Tempo morto para o compositor

Carmem Miranda gravou Tempo Perdido, de Ataulfo Alves (1909-1969), depois de reencontrar o compositor mineiro — a quem já conhecia como prático de farmácia — no escritório de Mr. Evans, diretor da RCA Victor, no Rio de Janeiro. Corria o ano de 1933. A história é contada no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

O samba-rumba entrou no repertório de Hey Eugenia!, terceiro álbum da banda norte-americana de Portland Pink Martini, de 2007, mais de sete décadas depois.

Eis um registro típico, autoral, biográfico, sepultado pela era do download, do YouTube e do streaming.

Alguém levado a ouvir Tempo Perdido com o Pink Martini pelos algoritmos do Spotify, onde o que conta é a massa sonora digitalizada, poderá acreditar que a banda poliglota do Oregon detém poderes mediúnicos.

Não fará ideia de onde vieram letra e música ou de um episódio como esse e seu alcance na história de nossa música popular.

Também vai boiar sobre a participação de instrumentistas, arranjadores etc., mas isso são velharias superadas pela tecnologia, ai de nós.

Leia também Réquiem para um mundo moribundo, onde escrevi:

A nova música é utilitária e funcional, como disposta nos cardápios do Spotify. O negócio não é mais ouvir com reverência e compartir com amigos um disco de Coltrane. É acumular terabytes de música nas nuvens.

Nas pilhas digitais, pouco importa quem canta, toca ou compõe. O negócio é o benefício, a “entrega”, por assim dizer, dos aplicativos de streaming.

Entre nós, a MPB e seus antecessores foram destronados pelo chorume das ideologias do politicamente correto, onde qualquer “punqui” ou “funqui” (a bênção, Ariano Suassuna) vale tanto quanto o legado de PixinguinhaCaymmi ou Chico Buarque.

Quiz: De quem é Diz que Fui Por Aí?

Em A morte do compositor, na Folha de S.Paulo de 12/08, Ruy Castro diz que ninguém mais dá a mínima para o autor. Eis uma passagem:

Para 99% das pessoas, o imortal “Você só dança com ele/ E diz que é sem compromisso/ É bom acabar com isso/ Não sou nenhum pai-João…” é um samba de Chico Buarque, não de Geraldo Pereira.

Na semana passada, ao ouvir no rádio sobre a morte de Luiz Melodia, o motorista do táxi começou a cantarolar Diz Que Fui Por Aí —”Se alguém perguntar por mim/ Diz que fui por aí…”— e acrescentou: “Esta era dele, com Seu Jorge”. Corrigi-o: “Não. Este samba é do Zé Kéti”. Ele teimou. E acrescentei: “Em parceria com Hortêncio Rocha”.


Este texto sofreu correções e o título do post foi alterado na manhã seguinte à publicação.

 

 

A Belchior o que é dele nos 40 anos de “Alucinação”

Belchior tem pelo menos 20 canções em sua obra cuja força poética
e vitalidade superam muito do que seus contemporâneos fizeram no mesmo período

alucinação 1

Só há pouco tempo Belchior deixou de ser tratado como figura pitoresca e decadente.

O caso do seu desaparecimento, ainda mal explicado, é outra história, que deixo para os “Fantásticos” da vida.

Mas os 40 anos do LP “Alucinação” — lançado a 10 de maio de 1976 — ainda não receberam o memorial e a análise crítica que mereciam.

O “Estadão”, decadente como toda a imprensa cultural brasileira, deu ontem duas páginas sobre o disco e a vida do cantor.

Páginas de uma mediocridade lancinante, perto do que o jornal já fez e foi.

No texto principal, assinado por Renato Vieira, não se diz nada do valor artístico da obra.

“Alucinação” se tornou um “clássico instantâneo que atravessou gerações”, lemos na matéria, entre outras leguminosas.

