mas de onde vem toda essa conversa?

Você já ouviu falar em Ross Douthat, além de uma ou duas notas desta JU?

O colunista conservador do New York Times, que marcou posição no jornal sobre a “cultura do cancelamento”, é um estrela em ascensão.

O homem se pauta pelo equilíbrio, e pode se aproximar da centro-esquerda e da esquerda em economia, mas, como diz, seus princípios não o tornam bem-vindo nesse meio exclusivista.

Anda muito bem falado ultimamente pelo livro The Decadent Society: How We Became the Victims of Our Own Success (A sociedade decadente: como nos tornamos vítimas do nosso próprio sucesso), inédito em português.

“O título induzirá alguns leitores a esperar erroneamente pela arenga costumeira da direita que atribui todos os nossos males a uma causa, seja o Big Bang ou o esquerdismo”, escreve Mark Lilla numa resenha elogiosa no Times, ao pontuar:

“Mas Douthat é demasiado curioso sobre o mundo e suas contradições para se fixar nessa visão. Por ‘decadência’ ele se refere a uma forma de exaustão cultural do mundo em nossa época e que lhe preocupa porque, mais que prelúdio do colapso, parece sustentável.”

Quando comentou The Decadent Society, João Pereira Coutinho lembrou que os ciclos de decadência podem durar anos ou séculos. Recorreu nosso professor português ao poeta inglês W.H Auden sobre o Império Romano: é menos intrigante que Roma tenha caído do que pensar que seu declínio durou 4 séculos. Que tal 400 anos com carência de criatividade, vitalidade ou esperança.

O livro de Douthat não profetiza nenhum Armagedom. “Acho que o que distingue meu argumento de alguns outros argumentos conservadores é que ele dá uma ênfase mais forte na estagnação, deriva e repetição do que na iminente catástrofe”, disse o autor numa entrevista à revista Dissent.

Ma come?!, pressinto um atarantado leitor no gesto à italiana de juntar os dedos das mãos.

Quando pensadores respeitados, como Steven Pinker, proclamam o advento do novo iluminismo, alguém vem dizer que a cultura está estática, numa época de total dinamismo, conexão e acesso à informação, aceleração que tornou, como diz Lilla (lembrando o sociólogo polonês Zygmunt Bauman) nossas sociedades mais “líquidas”?

“Tudo não passa de uma miragem. A conectividade apenas acelerou a circulação dos mesmos estereótipos culturais desgastados”, responde Lilla por Douthat, na sua crítica do livro.

Ouvido pelo diário espanhol La Vanguardia, o próprio Douthat é mais direto. A cultura digital, ele disse, “criou um mundo de torcidas e pornografia dominado por poucas empresas e marcas dominantes, que se caracteriza por uma mistura de mediocridade e paranoia. Por hora, a internet é mais enervante que inspiradora.”

A ESTAGNAÇÃO DA CULTURA

Como, você sabe, o que mais interessa a JU é justamente a cultura, apeio nesse terreno.

Ainda não pude ler o livro, mas como o tema interessa pacas ao jornal, vamos nos aproximando dele pelas margens.

À revista literária mexicana Letras Libres, Douthat põe os famigerados boomers (filhos do baby boom, a explosão de natalidade que se seguiu à 2ª Guerra Mundial) e a revolução cultural de cabeça para baixo.

A revolução parou nas primeiras barreiras (ou cassitetadas, eu diria) com surpreendente docilidade, ele argumenta. E logo que aquelas gerações do boom começaram a dar as cartas, impuseram os valores da cultura pop.

“Isso deixou os boomers no controle da cultura quase de um dia para outro, sem uma herança prévia a continuar e com a qual ajustar contas”, comenta o autor:

 “Assim lhes resta somente recriar ritualmente sua revolução, e animar seus herdeiros millennials a fazer o mesmo: derrubando estátuas que já não importam a ninguém e coisas assim”, ironiza.

Para Douthat, a atual polarização entre um populismo raivoso e incompetente e uma elite intelectual conformista e inimiga da controvérsia, cria uma situação estável, que reflete muito bem a decadência da cultura e das ideias que engolfa a sociedade.

O establishment cultural norte-americano, como também, por imitação, os progressistas brasileiros da esquerda, valorizam acima de tudo a “proteção dos sentimentos e das identidades”.

Douthat cita a respeito certo escritor californiano, James Poulos, que se refere a vigência de um “estado policial rosa”, “que limita a variedade de opiniões aceitáveis, e faz todo mundo ler o mesmo roteiro”.

O cansaço cultural é flagrante em Hollywood, aponta o autor. Ele define elegantemente a franquia Marvel como “profunda e dolorosamente sincera” — além de repetitiva.

A indústria do cinema canibalizou todo o legado de originalidade que os boomers desfrutaram na juventude (o nome de um Quentin Tarantino me sobe logo à cabeça).

À Dissent, o autor pondera que a trajetória da saga Star Wars é o exemplo acabado do que a decadência pode significar.

Os novos e péssimos filmes das “prequelas” de George Lucas não lograram apresentar nada de novo, e apenas repetem feitos de 40 anos atrás.

Tudo é circular, reciclado, roda em looping.

Composição de imagens dos novo filmes Star Wars: A reciclagem geral do sucesso expõe o esgotamento da indústria de cinema

“As canções” — conta Douthat, agora comentado J.P. Coutinho — “que fizeram sucesso revelaram um declínio no número de acordes e, até, no número de novas transições entre acordes”.

Puxando a brasa para sua sardinha, e em seus próprios termos, a JU já se tornou monótona em apontar a deriva de criatividade da música popular desde os primeiros anos 1980, a falta de fôlego do pop e sua diluição interminável, sem falar na mesmice do hip-hop, do irrespirável funk pornográfico — a indústria de batidas e hits é a imagem pronta da indústria cultural em infinita reciclagem.

