Ju #43

Desde o Belo. 16 a 22/10/2020. Nº 43. Ano 2

Opa! Vamos apear? Apraz-lhe, leitor amigo, uma pinga com torresmo? Não? Faz muito calor? Que tal uma tubaína geladinha? Nem pensar? Quem sabe então uma limonada cor de rosa?

Para entrar no clima, toco a abertura de Twin Peaks, logo me explico. Troco todos os métodos de meditação profunda pela música de Angelo Badalamenti.

As modulações de acordes ferem a alma (ou as células cinzentas do sistema límbico, se a leitora insiste) feito o esmeril que afia os dentes da serra na sequência de imagens.

O cenário é o interior de uma serraria industrial à margem de um rio, núcleo de tramas e tragédias de Twin Peaks. As locações da cidade ficcional foram tomadas no belo Snoqualmie Valley, estado de Washington, no úmido noroeste dos EUA.

A névoa da cascata refresca a imaginação. As águas densas e escuras do rio trazem embrulhado em plástico transparente o corpo seviciado da jovem e linda e loura Laura Palmer. Mas isso já é história das telesséries que deixam saudade.

David Lynch é uma cineasta com Kafka, Buñuel e Hitchcock no genoma, além de uns alelos de Groucho Marx. Suas narrativas perseguem o mistério em uma busca sensual e poética da beleza, e exploram a fronteira eternamente conflagrada entre o inferno e o paraíso, entre a lágrima e o riso.

Suspensão do ordinário — Um dos segredos de Twin Peaks é o contraste entre velocidade e máxima desaceleração, escrevi num artigo sobre a terceira temporada da série, lançada em 2017. Reproduzo um trecho:

O diretor acelera ou retarda o tempo em cenas que nos põem em defasagem com o real. Aqui e ali, quando não causa espanto ou gargalhada, com seu senso de humor para lá de ímpar, logra um desconcertante efeito poético.

Como escreve Enric Ros no site espanhol Jot Dow, nesses momentos vivemos “uma experiência quase orgânica, um prazer imersivo que suspende por um instante o sentido do mundo ordinário”. O escritor e professor da Escola de Cinema de Barcelona cita o filósofo esloveno Slavoj Žižek, sobre o instante em que entramos no “buraco negro” da narrativa e nos “desgarramos sem medo do tecido da realidade”.

Eu e a brisa — Recorri a Lynch e Twin Peaks para desgarrar esta Jurupoca, que nem sempre desliza como a brisa. Nem sempre alui bem, com diria um saudoso primo. Esta, enfim, saiu mais curta, para gáudio do leitor entediado.

A crítica cultural, razão de ser desta carta, como praticada aqui, não raramente tange limites que convidam ao silêncio. Dessa paralisia não se muda de fase, como na catatonia, mas, simplesmente, com a frágil esperança de se poder voltar a carregar a mesma pedra morro acima, do mesmo jeito, mais uma vez, e então vencer, uma vez mais, a sedução do silêncio.


O “PACTO DIABÓLICO”
ENTRE EMBUSTEIROS E ENGANADOS

Ilusões facilitam a vida. A religião, a política, a ética estão entre os campos mais férteis onde os ídolos nascem, se alimentam e prosperam. Esse é o sentido essencial da ideologia. E essa demanda por “ilusões edificantes” não escapa à atenção dos embusteiros.

Em Las epidemias políticas (Ediciones Godot), livro citado na semana passada, Peter Sloterdijk chama de diabólico o pacto “meio consciente, meio inconsciente entre os mentirosos e os enganados”.

As “ilusões edificantes” imperam onde a “vontade de acreditar” (Sloterdijk citando William James) se encontra com a “propaganda”. O doutrinamento, as campanhas de ódio, o negacionismo conhecem bem o endereço de seus fiéis.

Falando do crescimento do antissemitismo na Europa depois de 1914, em As origens do totalitarismo, Hannah Arendt aponta a oportunidade histórica que se abria para os “charlatães e loucos naquela estranha mistura de meias verdades e fantástica superstições que emergiu” no continente. O antissemitismo tornou-se, então, diz Arendt, a “ideologia de todos os elementos frustrados e ressentidos”.

Em nossa quadra, neste século, depois da destruição provocada na economia pelo “capitalismo de vigilância”, ou a progressiva uberização de tudo, a “ideologia de todos os elementos frustrados e ressentidos” transparece na gritaria, nas mentiras por atacado acatadas nas pantanosas “guerras de narrativas” que movem as pessoas sedentas por impor suas crenças e anular, ou cancelar, seus oponentes.

Mas agora são muitas as vertentes, ou oportunidades para celebração do pacto diabólico de que fala Sloterdijk. Os “novos aiatolás” (ver artigo de José Luis Pardo, no P.S.) se disseminaram no caldo cultural e ideológico. Em um mundo pulverizado pelo artifício digital, são muitas as moradoras dos falsificadores.

Entre uma tuitada e outra, um requerimento e outro com centenas ou milhares de assinaturas despachados no meio acadêmico, entre uma instituição democrática corrompida aqui e ali, eles tentam impor suas novas ordens à democracia, à ciência, às questões de gênero e raça e ao próprio ser humano.

Chega a parecer que o humanismo deu tudo que podia dar. Daqui pra frente, só com a reengenharia genética e a inteligência artificial.

