Ju #41

Belo. 2 a 8/10/2020. Nº 41. Ano 2

Quando ao meio-dia se está um pouco cansado, isso faz parte do curso natural e feliz do dia. “Para estes senhores, aqui é sempre meio-dia”, disse K. para si mesmo.

Essa balbúrdia de vozes nos quartos tinha algo de extremamente alegre. Soava ora como os gritos de júbilo de crianças que se preparam para uma excursão, ora como o alvorecer num galinheiro, como a euforia de estar em plena harmonia com o dia que raiava, em alguma parte um senhor até imitou o canto de um galo.
Franz Kafka, trechos de O castelo, tradução Modesto Carone, Companhia das Letras.

“Alguns livros funcionam como uma chave para as salas desconhecidas do nosso próprio castelo”.
Anotação de Kafka citada no posfácio de Modesto Carone.

Opa! Vamos apear?  

A leitura de Kafka é intrigante de cabo a rabo. Obscuras  dobras do mundo que mal intuímos parecem receber um pouco da luz solar, ainda que as cenas noturnas de seus romances, (mal) iluminadas por velas, lampiões a querosene e débeis luzes elétricas, sejam, tantas vezes, as mais reveladoras, ou mais aparentemente reveladoras. Não é por nada ele é chamado de “o poeta de Praga” por seu tradutor.

Que personagem fascinante é este escritor, morto a um mês de completar 41 anos. Como sua obra é universal. E quantos ensaios, contos, relatos biográficos e comentários de toda sorte esse fascínio produziu?, para não falar dos diagnósticos psiquiátricos e das tentativas filosóficas e psicanalíticas de decifrar seu universo. Modesto Carone aponta a fortuna crítica do ficcionista no longínquo 1980, quando ultrapassava os dez mil títulos, “entre livros e artigos de porte”. O que permanece irredutível é a relação entre o leitor e a obra.

Tenho me valido dela, da obra kafkiana, nesses dias, para me remediar, ou melhor, refugiar da babel, da permanente orgia da frivolidade (sei das implicações e do rechaço que esta minha expressão pode sofrer, e não me sinto nada desconfortável por saber disso) e da destruição da dignidade do pensamento, no dizer de Hannah Arendt, apesar de a primavera ter entrado em inumano modo micro-ondas, o que pode derreter o gelo e a neve dos píncaros kafkianos, além de nossos miolos.

A ficção de Kafka pode nos ajudar a compreender e aceitar a realidade, mas ela nada tem de anestésica. Não nos livra do choque contra a estupidez, a indiferença ou o poder degenerado. Faz bem o contrário disso.

Vivemos a ilusão de que entendemos tudo, e de que tudo está ao alcance do nosso saber, nada mais temos a aprender, inclusive e sobretudo para educar os sentidos e, sim, valorar a beleza.

Atomizados ou tribalizados, deixamos nos encobrir pela névoa do presente e pela capa da superficialidade. O autor de A metamorfose, também por isso, nos vale por uma pedagogia literária e humanística.

Sinto que a maré do Corona, com seu, muito por baixo, um milhão de mortos empilhados, e todo o repertório da distopia em pauta, da emergência climática à derrota da razão, nada disso vai quebrar o verdadeiro isolamento social em que nos metemos.

Contra todas as evidência e apesar dos pesares, nunca fomos tão confiantes, sob as bênçãos da ciência e da “destruição criativa” — expressão do economista Joseph Schumpeter derivada daquele “tudo que é sólido desmancha no ar”, quase-slogan do Manifesto comunista) — do Vale do Silício, que é verdadeiramente destrutiva e criativa apenas segundo suas próprias finalidades.

Mas vai que tenha sido sempre assim, que sejamos os mesmos conforme alguma essência, apenas a história muda, como mudam as condições de sobrevivência. Como indivíduos, de um jeito ou de outro, sempre vai nos assombrar algum processo, a despeito de nossa pretensa inocência, a ambição de acessar algum castelo impenetrável (outro mundo, outra vida, melhor que a que temos?), e algum medo de acordar, depois de sonhos intranquilos, metamorfoseados em terríveis insetos.

Franz Kafka, 1906. Foto: domínio público

Encobrir os engasgos
É preciso “rebuçar [esconder] as rebordosas com um pouco de pândega”, escreveu Manoel Lobato. A frase salta de uma página do livro que reabro, seu Cartas na mesa – memórias (Imprensa Oficial, 2002), com autógrafo gentilíssimo e galhofeiro do autor, em linda caligrafia. Lobato se foi em julho, aos 94 anos, pelas graças do pândego Corona. Mas a frase lobatina me recorda Os Lusíadas, via Pedro Nava, sobre os navegantes exangues, alquebrados, que enfim podiam refocilar [revigorar, restaurar as forças] a lassa [exaurida, esgotada] humanidade nos portos. Os prostíbulos (fuck clubs em português corrente) estavam lá para acolher e oferecer aos nossos descobridores esse antigo e indispensável serviço humanitário.

O autógrafo galhofeiro do Manoel Lobato

Nunca mais
O corrosivo Zachariah Webb, editor da revista norte-americana The Baffler, semanalmente traz deliciosas novidades, que despacha da “linha de frente da aborrecida distopia”. Sobre a revelação que os corvos possuem alta inteligência e até algo assemelhado a uma autoconsciência, ele comenta: “Bem-vindo, corvídeos, ao inferno”. Mas, claro, Edgar Allan Poe precede, e muito, a ornitologia: “Atônito fiquei por um momento/ Ao compreender que o Corvo compreendia […] Se sois humanos, ó triste solitário!/ Dizei-me em vosso atroz vocabulário, / A verdade de tudo que grasnais!//  Mas Ele, altivo e sacudindo as plumas,/ Olha das noite as relegadas brumas/ E responde impassível: nunca mais.” [Tradução de Benedito Lopes em O corvo e suas traduções, organização Ivo Barroso, Lacerda Editores, 1988.]

A ecologia musical
CDs, que são feitos de policarbonatos (polímeros termoplásticos) fazem menos mal ao planeta que os discos de vinil (hidrocarbonetos). Mas ambos levam um banho em toxicidade do streaming e do download, que a muitos podem parecer uma tecnologia moderna e sustentável. ♪ Ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são… ♪ Em 2016, a nova indústria da música produziu 194 mil toneladas de gases de efeito estufa, cerca de 40 milhões a mais que todas as emissões somadas dos meios de difusão existentes em 2000. Os dados estão no livro Decomposed: The Political Ecology of Music (decomposto: a ecologia política da música), de Kyle Devine, resenhado por Alex Ross na revista The New York. E a emissão de gases é apenas o começo da história. A produção de componentes para smartphones e a mineração do cobalto, usado em baterias, são associadas à exploração de trabalho escravo, infantil e à opressão de minorias étnicas. Investidores seguem a injetar dinheiro no Spotify, apesar dos contínuos prejuízos da gigante, interessados no potencial dos dados gerados por seus usuários, que são monitorados a cada toque. A música, hoje, é outra plataforma da chamada por vozes dissonantes de “vigilância em massa”, mais um tentáculo do Big Data.

Dígitos da música digital
A grande cantora brasileira Luciana Souza, que vive nos EUA, revelou recentemente ao jornalista e crítico Carlos Calado que pela média mensal de 50 mil “streams” (ou a audição de uma música por mais de 30 segundos), obtida pelos seus discos no Spotify, ela faturava 38 dólares, ou uma garrafa de vinho. Alex Ross cita Daniel Ed, CEO do Spotify, para quem o músico de hoje, para ganhar a vida, precisa do contínuo e crescente engajamento dos fãs. A atividade criativa no violão ou no piano se mistura à labuta publicitária no Instagram. Qualquer novo Tom Jobim não será nada sem os talentos acessórios de Anittas e Ludmillas para a autopromoção. Não por acaso, os hits da música pop já são bolados por inteligência artificial. Vejo grandes músicos, de longas e respeitadas carreiras, com míseras e constrangedoras audiência no YouTube e Spotify. Como jurupoco autoexilado das redes — Helahoho! helahoho! — sou plenamente solidário com essa turma. Minha expedita lista A rádio Siutônio apresenta: 1.000 canções brasileiras, que por sinal anda por 1.024 músicas e já me toma uns cinco anos de labuta e aprimoramento, tem 16 seguidores! Fiz as contas e conclui que em mais uns 350 anos atingirei o benchmark de um assinante por canção, ou estarei perto disso. Aí, sim, mamãe, farei um bruto sucesso em Quixeramobim.

A estreia de Pátria
O primeiro capítulo de Pátria, seriado em oito episódios lançado no último domingo pela HBO, me fez pensar nos limites da fidelidade de um roteiro adaptado. Comentei o ótimo e extenso romance de Fernando Aramburu na Jurupoca #8, transposto por Aitor Gabilondo para o teledrama. Me senti em casa, demasiadamente em casa, creio. As personagens das mães protagonistas, Bittori (Elena Irureta) e Miren (Ane Gabarain) são bem fidedignas. Fidedigna também é a alternância temporal entre o presente — quando o ETA anunciava um adeus às armas — e os recorrentes recortes do passado, janelas abertas para as sequelas da violência e da desagregação sofridas por duas famílias amigas separadas e marcadas pelo terror, quando se veem em lados opostos. A chuva constante também está lá, como os dias cinzentos, como o pequeno mundo fechado da província vizinha a San Sebastián. E lá está o sangue de Txato, derramado no asfalto por seu assassino e lavado na enxurrada. Mas toda essa fidelidade esbarra no mais difícil, primeiro no ritmo — ao acelerar para encurtar, o que tira profundidade, perspectiva; depois em atuações muito contidas, o que tira brilho e emoção — e tem a ver com uma direção tímida ou pouco ousada; e, para o leitor do livro, por isso mais exigente, esbarra ainda na luz, que não é, sinto muito, suficientemente filtrada nas gradação do cinza-escuro, o que fere a imaginação do espectador, e devemos cobrar isso ao fotógrafo.


Com Chico Buarque em Nina, minha canção favorita de seu álbum de 2011 pela Biscoito Fino, embora Sinhá, em parceria com João Bosco, não me encante menos nesse CD. Nina é uma valsa de lírica essencialmente buarquiana, na delicadeza e na imaginação da figura feminina. Aqui, ele decanta melancolicamente uma jovem de Moscou cuja casa pode bem ser vista em detalhes na tela (pelo Google Street View?).

A letra, que pode não ser poesia, mas é quase-poesia, certamente literatura, quem sabe outro gênero, com sugeriram poetas e letristas espanhóis reunidos pelo Babelia do El País. Só os muito empedernidos fazem questão de não notar que Chico jamais foi abandonado pelas musas, como compositor, o que fica claro, claríssimo, diante de seu verso sempre rigoroso, como em “Nina diz que fez meu mapa/ E no céu o meu destino rapta/ O seu” (vejam que astrologia e alusões mitológicas se misturam aí) ou “Nina anseia por me conhecer em breve/ Me levar para a noite de Moscou/ Sempre que esta valsa toca/ Fecho os olhos, bebo alguma vodca/ E vou”.

O arranjo de Luiz Claudio Ramos é enxuto e exato, na medida para conferir a atmosfera em tom menor que a canção demanda, e que a realiza plenamente. Ramos e o próprio Buarque fazem os violões, Jorge Helder está no baixo, João Rebouças no piano e Hugo Pilger no violoncelo; o acordeão é de Marcos Nimrichter.

Nina — Chico Buarque
 
Nina diz que tem a pele cor de neve
E dois olhos negros como o breu
Nina diz que, embora nova
Por amores já chorou
Que nem viúva
Mas acabou, esqueceu
 
Nina adora viajar, mas não se atreve
Num país distante como o meu
Nina diz que fez meu mapa
E no céu o meu destino rapta
O seu
 
Nina diz que se quiser eu posso ver na tela
A cidade, o bairro, a chaminé da casa dela
Posso imaginar por dentro a casa
A roupa que ela usa, as mechas, a tiara
Posso até adivinhar a cara que ela faz
Quando me escreve
 
Nina anseia por me conhecer em breve
Me levar para a noite de Moscou
Sempre que esta valsa toca
Fecho os olhos, bebo alguma vodca
E vou

O vírus alegre, cartoon da The Spectator

Rir pra não chorar
Fascinante, diria mister Spock. Pensar que cerca de meio Brasil e meio EUA orgulhosamente se deixam embromar pela fabricação mentirosa do discurso político dos presidentes ¡Caveirão.105 mm! [105 mm, caro leitor, é o calibre de uma bala de canhão, ao qual Caveirão — por sinal também aquele carro brindado da polícia com licença para matar nas favelas — acaba de ser promovido pela Ju] e Agente Laranja (apud Spike Lee). Enquanto o primeiro falsifica a ciência e toda a realidade, o segundo se concentra, no momento, em atacar o principal fundamento da democracia, o voto. Rimos, claro, do terraplanismo e das mirabolantes teorias da conspiração, fazer o quê?, chorar é que não vamos, pois nunca choramos pelo mundo, choramos por nós. Tudo isso é mais um ingrediente da distopia que as horas nos reservaram, mas que é dose é. A longo prazo, os historiadores vão escavar as causações e o curso subterrâneo dos acontecimentos, e a longo prazo estaremos todos mortos.

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Neva na Rioja, março de 2015. Foto: Antônio Siúves
Grogotó

Daqui a pouco virão o sol, as uvas e o vinho.
Nem é preciso crer nisso.
Nem é preciso crer na sede e na alegria.
Não é preciso crer.
Exceto se a dúvida te divide.
Aí grogotó: pobre de ti,
Quando precisas crer,
Quando queres crer,
Já não podes,
Não podes descrer.
Poema de Antônio Siúves

JURUPOCA?

Com afinco e aprumo e afeto, Jurupoca dedica-se, como pode, ao jornalismo cultural e às ideias, a selecionar e comentar conteúdos possivelmente relevantes pra você. É mais ou menos o que se entende hoje, veja você, por “curadoria”.

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Cada número da carta se alimenta da leitura de livros, jornais e publicações diversas em três idiomas, movida por um interesse permanente em literatura, artes, história e ciência. A carta é apartidária e repudia o autoritarismo, o obscurantismo e o atraso mental.

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O autor?

Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

As bundas mais sublimes

Jurupoca #33 Belo Horizonte  31/7 a 6/8 . 2020



QUATRO SONETOS A AFRODITE ANADIÓMENA – Jorge de Sena

 
I

PANDEMOS
 
Dentífona apriuna a veste iguana
de que se escalca auroma e tentavela.
Como superta e buritânea amela
se palquitonará transcêndia inana!
 
Que vúlcios defuratos, que inumana
sussúrrica donstália penicela
às trícotas relesta demiquela,
fissivirão bolíneos, ó primana!
 
Dentívolos palpículos, baissai!
Lingâmicos dolins, refucarai!
Por manivornas contumai a veste!

E, quando prolifarem as sangrárias,
lambidonai tutílicos anárias,
tão placitantos como o pedipeste.
 
II
 
ANÓSIA
 
Que marinais sob tão pora luva
de esbranforida pela retinada
não dão volpúcia de imajar anteada
a que moltínea se adamenta ocuva?
 
Bocam dedetos calcurando a fuva
que arfala e dúpia de antegor tutada,
e que tessalta de nigrors nevada.
Vitrai, vitrai, que estamineta cuva!
 
Labiliperta-se infanal a esvebe,
agluta, acedirasma, sucamina,
e maniter suavira o termidodo.
 
Que marinais dulcífima contebe,
ejacicasto, ejacifasto, arina!...
Que marinais, tão pora luva, todo...
 
III
 
URÂNIA
 
Purília emancivalva emergidanto,
imarculado e róseo, alviridente,
na azúrea juventil conquinomente
transcurva de aste o fido corpo tanto...

Tenras nadáguas que oculvivam quanto
palidiscuro, retradito, e olente
é mínimo desfincta, repente,
rasga e sedente ao duro latipranto.
 
Adónica se esvolve na ambolia
de terso antena avante palpinado.
Fimbril, filível, viridorna, gia
 
em túlida mancia, vaivinado.
Transcorre uníflo e suspentreme o dia
noturno ao lia e luçardente ao cado.
 
IV
 
AMÁTIA
 
Timbórica, morfia, ó persefessa,
melaina, andrófona, repitimbídia,
ó basilissa, ó scotia, masturlídia,
amata cíprea, calipígea, tressa
 
de jardinatas nigras, pasifessa,
luni-rosácea lambidando erídia,
erínea, erítia, erótia, erânia, egídia,
eurínoma, ambológera, donlessa.
 
Áres, Hefáistos, Adonísio, tutos
alipigmaios, atilícios, futos
da lívia damitada, organissanta,
 
agonimais se esforem, morituros,
necrotentavos de escancárias duros,
tantisqua abradimembra a teia canta.

Reencontrei, passados anos, este Grandes sonetos da nossa língua, Seleção e organização de José Lino Grünewald, Nova Fronteira, 1987. Os poemas do português Jorge Cândido de Sena (Lisboa, 1919 — Santa Barbara, Califórnia, 1978) estão no livro. Como sugere o poeta e professor Antonio Cícero, falando a um leitor de seu blog que entendera patavina dos textos: “Penso que esses sonetos são mais bem apreciados justamente quando, ao lê-los, livramos-nos da preocupação de decifrá-los e simplesmente nos entregamos às sugestões morfológicas e sonoras que eles forem capazes de produzir em nós.”

Depois disso, Cícero postou umas palavras do próprio Sena acerca de sua criação:

“[…] Eu não quero ampliar a linguagem corrente da poesia; quero destruí-la como significação, retirando-lhe o carácter mítico-semântico, que é transferido para a sobreposição de imagens (no sentido psíquico e não estilístico), compondo um sentido global, em que o gesto imaginado valha mais que a sua mesma designação. No último soneto, a maior parte das palavras não é inventada, mas os epítetos gregos de Afrodite […]”

Esta é a terceira publicação de uma série de dez números da JU, em Alguma poesia, de extratos da seleção de Grünewald.

As Bundas Mais Sublimes da História da Arte

Ah, as curvas humana que tanto encantam e desencantam, e tanto se dão ao olhar e ao falar. Um museu inglês lançou no Twitter uma disputa (#BestMuseumBum) sobre a melhor ou mais bela bunda exibida nos museus mundo afora. (Como preferir: nádegas, ass, buttocks, derrière, bumbum, traseiro ou “cada uma das duas partes musculoadiposas da região traseira da pelve humana, formada por cada lado dos glúteos”, conforme o Houaiss).

Entraram no certame pinturas e esculturas. Apareceu de tudo, você pode imaginar.  As supremas bundas dos Davis, de Michelangelo e Donatello, são campeãs. Jonathan Jones, crítico de arte do Guardian, apresentou outro dia suas próprias escolhas. Achei tudo ótimo, justo e interessante, nas + + do Jones, e em seus comentários.

Têm lá estatutária greco-romana, a esplêndida Vênus no espelho, de Velásquez, e até certos detalhes da Tentação de Santo de Santo Antão, de Hieronimous Bosch, obra hospedada no acolhedor Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, que demandam tremenda atenção do observador pra ser notados.

Alguém, graciosamente, lembrou As três Graças (Eufrosina, Tália e Aglaia) que o italiano Antonio Canova fez brotar do mármore como a carne humana do barro.

Mas, neste mundo reestetizado pelo culto à magreza e corpos esculpidos em academia, até onde tive paciência de rolar a página da hashtag, não vi nenhuma bunda mais gorducha, feminina ou masculina, assim como as do colombiano Botero, vamos dizer, ou de curvas mais extravagantes, acidentadas.

Não me furtei, de leve, à uma eleição pessoal. Me encantam as figurações das filhas de Júpiter e Eurínome, associadas a Afrodite por Hesíodo e convertidas em símbolo da beleza, do amor, da fertilidade e da sexualidade.

Separadas por 300 anos e estilos da arte europeia, estão As três Graças do flamengo Rubens (1577-1640), a reinar no Museu Nacional do Prado, e a mesma representação mitológica pelo dinamarquês neoclássico Bertel Thorvaldsen (1770-1844), cujo original está no museu devotado ao artista em Copenhague.

Ambas as obras humanizam as musas, ambas, cada uma a seu modo, podem deslumbrar um esteta. Se Rubens concentra alegria e vitalidade, de Thorvaldsen viceja uma sensual revelação amorosa.

As três Graças com a seta de Cupido e Cupido com a lira (1842), de Bertel Thorvaldsen.
Foto: Cortesia do Museu Thorvaldsen, Copenhague

As três Graças (1630 -1635) Peter Paul Rubens. Foto: Cortesia Museu do Prado (uso não comercial).

Opa! Vamos apear?

Falo com a prima. Nos damos notícias, como vão todos?, se cuidem bem, coisa e tal. Saudade. A saudade onde mora? A minha se não mora volta sempre à fazenda Cachoeira. Minha saudade apeia na Cachoeira.

É de lá que sinto falta quando tanta falta me faz poder dar um pulo ali, passear perto do mato, visitar um parente, um amigo querido, sem ninguém se arriscar à sanha do Corona. Mas apeio lá, na fazenda, daqui, desde a Ju

Outra prima me enviou uma fotografia recente da Cachoeira, um recorte sensível da pedra com a casa e o regato. Me levou lá com ela, seu olhar me abraçou, e lá fui, mas como fiquei, guardo a vontade de lá estar. 

Foto: Leda


Na Cachoeira aprendi a apear. Apeia-se da montaria, quando chegamos em casa ou somos recebidos pelo anfitrião.

Opa!, vamos apear, se convida. Daí, toda semana, este convite a você para apear e lengalengar com o jurupoco.

Pois convido você a apear comigo na Cachoeira para um cafezinho com queijo fresco e um dedo de prosa Importo um post do blog que faz quatro anos, o blog hoje sendo apenas um gavetário nas nuvens, nada mais.

Mas isso, quatro anos, é de menos diante da Pedra, uma fração inexistente.


Fazenda Cachoeira (2009/2010). Fotos (crédito): Aderbal Correa de Sá 

 

Vozes da Fazenda

Ao Compadre fotógrafo, coautor desta página, e aos primos que preservam a Cachoeira

Rio se achega e dá-se ao descanso, vale dizer, ao Remanso, pousada breve entre a Pedra e a ravina.
 
Logo se reparte em dois braços e sobre o penedo rumoreja seu roçar — acalanto da Casa — antes de recomeçar.
 
Na Casa ouvem-se a Pedra e o Tempo em contracanto.
 
Ouve-se o claro da flor contra o veludo azul, ao Sol se pôr.
 
Ouvem-se ecos de risos, lágrimas e suspiros reabsorvidos na Pedra.
 
Ouvem-se outras vozes no coro: marcos de portas, caibros de telhas, réguas de porão.
 
Já na aurora, a polifonia no silêncio se fia.
 
Ouve-se aí só o trio: Rio, Pedra e coração.
 

Maquinações do ódio

A jornalista Patrícia Campos Mello, em 25 anos de carreira, cobriu guerras no Iraque, Síria, Líbia e Afeganistão; eleições na Índia e nos EUA; a tragédia da emigração nesses e outros países da África e Ásia. É superpremiada e respeitada pelos pares. Mas, por fazer seu ótimo trabalho, em seu país teve a vida feita em pandarecos. O último círculo do inferno digital se abriu contra ela, com a publicação de suas reportagens, desde as eleições de 2018, sobre o disparo em massa e ilegal de mensagens pelo WhatsApp. Pata, como os amigos a tratam, é a maior vítima no Brasil da covardia, vileza e ferocidade das milícias de extrema direita contra mulheres jornalistas, especialmente. Em Máquina do ódio, que acaba de sair pela Companhia das Letras, ela narra em detalhes como uma campanha asquerosa, orquestrada pelo próprio ¡Caveirão.38!, nos termos mais vomitórios, feriu a si e sua família, além da própria humanidade, eu diria. Mas seu livro também descreve como líderes “tecnopopulistas” estão ganhando eleições na internet. A mineração de dados pessoais de milhões de usuários das redes sociais e aplicativos é usada no mundo inteiro, por meio de programas de Inteligência Artificial, no microdirecionamento de mensagens específicas a camadas e grupos sociais. Notícias totalmente fraudulentas ou manipuladas alimentam ódios e preconceitos e mantêm eleitores polarizados. A guerra à imprensa independente une autocratas na Índia, EUA, Filipinas, Hungria, Polônia, Venezuela ou Nicarágua, governos populistas à direita e esquerda.



Toffoli, editor geral da nação

Ai de nós. Para o ministro Dias Toffoli, essa sumidade do direito, o STF pode atuar como “editor da sociedade”. Saiu-se com essa ao defender a decisão do colega Alexandre de Morais de derrubar contas de agitadores do gabinete do ódio nas redes sociais. DT comparou um mecanismo privado de publicação de notícias ao papel da Corte constitucional. Em tremenda trapaça lógica e jurídica, disse num webinar do site Poder 360 que o banimento dos perfis equivalia às prisões preventivas. “Por que então deveria chocar mais as pessoas meia dúzia de redes sociais paradas do que 200 mil pessoas presas provisoriamente?”, indagou DT, como quem põe seu adversário em xeque, na típica expressão do autocontentamento de um professor de javanês. O professor do Insper Fernando Schüler, colunista da Folha, se manifestou: “De minha parte, só vejo uma resposta a esta questão: choca por que é algo que não está na lei, muito menos na Constituição. Não importa que se trate de prisão ou banimento do Twitter. Choca é o desrespeito a um princípio, que é um bem para uma sociedade democrática.”



Lo Prete, craque do meio de campo

Como diria o Odorico Paraguaçu, tenho frequentemente a alma lavada e enxaguada, min ’alma de jornalista, digo, ao ouvir O Assunto, o podcast do G1 ancorado por Renata Lo Prete. Nesta quinta (30) ela entrevistou a pneumologista Elnara Marcia Negri, do hospital Sírio Libanês, sobre o tal do “fenômeno trombótico”, essa terrível complicação do Corona. Compromete os pulmões e afeta outros órgãos, inclusive o cérebro nos casos mais graves. O jornalista Rodrigo Rodriguez, imensamente talentoso, foi vítima desse quadro e morreu, aos 45 anos. O Assunto dá quinau nos concorrentes. No caso da dra. Elnara, mostra o esforço da produção do programa pra encontrar um bom personagem, ou seja, um paciente que ilustrasse bem o problema, e uma médica com inacreditável didatismo e enorme boa vontade pra se fazer entender por nós, leigos. Com essa zaga, como craque do meio de campo, a Lo Prete realiza seu ótimo trabalho, ao entrevistar, esmiuçar um tema e informar o público, a mostrar o grande alcance do bom jornalismo.

Calligaris falou e disse

“Desde o ano retrasado, a atualidade é ocupada por uma vulgaridade inculta, grossa, violenta e idiota, que é imperativo escutar e comentar — no mínimo, para a gente se defender de seu ódio”, anotou o psicanalista Contardo Calligaris, na Folha. “É o que mais detesto e desprezo no Brasil de hoje: a necessidade de passar estes anos me dedicando a contemplar e tentar explicar sua boçalidade”, completou.

Zelador de zona

As entrevistas da Paris Review com grandes escritores são as melhores, mais ricas e detalhas já feitas. Tenho uma coletânea da Companhia das Letras, lançada em 1988. Os textos, no original em inglês, estão no site da publicação, parcialmente abertos para não assinantes. Um das mais memoráveis é a de William Faulkner, de 1956. O homem falava no fio da prosa, falava literatura. “A única responsabilidade do escritor é para com sua arte”, ele diz; um bom escritor é “inteiramente desapiedado”. O entrevistador lhe pergunta: “Então qual seria o melhor ambiente para um escritor?”

FAULKNER: A arte não tem nada a ver com o ambiente; não importa onde esteja. Quanto a mim, o melhor emprego que já me foi oferecido foi o de zelador de um bordel. Na minha opinião, é um ambiente perfeito para um artista trabalhar.  Proporciona ampla liberdade econômica; ele se vê livre do medo e da fome; tem um teto seguro e nada para fazer, senão cuidar de umas poucas contas e ir uma vez por mês pagar à polícia local. O lugar é quieto de manhã, que é a melhor hora do dia para trabalhar. Há bastante vida social à noite, se ele quiser participar, para impedi-lo de aborrecer; isso lhe dá uma certa posição em uma sociedade; não tem nada a fazer, já que a madame toma conta dos livros; todos os moradores da casa são mulheres, e o acatariam e o chamariam de “doutor”. Todos os contrabandistas de bebidas da região também o chamariam de “doutor”. E ele poderia tratar os policiais pelo primeiro nome.

De modo que o único ambiente que um artista precisa é de um lugar onde possa obter paz, solidão e prazer a um preço não muito alto. Tudo que o ambiente inadequado lhe proporciona é pressão alta; ela passará mais tempo se sentindo frustrado e ressentido. Minha própria experiência tem me mostrado que as únicas ferramentas de que preciso para meu ofício são papel, tabaco, comida e um pouco de uísque.”

Vela acesa pro Lobato

Acendo uma vela e ergo um brinde pro Manoel Lobato, levado pelo Corona na sexta passada (24), aos 94 anos. Escritor, mineiro, honrou o idioma e a arte da crônica. Traduziu o cotidiano da cidade e de seu bairro no Belo, o Sagrada família. Encantou seus leitores com palavras e frases, e aos amigos com sua grande simpatia. Foi um velho ateu dado à vida, com a mão sempre estendida à amizade, a la Vinicius de Morais. Era difícil não gostar da abertura, de seu sorriso e da infinidade de histórias mais ou menos familiares que ele deitava nas crônicas. Convivi com o Lobato, sempre me achando um privilegiado, desde que começou sua colaboração em O Tempo, em 1996, até minha saída do jornal, dez anos depois. Desgraçadamente o perdi de vista, então. Releio (depois de ter sonhado com isso) seu perfil feito pelo repórter (em tudo especial) Regis Gonçalves, reunido no precioso livro Retratos erráticos (Oiti, 2010). A matéria foi capa do Magazine, caderno de cultura de O Tempo, em 24/09/1999. Lobato diz ali que se achava um caso perdido pra loucura e começou a escrever, como catarse, libertação que pra ele equivalia a dejeção intestinal. “A literatura me salvou, eu não  precisei fazer tratamento psiquiátrico, que deveria ter feito, por causa da vida ruim que tive”, fala ao Regis. E o Lobato foi uma das criaturas mais lúcidas e sãs que conheci. Viveu e estudou farmácia no Rio, onde trabalhou como jornalista na Folha Carioca. Lidou, até se aposentar, na Imprensa Oficial de Minas; por longos anos, teve farmácia na rua Oiapoque, coração do meretrício do Belo, e fez disso uma experiência fértil pra escrita, com sua coleta de personagens, muitas delas obreiras do sexo, e suas histórias. Fez algum dinheiro e perdeu tudo no Plano Collor, contava, menos a serenidade. Temperava a sinceridade com verve e energia. “Não acredito que a velhice esteja só na cabeça, a velhice é ruim mesmo, numa palavra, a brochura é ruim”, dizia, ao discorrer sobre um de seus temas preferidos, o sexo, e a lembrar um personagem de Philip Roth. “Penso que deveria ter me divertido mais, me diverti pouco, penso que deveria ter tido um harém, mas não tive, quando era moço fiquei casto até os 21 anos, um desperdício”, queixava-se aos 75 anos, 40 casado com sua Dinah, pai de quatro filhos. Seu texto jamais padecia da síndrome de quermesse tão comum no Belo e nas Minas dos Matos Gerais. Estava além disso. Lobato promoveu e recriou Minas e o Belo, deu estatura imaginária e literária à sua família, bairro, cidade, ao nosso mundo. Saudade.


 
Um souvenir do Regis

Por falar no Regis Gonçalves, jornalista, poeta e escritor, descobri que é dele meu exemplar com as traduções do Ivo Barroso da prosa poética de Arthur Rimbaud (Topbooks, 1998), de que botei algo em número recente desta Ju. O exemplar que trago há duas décadas não só é dedicado ao Regis. Guarda um bilhete do Ivo pro Regis! Ele e o Ivo são mineiros; um, a chegar aos 80, de Santa Bárbara, outro, aos 90, de Ervália. Se bem me lembro, se deram a alguma convivência no Rio, onde o Régis ia sempre. Sem nada de pessoal, com uma letra miúda e elegante marcada em azul em fino papel de carta, o tradutor anunciava no bilhete o envio, para breve, de outro trabalho seu, a organização de O Corvo e suas traduções, de Edgar Allan Poe, da Lacerda Editores, e falava de um possível lançamento dessa obra no Belo. Procurei meu pequeno volume, tão caro, e não achei. Recorri então a um sebo, e já o tenho em mãos novamente, com versões do célebre poema em português por Machado de Assis, Emílio de Menezes, Fernando Pessoa, Gondin da Fonseca, Milton Amado, Benedito Lopes e Alexei Bueno, além das clássicas transposições pro francês de Charles Baudelaire e Stéphane Mallarmé, e um ensaio introdutório curto do Ivo. Que o Regis me perdoe por essa apropriação, vá lá, inadvertida. Ele deve ter feito matéria pro jornal, e como de costume lhe pedi o livro emprestado. Cá está, virou regalo. Mas está à sua disposição, viu, querido Regis?


Raimundo Fagner (Orós, CE, 1949) canta Pavor dos paraísos, faixa A4 do LP Raimundo Fagner, de 1976, dele e José Carlos Capinam (Esplanada, BA, 1941).

A sonoridade desse álbum traz o suprassumo do que Fagner buscava como artista naquela década. Harmoniza a poética de uma geração (Fausto Nilo, Petrúcio Maia, Abel Silva, Capinam) com sonoridades nordestinas cavadas em raízes ibéricas.

O comparsa Robertinho de Recife, arranjador e instrumentista (guitarra, violões, viola, guitarra portuguesa) imprimiu ao álbum seu colorido, a rara unidade de um clássico da MPB.

Seria justo chamar Robertinho de coautor desse disco, em que o repertório (melodias, letras, harmonias) concorre para cristalizar algo do espírito da época.

Túlio Mourão (teclados) e Luiz Alves (contrabaixo) compõem a espinha dorsal do trabalho.

O disco é cortante, lírico, dramático, inovador, nordestino e brasileiro. Encontrou em cheio as aspirações (imaginário, sonhos, pathos, como se queira) daquela juventude.

Quase todas as faixas brilham. Tem a versão, bastante ousada, de Sinal fechado (Paulinho da Viola), e ainda: Conflito (Petrúcio Maia/Climério), Asa Partida (Fagner/Abel Silva), Corda de aço (Fagner/Clodô) Natureza noturna (Fagner/Capinan), Matinada (Ernani Lobo, adaptado por Fagner), Sangue e pudins (Fagner/Abel Silva), Além do Cansaço (Petrúcio Maia/Brandão) e Abc (Fagner/Fausto Silva).

Aquele final de década era um mundo em que a publicidade e o consumo ainda não definiam inteiramente os modos de ser e estar, não moldavam as almas em cinismo ególatra, o que se depreende da letra de Pavor dos paraísos.

Faixa histórica de um país pobre e periférico da América do Sul, nem mais nem menos. A contracultura e a raiva à ditadura e sua moral pervertida ainda alimentavam os consórcios de amigos, a companheirada lenitiva, entre um LP e outro LP, uma cerveja e outra, um cigarro e outro.

Foram tardes e madrugadas de cuca cheia de birita, pulmões entupidos de fumaça e desejos embaçados.


Pavor dos paraísos


O novo no meu sorriso
É antigo em minha dor
O amargo feito amigo
Sem o brilho do rancor


O sacrifício do riso
Ao frescor dos dentifrícios
É antigo em meu inferno
O pavor dos paraísos


Nada nos interessa
Nada do que preciso
Posso encontrar entre os dentes
Do provisório sorriso...

 

Copo vazio, bola cheia


Sinal fechado, canção lançada por Paulinho da Viola em 1969, no seu disco da Odeon, tivera, dois anos antes da versão de Fagner, o registro de Chico Buarque em seu disco da Philips com esse nome. Não podia ser mais explícito. Acossado pela censura federal, Chico cantou repertório alheio, muito bem servido por sinal, exceto pelo samba Acorda amor, creditado aos seus pseudônimos Julinho de Adelaide e Leonel Paiva, que deram a volta nos censores. Copo vazio, de Gilberto Gil, era a faixa A2. Sexta passada (24) foi lançados clipe e single da regravação dessa música, agora em dueto pelos artistas. Foi feita, ainda em 2014, a pedido do diretor Andrucha Waddington, como trilha sonora para a personagem Dona Fulana, interpretada por Fernanda Montenegro no filme Rio, eu te amo. Nesta sexta (31), outro vídeo será posto na roda com comentários de Gil sobre a música e a gravação com Chico. É uma peça sublime, pela interpretação madura, pelas pausas muito bem colocadas, pelo acompanhamento enxuto e exato, pela reunião de dois papas da nossa música, que, dei gratia, ainda pontificam!


Duas cantoras!

Não é toda tarde de sexta-feira, que é quando me deixo ouvir música e me dedico a vasculhar gravações na rede, que descubro duas belas vozes! de cantoras surgidas nos últimos três ou quatro anos, e que acabam de lançar novos singles.

  1. ALA.NI: aqui em Roses&Wine, faixa de seu primeiro álbum, de 2016, You & I.

Cantora e compositora londrina de 27 anos, reside em algum lugar na fronteira do jazz com o pop. Sua voz é clara como uma lâmina de sol, de timbre potente e melancólico, grande alcance e expressão técnica. O single Lament for Emmett Till acaba de sair nos tocadores. A canção lembra o adolescente negro norte-americano linchado nos anos 1950 (honrado, aliás, por Vinícius de Moraes no poema de 1962 Blues para Emmett Louis Till, e logo faixa do disco Vinicius e Toquinho, de 1970, depois convertido na ótima sequência do documentário Vinicius, de Miguel Faria Jr., em versão rapper com MS Bom, Nego Jeff, Leroy e o ator Ricardo Blat.)

  1. MARIA MARCELLA: aqui em O canto de Yemanjá, de Baden Powell e Vinicius, do álbum Maresia, de 2017.

A jovem cantora carioca se arrisca na tradição da MPB quando o gênero se apaga mais e mais em nossas rádios e imprensa cultural. Depois do álbum Maresia, sua estreia pelo selo Fina Flor, Marcella lança o single Água do Mar, de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, com a participação e, portanto, aval de Dori. Sua voz é grave e altiva, num registro que lembra um pouco o da grande Regina Machado mais no início de carreira. Aqui, no programa da TV Cultura Sr. Brasil, ela canta O mar serenou, composição de Candeia, e grande sucesso com Clara Nunes em 1975.


Que horas são?


♫ Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …? ♫


É o que posso acrescentar por hora, meus senhores.


O Corona no ar. Sim, o maldito vírus é transmitido pelo ar. O engenheiro civil e ambiental Linsey C. Marr explica por que isso importa, no New York Times. |
Wolton e a importância do jornalismo. “O jornalismo tradicional não é perfeito, mas pelo menos com ele há regras claras. Sem essas regras, temos a tirania do dinheiro e o fim da liberdade de imprensa. Sempre defendi a ideia de que rádio, televisão e jornal são bens sociais. Em um momento de crise, ficamos felizes em saber que todos dividem as mesmas referências. É uma relação de confiança”, diz o sociólogo francês Dominique Wolton, em entrevista a Bolívar Torres, no Globo. |
Live de Caê, afinal. Marcelo Adnet tanto pediu que Caetano Veloso cedeu. Em 7/8, seu aniversário, quando chega aos 78 anos, se entregará, por fim, à onda mais em voga da quarentena. |
Lives do Júlio. O jornalista Júlio Maria, do Estadão, um dos mais gabaritados repórteres de música em atividade, listou as lives que, ele diz, vão entrar pra história. |
Mônica Salmaso e Rafael Martini. A cantora e o compositor, pianista, arranjador, professor da UFMG fazem uma deliciosa versão de Menina amanhã de manhã (Tom Zé/Perna), no Ô de Casas nº 93. | 

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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.