O SEXO BANALIZADO

A revolução sexual e sua panóplia de intérpretes — gurus, best-sellers, especialistas e picaretas de toda sorte— gestou o império da pornografia, o tédio, a alienação dos sexos, e a esterilidade — flecha Douthat — “em vez de uma espécie de perpétua diversão dionisíaca”.

A natureza da decadência descrita por Douthat coincide nessa altura grandemente com o ensaio de Mario Vargas Llosa aludido na JU#59.

Em A sociedade do espetáculo, MVL sustenta que o sexo é a atividade com a qual mais estabelecemos uma fronteira entre o animal e o humano, por meio do erotismo, esse momento elevado e enobrecedor da civilização.

Mas o erotismo e a fantasia decaíram na vulgarização oca e sem fundo.

Perdemos os caminhos mais sutis do relacionamento entre homem e mulher, tomando os atalhos da satisfação instintual e da exposição publicitária e pornográfica do entretenimento rasteiro.

Ramon Casas: Jovem decadente. Depois do baile (1899, Museu de Montserrat, Espanha). Foto: domínio público

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Prêmios literários: condicionantes

Há — não é só no Brasil não, parece que em todo o Ocidente — certas questões que determinam a outorga de prêmios literários ou de cinema que raramente dizem respeito à qualidade literária ou cinematográfica das obras agraciadas. Javier Marías, em sua coluna no El País, elenca essas rubricas (que detalha exemplarmente): temas, sexo dos autores, origem e orientação sexual dos autores, e o foco autobiográfico.  Não se pode dizer que seja despeito. Marías afirma que na sua longa e bem-sucedida carreira de escritor apenas se inscreveu em uma premiação, em 1968; venceu e depois devolveu o galardão. É por aí que vamos. Não é apenas prêmios. Basta dar um pouco de atenção aos filmes e livros que nos últimos tempos ganharam a atenção de editoras e redes sociais e, por isso, também de ex-cadernos de ex-cultura. Que sejam obras primas, pode ocorrer, por certo, mas não em virtude de tais ingredientes e condicionantes. Como diz Marías, hoje em dia qualquer um destes criadores passaria à míngua de premiações: Flaubert, Balzac, Conrad, Faulkner, “não digamos Henry James”. E, no cinema: Ford, Hawks, Lang, Lubitsch, Hitchcock e Wilder. “Hoje raramente o que se enaltece é a literatura ou o cinema, mas sim suas circunstâncias extraliterárias e extracinemáticas, talvez jornalísticas”. Falou e disse.


Que feio, Face

“Há vida fora da maior rede social do mundo”, diz editorial da Folha sobre o caso do Facebook na Austrália. A rede social, o Google e outras empresas de mídia terão que remunerar produtores de conteúdo, jornais, sites etc., conforme projeto de lei em debate no Senado do país. O Google cedeu, e faz acordos com os veículos de mídia. Pois o Facebook decidiu retirar da plataforma tudo que é notícia e informação pública. Pegou mal para a gigante de Mr. Zuckerberg.


Cuba libre

Entonces, e aí?, Chico Buarque, Fernando Morais, Gleisi Hoffman, não sei mais quem, bora curtir o vídeo dos rapazes? Quando escrevo, 114 mil clicaram no dedinho para cima (tinindo) do Youtube, e quase 2 milhões já o tinham rodado. Rappers cubanos que vivem na Ilha e outros, emigrantes, compuseram Patria y vida, invertendo o slogan guerrilheiro Patria y morte, clamando por liberdade de expressão e cutucando a ferida recente da repressão do coletivo de artistas de San Isidro, que saiu na JU, pela polícia política cubana. Produzido precariamente, caseiro, o vídeo consegue dar muito bem seu recado, além de uma canja sobre a diversidade da música cubana. O governo, claro, reagiu como de costume, cuspindo marimbondos (por enquanto) de fogo: “Cheira a enxofre a ‘arte’ que nasce à mercê da vontade de quem paga ― a todo custo e a qualquer custo ― para tentar irromper, na mais grosseira ingerência política, na soberania de uma nação”, excomungou o Granma, diário oficial do partido castrista, em relato o El País Brasil.


Credulidade e cinismo

“Certa mistura de credulidade e cinismo havia sido importante característica da mentalidade da ralé antes que se tornasse fenômeno diário de massa”, lemos de Hannah Arendt em Origens do totalitarismo, e um pouco mais à frente: “A própria mistura, por si, já era bastante notável, pois significava o fim da ilusão de que a credulidade fosse fraqueza de gente primitiva e ingênua, e que o cinismo fosse o vício superior dos espíritos refinados.” O cinismo substitui a credulidade quando mentiras e absurdas teorias do complô são desmascaradas da maneira irrefutável. No lugar de abandonarem os líderes, e suas ilusões, as pessoas “diriam que sempre souberam que a afirmação era falsa, e admirariam os líderes pela grande esperteza tática”.  Arendt, claro, fala dos governos totalitários alemão e soviético, mas, mudando o que for preciso, isso não te faz pensar em alguma coisa muito perto de nós?


Laços nacionalistas suspeitos

A estreia de Malu Gaspar como colunista de O Globo não deixa dúvida sobre a diferença que seu trabalho fará no jornal. Pela manhã e início da tarde desta quinta (25) seu texto era mantido como destaque da edição online do diário. Malu expõe as afinidades do PT com o Caveirão.155mm sobre a Petrobras (vão além do combate à Lava Jato, por certo). De José Dirceu ao ex-ministro Aloisio Mercadante, os aplausos pela intervenção na empresa soaram cândidos e unânimes. Mercadante, ex-ministro de Dilma Rousseff, mostra Malu, ainda tem o topete de defender o resgate do “caráter estratégico” da estatal, depois de toda catástrofe assistida pelo mundo. Credulidade ou cinismo? A resposta é o óbvio ululante. Como dizia Karl Kraus, o diabo é otimista, se acha que pode tornar as pessoas piores do que já são.


Alta apostas do jornalismo online

Captura de tela da homepage do Estadão na manhã dessa segunda-feira (22/02)

Depois de jornais mundo afora ganharem com os cliques alucinados sobre a Goop, e a loja da atriz Gwyneth Paltrow faturar horrores com as vendas online de uma vela com o apelo publicitário “smell like my vagina”, o Estadão começa a se render à realidade, ou à nova normalidade dos jornais online. Mas, claro, observadores mais angélicos podem ver no “conteúdo” apenas outra matéria de negócio.


Philip Roth por R. B. Kitajs

Detalhe do carvão em papel artesanal Portrait of Philip Roth (1985), do artista norte-americano Ronald Brooks Kitajs. Foto: reprodução do FAZ

Para Rose-Maria Gropp, crítica de arte alemão Frankfurt Allgemeine Zeitung, a verdade (sobre a persona do escritor) está na cara neste retrato  a carvão de Philip Roth (1933-2018), do artista R. B. Kitajs (1932-2007), que agora integra a coleção do museu Städel de Frankfurt. Esse é o melhor elogio que se pode fazer de uma obra de arte. “O retrato não permite nenhuma proximidade, não promove a empatia amistosa, nem mesmo confidencialidade, versa Rose-Maria, “mas marca de forma quase agressiva a distância — para o espectador, para o mundo — um ceticismo essencial.”

Portrait of Philip Roth (1985), carvão em papel artesanal, obra de Ronald Brooks Kitajs. Foto: Artnet


Rita Baiana, desde o Cortiço
à glória na voz de Zezé Motta

O choro Rita Baiana (John Neschling e Geraldo Carneiro) é uma deliciosa tradução da personagem da mestiça de O cortiço, o romance de Aluísio de Azevedo.

A versão instrumental da música toca na abertura do filme, adaptado e dirigido por Francisco Ramalho, com Betty Faria (Rita Baiana), Mario Gomes, Armando Bógus e Maurício do Valle no elenco.

O cortiço, o filme, e a gravação de Zezé são de 1978. A faixa constava do LP Zezé Motta (Warner), que trazia Magrelinha (Luiz Melodia), Trocando em Miúdos (Francis Hime e Chico Buarque) e Pecado original (Caetano Veloso).

Zezé dá um show em Rita Baiana, como cantora e atriz, ao se jogar, como se diz, na personagem da letra, com a gana e ênfase que a música enseja.

Essa Rita já deu o que dizer em artigos acadêmicos e fabulações feministas sobre a figura da mulher mestiça e o imaginário do século 19. Ela é descrita desse jeito pelo romancista:

“Mas, ninguém como a Rita; só ela, só aquele demônio, tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante (Azevedo, 2009, p. 48).

Zezé Motta, intérprete, não se faz de rogada. Vai à raiz de Rita e a faz renascer numa era de liberação da mulher, com inequívoco humor e brilho artístico.

RITA BAIANA – John Neschling e Geraldo Carneiro

Olha meu nego quero te dizer
O que me faz viver
O que quase me mata de emoção
É uma coisa que me deixa louca
Que me enche a boca
Que me atormenta o coração
Quem sabe um bruxo
Me fez um despacho
Porque eu não posso sossegar o facho
É sempre assim
Ai é essa coisa que me desatina
Me enlouquece, me domina
Me tortura e me alucina

Olha meu nego
Isso não dá sossego
E se não tem chamego
Eu me devoro toda de paixão
Acho que é o clima feiticeiro
O Rio de Janeiro que me incendeia

O coração
Eu nem consigo nem pensar direito
Pois a aflição dispara no meu peito

É sempre assim
Ai essa coisa que me desatina
Me enlouquece, me domina
Me tortura e me alucina
E me dá
Uma vontade e uma gana dá
Uma saudade da cama dá
Quando a danada me chama
Maldita de Rita Baiana

No outro dia o português lá da quitanda
O Epitácio da Pessoa Gamboa
Assim à toa se engraçou e disse:
“Oh Rita rapariga, eu te daria 100 mil réis por teu amor”
Eu disse:
Vê se te enxerga seu galego de uma figa
Se eu quisesse vida fácil
Punha casa no Estácio
Pra Barão ou Senador
Mas não vendo o meu amor
Ah, ah, isso é que não!

Olha meu nego quero te dizer
Não sei o que fazer
Pra suportar a minha escravidão
Até parece que é literatura
Que é mentira pura
Essa paixão cruel de perdição
Mas não me diga que lá vem de novo
A sensação
Olha meu nego assim eu me comovo
Agora não
Ai essa coisa que me desatina
Me enlouquece, me domina
Me tortura e me alucina

E me dá
Uma vontade e uma gana dá
Uma saudade da cama dá
Quando a danada me chama
Maldita de Rita Baiana (me dá)


Como vai você, Tavinho Moura?

O juiz-forano Otávio Augusto Pinto de Moura, Tavinho Moura, compositor, instrumentista, violeiro, violonista, cantor, hoje aos 73 anos, há muito parece ter mais o que fazer que perseverar para que se sua grande arte chegue ao grande público. Sei que é orquidófilo e leva uma vida pacata e discreta cá no Belo.

Pior para o grande público. Pior para o país do BBB e dos guinchos “sertanejos”.

Seu disco mais recente parece ser de 2014, o CD Minhas canções inacabadas, lançado pelo selo Dubas Music, de Ronaldo Bastos, seu companheiro da geração dourada do Clube da Esquina. O álbum faturou o Grammy Latino de Música Regional ou de Raízes Brasileiras.

[Atualização: saiu em 2016 o Viola instrumental brasileira, dele com Almir Sater, pela Gravadora Galeão.]