ENQUANTO “NOSSO KASSIO”
 NÃO SAI DA MOITA, ANDRÉ DO RAP
 SAI DE CANA E ENTRA EM CENA

Enquanto “Nosso Kassio”, com seu currículo numinoso, não pega a toga nem sai da moita, o país resenha a soltura do chefe do PCC André de Oliveira Macedo, o André do Rap, por nosso ministro maneirista, Marco Aurélio de Mello, a quem apraz assumir ares de seu xará imperador. Como foi dito e redito pelos comentaristas, o habeas corpus de Mello, baseado na nova regulação da prisão preventiva, não sai para qualquer mequetrefe. Não atinge, aos milhares, quem vive espremido em cárceres cujo conforto lembra a hotelaria dos navios negreiros.  

A IDEOLOGIA MILICIANA
ENCONTRA O PLANALTO-CENTRÃO

Segundo a taxonomia de Conrado Hübner Mendes, “na biologia do Planalto, centrão é um animal invertebrado que parasita o interesse público e o desfigura”. Já o Planalto-Centrão se estende muito além do Planalto Central e da Sede, aquela Velha Rameira Niemeyriana, excelentíssima senhora. O Planalto-Centrão é o país da acomodação, do mudar o que for preciso para deixar tudo como está. Orgulhosamente abarca o Rio de Janeiro retratado em A república das milícias – do esquadrões da morte à era Bolsonaro, do jornalista Bruno Paes Manso, que leio para comentar semana que vem. Mas posso adiantar, pelo que já li, que a história da formação das milícias e seu sucesso é um capítulo muito esclarecedor sobre a chegada de !Caveirão.105mm! ao poder, além do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

INTERVALO MUSICAL


Com Dori Caymmi em Coisa do mundo, minha nega, de Paulinho da Viola, no CD Contemporâneos (HoriPro, 2002). Esse samba apareceu na última faixa-lado A do LP da Odeon Paulinho da Viola, de 1968. Entre suas boas versões estão as de Nara Leão e Alaíde Costa.

Chamam o Vate da Viola de príncipe do samba. Para mim, ele é, antes, nosso maior filósofo do samba. Várias de suas letras revelam um olhar sereno e inquiridor respeito a vida, numa busca conduzida pela linguagem da música e do samba, cuja arte domina como mestre.

Já na obra de Dori, que é grande e esplêndida, Contemporâneos é meu álbum mais estelar. Sua audição inspira uma hora de júbilo e sossego, escrevi alhures. Devo rodá-lo ao menos uma vez por mês, lá se vão quase duas décadas. Os arranjos das 12 faixas são de Dori e destacam seu violão autoral. Em timbres e harmonias se reconhece toda uma progênie da fina flor da MPB, como numa fita de DNA. Caetano, Chico, os irmãos Danilo e Nana, Edu Lobo e Renato Braz são convidados. Coisa do mundo, minha nega, a faixa inicial, impõe a ideia geral do disco no nível do sublime. É minha versão favorita do samba, que valoriza, enaltece e honra a composição. Segue-se, em Contemporâneos, uma seleção incrivelmente bela que traz Chico (“Januária”), Caetano (“Sampa”), Milton e Brant (“Ponta de Areia”) e Chico e Edu Lobo (“Choro Bandido”).

Quando perdi minha primeira cópia, enviada pela gravadora para o caderno de cultura no qual lidava, varejei como se podia na época a internet até encontrar uma última unidade disponível em uma loja de Seattle.

Sobre essa faixa, Dori fala, modestamente, no encarte: “Cantar não é meu forte, muito menos samba, mas eu nasci no Andaraí e passei minha infância em São Cristóvão e Madureira. A música de Paulinho tem o sabor divino do subúrbio”. Gravado no Rio de Janeiro e em North Hollywood, Califórnia, em Coisa do mundo, minha nega estão Michael Shapiro na bateria e Jerry Watts no baixo; Dori faz violão e guitarra e Paulinho da Costa, percussão.

A letra narra uma odisseia no subúrbio carioca. O poeta, como um Orfeu tangido pela musa, conta para a amada, como um cronistas, suas aventuras; de violão em punho,  ele se deixou levar no fluxo da tarde, no compasso da vida, vendo as “coisas que estão no mundo”, coisas que ele, poeta, “precisa aprender”, e nós também.

COISAS DO MUNDO,MINHA NEGA
Paulinho da Viola

Hoje eu vim, minha nega,
Como venho quando posso
Na boca as mesmas palavras
No peito o mesmo remorso

Nas mãos a mesma viola
Onde gravei o teu nome
Nas mãos a mesma viola
Onde gravei o teu nome

Venho do samba há tempo, nega,
Vim parando por aí
Primeiro achei Zé Fuleiro
Que me falou de doença
Que a sorte nunca lhe chega
Está sem amor e sem dinheiro
Perguntou se eu não dispunha
De algum que pudesse dar
Puxei então da viola
Cantei um samba pra ele
Foi um samba sincopado
Que zombou do seu azar

Hoje eu vim, minha nega,
Andar contigo no espaço
Tentar fazer em teus braços
Um samba puro de amor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor

Depois encontrei Seu Bento, nega,
Que bebeu a noite inteira
Estirou-se na calçada
Sem ter vontade qualquer
Esqueceu do compromisso
Que assumiu com a mulher
Não chegar de madrugada
E não beber mais cachaça
Ela fez até promessa
Pagou e se arrependeu
Cantei um samba pra ele
Que sorriu e adormeceu

Hoje eu vim, minha nega,
Querendo aquele sorriso
Que tu entregas pro céu
Quando eu te aperto em meus braços
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço

Por fim eu achei um corpo, nega,
Iluminado ao redor
Disseram que foi bobagem
Um queria ser melhor
Não foi amor nem dinheiro
A causa da discussão
Foi apenas um pandeiro que depois ficou no chão
Não tirei minha viola
Parei, olhei, vim m’embora
Ninguém compreenderia
Um samba naquela hora

Hoje eu vim, minha nega,
Sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo
A forma de se viver
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender

ABIN DESBARATA
“CONSPIRAÇÃO DA HEMORROIDA”
EM MADRI

Capítulo 1: Na reunião ministerial de 22 de Abril, logo depois das majestosas celebrações do Dia do Índio!, na sua  peculiar etiqueta militar e de maneira cifrada, !Caveirão.105mm! aludira a graves ameaças que rondavam a Hemorroida (sic) Presidencial. Ele acusava diretamente o ex-ministro Moro por fazer corpo mole com aquela vozinha de moça (ou de pato, como se queira) e não lhe relatar informações estratégicas sobre a proctológica trama diagnosticada.

Capítulo 2: A “Conspiração da Hemorroida”, como ficou conhecida entre cientistas políticos, viajou do terreno fisiológico para a estratosfera climático-ambiental. É sintomático, por exemplo, que qualquer referência à Amazônia como “patrimônio da humanidade” provoque dores lancinantes nos fundilhos de Sua Excrescência e do generalato que o assessora patrioticamente, ao mesmo tempo.

Capítulo 3: Foi noticiado na imprensa patriota do Itamaraty, neste ínterim, que cientistas comunistas globalistas mentiam e mentem sobre o fim do mundo e, ao mesmo tempo, que ecologistas comunistas se camuflam na densa vegetação amazônica, onde tramam para abiscoitar nossas riquezas, tais como nióbio, petróleo e ouro, muito ouro!

Capítulo 4: Esta semana, como para provar de vez por todas que há método na loucura, o Estadão revelou que o governo enviou quatro espiões da Abin à Conferência do Clima das Nações Unidas, realizada em Madri dezembro passado. As despesas e a boa vida que essas missões facilitam, diga-se de passagem, correram por conta do contribuinte.

Capítulo 5: Mas, o que isso? Não seja leviano, redator, tenha bondade! Os arapongas da Abin, afinal, trabalharam diligentemente na capital espanhola. Nem puderam se divertir nas boates, nos bares de tapas, ou fazer um visitinha ao Prado e admirar seu esplêndido acervo de arte comunista. Obraram bem! Por meio da coleta clandestina de áudios e acesso a documentos secretos e cabeludos, reuniram uma pá de informações estratégicas. A nação e o mundo tomaram ciência de tais informações privilegiadas no recente pronunciamento do Caveirão na Assembleia virtual da ONU. Foi revelado ingentemente ao povo, por exemplo, que são os índios e os caboclos que desmatam e tocam foto na floresta. Grileiros, garimpeiros, agricultores, toda essa gente fina, não tem nada a ver com a jurupoca, ou melhor, com o pirarucu.  

Capítulo final, epílogo ou Zé-fi-ni: Por fim, a nação aflita podia, assim, respirar em paz, ao conhecer, de forma cristalina e cabal, de onde partiam aquelas ameaças contra as veias varicosas do ânus presidencial.

“DESMATADOR DE ALUGUEL”?
 ESSA NÃO MINISTRO!

Ricardinho Salles, o seu ministro preferido da Terra Arrasada, caro leitor, é delirante, inepto e pau mandado, na lapidar adjetivação de Míriam Leitão. Pau mandato vai por minha conta, como paráfrase. “Ele tem parte da responsabilidade na devastação das florestas”, falou e disse a colunista, entre as jornalistas mais admiráveis do país. “Salles é o desmatador de aluguel, o mandante é o presidente Jair Bolsonaro.”

ROSA DOS VENTOS

♪ […] “E na gente deu o hábito/ De caminhar pelas trevas/ De murmurar entre as pregas/ De tirar leite das pedras/ De ver o tempo correr” […]♪

«Carta a um colega de Edimburgo. O escritor espanhol José Luis Pardo, em grande estilo, ataca os “novos aitolás” da universidade escocesa que retiraram uma honraria do filósofo David Hume. Num julgamento anacrônico, típico de uma época de derrubadores de estátuas, Hume foi acusado de ter feito “comentários racistas”, há quase 250 anos!»

«Com médicos e helicóptero de plantão, é fácil Trump posar de John Wayne. Por Drauzio Varella, na Folha

«Quem vai salvar o jornalismo? Flavia Lima, Onbudsman da Folha, comenta o acordo de um bilhão de dólares da Google com os jornais.»

«Bashevis Singer: “Nenhum avanço tecnológico é capaz de mitigar a desilusão do homem moderno”. O El País rememora o discurso do escritor de Singer ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, por ocasião da publicação, em espanhol, de um conto inédito do autor, El huésped (Nórdica Libros), sobre sobreviventes do Holocausto que emigraram e fundaram o bairro nova-iorquino de Williamsburg.»

«Live pela arte — Roberto Menescal — Para Meus Músicos. Na terça-feira (13) de manhã, quatro dias após a exibição ao vivo, havia menos de 2.000 visualizações dessa live no YouTube. Roberto Menescal, um pilar da MPB, seja como violonista e compositor — e suas convidadas, entre elas artistas da dimensão de Joyce Moreno ou Leila Pinheiro — não tem muito engajamento nas redes sociais, sem o que o artista não existe atualmente. Mas Menesca, como é chamado pelos chegados, um octogenário, não precisa mais disso.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.


Papo cabeça com Tiradentes

Jurupoca #35 – Carta semanal de cultura e ideias
Desde Belo, 14 a 20 de agosto, 2020 – Ano 2

FERNANDO PESSOA Passos da Cruz
 
III - Adagas cujas joias velhas galas...
 
Adagas cujas joias velhas galas...
Opalesci amar-me entre mãos raras,
E, fluido a febres entre um lembrar de aras,
O convés sem ninguém cheio de malas...
 
O íntimo silêncio das opalas
Conduz orientes até joias caras,
E o meu anseio vai nas rotas claras
De um grande sonho cheio de ócio e salas...


Passa o cortejo imperial, e ao longe
O povo só pelo cessar das lanças
Sabe que passa o seu tirano, e estruge

Sua ovação, e erguem as crianças...
Mas no teclado as tuas mãos pararam
E indefinidamente repousaram...

 
XI - Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
 
Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.
 
Que importa o tédio que dentro em mim gela,
E o leve Outono, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Com os sonhados pálios de cetim?
 
Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...
 
E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado...

Este é o quinto de dez números da Ju ou (ah, se você quiser) Juju, com a extração de poemas reunidos por José Lino Grünewald na antologia Grandes sonetos da nossa língua (Nova Fronteira, 1987).
 

Zinco, ar, folhagem, céu, obra contemporânea de artista desconhecido — até dele mesmo (possível explicação nas notas de viagem desta edição). Foto: Siutônio Antuv
Natureza-bem-viva Natureza-pra-lá-de-morta (ver notas de viagem nesta edição). Fotos: Siutônio Antuves

“Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror./ Helahoho! helahoho”.

Ode marcial, Fernando pessoa em fase Álvaro de Campos

“Ora, vá à merda!”

Edélsio Tavares, o Tava (cria do Ivan Lessa no Pasquim), ao responder, à maneira, a carta de um leitor (“…sou operário, ganho pouco e…”) — Em Garotos da fuzarca.

“Aqui, na Jurupoca, ainda se critica!”

Vera Leonor do Prado

Opa! Vamos apear?


Então segura a barra, quer dizer, aguenta a equação!

O brasileiro, estendo o Euclides, é antes de tudo um forte. Realiza proezas com imunidades de rebanho, pela própria natureza. Nada no esgoto sem problema e mata piolho e Corona com uma tisana só.

É capaz de beber, vamos lá, Hidróxido de Ciaenectina, se doutor Godofredo Jegão receitar tal garrafada no YouTube do WhatsApp. Remedinho garantido esse daí, e ia-se logo junto com o vírus, já que não está fácil pagar as contas.

Eu dizia, o caboclo sustenta o evangelista e garante, como uma letra de câmbio, uma mão do Senhor. Cura dor de garganta, levanta um ganhame, descola um velocípede, um arado, uma alpercata.

Reza, trabalha e cala, como escreviam nos muros de Granada nos tempos do generalíssimo Franco.

Mais quatro anos de !Caveirão.38!, nosso franco jumentíssimo, com esgoto a céu aberto e muito xexéu do mangue, mas livres dos comunas e do mau olhado dos globalistas pró-China, é disso que precisamos!

TOMA, APRENDEEEE!, grita a entidade, posso ouvir daqui. Antes da pandemia tinha mais índio a comerciar no calçadão de Copacabana que brasileiro na pinda.

Tudo isso vai passar, como o fogo na Amazônia e a seca no Nordeste, é só esperar, como o buarqueano Pedro Pedreiro, ainda a esperar um trem que já vem, que já vem, que já vem, que já vem…

— Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

— Pois é o que eu mesmo penso!


O mártir

O busto do mártir na rua da Câmara (Tiradentes, Minas dos Matos Gerais) é testemunha de minha boca aberta por trás da máscara. Me deu uma piscadela, o mártir, e depois reclamou comigo dos novos implicantes com ele, dos ideólogos patrulheiros de meia-tigela. Depois de terem esquartejado, querem agora desmartirizá-lo como pai da pátria, queixou-se o Quincas. Paciência, meu velho, eu lhe disse, dê-se por satisfeito se a turma não te botar abaixo ou te pichar com tinta vermelha, como fizeram com Cervantes em São Francisco. Mas tudo passa, acresci, e seu bronze há de sobreviver às novas ondas e tontices. Deixei, o mártir, lá, só e desacorçoado. E fui dar meu rolê com os meus, pois merecia. Meio ano sem ver filho e nora. Longe dos 70 decibéis, 24×7, sob os auspícios das Organizações Hermes Pardineiro, nossa vizinha, fiquei tonto com tamanho silêncio. E sugava oxigênio como um pinguço mama a bendita. E olhava às montanhas que cercam a cidade e o verde do mato com a fome e a sede de justiça de um quarentenado. 


Curador e crítico

Como curador do ar e crítico de arte da rua Guaicurus, no Belo, tive poucas e boas surpresas em Tiradentes, no último finde. Você viu aí acima meus registros históricos. Costumo ensinar a meus alunos da Paquequer, outra rua do Belo exerço minha cátedra, que o verdadeiro artista contemporâneo não tem a menor noção do que é ser isso, artista contemporâneo. É como o Caeiro do Pessoa, ele, o artista, não sabe pensar em nada. Pra ele o luar através dos altos ramos — além de ser o luar através dos altos ramos — não é mais que o luar através dos altos ramos. Os artistas contemporâneos que se assumem como tais vivem na coleirinha de um curador-roteirista. Como diz o Granés, agora qualquer coisa entra em museu como ready-made, sem a força do urinol do Duchamp, qualquer coisa! “A antiarte não acabou com a arte; ocupou seu lugar”, finca o colombiano. Por isso, louvo o artista que nem sabia que instalava sua magnífica obra, que nomeei Zinco, ar, folhagem, céu. Mas outra surpresa tomou conta de mim em Tiradentes. Balancei diante dumas peras deprimidas sobre pano azul; fiquei chocado com a tela. Sinistro!, como se diz hoje. Um artista local, presumi, me apresentava, quiçá ao mundo, um novo gênero de pintura, a natureza-funéria! Aquelas peras transcendentes e transmigrantes estavam acima, muito acima de qualquer natureza-morta do Cezanne ou bodegón do Coltán. Fotografei, mas devia ter feito uma selfie e postado por aí, na conta de alguém. Talvez assim fizesse de mim e desta Ju celebridades instantâneas.

Como diz o Granés, agora qualquer coisa entra em museu como ready-made, sem a força do urinol do Duchamp, qualquer coisa! “A antiarte não acabou com a arte; ocupou seu lugar”, finca o colombiano. Por isso, louvo o artista que nem sabia que instalava sua magnífica obra, que nomeei Zinco, ar, folhagem, céu


 
Live lendária

As peras deprimidas me balançaram quase tanto quanto a live do Caetano, que vimos com vinho e lareira crepitante, bem ao vivo. Foi mesmo de poner los pelos de punta. Não perdi nem um ou outro acorde mal colocado. Nada importava depois de ouvir Milagres do povo e Um índio. Caê e sua grei foram um estrondo, um barato. Caetano é inoxidável, como diz um radialista nordestino, apud Foro de Teresina. “Aos 78 anos, o soberano coração de Caetano Emanuel Viana Teles Veloso ainda é capaz de sentir e operar milagres na alma do Brasil ao sintetizar dores e delícias do país em live lendária”, definiu Mauro Ferreira em seu blog.

Em Tiradentes (composição escolar)

Pela estrada a fora íamos contentes, comprar queijo e goiabada pra vovozinha. Uns guardas municipais mascarados batiam o maior papo com paisanos de cara livre, na boa. Turistas descompostos tiravam fotos ao pé do adro da feia Matriz, fechada. Os mortos sepultados lá no fundo iam bem, obrigado. Vimos muitas e engalanadas cagaiteiras, verdadeiras noivas deste agosto. O boteco perto da ponte sobre o rio merdoso estava bem cheio; muito chope, arrotos, perdigotos, aerossóis, eta nós! O Corona, pensei, seguirá bem contente pela estrada a fora, até a vovozinha.

 
Falou e disse (1)

O cancelamento “é, pois, um ativismo inquisitorial, histérico, mimado e ressentido que tem feito inúmeras vítimas”, falou Catarina Rochamonte na Foia, isto é, Folha (às vezes meu mineirês me pega). E disse a doutora em filosofia: “Essa bizarra ‘cultura do cancelamento’ também está em alta no Brasil, tendo atingido dia desses o jornalista Leandro Narloch, demitido da CNN sob acusação de homofobia, e, mais recentemente, a antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz […]. Os justiceiros sociais cometeram notória injustiça. Mesmo assim, Lilia Schwarcz se desculpou. Ou seja, ela cedeu à patrulha e cancelou a si mesma.” Bão, essa Ju não chega a “intelectual cis branca”, digo, como publicação, mas abre mão do elitismo fácil, fácil, ao menos quando pede pinga com torresmo no Bar Brasil. Aliás, falando sério, esta Ju, ou Juju (ah, se você quiser), há tempos se autocancelou. Você só acha seu escrevente juramentado aqui, semanalmente, nada de feis, tuíte, essas sociabilidades perfunctórias.

O cancelamento “é um ativismo inquisitorial, histérico, mimado e ressentido que tem feito inúmeras vítimas”.

Catarina Rochamonte, na FOLHA DE S.PAULO


Falou e disse (2)

“Agora, a isso se chama ‘guerra de narrativas’, mas não passa de uma batalha de mentiras; uma batalha que, ocioso acrescentar, não se dá só na Espanha: em todo lugar o poder tentar construir um passado à sua medida”, falou o Javier Cercas no El País (ando gostando mais do Cercas que do Marías, pra ficar nos dois Javieres) — e disse: “Existirá alguém então a quem interesse a verdade?”, ele se pergunta, pra ele próprio responder: “Não sei. O que sei é que deveria nos interessar a todos, e muito: primeiro, porque sabemos que desde o Evangelho a verdade faz homens e mulheres livres, enquanto a mentira só faz escravos; e, segundo, porque não pode haver ninguém tão interessado como nós mesmos em controlar o poder, freando um instinto arraigado até o fundo em sua natureza, que é o instinto de acumular mais poder e se perpetuar”. Ô Cercas, que coisa, conta essa pra Ema do Planalto!

“A isso [que] se chama ‘guerra de narrativas’ não passa de uma batalha de mentiras; uma batalha que, ocioso acrescentar, não se dá só na Espanha: em todo lugar o poder tentar construir um passado à sua medida”

Javier Cercas no el país

Zema Zen, um filósofo beira-corgo

Depois de cinco meses de pandemia e mais de 100 mil mortos, com o país sem ministro da saúde, destrambelhado, e sem economizar na cloroquina, o governador das Minas dos Matos Gerais, Zema Zen, acha que é cedo pra opinar sobre o desempenho de !Caveirão.34! na catástrofe. “Como o jogo não acabou, é muito difícil fazer uma avaliação”, obtemperou o doutor Zen à DW Brasil. O caipirão miliardário, suprassumo do novo na política, entende que como “o comportamento do vírus ainda não foi entendido”, é “difícil avaliar quem fez certo e quem fez errado até o momento”. Mas Minas mesmo vai de mal a pior. O doutor chega a elogiar o “liberalismo” do governo, quando o governo mostra o traseiro pro liberalismo e põe na rua os funcionários do Posto Ipiranga. Zema Zen também relativiza as críticas do mundo inteiro ao ministro da Xinga Acesa e, no frigir dos ovos, ajuíza que é “boa” a gestão de !Caveirão.34! Só não se sabe se nosso catatuá Zen já aprendeu a conjugar o verbo ouvir.


A tubaína não resolve, uai

Outra sumidade das Minas dos Matos, o doutor Odelmo Leão, prefeito de Uberlândia pela quinta vez, depois de espalhar cloroquina e Ivermectina feito dipirona nos seus postos de saúde, está numa encrenca, ou vai ver que não está nem aí, o mais provável. O sistema de saúde da cidade beira o colapso, e faltam bloqueadores e anestésicos para entubação nas UTIs, como alertou o Ministério Público Federal. Doutor Odelmo é da estirpe dos Odoricos mas, ao contrário do eterno prefeito de Sucupira, não tem graça nenhuma.  


Gal Costa (Maria da Graça Costa Penna Burgos, Salvador, 1946) canta Antonico, de Ismael Silva (Milton de Oliveira Ismael Silva, Niterói, 1905­­-Rio de Janeiro, 1978). Faixa C6 do vinil duplo Gal a todo vapor, da Philips, de 1971.

Não pode haver versão mais estrita e bonita que essa, com Gal se acompanhando ao violão, e nada mais. A própria gravação de Ismael não é de se jogar fora. Me refiro ao registro em que o grande artista se apresenta (faixa A1) no álbum Se você jurar – Série Documentos (1973), da RCA Victor.

O samba é envelopado num arranjo orquestral que ressalta aquela lição do Samba da bênção? (Baden Powell e Vinicius de Morais), você sabe, que pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza…

O canto pede uma viração, i.e., um bico, um biscate, um serviço pro Nestor, que toca cuíca, surdo e tamborim como ninguém na parada, mas anda mal e sofre com a inveja alheia, essa tiririca.  

Em 15 de maio de 2015 postei este Santinho para Alfredo, irmão morto fazia pouco.  

Esta canção de Ismael
Que Alfredo, irmão mais
Velho, cantou no banho.

Fred, ainda no banho,
Cantava esta canção
Do sambista Ismael.

Alfredo, irmão mais velho,
Agora canta no banho
Esta canção de Ismael.

No ano seguinte um nomão da École Normale Supérieure mostrou no Belo que sabia de nossos bambas, e fez questão de demonstrar isso em sua palestra, entre uma referência a Platão e outra a Montaigne.

Batuquei o acontecimento numa anotação, A noite em que o filósofo Francis Wolff cantarolou um samba de Ismael.

Eu próprio mando um Antonico no banho, vez em quando, em dueto com o Fred, bem mais entoado que o caçula de Dona Hilda.

ANTONICO (letra com o declamatório de Ismael)
  
Meu nome é Ismael Silva
Nasci em Jurujuba, em Niterói
E fui para o Rio, essa cidade sempre maravilhosa

Aos três anos de idade
Fundei a primeira escola de samba no bairro do Estácio de Sá
E pelo tempo venho fazendo minha música
Eu espero que vocês gostem

 
Oh Antonico, vou lhe pedir um favor
Que só depende da sua boa vontade
É necessário uma viração pro Nestor
Que está vivendo em grande dificuldade
 
Ele está mesmo dançando na corda bamba
Ele é aquele que na escola de samba
Toca cuíca, toca surdo e tamborim
Faça por ele como se fosse por mim
 
 
Até muamba já fizeram pro rapaz
Porque no samba ninguém faz o que ele faz
Mas hei de vê-lo muito bem, se Deus quiser
E agradeço pelo que você fizer

De gelar o sangue

A série norueguesa Kieler Street (rua Kieler) com dez episódios, vai pela metade no canal Film&Arts. E vai além do entretenimento bobalhão que inunda o streaming. Ganha de muito do noir nórdico mais recente, que deu de abusar do já-manjado. Na pequenina e ficcional Slusvik você jamais saberá quem é o cidadão de vida pacata e civilizada com quem está falando. A normalidade em Slusvik é quase tão normal como a de Twin Peaks. E o enredo de fundo policial quer, lá no fundo, escanear os desvãos da moral e dos bons costumes. O quinto episódio revelou um climão perverso que encantaria Nelson Rodrigues. Luciana Coelho notou a dívida do autor da série, aliás explícita, com o norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) e a peça Casa de Bonecas, escrita em 1879. O desempenho dos atores pode ser mais frio que a neve onipresente, mas que refinamento! Perto de uma produção assim, as tentativas brasileiras de se aprofundar no gênero, inclusive as dos canais estrangeiros, como Fox e HBO, não passam de tributo ao novelão.


Bacurau na Jacobin

Bacurau é o filme mais imprescindível desde Parasita, exaltou-se a revista socialista Jacobin. A sofreguidão do comentário é tão excitada que pode levar um leitor avoado a mentar cenas de outros gêneros, ainda mais picantes. A autora convoca os amigos da esquerda a correrem pra ver a fita de Kleber Mendonça, que ela filia ao um Cinema Novo redivivo, ainda que banhando na butique hollywoodiana do filme de ação. O entusiasmo que transborda do artigo é tão grande que até pensei em rever Parasita, e tentar rebaixar um pouco minha impressão do ganhador do Oscar, ou repassar Bacurau, e quem sabe melhorar um pouco meu juízo do longa. Mas a imodéstia de Mendonça (“Quando vi o Parasita, foi como se eu e Bong estivéssemos falando o mesmo idioma. Na verdade, eu acho que Bacurau e Parasita são primos.”) me fez mudar de ideia. Não creio que haja qualquer parentesco, além de uma tentativa muito bem-sucedida e outra redondamente fracassada de expor a miserê no turbocapitalismo tecnológico, se isso não é dizer muita besteira.


A falta que um espelho faz

O colunista Maurício Stycer malha, com carradas de razão, a CNN Brasil por abrigar o lelé da cuca Alexandre Garcia, que tentar ser pro ¡Caveirão.38! o que Amaral Neto fora para os generais da ditadura. A emissora, lê-se, “dá palco a negacionistas da ciência para parecer pluralista”. Apois. Sem a mesma rudeza, a Folha tem feito o mesmo, e parece ter feito escola. Pra “parecer pluralista”, o jornal há muito vem demitindo colunistas e contratando outros a golpes de marketing. Houve uma época em que o jornal selecionava seus críticos por concurso ou pelo critério do notório saber, além, claro, do notório saber escrever pra jornal.


«Conheça Plinio Fernandes, jovem violonista brasileiro que chegou à Royal Academy of Music. Estadão.»

«A emboscada – O súbito silêncio de Bolsonaro, por André Petry, na Piauí.»

«O checklist da cultura do cancelamento. Letras Libres, em espanhol.»

«Navalhas, navalhas. Navalhas. Como os Estados Unidos incentivaram o assassinato em massa para salvar o mundo do comunismo. The Baffler, em inglês.»

«A guerra que nos fez como somos, por Keith Lowe. El País, em espanhol.»

«Charles Bukowski um século depois. Grande poeta, bêbado e iluminado. Corriere della Sera, em italiano.»

«Olga Tokarczuk: “Esta época de pandemia pode ser interessante para indagar sobre a natureza do homem”. El País Brasil.»

«Os livros de Philip Roth voltam para ‘casa’. El País Brasil.

«Como a mídia conduziu o grande despertar racial. Tablet, em inglês.»

«O Guia de Leitura Kamala Harris: o melhor relato sobre a candidata a vice-presidente. ProPublica, em inglês.»

«Maria Marcella Feat Dori Caymmi – Dia de Graça

«Lament for Emmett Till – ALA.NI em live a capella.»


«Stefania Tallini & Franco Piana Duo – Estate


JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Tempo morto para o compositor

Carmem Miranda gravou Tempo Perdido, de Ataulfo Alves (1909-1969), depois de reencontrar o compositor mineiro — a quem já conhecia como prático de farmácia — no escritório de Mr. Evans, diretor da RCA Victor, no Rio de Janeiro. Corria o ano de 1933. A história é contada no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

O samba-rumba entrou no repertório de Hey Eugenia!, terceiro álbum da banda norte-americana de Portland Pink Martini, de 2007, mais de sete décadas depois.

Eis um registro típico, autoral, biográfico, sepultado pela era do download, do YouTube e do streaming.

Alguém levado a ouvir Tempo Perdido com o Pink Martini pelos algoritmos do Spotify, onde o que conta é a massa sonora digitalizada, poderá acreditar que a banda poliglota do Oregon detém poderes mediúnicos.

Não fará ideia de onde vieram letra e música ou de um episódio como esse e seu alcance na história de nossa música popular.

Também vai boiar sobre a participação de instrumentistas, arranjadores etc., mas isso são velharias superadas pela tecnologia, ai de nós.

Leia também Réquiem para um mundo moribundo, onde escrevi:

A nova música é utilitária e funcional, como disposta nos cardápios do Spotify. O negócio não é mais ouvir com reverência e compartir com amigos um disco de Coltrane. É acumular terabytes de música nas nuvens.

Nas pilhas digitais, pouco importa quem canta, toca ou compõe. O negócio é o benefício, a “entrega”, por assim dizer, dos aplicativos de streaming.

Entre nós, a MPB e seus antecessores foram destronados pelo chorume das ideologias do politicamente correto, onde qualquer “punqui” ou “funqui” (a bênção, Ariano Suassuna) vale tanto quanto o legado de PixinguinhaCaymmi ou Chico Buarque.

Quiz: De quem é Diz que Fui Por Aí?

Em A morte do compositor, na Folha de S.Paulo de 12/08, Ruy Castro diz que ninguém mais dá a mínima para o autor. Eis uma passagem:

Para 99% das pessoas, o imortal “Você só dança com ele/ E diz que é sem compromisso/ É bom acabar com isso/ Não sou nenhum pai-João…” é um samba de Chico Buarque, não de Geraldo Pereira.

Na semana passada, ao ouvir no rádio sobre a morte de Luiz Melodia, o motorista do táxi começou a cantarolar Diz Que Fui Por Aí —”Se alguém perguntar por mim/ Diz que fui por aí…”— e acrescentou: “Esta era dele, com Seu Jorge”. Corrigi-o: “Não. Este samba é do Zé Kéti”. Ele teimou. E acrescentei: “Em parceria com Hortêncio Rocha”.


Este texto sofreu correções e o título do post foi alterado na manhã seguinte à publicação.

 

 

A Belchior o que é dele nos 40 anos de “Alucinação”

Belchior tem pelo menos 20 canções em sua obra cuja força poética
e vitalidade superam muito do que seus contemporâneos fizeram no mesmo período

alucinação 1

Só há pouco tempo Belchior deixou de ser tratado como figura pitoresca e decadente.

O caso do seu desaparecimento, ainda mal explicado, é outra história, que deixo para os “Fantásticos” da vida.

Mas os 40 anos do LP “Alucinação” — lançado a 10 de maio de 1976 — ainda não receberam o memorial e a análise crítica que mereciam.

O “Estadão”, decadente como toda a imprensa cultural brasileira, deu ontem duas páginas sobre o disco e a vida do cantor.

Páginas de uma mediocridade lancinante, perto do que o jornal já fez e foi.

No texto principal, assinado por Renato Vieira, não se diz nada do valor artístico da obra.

“Alucinação” se tornou um “clássico instantâneo que atravessou gerações”, lemos na matéria, entre outras leguminosas.

Executivos da gravadora Phonogram recearam que “o público poderia não entender aquele som misturando Bob Dylan e elementos regionais” — o que não diz nada sobre o disco.

Belchior tem pelo menos 20 canções em sua obra cuja força poética e vitalidade superam muito do que seus contemporâneos fizeram no mesmo período.

alucinação 2Sinto mais frescor em “Alucinação” — apenas para situar o que digo no primeiro time da MPB — do que em “Meus Caros Amigos”, de Chico Buarque, ou no álbum duplo “Doces Bárbaros”, também lançados em 1976.

Poucos artistas tinham o preparo intelectual e o talento de Belchior — estudante de filosofia e humanidades e de quatro anos de medicina, em Fortaleza — para dar forma de canção popular ao fundo cultural da época e, ainda, emitir luz própria na era constelar da MPB.

Em “Velha Roupa Colorida” — para pegar apenas a segunda faixa de “Alucinação”, depois da linda obra-prima que é “Apenas um Rapaz Latino-Americano” —, Belchior tece com delicadeza citações dos Beatles, de Bob Dylan e do “Corvo” (“The Raven”) de Edgar Allan Poe na letra grave sobre o envelhecimento precoce da geração hippie.

Havia uma carga incomum de sinceridade e verdade em suas músicas que captavam os desejos do jovem classe média das metrópoles — da perspectiva de quem vivia no interior do país e na periferia de Rio e São Paulo — ou a desilusão com ideais da contracultura.

Renato Vieira diz que se Belchior estivesse hoje na praça poderia entrar na onda de Patti Smith e Titãs, nos exemplos dele, e regravar “Alucinação” 40 anos depois, com novos arranjos.

Seria excelente ideia. O LP de 1976 foi feito às pressas, sem empenho da gravadora. Alguns arranjos são indignos das canções.

A melhor maneira que conheço de voltar sempre à música Belchior é tocar um disco fabuloso, que até hoje me parece subestimado e desconhecido.

“Um Concerto a Palo Seco”, CD de Belchior acompanhado por Gilvan de Oliveira, de 1999, lançado pela Camerati — e relançado em 2006 como “Acústico”, com duas faixas extras — nem sequer consta da discografia do artista no “Dicionário Cravo Albin da Música Brasileira“.

Na capa, revejo com prazer o retrato do compositor a carvão feito por Fernando Fiúza.

Gilvan, violonista refinado, de toque clássico, imprimiu a mesma linhagem harmônica às 12 canções do CD, gravado no estúdio Bemol, em Belo Horizonte.

O resultado é um som cristalino e potente, ao mesmo tempo de uma cadência sensual e melancólica. Equiparo seu páthos a um lied de Schumann.

Para o Chico, 70, amanhã

[Atualizado em 08/01/2015]

Em homenagem aos 70 anos de Francisco Buarque de Hollanda, amanhã, entre tantas e tudo mais, deixo aqui um capítulo do meu livro inédito encalhado Meu Boi Morreu – O último carnaval em Primavera, cujo título, O Disco da Samambaia, se refere ao LP de 1978.

Creio que o narrado, a influência cultural, literária e artística da alta música popular brasileira, possa ser comungado com leitores que, naquela quadra dos 1970, também não dispunham de muitos livros em casa e viviam em pequenas cidades do interior do Brasil sem muita oferta espiritual além das missas na matriz e quermesses.

Acrescento que o personagem do narrador, ao redor dos 17 anos, nem sonhava que mais tarde, como jornalista cultural, teria a oportunidade de entrevistar Chico por três vezes e escrever sobre seus discos e shows.

Meu Boi Morreu – O último carnaval em Primavera é do gênero ficção autobiográfica, de que muito se fala outra vez, graças ao sucesso do norueguês Karl Ove Knausgård e da série “Minha Luta”.

Aqui, um pouco mais do “Meu Boi…”

Eis o capítulo do livro, em PDF: O Disco da Samambaia.

Para ouvir o Disco da Samambaia: