Para tudo acabar num pau de vassoura

Arate conceitual

A arte contemporânea reduziu nossa chance de viver uma experiência estética a um cabo de vassoura colorido exposto num museu.

Não importa que você não leve a sério, nas gôndolas da arte contemporânea, no selo “conceitual”, um cabo de vassoura pintado. Tal obra ora se dá à contemplação no novo prédio da Tate Modern, em Londres.

Não importa muito o que você pensa ou sente. A banda da história que lutou para permitir que um cabo de vassoura se pusesse pau a pau com a fina flor da arte ganhou a parada.

Os reticentes são perdedores, reacionários, românticos, mortos-vivos, o que seja. O cabo de vassoura conquistou corações e mentes, vale dizer, o universo.

O prêmio Nobel Mario Vargas Llosa, o poeta Ferreira Gullar e o antropólogo e ensaísta colombiano Carlos Granés estão entre os que não se dão inteiramente por vencidos. O JS nem tanto.

Gullar, um crítico de arte que consegue escrever em ótimo português e alcançar a compressão de não iniciados no esoterismo estilístico típico do metiê, vive dizendo isso.

Granés, no livro referencial infelizmente não traduzido no Brasil El Puño Invisible (Taurus, 2011), narra em profundidade, tim-tim por tim-tim, como a trama toda se deu.

A premiação sistemática da estupidez e a instituição do logro permitiram que chegássemos até aqui, ao dia em que um cabo de vassoura pintado não é mais nem menos genial que um Modigliani, um Giacometti ou um Rothko.

Vargas Llosa visitou a bela extensão da Tate. Ele nos conta que se deteve diante do tal cabo de vassoura por longos minutos e acompanhou com interesse os esforços de uma professora inglesa para ensinar a seus pequerruchos como deveriam entender aquele pau de vassoura colorido, conceitualmente. Não deixem de ler a coluna de Mario no El País, é instrutiva e ilustra muito bem a que veio seu altamente recomendável livro A Civilização do Espetáculo.

Os tubarões no formal, a caveira cravejada de diamantes e o borboletário do bilionário Damien Hirst, os urubus que Nuno Ramos fez empoleirar e obrar à vontade na Bienal de São Paulo ou, antes deles, a Merde d’Artista de Piero Manzoni são célebres antecedentes do cabo de vassoura pintado nas cores do arco-íris, conforme a lição de arte de uma criança na Tate, no relato de Vargas Llosa. Outro serelepe, incentivado pela Miss, traduziu a obra com mais propriedade: o artista havia se inspirado no meio de transporte preferido pelo bruxo Harry Potter.

Marcel Duchamp tinha seus motivos para provocar a burguesa e os criadores do seu tempo ao expor o famoso urinol (Fountain). A peça tornou-se uma curiosidade, um ícone dos manuais de história da arte.

Dificilmente o artista poderia antever que o engodo e a velhacaria iriam compor uma trama vitoriosa, perfeitamente burguesa, e gerar a rica indústria atual que artistas, especialistas, curadores, galeristas e turistas aos milhões movimentam no mundo inteiro.

Dizer que tudo é relativo, inclusive a arte, é menosprezar a Relatividade de Einstein, a história da arte e o próprio ser humano. Mas a sabedoria em voga é a sabedoria do establishment, e controla os talões de cheque.

O politicamente correto e o obscurantismo dos “estudos culturais” nos trouxeram até aqui.

A literatura e a verdadeira arte, a própria cultura perderam a centralidade que tinham na educação e em nossas vidas.

Seu lugar foi ocupado pelos dispositivos tecnológicos, pelas redes sociais, pelo Pokémon Go, pelo pau de vassoura da Tate.

Vargas Llosa volta à Cisjordânia e ao jornalismo

Llosa

O escritor Mario Vargas Llosa, 80 anos, retomou recentemente sua veia jornalística, ao viajar à Cisjordânia para escrever sobre o problema dos territórios ocupados por Israel em 1967, há quase, portanto, 50 anos.

No próximo dia 30, o El País começa a publicar uma série com seus relatos.

Na coluna quinzenal que envia ao jornal espanhol, deste domingo, Vargas Llosa dá uma espécie de pontapé inicial nessa cobertura.

Segue o primeiro parágrafo do texto em português.

Os justos de Israel

Yehuda Shaul tem 33 anos, mas parece ter 50. Viveu e vive com tanta intensidade que devora os anos, como os maratonistas os quilômetros. Nasceu em Jerusalém, numa família muito religiosa, e é um de 10 irmãos. Quando o conheci, há 11 anos, ainda usava quipá. Era um jovem patriota, que deve ter se destacado no Exército enquanto cumpria o serviço militar, pois, ao terminar os três anos obrigatórios, o Tsahal lhe propôs fazer um curso de comando e ficou mais um ano nas fileiras, como sargento. Ao retornar à vida civil, da mesma forma que muitos jovens israelenses, viajou à Índia, para clarear as ideias. Lá refletiu e pensou que seus compatriotas ignoravam todo o mal feito pelo Exército nos territórios ocupados, e que sua obrigação moral era torná-lo público.

Continue a ler no El País Brasil.

Louvação a “Downton Abbey”

downton abbey

A senhora Hughes e o senhor Carson devolvem os aplausos. Foto: Divulgação

“Downton Abbey” é o mais inteligente novelão nunca filmado.

“Downton Abbey” é um conto de fadas para adultos educados com noções de elegância, decência e hombridade.

E de romantismo, claro.

É por aí que a ficção enseja a perfeição.

O sucesso mundial da série mostra que nem tudo se derreteu na revolução cultural que Mario Vargas Llosa condena no panfleto “A Civilização do Espetáculo” (Objetiva).

A diversão rasteira, a banalidade da fofoca e a superestimação da internet, afinal, não anularam in totum um modo de vida orientado, diria Llosa, pelo apreço à liberdade, às ideias, aos valores, aos livros, à arte e à literatura.

Sem querer, “Downton Abbey” denuncia a miséria de um mundo que perdeu o senso de ironia e se rendeu à feiura e à ditadura da correção política.

Tal é o mundo fascinado pelo riso fácil (“kkkk”) e que se entende com a peculiar profundidade da linguagem dos sinais (emojis).

Nele, Lady Violet, a condessa de Grantham, e sua língua de cobra coral deve ser vista como alguma espécie alienígena. A conversação é uma arte morta.

Tipos como a personagem de Maggie Smith, o mordomo Charles Carson (Jim Carter), a governanta Elsie Hughes (Phyllis Logan), a herdeira Lady Mary Crawley (Michelle Dockery) e o valete Mr. Bates, vivido por Brendan Coyle, ou sua querida Anna, por Joanne Froggatt, serão lembrados por muito tempo.

Algumas cenas entre Carson e Hughes ou da velha condessa Crawley e Isobel (Penelope Wilton) podem integrar uma antologia do melhor já feito para a TV.

A série cativa a inteligência do público em cada pormenor, da carpintaria aos arranjos de época e aos figurinos, da confecção dos cenários à música, da direção de atores à edição de imagens.

Julian Fellowes, seu criador e roteirista, do pico dos seus 66 anos, não deu a mínima para os críticos que tacharam “Downton Abbey” de “direita”.

E pede licença poética aos que caçam e acham brechas no rigor histórico que move a trama, caso do historiador Simon Schama.

Vencedor de um Oscar pelo argumento de “Gosford Park” (2001), um dos belos filmes do legado de Robert Altman, Fellowes entende do riscado ao romantizar a aristocracia inglesa.

O próprio escritor é membro da Câmara dos Lordes e detém o título de barão de West Stafford.

Séries como “The Wire”, “Mad Men”, “Boardwalk Empire” e algumas outras, entre as quais a primeira temporada de “True Detective” (e, a propósito, as britânicas da BBC “Wallander” e “Hinterland”) ou a microssérie “Olive Kitteridge”, à qual dediquei um poema,  escritas e dirigidas com maestria, cultivam um tônus literário (em maior ou menor grau) e repelem a infantilização de Hollywood.

Titular dessa primeira liga da TV mundial, “Downton Abbey” é um descanso em meio há tanto furdunço imbecil, uma corrente de água limpa a roçar pedras miúdas na manhã invernal.

Durante cada episódio podemos esquecer a porcaria reinante na era dos realities shows de comida e dejeção.

Já é mais do que se poderia esperar de um produto televisivo com seis temporadas de extensão.