O Petrolão chega à crítica de moda, em grande estilo

Editora de O Globo censura trajes e trejeitos
da senhora Eduardo Cunha, que, ao menos acerta na escolha das grifes.
Não está fácil ser rica e elegante para não minimalistas

Consumo de luxo

Infográfico de O Globo com as informações dos extratos dos cartões de Claudia e Daniela Cunha

 

A Operação Lava-Jato, entre vários padrões de roubalheira, denuncia a modalidade lavagem de dinheiro em artigos de luxo, praticada com exuberância por Claudia Cruz, mulher do deputado Eduardo Cunha. “Dinheiro público foi convertido em sapatos e roupas de grifes”, anunciou o procurador Deltan Dallagnol.

Nossa imprensa mostrou-se atenta e perita em examinar os hábitos de Claudia, a quem vimos ao lado do marido na Comissão de Ética da Câmara como que numa terrível mas, por falar nisso, improvável, saia-justa. Desconcertada, sem saber onde pousar os olhos azuis algo esbugalhados, e evidente preocupação com o alinho dos cabelos, Cláudia lembrava a quem lhe assistia pela TV alguém que, por deus, passaria todos os cartões que possuísse para conseguir desaparecer daquela cloaca e ressurgir no refrigério duma loja Louboutin na rive droite.

O Petrolão pode ser visto como desvio ético, como crime contra o patrimônio público e, em seus desdobramentos, também pelo lado da ofensa ao estilo e ao bom gosto dos muito ricos, estágio em que ora entramos.

Em O Globo, a editora do caderno Ela, Renata Izaal, assina o artigo “Claudia Cruz esbanja com marcas, mas jamais foi vista na lista das mais bem-vestidas”. O subtítulo, ou bigode, no jargão, diz: “Excesso nas compras contradiz máxima da moda de que menos é mais”.

O leitor deve abstrair a questão essencial da origem do dinheiro do qual Claudia é, como sabemos, mera usufrutuária. A conversa aqui é outra. Devemos cuidar, isto sim, de certo nível de jequice que a editora do Ela atribui à dona Cunha. Denotasse sofisticação nos seus usos e costumes, por tal viés, estaria redimida.

Izaal põe Claudia, e com isso ela certamente não teria sonhado, ombreada à Maria Antonieta e Imelda Marcos, almas irmanadas pelo amor ao excesso.

Antes, Izaal nos garante que Claudia, ao menos, acertou nas marcas: “Chanel, Balenciaga, Louis Vuitton, Hermès, Prada, Dior e Fendi são alguns dos mais importantes nomes da moda internacional”, aponta, para ponderar e descascá-la, diria Ibrahim Sued, de leve: “Apesar disso, alguém já leu o nome da jornalista em uma daquelas listas das mulheres mais bem-vestidas? Certos milagres nem mesmo a Chanel realiza”.

A especialista em estilo censura Claudia por gostar de bater pernas em Paris entre lojas caras e torrar o burro do cobre em seus passeios. “Dizem os gurus de estilo e, é claro, o bom senso, que ostentar é vulgar, comprar em excesso também”, sentencia.

Ao final, aprendemos com a editora, que, segundo os novos códigos de consumo de luxo, chique hoje, para valer, é alguém “render-se ao dolce far niente numa praia em Tulum, no México: pés descalços, peixe fresquíssimo feito na brasa, festa com os amigos no barco, uma massagem no fim do dia. Talvez custe menos do que uma bolsa Birkin, a mais famosa da Hermès (que pode variar de R$ 30 mil a R$ 200 mil).”

CLAUDIA E CAROLINE

Mario Sergio Conti, na Folha, dedica à questão um número maior de grupos neuronais.

O colunista desenha o fundo econômico da divisão do trabalho e da globalização para localizar o papel da indústria do luxo na Europa, fruto da desindustrialização, e a empenhada contribuição de brasileiros como Claudia Cunha ou Caroline Collor para que as aparências sejam mantidas e enganem a todos os invejosos deste mundão.

As bolsas, vestidos e sapatos são manufaturados “nos subúrbios do planeja” e “turbinados no seu centro” irradiador de modas.

Eis os primeiros parágrafos, muito bem construídos, da coluna de Conti: “Cunha e Collor são luxo só”.

O coração palpita e se agita mais ligeiro diante dos gastos de Fernando Collor e Eduardo Cunha. Registradas em documentos das encrencas jurídicas nas quais estão encalacrados, as suas despesas dão vontade de sambar ao som de João Gilberto: é luxo só. Como o zelo diuturno pelo bem da pátria é exaustivo, Cunha e sua senhora de olhos ofuscantes passaram o Réveillon de 2013 em Miami. Numa semana, detonaram R$ 84 mil. O salário do pio deputado era de R$ 18 mil.

Meses depois, a discreta Caroline Collor foi espairecer na Europa. Não é fácil ser cônjuge de um senador cujo denodo obsessivo é atenuar as agruras de seus conterrâneos das Alagoas. Levou R$ 45 mil em espécie, ofertados por um gentil intermediário de patranhas na Petrobras.

(…)

“A Ditadura Acabada” é o fecho augusto do opus magnum de Gaspari, diz Conti

Gaspari

Da Folha de S.Paulo: “A dupla era trinca” – Mario Sergio Conti

A ditadura acabada é o fecho augusto do opus magnum de Elio Gaspari sobre o mandarinato militar. No todo, são cinco volumes que somam 3.500 páginas. A bibliografia ultrapassa 700 livros e 200 CDs, com 220 horas de diálogos de Ernesto Geisel com assessores. Cerca de 7.000 notas de pé de rodapé amparam cada informação factual. São mais de 200 os entrevistados.

A abundância dos números é excedida pelos seus predicados: arquivos de figuras-chave da ditadura são contrapostos ao testemunho dos seus opositores e da batelada de neutros que se beneficiou, ou foi vítima, da força militar. Forma-se assim o magma no qual se movem Planalto e Casa Branca; sacristias e sindicatos; cárceres e casernas; células clandestinas e luxuosos gabinetes; a tigrada da direita e o terror da esquerda.

A riqueza do material é fruto da energia plutônica do autor, que há 33 anos rala de madrugada, em fins de semana e férias para escrever os livros. A esse empenho concentrado se somam duas décadas prévias de lida com a ditadura, seja como resistente, réu ou repórter.

Militante do PCB antes de 1964, Gaspari foi preso dois meses na Ilha das Flores (na mesma cela de Darcy Ribeiro). Jornalista, veio a cativar chefes do regime, que lhe franquearam documentos secretos. A vivência particular, a memória de elefante e o gosto pela tecnologia digital lhe permitiram cruzar milhares de dados.”

(…)

(…) “Não há paralelo na historiografia brasileira de uma obra com tal envergadura. É o relato mais abrangente e profundo da ditadura. A série tem a vocação de um clássico.

(…)

“Uma tese orienta a série: explicar por que dois generais, Geisel e Golbery do Couto e Silva, estiveram à frente do golpe, batalharam para erguer a ditadura e, quando ela estava pronta, desmontaram-na.

Pela equação, exposta no início do primeiro livro, os dois teriam imposto a sua vontade ao país e à política nacional. Terminado o quinto volume, porém, a antítese também se torna válida: o sacerdote e o feiticeiro foram criaturas de forças sociais e históricas.

Fica evidente, igualmente, o papel preponderante de Heitor Ferreira, um capitão de 27 anos quando do golpe. De cultura mais sólida que os seus mentores, ele traduziu Orwell, sabe Churchill de trás para frente, falava sobre música americana com Ivan Lessa de igual para igual.”

(…)