O Ministério da Cultura e a “cultura do estupro”

É fácil prever que em breve haverá manifestações pelo fim da “cultura da morte”,
como pode pintar uma onda por um basta à “cultura do esgoto”

O massacre dos inocentes Rubens Museu de belas Artes da Bélgica

Corte de O massacre dos inocentes (1610), obra de Peter Paul Rubens

O Ministério da Cultura e a “cultura do estupro” foram apropriados pela esquerda, aqui e ali engatados num #foraTemer, além de outros movimentos sociais vitimistas.

Assim como, duas semanas atrás, muita gente descobriu que o MinC é patrimônio inestimável da nossa humanidade, “revelou-se” que a violência contra a mulher é uma pandemia brasileira. Entre paradas e marchas, foram atirar flores no prédio do STF.

O episódio da adolescente carioca de 16 anos violentada não foi o primeiro a tomar conta do noticiário. Em 2007, uma menina de 15 anos foi estuprada por 20 homens em uma cadeia do Pará, de maneira incontroversa. Naquela região, no interior amazônico, uma adolescente com apelo sexual vale menos que um quilo do bofe que se dá de comer aos cachorros.

Onde batiam, nessas e outras circunstâncias, as ondas feministas que embalaram os acontecimentos da última semana, com seus chavões sobre cantadas, fórmulas do século passado sobre vestuário e propostas de leis para censurar a baixaria do funk?

“Depois das denúncias” — diz esta reportagem do Valor de hoje —, “deram início a um debate feminista cuja repercussão tem escala rara na história recente do país. Em poucos dias, mais de 700 mil pessoas — muitas mulheres— cobriram suas fotos no Facebook com a máscara da campanha ‘Eu luto pelo fim da cultura do estupro’. O assunto chegou ao primeiro lugar entre os mais comentados do Twitter do Brasil e ao terceiro lugar no ranking mundial”.

O MinC já foi deixado de lado, relegado à sua insignificância. O fervor sobre a “cultura do estupro”, da mesma forma, em breve será escanteado.

A selvageria, desgraçadamente, seguirá seu curso.

Convivemos com o fato de mais da metade da população não ter acesso aos serviços de saneamento básico, sendo uma pena que não tenham abraçado causa do fim da “cultura do esgoto a céu aberto”, e seguiremos a conviver com as estatísticas de violência.

É impossível não se estarrecer com a violência contra a mulher. A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no país, lembra o texto do Valor. Em 2015, os registros dessa cresceram 44,74% em comparação com o ano anterior.

Mas é fácil prever que a ocorrência de uma chacina de grandes proporções destacada pelo “Fantástico” há de chamar atenção para os dados do Atlas de Violência (Ipea/FBSP), divulgado no início deste ano — que compilou 59.627 vítimas de homicídios no país em 2014 — o maior número já registrado — e causar outras ondas de comoção.

A esquerda vai reunir seus indignados para novas paradas, nas quais se pedirá a cabeça do presidente e se clamará pelo fim da “cultura da morte”.

É perverso esse oportunismo em tratar a miséria social apenas com palavras de ordem militantes que permanecerão no ar até a próxima hashtag que retrate nossa desgraça como civilização.

A abjeta coluna do deputado Marcelo Freixo esta semana teve um registro neste jornal. Reinaldo Azevedo trata exatamente disso, também na Folha. “A esta altura” — ele comenta, depois de se referir à manifestação realizada anteontem em São Paulo— “a garota cuja história motivou o protesto já era menos do que um meme da internet. Tinha se tornado apenas o pretexto para um feixe de causas”.

A expressão “tempos bárbaros” antecede o ponto final do texto de Azevedo.

Sim, bárbaros, tolos e tediosos.

Volta, Dori. Alivia esta barra pesada

Depois de 23 anos nos EUA, Dori Caymmi pensa em voltar a viver no Brasil. Tem um disco novo com músicas para uma peça de Mario Lago que havia sido censurada. O tema é a Revolta dos Alfaiates e o enforcamento dos líderes do movimento, em Salvador, no ano de 1799.

A notícia é do “Estadão”.

Que brisa fresca sopra esta manhã quando leio a respeito de Dori na atmosfera rarefeita do debate sobre o MinC.

O país vive uma crise criativa que é mais severa e profunda que a da política. O mal-estar que provoca é ainda mais opressivo.

Mas a burocracia, o interesse vil da militância política e o grande interesse da pecúnia cultural convertem o país — sem a menor reação crítica na imprensa — em uma imensa e tediosa paróquia.

Dori Caymmi não tem nada a ver com isso. Sua causa é a verdadeira arte, a música elaborada com refinamento e autenticidade.

Tenho o CD “Contemporâneos”, de 2002, na conta da melhor suma, por suas mãos, da grandeza da música popular brasileira desde sempre.

Lá me esperam, ao menos uma vez por mês, doze faixas arranjadas para destacar o violão de Dori com timbres e harmonias que se reconhecem como uma fita de DNA da progênie de Dorival.

Caetano, Chico, Danilo e Nana Caymmi, Edu Lobo e Renato Braz cantam no disco com Dori.

Sua audição inspira uma hora de júbilo e sossego.

A faixa inicial, com melhor versão já feita de “Coisas do Mundo, Minha Nega”, de Paulinho da Viola, já impõe a ideia geral do artista, no nível do sublime.

Segue-se uma seleção de alta qualidade que inclui Chico (“Januária”), Caetano (“Sampa”), Milton e Brant (“Ponta de Areia”) e Chico e Edu Lobo (“Choro Bandito”).

Hoje o tenho à mão no Spotify, mas prefiro o CD.

Quando perdi minha primeira cópia, dos tempos do “Magazine”, há alguns anos, tive que escarafunchar a internet até encontrar uma última unidade disponível em uma loja de Seattle.

Eis um trecho de sua boa conversa no “Estadão”  com o jornalista Júlio Maria.

Pergunta – Nana diz que você foi a pessoas que a acolheu…”
Dori Caymmi — Ela sofreu. Papai tinha um lado muito machista, preferia que ninguém fosse artista em casa. Quando ela voltou da Venezuela e se separou, meus pais acharam um absurdo. Para ela, foi um sofrimento muito grande. Nelson Motta queria a Elis Regina cantando Saveiros (de Dori e Motta) e eu queria a Nana. E eu ganhei. Mas ela sofreu, eu coloquei o tom muito alto e ela teve de esganiçar muito. Nana é a minha cantora favorita. Minhas quatro favoritas são Nana, Bethânia, Elis e Clara Nunes. A Gal tem um estilo um pouco mais afetado, mas esse outro pessoal vem com o útero nas mãos. Sobretudo a Nana e a Bethânia.”