Sua música é refinada, melodiosa, singelamente emotiva, presa à tradição popular e às cantigas populares, que reelabora com grande sabedoria harmônica.

Esta Como vai minha aldeia, dele e Marcio Borges, estava em seu primeiro disco, de 1978 (RCA Victor). E ele a regrava em 2014.

No lindo pontear da viola e na melodia finamente harmonizada a canção evoca o idílio solar de uma infância reencantada. Tem o canto reservado, a expressão direta, o lirismo que se anima nos pequenos povoados e na aura da gente mineira.

É dele a trilha premiada do filme Cabaré Mineiro, de Carlos Alberto Prates Correa, lançado em 1981, e é dele a parceria com Carlos Drummond de Andrade na rica transposição musical do poema que inspira o roteiro, pinçado do Alguma poesia (1930), livro de estreia do itabirano.

A bailarina que surge do doído esboço do poeta, e que a música sublinha, é de uma desgraçada das zonas. Mesmo sovada pelo sofrimento e com o corpo castigado pelo tempo ela precisa fazer-se desejar pelo público pagante, ou imaginar-se desejada.

É dele, Tavinho, Paixão e fé (com Fernando Brant), e dele o melhor registro dessa música, a que ouvimos no CD Conspiração dos poetas (1997, Dubas Music), reunindo suas criações com Brant, além de parcerias de Milton e Brant.

Lançada no Clube da Esquina 2, de Milton, Paixão e fé foi versionada por Simone, Flavio Venturini, Titane, Vânia Bastos etc.

É muito valorizada por instrumentistas solo. A composição tem um prelúdio que soa como música sacra, e segue a introspecção contagiante inspirada no silêncio das procissões.

A canção é um hino espiritual das Minas do Jequitinhonha, uma espécie de oração, ou de canto devoto à devoção popular.

 A rádio mineira Inconfidência FM faz muito bem em tocá-la, há muitos anos, às seis da tarde, marco da Hora do Angelus, Toque das Ave-Marias.

CABARÉ MINEIRO – Poema de Carlos Drummond de Andrade musicado por Tavinho Moura

A dançarina espanhola de Montes Claros
dança e redança na sala mestiça.
Cem olhos morenos estão despindo
seu corpo gordo picado de mosquito.
Tem um sinal de bala na coxa direita,
o riso postiço de um dente de ouro,
mas é linda, linda, gorda e satisfeita.
Como rebola as nádegas amarelas!
Cem olhos brasileiros estão seguindo
o balanço doce e mole de suas tetas…

PAIXÃO E FÉ – Tavinho Moura e Fernando Brant

Já bate o sino, bate na catedral
E o som penetra todos os portais
A igreja está chamando seus fiéis
Para rezar por seu Senhor
Para cantar a ressurreição
E sai o povo pelas ruas a cobrir
De areia e flores as pedras do chão
Nas varandas vejo as moças e os lençóis
Enquanto passa a procissão
Louvando as coisas da fé

Velejar, velejei
No mar do Senhor
Lá eu vi a fé e a paixão
Lá eu vi a agonia da barca dos homens

Já bate o sino, bate no coração
E o povo põe de lado a sua dor
Pelas ruas capistranas de toda cor
Esquece a sua paixão
Para viver a do Senhor

COMO VAI MINHA ALDEIA — Tavinho Moura e Márcio Borges

Como vai minha cidade
Oi, minha velha aldeia
Canto de velha sereia

No meu tempo
Isso era meu tesouro
Um portão
Todo feito de ouro
Uma igreja
E a casa cheia
Cheia
No vazio
Desse meu Brasil

Minha igreja
Minha casa cheia
Meu Brasil

No meio da praça passou
Do meio da noite surgiu
O meu pai
E meu pai me mostrou
Seu retrato
Morrendo na rua
E seu tempo ali parado
E seu povo ali parado
Minha gente
Que nunca mudou

O zoo humano chamado BBB

Esta Ju é dedicada à memória de Geraldo Carozzi,  generoso amigo e compadre, a quem devo virações, iluminações e angústias, e para Silvane, Maria e Aninha. Espero que aceitem meu carinho e imensa saudade.

Jurupoca_57— 5 a 11/2/2021 — Ano 2.

Como a famosa casa de (in)tolerância global fatura com a prostituição da privacidade e a direção do show, ao parasitar a ordem moral das redes sociais, deixa o barateamento do sexo em segundo plano

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Vi 15 ou 20 segundos. Nunca mais.

Quando estreou, era janeiro de 2002, labutava na redação do jornal O Tempo.

Editor de cultura, devia ao menos saber do que tratava.

Então, por dever de ofício, assisti (resisti) a 15 ou 20 segundos, e nunca mais “espiei” a tal casa, para entrar no jargão do marketing massacrante e nauseante que promove o negócio.

Naquele quarto de minuto devo ter corado de constrangimento.

Minha simpatia por meu semelhante se esboroara. Minha empatia chocava com a explosão atroz de vulgaridade da vida alheia.

Bastava.

Senti vergonha pela prostituição da privacidade e da intimidade contratadas com o cachê de uma audiência gigantesca faturada pela maior emissora do país.

Lenocínio televisual explícito? Sintoma agudo da doença que é o culto à celebridade destampado pela internet?

Se aquilo não era um tipo de pornografia estendida ao espírito, com a psique roubando o set das  genitálias, o que era? e era livre!, quase em cadeia nacional de televisão, eu pensei.

Naquele circo romano eletromagnético, o público eliminava o cristão caído no “paredão”. Não havia derramamento de sangue, claro.

Feras devoravam gladiadores e expunham suas vísceras, senão seus intestinos, para delírio da plateia, mas ninguém matava, ninguém morria. Tudo limpo e platinado entre plim plins. 

O show da vida, ao contrário, era um criadouro de celebridades a estourar feito pipocas na gordura fervente da exposição, como estrelas-borboletas que logo vão se apagar na renovação de um mundo dominado pela civilização do espetáculo, e pelo que chamo orgia da frivolidade.

Mais tarde, algumas subcelebridades também tentariam a sorte na famosa casa de (in)tolerância global, matadouro simbólico da individualidade. Tudo passaria a caber na “casa”.

No início era o verbo, e depois disso?, embasbaquei.

Um termômetro moral do Brasil

Nunca mais vi o Big Brother — franquia da produtora holandesa Endemol, criada em 1999, que conquistou a Terra (realizada em quase 80 países) — além daqueles 15 ou 20 segundos, repetindo a cantilena.

Ai de mim, o que terei perdido desde então, ao já começar envelhecer, longe por tanto tempo da grande “atração”?, ignorante do chorume mais fresco que a televisão brasileira é capaz de produzir e derramar em enchentes.

Terá valido a pena o que fiz no tempo que matei não vendo a chorumela com três meses de duração!

Como pude rejeitar o circo eletrônico que faz vibrar multidões, e me manter distante da zoação e da zoeira multitudinárias?

Em apenas duas décadas, o BBB encontrou para o calendário nacional como o Dois de Fevereiro na Bahia, o Carnaval e os feriados santificados.

O reality alimenta o bate-papo no trabalho e no boteco, ocupa o jornalismo e colunas de fofocas online, promove debates, bomba no Google e nas redes sociais

E mais que tudo isso: torna-se vitrine de pensatas com pretensão a fazer sociologia e antropologia cultural no calor da hora?

Ai de quem está por fora.

Descobrirá o que é a vida de um pinguim perdido em Cuiabá.

Destaque da homepage de O Globo na manhã desta quinta-feira (4/2). O BBB é maciçamente promovido em todos os canais e programas de maior audiência do grupo, além dos veículos noticiosos

Leio que o BBB, mormente agora, na 21ª edição, se transformou num “termômetro moral do Brasil”, a coqueluche, como se dizia antanho, ou o sucedâneo do Corona, afinal o vírus já encheu o saco de todo o Bananão (não confundir com o Brasil, por favor, do acrônimo patenteado).

Joana Oliveira, no El País Brasil, comparou a estreia do programa à final do Super Bowl, a decisão da temporada de futebol americano nos EUA que torna desertas as ruas das grandes cidades.

Quem sabe, me perguntei, a lembrança do Super Bowl vai poupar almas mais sensíveis de um paralelo entre o BBB e nosso futebol ou mesmo com nossas novelas na era de ouro.

(Sem bem que depois do Halloween, já começamos a festejar no país o Dia da Marmota. Ainda haveremos de celebrar o 7 de Setembro cantando o The Star-Spangled Banner, aquela musiquinha chata que ouvimos tocar à náusea em toda Olimpíada.)

Entendo, ao correr por fora, que a produção não mais induz os confinados à fornicação, ao fuque-fuque “debaixo do edredom”.

O que agora excita corações e mentes e, imagina-se, os países baixos da audiência (além dos óbvios baixos instintos) é a ordem moral que emana das redes sociais: o linchamento do pensar e opinar fora do enquadramento.

Joana Oliveira nota que a edição é “impregnada do medo do cancelamento e [uma] ode ao ‘fada sensatismo’ (sic) [de “fada sensata”, expressão que não conhecia; estou sempre por fora desses “babados”], mas, ainda assim, conclui a analista, “as lentes do racismo se apresentam”.

Meu deus, pensei, sério?

O BBB 21, me inteiro então, tem mais negros (com o partitivo “cultura negra LGBTQ+ incluso) e “agroboys” (subespécie social definida por Joana como “homens brancos com estética padrão”. Que diabos será uma “estética padrão”, matutei, sem encontrar resposta).

Seu texto conclui que esse, digamos, mix de tipos humano pinçado do espectro social e da nova consciência pelos produtores da TV Globo, “foi o suficiente para que se acendessem os alarmes de possível masculinidade tóxica, uma das marcas registradas da edição anterior.”

Aí que está o busílis, ouço falar o delegado Rosalvo.

O BBB fagocitou a conversa ética furada, a “problemática” moral que galvaniza as redes sociais.

O verdadeiro show da vida global, campeão dos campeões de audiência, também seria capaz de decifrar o “subconsciente coletivo” do país.

Ou seja, para entender quem somos, sugere o texto de Joana, é imprescindível “espiar” e avaliar o BBB, como um adolescente “espia” e avalia o Porntube.

Cansados dos escândalos e das tragédias, a audiência do programa, ou o Brasil inteiro, demandava mesmo um “alívio cômico”, arremata Joana com benevolência.

“Em 2021, transar já era”

Em O Globo, o bamba Joaquim Ferreira dos Santos lista as espécimes estratégicas reunidas na arca da Globo: “negros, brancos, homens, mulheres, gays, playboys”.

JFS reflete, desolado, que na primeira semana do BBB nenhum casal ainda havia copulado (ele se refere ao intercurso sexual no zoo televisual, ao xumbregar pavloviano induzido pela direção, como “transa”) sob o edredom, para, segundo ele, curtir a “clausura no bem-bom”.

O cronista registra, como velho filósofo de imprensa que é:

“Em 2021, transar já era. Ninguém parece estar aí para esse troféu antigo. O melhor a se fazer com o próximo é o cancelamento”.

E aí que está o busílis…

Hoje, na “casa”, estão “…todos seguindo o princípio das redes sociais de onde vieram. Vence no jogo quem lacra primeiro”, arredonda JFS.

[Para um registro mais chão e mundano sobre o que está no ar e corre nas veias abertas do Brasil, além do Corona, me informo com Mônica Bergamo, entre outras nossa melhor colunista de redes sociais: “As buscas pelo termo ‘tortura psicológica’ cresceram 610% no Google no Brasil entre 27 de janeiro e 2 de fevereiro, em relação aos sete dias anteriores. O aumento foi impulsionado após a cantora Karol Conká ter sido acusada por internautas de torturar psicologicamente Lucas Penteado no reality show Big Brother Brasil (Globo).]

Espetáculo ideal para um mundo doente

Há mais de duas décadas os realities shows dominam o entretenimento televisivo.

Há realities aos milhares, de comida, gincanas em paisagens inóspitas, e, não duvido, de pets, caranguejos desarvorados e teiús geneticamente modificados.

Crianças, idosos, artistas, intelectuais, celebridades, todo tipo humano pode ser recrutado e exibido no espetáculo em que glória, orgulho, superação, choro, angústia e raiva produzem um efeito semelhante, mas vicário, ao que era provido no paleolítico pelo folhetim, pelo romance, pelo cinema e mesmo pela TV antes da internet.

Mas o modelo “BBB” (o nome comum Big Brother é uma usurpação cultural do romance de George Orwell) é a mãe de todos os filhotes que dominaram o gosto brega por emoções fabricadas e adocicadas a preço de xepa.

Era previsível que a televisão para sobreviver se deixasse parasitar, como o jornalismo caça-clique, pela internet, os aplicativos e as redes sociais.

Criadores como os do Endemol Shine Group perceberam lá atrás que um mundo culturalmente esvaziado e doente, diante do galopante “empoderamento” das massas pela internet, abria grandes janelas de oportunidades para um formato de diversão que se adequasse à nova era, como o petróleo ao motor à explosão.

Ficaram bilionários.

A vida alheia exposta em sua completa banalidade, e a carnalidade mais desencantada e escancarada, confundida com a inocência de um brinquedo num parque de diversão, podiam preencher o vazio e a fome fútil de uma audiência-espiã.

O reality se revelou um zoológico humano dinâmico, campeão, que pode ser “espiado” na transmissão captada por dezenas ou centenas de câmaras, e tal audiência vende comerciais a peso de ouro (30 segundos ocupados no intervalo valem R$ 500 mil, segundo o El País).

O público pagante, que assina a “atração”, terá acesso a vômitos, arrotos e flatos dos “brothers”, eu me pergunto? E por 3 meses! (Antes uma praga do Apocalipse).

Pois deveria! Isso mudaria o paradigma da coisa.

Somente a exposição completa e escatológica da nossa humanidade, não apenas do sexo e dos baixos instintos, da incultura e da vulgaridade, mas também da excreção diante das câmaras, além do estapeio físico e mental, despiriam o show de seus disfarces de entretenimento moderno embalado por uma produção caríssima, com recursos tecnológicos de ponta, e revelaria a todos sua mágica.

Seria o fim de qualquer pretensão de valorizar a cultura e a educação como nortes da civilização, e daí?

Concordo com Joaquim Ferreira do Santos que a incorporação da cultura do cancelamento, que ele chama de “país do cancelamento”, ao reality show da Globo é decepcionante.

Antes acompanhar estrepolias debaixo do edredom, à guisa de um pornô soft censura livre.

O sexo afinal é o sexo, apaixonado, romântico, civilizado, selvagem, pago, vil, solitário, animal, pornográfico.

Já a hipocrisia do militante da nova moral “canceladora” é um vício, ou pior, um distúrbio, um desvio monstruoso proporcionado pelos novos meios de comunicação que, como um vírus, parece ter contaminado três quartos da humanidade.

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Obrigado

Muito obrigado (grazie millie) a V.M., P.J., R.M e N.T. pela colaboração regular. Esse incentivo encoraja cada frase de cada nova edição da carta, por mais que o subscritor pense em dar os trâmites por findos. Nessas horas cinzentas o acode vossa leitura e atenção. É quando ele cantarola com o Chico (do Disco da Samambaia) e jura que “vai até o fim”.

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

O Bar e Cervejaria Brasil como paisagem desoladora. Foto do autor.

Ao Bar e Cervejaria Brasil,
in memorian

Há séculos deixei de ser botequeiro, como alguns amigos a quem o Corona tortura na abstinência de prosa, trato livre, embriaguez controlada e compartida com amigos e a cumplicidade de garçons camaradas. Mas tinha o meu canto familiar, que não existe mais. Não era nenhum The Lamb and Flag, o pub de Oxford de 450 anos, vítima mais célebre da ruína econômica trazida pela pandemia, ou uma Casa Botín, o restaurante madrilenho de 300 anos famoso por seus leitões de leite na brasa, obrigado pela primeira vez a fechar as portas. Meu bar fora aberto há pouco mais de três décadas. Era apenas mais um entre restaurantes e bares mais ou menos históricos do Belo e do Brasil forçados a entregar a rapadura. O bar e a cervejaria Brasil, meus vizinhos na Aimorés e na esquina de Aimorés com Maranhão, depois, com novo proprietário, o Bar e Cervejaria Brasil, em único ponto, na ladeira próxima da rua Maranhão, era uma espécie de quintal do nosso apartamento, ou extensão onde recebíamos nossas visitas. Alguns garçons, como o sempre risonho e carinhoso Zezinho, se mantinham para contar a história, e o cardápio ultraconservador resistia com bravura às novas modas, com sua picanha na chapa, seu torresmo carnudo e seus bolinhos da Alzira, a lembrar dias melhores. Suas mesas nos recebiam em rodas familiares e tertúlias literárias, políticas ou a simples conversa que desmancha no ar com a saudável umidade relativa do chope, da cerveja gelada e da cachacinha. Nos últimos tempos não via mais lá o Beto Guedes, último dos moicanos de seu círculo. Mas havia o painel que homenageava a velha e célebre clientela, como honorários sócios-fundadores: Ronaldo Bastos, Milton, Toninho Horta, Lô Borges, Beto… a turma toda. Rente a uma das fotos do pessoal do Clube da Esquina elegi a Mesa do Jove, em honra do irmão que se fora logo depois, mas onde tivemos a sorte de tomar um porre de chope e boa cachaça para nos prevenir de um resfriado, depois de nos encharcarmos até a alma na tempestade que desfizera uma passeata no Belo. Depois disso fazia questão de que nos sentássemos sempre naquele canto. E lá se foi meu bar, e o bar de tanta gente que se dava com um aceno ou mesmo um olhar; lá se foi Mesa do Jove e tudo mais, como é da vida. Parafraseando Drummond: o Bar e a Cervejaria Brasil, nossa íntima Cervbras, agora é só um retrato na parede. Passa-se o ponto. Mas como dói.

Vista do Bar e Cervejaria Brasil na ladeira da Maranhão, entre Aimorés e Bernardo Guimarães, no Belo. Foto do autor

Babenco

Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou, documentário de Bárbara Paz que concorre ao Oscar este ano, é antes de tudo um filme para gente grande. Não é fácil de ver, embora celebre o amor à vida e à criação de um grande artista, dono de uma obra grandiosa. Não é fácil porque encarar e, mais ou menos, aceitar a morte é o mais duro dos aprendizados. Esse é justamente o papel que vemos o cineasta representar sem heroísmo, mas com bravura. Hector Babenco atua para expor a fragilidade humana na doença, diante morte, e ainda assim ser capaz de criar e demonstrar seu apego ao viver. Babenco diz numa gravação que devíamos chamar os amigos para morrer, “passa lá em casa que hoje é o dia da minha morte”, cito de memória. Algo, quem sabe, como se passa em As invasões bárbaras, o filmaço de Denys Arcand, ou como a própria cena de Babenco de um jantar ou almoço honorário a que somos brevemente admitidos, antes de a porta se fechar para quem não é íntimo da família, mas há tempo de notar o orgulho jubiloso dos amigos agradecidos pela vida e obra do homenageado. Entre os comensais avistam-se Fernanda Montenegro, Paulo José, Chico Díaz, Fernanda Torres e outras estrelas. A cena final, filmada na baia de Hong Kong, como a realizar um sonho de Babenco, é pura exaltação ao cinema.


Sophia Loren, ó céus

O curta-metragem O que Sophia Loren faria?, na Netflix, é um refrigério. A vida, sabemos, não é essa Disneylândia imbecil que parece ter roubado todas as atenções do mundo, essa conversa-cocô que inflama as redes sociais. A vida verdadeira é dura, mas existe a luta, e a graça e a beleza. A história das duas mulheres octogenárias, a ítalo-americana Vincenza “Nancy” Kulik e sua ligação com Sophia Loren, de quem desde sempre foi uma fã sábia, é como uma paisagem do outono setentrional no esplendor. A inteligência e o talento natural para atuar da vovó Kulik encontram a gratidão que não apenas ela mas todo amante do cinema deve a Loren, este paradigma insuperável de mulher.


Convite de Santiago

Silviano Santiago resenha (modo de dizer) no Estadão Rastejando até Belém (Todavia), rara tradução brasileira de Joan Didion, coletânea de ensaios da autora, hoje com 86 anos. Com a classe e erudição habituais, o professor, crítico e romancista estende ao leitor um convite tentador. Mas Santiago respalda seu texto — ao traçar um panorama do “novo jornalismo” como gênero norte-americano— entre outras referências, citando a reportagem-ensaio de Lilian Ross sobre Hemingway (ela grudou no escritor durante dois dias em Nova York, nos anos 1950, com a permissão dele), que reputa inédito. Não é. Saiu na Serrote # 27, e sua leitura foi empenhadamente sugerida nesta Ju.


Convite de João Marcelo Coelho

O Estadão, louvado seja, ainda se pratica o velho e bom jornalismo cultural. Ao apresentar Democracy! Suite, o crítico musical João Marcelo Coelho nos convida a ouvir imediatamente o novo o novo álbum do grande Wynton Marsalis. Gravado em septeto da Orquestra de Jazz do Lincoln Center em novembro do ano passado, Marsalis se inspirou na divisão ideológica que fazia e faz sangrar os EUA, ao compor as oito faixas da suíte. Sua matéria, a música, soa muito mais apropriada que palavras para conduzir o ouvinte pelo clima de ruína, inconformidade mas, para um genial artista negro de valor reconhecido e celebrado, também esperança de superação. Por mais que algum terraplanista ou tarado conspirativo tente, não dá para dizimar o jazz, ou a música, na guerra ideológica.


Pérolas aos poucos (a série)

Sopro de flor, de Dominguinhos e Zé Miguel Wisnik, com Ná Ozzetti e Duo Fernando Sagawa (flauta) e Franco Galvão (violão) era visto até a última terça, quando deitei cá esta nota, por apenas 194 felizardos. Pobre de quem não ouvir.


O circuladô da linguagem de Campos & Caetano

O texto das Galáxias, de Haroldo de Campos (1920-2003), segue assim:

“…pois o povo não tinha serventia metáfora pura ou quase o povo é o melhor artífice no seu martelo galopado no crivo do impossível no vivo do invisível no crisol do incrível no seu galope martelado e azeite e eixo do sol mas aquele fio aquele fio aquele gumefio azucrinado dentedoendo como um fio demente plangendo seu viúvo desacorde num ruivo brasa de uivo esfaima circuladô de fulô circuladô de fulô de fulôôô…”

Caetano Veloso botou música no trecho inicial dessa mesma página poética (espécie de conto fragmentário) da poesia que constela o livro de Haroldo.

E deu o nome da faixa (Circuladô de fulô) a seu álbum de 1991: Circuladô, pois sabia que havia forjado uma grande parceria com o poeta graúdo em erudição, professor, ensaísta e tradutor, e sabia Caetano que fizera um grande disco, que ainda tem Itapuã, Baião da Penha, Neide Candolina, A terceira margem do rio etc.

O compositor encontrou a melodia prima, exata e mesmo, talvez, soprada pelo texto, para transpor a prosa poética e incorporar o fragmento das Galáxias à então música popular brasileira.

E a página-passagem do livro se inspira na mais brasileira das músicas, a dos cantadores de feira, repentistas e sublimes criadores que nada mais precisam que seu dom e a artesania de seus instrumentos rústicos.

Haroldo decanta na página o povo “inventalínguas na malícia da maestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso” etc. e tira temperos do nordestino, cor da aridez, doce da dureza da vida miserável e transpira na linguagem a maravilha da língua portuguesa.

Caetano (violão e arranjo), Tavinho Fialho (contrabaixo), Jaques Morelenbaum (violoncelo), Marcelo Costa (berimbau) e Oswaldinho (acordeão) dão conta belamente do recado, que aí vai (a gravação dedicada por Caetano a José Almino):

CIRCULADÔ DE FULÔ Música de Caetano Veloso sofre fragmento de Haroldo de Campos em Galáxias (Editora 34)

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô
de fulô e ainda quem falta me dá soando como um shamisen
e feito apenas com um arame tenso um cabo e uma lata
velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para
outros não existia aquela música não podia porque não
podia popular aquela música se não canta não é popular
se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada
na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria
física e doendo doendo como um prego na palma da mão
um ferrugem prego cego na palma espalma da mão
coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro
prego cego durando na palma polpa da mão ao sol

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô
de fulô e ainda quem falta me dá

o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro
da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia
azeitava o eixo do sol

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô
de fulô e ainda quem falta me dá

e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie
desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me
esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto
que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim
me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito
e se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem
faz cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre
que me ensinou já não dá ensinamento

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô
de fulô e ainda quem falta me dá


Malu Gaspar n’ O Globo

O Globo, no calcanhar da Folha em circulação impressa, cumpre mais uma etapa rumo à transição definitiva do papel para o online. Quer, anuncia a empresa, de uma vez por todas se tornar deveras um “jornal nacional”, ainda sendo carioquíssimo entre as três ou quatro folhas de circulação nacional. A ver.  Tem novos colunistas recrutados pelo critério dominante da “diversidade”, conforme a voga seguida do marketing engagé, mas o único craque do jornalismo do novo time chama-se Malu Gaspar. Malu deixa a Piauí e o Foro de Teresina. O podcast sofrerá um dano talvez irrecuperável sem ela. Por grandes jornalistas que sejam, Fernando de Barros e Silva e, sobretudo, José Roberto de Toledo, têm a isenção afetada por um forte viés esquerdista, muitas vezes esquerdofrênico. O programa perderá o equilíbrio e o esforço incomum de apurar, sujeitar-se aos fatos e reportar com brilho que a participação de Malu assegurava. Sua estreia n’o Globo é prometida para o final do mês. Com ela, o plantel global detém os passes de duas mulheres que são as estrelas de maior grandeza do jornalismo brasileiro hoje. A outra assina Renata Lo Prete.


E se o esgoto deságua
no Planalto Centrão?

Se fosse uma força viva, o esgoto lutaria contra a canalização e sua desnaturalização nas estações de tratamento. Se fosse uma força viva, o esgoto correria para desaguar no Planalto Centrão, onde se veria intocado e preservado de ameaças civilizatórias. A metáfora, eu sei, parece antidemocrática. Não é. Um democrata tem o direito de tapar o nariz o tempo que precisar, e torcer, ainda que sem respirar direito, para que a democracia não se degrade muito quando atacada por forças da imundície.


O grande responsável (1)

O doutor Drauzio Varela conclui assim o artigo claro e preciso do último domingo na Folha, sobre a responsabilidade de Sua Excrescência Jumentíssima, Caveirão.105mm, na desgraça que atinge o país há quase um ano (vale colecionar, por mais óbvio que seja): “Esse sistemático boicote [à vacina, à ciência etc.] justifica mais de 220 mil óbitos? Ele é o único culpado? É claro que não, a culpa é de muitos, especialmente dos egoístas estúpidos que se aglomeram sem máscara nos bares e nas festas. No entanto, pela natureza do cargo que ocupa, os absurdos que fala e a indignidade dos exemplos que dá, o presidente da República tem sido o grande responsável pela disseminação da epidemia. Não é por acaso que somos o segundo país com o maior número de mortes.”


O grande responsável (2)

Recomenda-se também ler no mesmo jornal a coluna de Celso de Rocha de Barros intitulada A vacina deu a medida de Bolsonaro. Eis a conclusão do texto: “Enquanto isso, os ventos da economia internacional começam a soprar a favor do crescimento. Quem vai aproveitar melhor essa maré favorável será quem puder botar gente vacinada na rua para trabalhar e consumir. Se qualquer outro idiota tivesse vencido a eleição de 2018, seríamos nós. Entretanto, no que depender de Bolsonaro, passaremos a próxima alta das commodities doentes em casa, ou nos matando uns aos outros na sucessão de crises políticas cada vez piores que o presidente contrata diariamente?”


Bruxas soltas no Itamaraty

Sobre um estudo sério da diplomacia brasileira e se voo cego e rebaixamento no obscurantismo de uma pregação contra a conspiração “globalista” guiada “marxismo cultural” (uma leitura míope da obra de Antonio Gramsci, filósofo italiano que a escreveu nos anos 1930), não deixe de ler a reportagem do Valor Como as teorias da conspiração guiam a agenda internacional de Bolsonaro.


Carnaval do Judiciário

Entre auxílio-saúde e auxílio-alimentação, indenização por férias não tiradas, ajudas de custo ou gratificação pelo exercício cumulativo de atividades, entre outros “ganhos extras”, o Judiciário lambeu R$ 1,4 bilhão dos contribuintes em 2019, mostra o site da Piauí.