Confissões de um comedor de séries

[Coluna da revista Inclusive.com número 5, junho_2017.]

 

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Não vou relatar uma saga alucinógena. Menos para o bem que para o mal, não tenho nada de singular a revelar nesse terreno. Era apenas uma criança mineira do interior quando a turma se enlameava em Woodstock como quem surfava num mar laranja ao som de Hendrix.

Mas me inspiro em relatos de uma gente muito doida para confessar que em anos recentes me evadi do “real”, ao me ver perdido numa selva escura.

Levado na contramaré que pôs à deriva a canoa do jornalismo, adernei como um náufrago diante da TV. Ilhado, passei a me servir de séries e minisséries para alargar os sentidos, como Baudelaire do haxixe ou Aldous Huxley da mescalina.

Histórias de grandes dopados filiam-se ao clássico Confissões de um Comedor de Ópio, de Thomas De Quincey (1785-1859). Uma linhagem que vai do poeta Baudelaire ao neurologista Oliver Sacks bebeu na obra do escritor inglês.

Paul Bowles, Carlos Castañeda, William Burroughs figuram no cânone lisérgico. Em 2001, a revista inglesa de literatura Granta publicou o texto apologético Confissões de um Comedor de Ecstasy de Meia-Idade, assinado por Anônimo.

Perto do escrete de chapadões, do peiote e do LSD, sou um perna de pau careta. E só podem ser caretas confissões de um comedor de séries. Mas, veja o leitor, o seriado se transformou num gênero de excelência.

As séries oferecem ao terráqueo adulto educado de agora muito do que o romance e o conto serviram ao viventes dos dois últimos séculos: narrativas, fabulação, contação de histórias que nos enredam como presa dócil em vidas e mundos vicários. Oferecem também os melhores recursos do melhor cinema já realizado.

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Essa alta qualidade literária e fílmica das séries alarga a percepção e, no meu caso, representou uma droga bem-vinda para me tirar da vida ordinária, das mazelas da insônia e me livrar do tédio com a simples passagem das horas.

Refestelado em meu sofá de náufrago preto e macio, devo ter seguido ou tentado seguir (mal provei muita porcariada em canais a cabo e na Netflix), não menos que cem produções, entre séries e minisséries, mil episódios e milhares de cenas incríveis.

Vi algumas vezes The Wire (A Escuta), criada por David Simon. Até a academia se rendeu ao alcance social e artístico desta série referencial. Segundo uma extensa reportagem de O Globo, um dos mais respeitados sociólogos americanos, William Julius Wilson, “definiu a obra como a maior etnografia jamais produzida sobre os Estados Unidos” de hoje. O prêmio Nobel Mario Vargas Llosa é fã do seriado.

Revi Mad Men inteira e inúmeras vezes episódios isolados da série criada por Matthew Weiner. Os roteiros das sete temporadas fizeram cair o queixo de grandes autores.

“Comecei a ver cenas de episódios de Mad Men como quem entra na sala de aula de uma escola todos os dias para recordar o que é narrar”, contou no El País o espanhol Enrique Vila-Matas, ao explicar por que voltou a escrever contos. “Quando vejo séries, penso em romances e teatro”, ecoou no mesmo periódico o autor e crítico teatral Marcos Ordóñez.

Os grandes autores que abraçaram o formato destilam nos roteiros uma desconcertante bagagem literária e cinematográfica. Passagens de Guerra dos Tronos me recordam Macbeth e outros dramas de Shakespeare.

O criador de Mad Men trouxe para a série o universo dos contos magistrais de John Cheever, ele próprio admitiu a influência. Os Sopranos pede bênçãos a Coppola e O Poderoso Chefão; The Leftovers, a toda uma cinemateca”.

Encantei-me com a beleza e a fatura esmerada de Os Sopranos, Boardwalk Empire, Downton Abbey (a mais sofisticada das novelas jamais feitas) ou de minisséries adaptadas de livros a exemplo das antológicas Olive Kitteridge, Wallander ou Big Little Lies.

Listei 30 séries dadivosas. Sinto-me obrigado a citar ao menos as americanas Better Call Saul (spin-off da épica Breaking Bad), a primeira temporada de True Detective, Ray Donovan, The Americans e The Good Wife; as britânicas Broadchurch e Hinterland e a sueco-dinamarquesa The Bridge.

Então confesso meu vício de comedor de séries. Não ofendi a saúde e não creio ter perdido tempo em minhas maratonas. Se devo apontar um efeito colateral, concedo: as séries me tornaram ainda mais refratário a livros e filmes ruins, à ficção da Rede Globo e ao cinema nacional.

 

Uma pequena grande série

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Celeste (Nicole Kidman), Jane (Shailene Woodley) e Madeline (Reese Witherspoon) em Big Little Lies. Imagem da HBO

  • Os homens de Big Little Lies (HBO) oscilam entre a imbecilidade e a psicopatia. Já as crianças estão perfeitas. A minissérie é coisa de mulher. Mas o viés feminista não lhe tira a força, a graça e o frescor, ao contrário.
  • A adaptação para a TV do livro homônimo de Liane Moriarty, por David E. Kelley, tem sete episódios muito bem rodados e resolvidos.
  • Pequenas Grandes Mentiras foi lançado no Brasil pela Intrínseca.
  • A história sobre abuso sexual e neuras, que neuras!, de famílias ricas com seus casamentos e filhos é levada em luminosas locações de Monterey (Califórnia), com realismo comedido. A trilha musical faz bem seu papel.
  • Fim. O sucesso trouxe a conversa de uma segunda temporada. Seria um fracasso óbvio.
  • A mulherada dá um banho, tanto mais o núcleo formado por Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman) e Jane (Shailene Woodley).
  • O último capítulo mostra a que vieram as senhoras, com andamento, montagem e tomadas do melhor cinema americano.
  • O aparato tecnológico de Hollywood, seus melhores roteiristas e elencos migraram para a TV, não custa redizer.
  • Big Little Lies é uma pequena grande série, ou minissérie, entre as melhores já feitas.
  • Como adaptação literária, é quase tão boa quanto Olive Kitteridge. Para dar uma nota, 7,5/10.

 

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