Executivos da gravadora Phonogram recearam que “o público poderia não entender aquele som misturando Bob Dylan e elementos regionais” — o que não diz nada sobre o disco.

Belchior tem pelo menos 20 canções em sua obra cuja força poética e vitalidade superam muito do que seus contemporâneos fizeram no mesmo período.

alucinação 2Sinto mais frescor em “Alucinação” — apenas para situar o que digo no primeiro time da MPB — do que em “Meus Caros Amigos”, de Chico Buarque, ou no álbum duplo “Doces Bárbaros”, também lançados em 1976.

Poucos artistas tinham o preparo intelectual e o talento de Belchior — estudante de filosofia e humanidades e de quatro anos de medicina, em Fortaleza — para dar forma de canção popular ao fundo cultural da época e, ainda, emitir luz própria na era constelar da MPB.

Em “Velha Roupa Colorida” — para pegar apenas a segunda faixa de “Alucinação”, depois da linda obra-prima que é “Apenas um Rapaz Latino-Americano” —, Belchior tece com delicadeza citações dos Beatles, de Bob Dylan e do “Corvo” (“The Raven”) de Edgar Allan Poe na letra grave sobre o envelhecimento precoce da geração hippie.

Havia uma carga incomum de sinceridade e verdade em suas músicas que captavam os desejos do jovem classe média das metrópoles — da perspectiva de quem vivia no interior do país e na periferia de Rio e São Paulo — ou a desilusão com ideais da contracultura.

Renato Vieira diz que se Belchior estivesse hoje na praça poderia entrar na onda de Patti Smith e Titãs, nos exemplos dele, e regravar “Alucinação” 40 anos depois, com novos arranjos.

Seria excelente ideia. O LP de 1976 foi feito às pressas, sem empenho da gravadora. Alguns arranjos são indignos das canções.

A melhor maneira que conheço de voltar sempre à música Belchior é tocar um disco fabuloso, que até hoje me parece subestimado e desconhecido.

“Um Concerto a Palo Seco”, CD de Belchior acompanhado por Gilvan de Oliveira, de 1999, lançado pela Camerati — e relançado em 2006 como “Acústico”, com duas faixas extras — nem sequer consta da discografia do artista no “Dicionário Cravo Albin da Música Brasileira“.

Na capa, revejo com prazer o retrato do compositor a carvão feito por Fernando Fiúza.

Gilvan, violonista refinado, de toque clássico, imprimiu a mesma linhagem harmônica às 12 canções do CD, gravado no estúdio Bemol, em Belo Horizonte.

O resultado é um som cristalino e potente, ao mesmo tempo de uma cadência sensual e melancólica. Equiparo seu páthos a um lied de Schumann.

Para o Chico, 70, amanhã

[Atualizado em 08/01/2015]

Em homenagem aos 70 anos de Francisco Buarque de Hollanda, amanhã, entre tantas e tudo mais, deixo aqui um capítulo do meu livro inédito encalhado Meu Boi Morreu – O último carnaval em Primavera, cujo título, O Disco da Samambaia, se refere ao LP de 1978.

Creio que o narrado, a influência cultural, literária e artística da alta música popular brasileira, possa ser comungado com leitores que, naquela quadra dos 1970, também não dispunham de muitos livros em casa e viviam em pequenas cidades do interior do Brasil sem muita oferta espiritual além das missas na matriz e quermesses.

Acrescento que o personagem do narrador, ao redor dos 17 anos, nem sonhava que mais tarde, como jornalista cultural, teria a oportunidade de entrevistar Chico por três vezes e escrever sobre seus discos e shows.

Meu Boi Morreu – O último carnaval em Primavera é do gênero ficção autobiográfica, de que muito se fala outra vez, graças ao sucesso do norueguês Karl Ove Knausgård e da série “Minha Luta”.

Aqui, um pouco mais do “Meu Boi…”

Eis o capítulo do livro, em PDF: O Disco da Samambaia.

Para ouvir o Disco da Samambaia: