Ju #42

Belo. 9 a 15/10/2020. Nº 42. Ano 2

Feira moderna, o convite sensual/ Oh! telefonista, a palavra já morreu/ Meu coração é novo/ Meu coração é novo/ E eu nem li o jornal   [Feira moderna, Beto Guedes, Fernando Brandt e Marcio Borges]

E eu quero é que esse canto torto/ Feito faca corte a carne de vocês   [A palo seco, Belchior]

Opa! Vamos apear? Apraz-lhe, leitor amigo, uma pinga com torresmo?

MEMÓRIAS QUASE PÓSTUMAS — Não sou defunto autor, como o Brás Cubas, ainda que, óbvio, Machado siga muito mais vivo que eu. Mas estas anotações não deixam de ser memórias mais ou menos póstumas, ou quase póstumas, de um jornalista tecnicamente morto, na afiada expressão de Paulo Francis

MORTE WAGNERIANA — Pode-se dizer que o Francis tecnicamente morto não aguentaria cinco minutos em 2020, e o Corona seria o menor dos problemas. Sua morte precoce, em 1997, teria, quem sabe, sido obra da graça, decerto de algum dos deuses que povoam as óperas de Wagner, que ele tanto amava. Francis já estaria frito, cancelado e sepultado pela censura politicamente correta, pela cafonice e pela imposição final do gosto rebaixado pelas massas.

EFEITOS COLATERAIS — O colapso da cultura letrada, tema caro ao filósofo alemão Peter Sloterdijk em Las epidemias políticas (edição hispânica) foi, por assim dizer, parasitado pelos populismos no mundo digital. Os estragos na política são mais visíveis. O Brexit, Trump e Caveirão são frutos desse contínuo. A epidemias de ignorância, estupidez e arrogância são seus corolários, e vieram para ficar, mas a grande euforia com essa degradação parece renovar suas energias em moto-contínuo.

DESEJO DE INCOMPETÊNCIA — “Ou não é o populismo a nova forma do cinismo, aquela que expressa o ‘desejo generalizado de incompetência no poder’ — pergunta a cientista social argentina Margarita Martínez no Clarim.com — ou seja, agrega a pesquisadora, ao comentar o livro de Sloterdijk, “a possibilidade mental de que qualquer um de nós alcance a possibilidade de decisão coletiva?”

POESIA E NEUROLOGIA — Memórias quase póstumas jamais terão o brilho da verdade que ostentam as memórias de um defunto autor. E nem se pode dizer que toda memória seja póstumas, já que, vivos, refazemos e adaptamos o passado sem parar, e isso não é poesia, é neurologia.

AI QUE PREGUIÇA — Quase tudo que é novo e encanta meninos e meninas de hoje, ou seja, jovens à beira dos 40 anos — hábitos, moral, ideias, ideologia, diversão, tecnologia, gadgets — me mata de preguiça. Sou o Grande Otelo aí. Sou Macunaíma.

UMA TEORIA DA RELATIVIDADE — A vida de quem tem mais de 50 anos e não enfrentou um lifting radical para namorar nos aplicativos, ou faz isso no sentido figurado, é uma vida relativa, mas ao menos não alimenta a fantasia de passar o bico no tempo, o que é viver menos ainda.

SINCERIDADE, SIM, MAS DEVAGAR — “A franqueza é a primeira virtude de um defunto, diz o finado narrador das Memórias Póstumas. Já as memórias quase póstumas de certos escribas não podem, por certo, alcançar plenamente tal virtude, ou ele seria um suicida, apenas a persegue, isto sim.

VELHARIAS — Afinal o que é o colapso da cultura letrada? Costumes como a leitura de grandes livros e a conversação educada entraram, e não de agora, em franca obsolescência. Ou experimente compartilhar a alegria de ler ou reler Grande sertão: veredas com amigos que não descuidam do celular por cinco minutos.

FORA DE ÓRBITA — O que não viraliza está fora do radar da vida coletiva, que é ególatra por excelência, helahoho! helahoho!

IMPÉRIO DO PORNÔ — Buscam-se as sensações, na política e no debate público virtual, como quem se apega à pornografia para se autossatisfazer, sem muito trabalho, instantaneamente.

O TEMPO QUE DILACERA — “Quem não conhece o tédio, encontra-se ainda na infância do mundo,” — reflete Cioran no Breviário da decomposição — “quando as idades esperavam para nascer; permanece fechado para este tempo fatigado que se sobrevive, que ri de suas dimensões e sucumbe no limiar de seu próprio… porvir, arrastando com ele a matéria, subitamente elevada a um lirismo de negação. O tédio é o eco em nós do tempo que se dilacera…, a revelação do vazio, o esgotamento desse delírio que sustenta — ou inventa — a vida…”.

QUE PASSEM OS DIAS… — Cioran fala do “vazio do coração ante o vazio do tempo…”. Prefiro a poesia do Pessoa, aqui em fase Álvaro de Campos, para quem “ser vadio e pedinte” é “ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem.”

“MONSTRO DELICADO” — O spleen dos ingleses, que acreditavam que a melancolia era destilada no baço, o ennui dos poetas franceses — o horror das mentes criativas do século 19, o velho tédio. O tédio fora o “mal do século”, de mãos dadas com a tísica, é certo. “O que é o corvo de Edgar Poe senão outra encarnação do monstro baudelairiano?”, indagava Antonio Callado num texto sobre o suicídio de Kurt Cobain, estrela do Nirvana, aos 27 anos. O “monstro delicado” de Charles Baudelaire é descrito no poema que abre As flores do mal, dedicado ao leitor. Repito um trecho na Jurupoca, um pouco estendido desta vez:

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos, 
Em nosso crânio um povo de demônios cresce, 
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce, 
Rio invisível, com lamentos indistintos.

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada 
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos, 
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais, 
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,

Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo! 
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo; 

É o Tédio! — O olhar esquivo à mínima emoção, 
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
— Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!

Extrato de Ao leitor, abertura de As flores do mal, Charles Baudelaire, tradução Ivan Junqueira, Nova Fronteira, 2015.

O MONSTRO POR AÍ — Baudelaire tinha razão, sabemos o que é o tédio, mas fingimos que não sabemos. Callado indagava, em 1994, se o monstro havia sido derrotado. Os franceses não usavam mais “ennui” no antigo sentido baudelairiano, ele diz, e os ingleses há muito haviam deixado de atribuir o spleen a uma secreção visceral. Mas diante da morte Cobain, ponderava o autor de Quarup, era o momento de reconhecer que o monstro havia mudado de nome, trocara a doença que outrora disseminava e as drogas que ministrava, mas continuava vivo e feroz.

SAI HAXIXE ENTRA PROZAC — Em 1994, Callado mal podia intuir o debate sobre o monstro que ocorreria nas décadas seguintes, e o protagonismo da psiquiatria sobre a variegada psicanálise. Já havia certa festa em torno do Prozac, é verdade. O haxixe, o absinto, a cocaína, verdadeiros remédios no século 19, para os criativos, há muito não serviam. Uma revolução estava em curso desde meados do século passado. A nova farmacopeia, ansiolíticos e reguladores do humor, ganhava os rótulos de potências farmacêuticas e passava a ser aviada em formulários médicos de cor azul. Logo o azul?

O MONSTRO SEGUE EM CAMPO — Mas o monstro está por aí. O antideprê salva vidas. Também anestesia vontades e esteriliza a criação. “Há anos que não me emociono com nada”, dizia Cobain na sua carta de despedida.

ABRAÇAÇO NO PLANALTO-CENTRÃO

O procurador Aras e o advogado Kakay, desperdiçado astro de filmes de terror, foram algumas das excelências prestigiadas no rega-bofe do ministro Toffoli em Brasília, no último sábado (02), oferecido para saudar (e soldar) o mais novo indicado ao STF — indicação tramada no breu das tocas pelo advogado Frederick Wassef e o filho senador filho do !Caveirão.105mm!. “O almoço, que em qualquer país civilizado provocaria escândalo, começou às 14 horas e foi até a noite, com futebol e pizza”, anotou Merval Pereira. “A fauna brasiliense presente ia de advogados que atuam no Supremo, políticos de vários matizes, presidente do TCU e, por último, mas não menos importante, o presidente da República em pessoa, que está sendo investigado pelo STF”, comentou o colunista de O Globo. A festa deu as bênçãos (e a solda) de Brasília — esta puta velha niemeyeriana do Planalto-Centrão — ao  desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), Kassio Nunes. Entrou para os anais e, agregaria Odorico Paraguaçu, para os menstruais da República o abraço de Dias Toffoli, o jurista que sabia Javanês, em ¡Caveirão.105mm!. Só faltaram se beijar na boca, à moda russa, como Brejnev e Erich Honecker em 1979. No ajantarado sagrou-se a República da Tubaína, que ora se apodera da vetusta rameira supracitada.

Fraternos amigos de infância no Planalto-Centrão. Reprodução CNN/O Globo

UMA SUADEIRA EM ZUCKERBERG
OU ALÉM DO DILEMA DAS REDES

Kara Swisher, editora executiva do Recode Media, do site Vox, dá uma suadeira literal em Mark Zuckerberg, durante uma entrevista. A cena é das mais emulsificantes em The Facebook Dilemma, documentário em duas partes do canal de televisão pública norte-americano PBS, lançado outubro de 2018. Pelas tantas, Zuck pretexta estar resfriado para tirar o casaco empapado. Temos a impressão, e Swisher sugere isso, de que o eterno nerd angelical fora flagrado pela mãe no auge uma travessura. Resultado de um ano de trabalho, a produção tem alcance maior e mais foco que O Dilema das redes, e não precisou recorrer à dramatização para oferecer um quê de emoção extra. A decupagem dos fatos imprime o ritmo da narrativa. As entrevistas com representantes da rede social e ex-mandachuvas das Big Tec são conduzidas por jornalistas pra lá de tarimbados. Genocídio, manipulação eleitoral e campanhas massivas de notícias fraudulentas contra adversários políticos ou inimigos, perpetrados por meio da plataforma, estão bem documentados e analisados. “Conectar o mundo”, o mantra de Zuckerberg, soa mais falacioso e ridículo a cada nova papagaiada, à medida que se expõe a conivência do Facebook com um nefasto legado de crimes. Confrontada por documentos e provas, a rede alega que nada pode fazer além do que já faz, ou seja, um inócuo monitoramento de ilicitudes. O documentário mostra a explosiva divisão social no Egito, na ressaca da “Primavera Árabe”, e as manobras de Rodrigo Duterte, nas Filipinas, contra opositores. Detalha a perseguição à minoria islâmica rohingya, em Mianmar, por extremistas da maioria budista. E ainda se detém na fábrica russa de fake news que opera em São Petersburgo, usada por Putin para enfraquecer a resistência ucraniana, e no escândalo da empresa britânica Cambridge Analytica e a interferência russa nas eleições norte-americanas. Não tiveram tempo de incluir no roteiro o Brasil que elegia ¡Caveirão.105 mm!. Tudo isso já é história contemporânea, e quase metade do planeta segue fascinada, conectada ao Face, ajudando a realizar o sonho de Zuckerberg de cedo ou tarde ligar todos os habitantes da Terra à plataforma. Afinal, afora os trilhões, ele se acha um demiurgo, cuja criação está acima de todos os males que venha causar à humanidade.

NO CADERNO DE EX-CULTURA
DE O GLOBO É CHOPRA NO MEL

O Globo extinguiu há tempos o suplemento Prosa & Verso. De quebra, os Marinho sepultaram o jornalismo cultural. O jornal dobrou-se à realidade do caça-clique, e com isso se tornou ainda mais irrelevante, à parte ainda manter competentes editorias de política e opinião. Na seção online chamada, como pode, e como grande boa vontade, de “Cultura”, destila-se o suprassumo do entretenimento rasteiro. Sábado passado (2), dia em que circulava o Prosa & Verso, a página destacava a matéria recortada acima. Com o guru de Lady Gaga, soubemos, estaríamos todos salvos da polarização. Atenção chacretes de Olavo de Carvalho, ditas olavates; acorde, miliciano constrangido (@!#%) do ¡Caveirão.105 mm!; olha aí você, pseudo-neo-estalinista ou quase lá, mire-se no exemplo da papisa do pop,socos, ainda que simbólicos, com o adversário. Chopra é a solução. Contra a polarização, é Chopra no mel.

TRUMP BATENDO UM BOLÃO
(OU QUE VEXAME, CORONA!)

Mr. President Donald Trump, conhecido como Agente Laranja e ou Topete Atômico, pegou o Corona e logo saiu do hospital batendo um bolão. Eta medicina da moléstia! De volta à Casa Branca, arrancou sua máscara como Wild Bill Hickok sacava o Colt em Dakota. “Trump retorna à Casa Branca minimizando o vírus que o hospitalizou”, manchetava o Washington Post na terça-feira. No Twitter, o cowboy de araque dava uma banana simbólica para o vírus, e menoscabava a pobre microcriatura também num post retirado pelo Facebook. O Corona só mata os fracos, os derrotados oprimidos, sugeria, não importam quantos sejam — e já passavam dos 220 mil no país, ou mais de quatro Vietnãs (baixas norte-americanas). “É possível que Trump emerja de sua batalha contra a Covid-19 com um novo respeito pela enfermidade”, especulava o jornalista e escritor León Krauze na mexicana Letras Libres, logo após a notícia da internação. Coitado. No título do artigo, “No final, o vírus riu por último”, outra barrigada opiniática de Krauze. Quem saiu humilhado do embate foi o Corona; 7 x 1 para Topete Atômico. Que vexame. 

ECO SABIA DAS COISAS

Políticos, governadores e legiões de especialistas, desde o Twitter e o Facebook, como se esperava, prescreveram hidroxicloroquina a rodo para salvar Topete Atômico. Nem sonhava essa malta com as mezinhas hi-tech e milagrosas que os doutores do hospital militar de Washington escondiam da plebe. “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade” — ponderou Umberto Eco, ainda em 2005, não custa lembrar — “Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”.

CORVOS SÃO MAIS INTELIGENTES
QUE ESTE JURUPOCO: “ERRAMOS”

Diferentemente do que sugeriu a nota da Ju passada, redigida por este pascácio, a descoberta sobre a inteligência superior dos corvídeos, cujos cérebros possuem alguma forma de autorrepresentação, não deve nada à ornitologia. A pesquisa publicada na revista Science, esclareceu na Folha a doutora Suzana Herculano-Houzel, é de um neurocientista, seu colega, o alemão Andreas Nieder, da Universidade de Tübingen.

DEUS, ANIMAL DE ESTIMAÇÃO

“A estranha formulação ‘Deus é fiel’, tão brasileira, invertendo a lógica que pede fidelidade ao crente, introduz o negacionismo no próprio fundamento da fé”, falou e disse Bernardo Carvalho. “Deus deixa de ser representante da vida e da morte, para corresponder, como um animal de estimação, às expectativas do dono.” 

INTERVALO MUSICAL

BEBADOSAMBA com PAULINHO DA VIOLA, do disco de 1996, o último de inéditas do artista. Embora haja a promessa de um álbum com novidades na bica, como ele anunciou no Valor Econômico, pode-se dizer que Bebadosamba — trabalho de criação tão magistral e depurada, e de arte tão elevada — estabeleceu um padrão difícil de transpor, o que explicaria a longa seca. Se bem que Paulinho da Viola não precisa acrescentar um ré à sua discografia, um dos capítulos mais ricos de nossa história musical e cultural.

Premiadíssimo, eleito “disco da década”, nada é demais para dar Bebadosamba o lugar que o disco merece. O CD é todo ele pura excelência. Já a faixa comentada neste intervalo é um poema sobre o samba e também uma espécie de oração — rezada no comovente Chamamento, na segunda parte — aos grandes mestres e criadores da nossa música. Quem tenha um mínimo de juízo, de ouvido e gosto musical, reza junto, e, se não for de sambar, que se ajoelhe.

Bebadosamba ademais é uma aula sobre a história do gênero, na letra, no canto e no arranjo. Paulinho define seu “choro” [de verter lágrimas], na introdução recitada, como “chula” [forma originária do samba de roda surgida no Recôncavo Baiano] “quase raiada” [chula raiada, samba raiado ou partido-alto, um dos primeiros estilos do gênero]” e com essa expressão remete aos primeiros batuques, aos primeiros movimentos do ritmo de matriz africana, desde os terreiros, desde o Recôncavo, desde os saraus de Tia Ciata no Rio de Janeiro, no início do século passado.

A propósito, o referido Boca, com que nosso cantautor dialoga no samba-falado da primeira parte, é um “personagem dos antigos carnavais cariocas, que, no fim do cortejo, encadeava sambas de maneira contínua, ininterrupta, conduzido pelo fluxo da memória”, como explica o professor da USP Zebba Dal Farra neste artigo (PDF). É este Boca-rapsodo que transparece em Bebadosamba, quando nosso vate da Viola alude a “Um rio de murmúrios da memória/ De meus olhos, e quando aflora/ Serve, antes de tudo,/ Para aliviar o peso das palavras/ Que ninguém é de pedra.”

O arranjo e o cavaco são de Paulinho, e, à parte o piano refinado de Cristóvão Bastos, a instrumentação é a mais essencial ao ritmo, a começar do prato e faca, que apontam para o Recôncavo, onde essa história teve um início, além de ganzá, agogô, pandeiro e tamborim.

Pode-se dizer que Bebadosamba é um “samba essencial”. Repare no lindo violão de César Faria, pai do artista, repare na baixaria que abre o canto, depois da recitação, levada apenas com o fundo de um batuque que ecoa a gênese de todas as umbigadas e batucadas.

BEBADOSAMBA, Paulinho da Viola

Um mestre do verso, de olhar destemido,
disse uma vez, com certa ironia:
“Se lágrima fosse de pedra
eu choraria”
E eu eu, Boca, como sempre perdido
Bêbado de sambas e tantos sonhos
Choro a lágrima comum,
Que todos choram

Embora não tenha, nessas horas,
Saudade do passado, remorso
Ou mágoas menores
Meu choro, Boca,
Dolente por questão de estilo
É chula quase raiada
Solo espontâneo e rude
De um samba nunca terminado

Um rio de murmúrios da memória
De meus olhos, e quando aflora
Serve, antes de tudo,
Para aliviar o peso das palavras
Que ninguém é de pedra.

Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Meu bem
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadachama
Também

Boca negra e rosa
Debochada e torta
Riso de cabrocha
Generosa
Beijo de paixão

Coração partido
Verso de improviso
Beba do martírio
Desta vida
Pelo coração

BEBADACHAMA (chamamento)

Chama que o samba semeia
A luz de sua chama
A paixão vertendo ondas
Velhos mantras de aruanda
Chama por Cartola, chama
Por Candeia
Chama Paulo da Portela, chama,
Ventura, João da Gente e Claudionor
Chama por mano Heitor, chama
Ismael, Noel e Sinhô
Chama Pixinguinha, chama,
Donga e João da Baiana
Chama por Nonô
Chama Cyro Monteiro
Wilson e Geraldo Pereira
Monsueto, Zé com fome e Padeirinho
Chama Nelson Cavaquinho
Chama Ataulfo
Chama por Bide e Marçal
Chama, chama, chama
Buci, Raul e Arnô Canegal
Chama por mestre Marçal
Silas, Osório e Aniceto
Chama mano Décio 
Chama meu compadre Mauro Duarte
Jorge Mexeu e Geraldo Babão
Chama Alvaiade, Manacéa
E Chico Santana
E outros irmãos de samba
Chama, chama, chama

Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Meu bem
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadachama
Também

ACENDO UMA VELA E BRINDO
 À MEMÓRIA DE ZUZA HOMEM DE MELO

Zuza Homem de Mello morreu no domingo (4), em casa, de infarto, durante o sono. Contava 87 anos e acabara de concluir seu próximo livro, uma biografia de João Gilberto. É preciso dizer que a música brasileira e o jazz perderam uma de suas mais altas referências. Era escritor musicólogo, crítico, produtor, divulgador, entra tantas atividades que exerceu na extensa carreira. Sua elegância, generosidade e humor foram bem destacados pelos obituários. A rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, compilou os 157 episódios do Playlist do Zuza, programa só interrompido pela pandemia. Arthur Dapieve e Reinaldo Figueiredo, apresentadores da casa, falam do colega. Se você não sabe quem é o personagem ou quer se aprofundar, assista ao documentário Zuza Homem de Jazz, produzido pelo Canal Curta. É um ótimo retrato. Fui e sou freguês da educação, da arte e do conhecimento de Zuza, e guardarei minha gratidão por sua nobreza com muito carinho. A SescTV publicou o programa Todas as Notas: Zuza Homem de Mello, onde Zuza comenta gravações instrumentais brasileiras.

Em podcast na CBN, João Marcelo Boscoli fala do peso de Zuza na cena musical paulistana.

O amigo Wilton Marsalis, trompetista, compositor e diretor artísticos do Lincoln Center, em Nova York, o homenageou em postagem numa rede social. “Ele foi justificadamente o mais respeitado jornalista e musicólogo brasileiro especializado em Música Brasileira e Jazz. Ele era um homem de espírito e graça incomuns, de alma e de engajamento com as possibilidades humanas através da arte da música. A curiosidade de Zuza transcendeu todas as fronteiras. Ele era a própria excelência”, escreveu Marsalis, na tradução do Estadão.

SÓ ELLA

Quando toco no assunto, e faço isso amiúde na Ju, do papel e importância da grande crítica, e da falta que ela nos faz, depois de sumir, ao menos em substância, dos jornais e revistas brasileiros, falo da capacidade do crítico de nos aproximar do seu objeto, intimamente, de nos ensinar a ler melhor um romance ou aproveitar melhor a audição de um disco, além de orientar nossa seleção artística e cultural. É uma função essencial em qualquer “cultura letrada”, e o que faz Giovanni Russonello, do New York Times, em texto muito bem pinçado e traduzido pelo Estadão, sobre gravações inéditas de Ella Fitzgerald lançadas agora pelo selo Verve: Mack the Knife: Ella in Berlin e Ella: The Lost Berlin Tapes. “Você poderia dizer que Ella estava para cantar como Yo-Yo Ma está para o violoncelo: perfeição absoluta, personificada. Ella pensa na nota, ela acerta a nota. Ela aprende a canção, ela se torna a canção”, observa Russonelo. “Ainda assim, há uma troca sagrada acontecendo. Ao invés de trazer você para a canção, Ella traz a canção para você. E o efeito é inegável — você fica desarmado”, acrescenta. Os vídeos, legendados, que ilustram esta nota têm animação criada pela cantora Cécile McLorin Salvant. Agora, se você se interessou pelo assunto, ouça o especial que a Rádio Batuta estreou no centenário da cantora, em 2017, produzido e apresentado por quem?, Zuza Homem de Melo, claro. A seleção musical é de um dos maiores conhecedores do gênero no Brasil, que nos anos 1950, durante o curso de musicologia na escola Julliard, em Nova York, pôde vê-la de perto, no auge artístico, e logo ser seu intérprete no Brasil.


BACK IN BAHIA, OU GIL É TÃO
 MILAGREIRO QUANTO DORIVAL CAYMMI

Gilberto Gil regravou Back in Bahia, em versão para a série Amor e Sorte, da TV Globo. Como tanta coisa na obra de Gil, esta canção, composta nos anos 1970, quando ele voltava de Londres, faz da dor do exílio na memória recente um manifesto de alegria, e tem o dom de levantar deprimidos com um pé na Cova. Gil domina essa arte característica de Dorival Caymmi, nosso Buda Nagô, segundo ele. Hoje eu me sinto/  Como se ter ido fosse necessário para voltar/ Tanto mais vivo/ De vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá , diz a letra. Vai aí o videoclipe.

 BOM DIA, VERÔNICA, E TCHAU!

Aturei, em honra do meu leitor, exatos 22 minutos de Bom dia, Verônica (Netflix), série aprovada pela imprensa paulista. Que a crítica acabou é notório, repito. Mas o universo mental dos incumbentes (os vivos, vivinhos, vivaldinos ou não) não ultrapassa os trinta e cinco anos, que agora equivalem aos quarenta e poucos. O roteiro claudica em cada tomada, há interpretações ruins e a direção parece ter entregue seu trabalho a deus. Mas não. Conforme os críticos de Sampa, devemos achar tudo lindo em nossa época regida pela hipocrisia, é quase um imperativo categórico, afinal, Bom dia, Verônica tem uma valiosa pegada feminista contra o macho predador, e a boa intenção é moeda cujo valor não para de subir. Ninguém pode falar mal sem ocupar o lugar da fala. É preciso ser latino para falar da latinidade, negro para criticar qualquer obra que expresse a negritude, LGBTQIA+Ypisilone para falar do que tudo que envolve o acrônimo LGBTQIA+Ypisilone. E, claro, estamos no domínio da ficção. Talvez seja necessário ser um artista profundamente comovido com a arte nacional para comentar verdadeiramente a teledramaturgia brasileira.

«Ao comparar nazismo com bolchevismo, Hannah Arendt pensa a liberdade além das polarizações”, por Eduardo Jardim, na Folha de S.Paulo.»

«Hannah Arendt e o ‘melhor homem na França’: honestidade e liberdade intelectual”, por Adriana Novaes, no Estadão da Arte.»

«“São Lucas e Brás Cubas dão exemplos opostos do embate da ética com a desonestidade”, por Eduardo Giannetti, trecho adiantado do novo livro do autor O anel de Giges, a ser lançado em novembro pela Companhia das Letras.»

«Esqueça o que os ativistas de gênero dizem a você. É assim que se parece a transição médica”, artigo de Scott Newgente, um homem transgênero de 47 anos fundador do TReVoices, um grupo de transeducadores que se opõem ao ativismo radical de gênero. Na Quillette.»

«Marco Pereira no Dia de Instrumental do Música #EmCasaComSesc»

JURUPOCA?

Com afinco e aprumo e afeto, Jurupoca dedica-se, como pode, ao jornalismo cultural e às ideias, a selecionar e comentar conteúdos possivelmente relevantes pra você. É mais ou menos o que se entende hoje, veja você, por “curadoria”.

A Ju tem por imperativo a defesa da liberdade de expressão e do jornalismo profissional — contra as notícias fraudulentas, a dependência viciosa das redes sociais e o cárcere do extremismo ideológico.

Cada número da carta se alimenta da leitura de livros, jornais e publicações diversas em três idiomas, movida por um interesse permanente em literatura, artes, história e ciência. A carta é apartidária e repudia o autoritarismo, o obscurantismo e o atraso mental.

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O AUTOR?

Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

 

“Sting volta ao rock, reflete sobre a morte e chora por Tom Jobim”

Jobim Sting

Deu em O Globo esta entrevista do ex-Police a Eduardo Graça. Aqui vai o trecho em questão: 

(…)
Inclusive a namorar a música brasileira, com sua versão de “Insensatez”…

Que aconteceu com Tom (Jobim) sentado ao meu lado, no piano. Foi das últimas coisas que ele gravou. Ah, agora você me deixou emotivo (enxuga lágrimas). Que honra para mim! Tom sabia tudo de Villa-Lobos, de Chopin, do samba, da bossa nova. Mil desculpas pelo choro. É que me deu saudade do Tom. Ah, o tempo…

Breve diário da manhã de ontem

Piemonte

Langue, Piemonte, maio de 2010. Foto: Antônio Siúves

 

7h50 — Nem só de Zica e pestilência do mar vive a imprensa internacional no Rio. Termino no El País a leitura de uma longa matéria, fruto da mais antiga das pautas jornalísticas. A história de mulheres que estão no rio para se prostituírem durante a Olimpíada e, com o suor da labuta, juntarem algum para a realização de um “sonho agridoce”, como diz o título da edição brasileira do diário espanhol.

Uma mulher tem filho para criar, outra não tira o bastante no emprego, uma terceira diz que o mais vetusto dos ofícios é um vício. Ela não conhece ex-puta, observa; cedo ou tarde a maioria volta ao mercado. O final é de chorar:

Una semana después de encontrarlas por primera vez, la convivencia y las conversaciones con el grupo revelaron algo más en común entre ellas: cuando el ruido de los clubes se apaga y el rastro de alcohol y el sexo se pierde por el desagüe de la ducha, lloran en silencio bajo el edredón.

Para ler o texto em português, vá por aqui.


8h — A Folha de S.Paulo segue a fazer seu marketing, a que chama “pluralismo” —no qual a qualidade dos colaboradores nem sempre é decisiva— e a cabalar com seus leitores da esquerda. Estreia a colunista Vanessa Grazziotin, que soube aproveitar como uma Beth Davis em A Malvada seus dias de estrelato no julgamento do impeachment.

A senadora veio se juntar ao escrete de bombordo do jornal: André Singer, Vladimir Safatle, uma economista ilegível de Campinas, um humorista sem graça, todos, intelectualmente, meia-tigela, além daqueles, vários, que não ousam sair do armário ideológico, ou seja, assumir sua óbvia simpatia pelo lulopetismo.

A direita está muito melhor representada no jornal, em cérebro e estilo. Grazziotin carece dois dois. Eis um parágrafo do seu debute, que fala por si:

Preliminarmente, registro minha satisfação em colaborar com um dos mais tradicionais jornais do país que, tal qual o meu partido, o PCdoB, se aproxima de um século de existência. Ninguém sobrevive tanto tempo sem méritos.


8h50 – Saio para andar e cruzo com um bem-te-vi com um grande tufo de folhinhas de trevo no bico. É antes de tudo um forte, reflito. Os pardais desapareceram da minha vizinhança e ninguém deu pela notícia.

Sigo para sacar algum no meu banco. Na porta da agência vejo o mesmo ambulante de há várias semanas, com exemplares do diário do qual vende assinaturas e uma pilha de panelas fajutas ainda em caixas. Acaba de achacar mais um velhinho às voltas com a pensão e, muitas vezes, com os primeiros sintomas do Alzheimer — quando se tornam vítimas preferenciais de certos mascates e gerentes de banco.


9h30 – Primeiro expresso na Savassi, depois do café que eu meu mesmo coei. O Globo discute em editorial o legado dos Jogos para o Rio e conclui que a cidade está mais para Barcelona —modelo virtuoso na história olímpica de proveito para as cidades-sede— que Montreal —referência negativa.

A despeito dos erros, diz o jornal, a nova linha de metrô, a malha de BRTs, o VLT no Centro e a revitalização da área do Porto são obras positivas e transformadoras. Cita também um estudo da Fundação Getúlio Vargas que aponta não sei que ganhos sociais para a cidade durante a execução do projeto olímpico.

Nem uma palavra sobre a malograda despoluição da baia. O Rio e o país se acostumaram à merda.

É fácil prever que o Brasil chegará aos primeiros lugares no quadro de medalhas olímpicas muito antes de poder celebrar a universalização do saneamento básico — um bem fundamental da civilização a que, hoje, menos da metade dos brasileiros têm acesso.


10h20 – Chego à Casa Fiat e conheço a nova Piccola Galleria, onde há uma exposição de fotógrafos italianos do Piemonte. Detenho-me nas obras de Sérgio Fea e seus enquadramentos de vinhedos em La Morra, na província de Cuneo, e de Marco Villa, que mostram a região do Langue diante dos Alpes italianos.

Retomo os dias que percorri aquela terra na primavera, com amigos. Sinto o ar puro, diviso as ondulações suaves do relevo e me integro à calma sob a luz que imprime na memória uma espécie de devaneio, como o sabor do excelente vinho rosado da terra. A foto acima é um registro de minha viagem.


10h40 – No café da Casa Fiat, o segundo expresso e a sexta xícara da manhã. E ainda há quem fale mal da rubiácea.

Releio páginas finais de Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce, do diário de Stephen Dedalus. “O passado é consumido no presente e o presente é vivido somente porque trás consigo o futuro”, anota o artista, pouco antes de lançar-se no mundo, com o célebre registro: “Sê bem-vinda, ó, vida! Eu vou ao encontro, pela milionésima vez, da realidade da experiência, a fim de moldar, na forja da minha alma, a consciência ainda não criada da minha raça”.

Retomo a leitura de O Globo, que, ousadamente para um diário no Brasil de hoje, dá a capa do seu Segundo Caderno ao lançamento de um livro de poesia, ainda mais em uma semana na qual o jornalismo cultural brasileiro comemora um novo produto Harry Potter, agora uma peça de teatro. Ou nem tanto ousado assim, afinal, o moçambicano Mia Couto tornou-se uma estrela da Companhia das Letras. O jornal pinçou dois poemas da coletânea, um deles é

A ADIADA ENCHENTE

Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.

Gravidez de fúrias e cegueiras,
os bichos perdendo o pé,
eu perdendo as palavras.

Simples espera
daquilo que não se conhece
e, quando se conhece,
não se sabe o nome.


O SOM DE ONTEM, ANTES DO ALMOÇO

De volta ao escritório, navego pelo Spotify e descubro esta grata gravação da tradicional canção Dream a Little Dream of Me, dos anos 1930, com o grupo americano Pink Martini em seu disco de 2014 com os cantores von Trapps, e me lembro do bem-te-vi valentão meu vizinho.

Espécie em extinção, leio ‘O Globo’ no Kahlúa, com ‘Fora Temer’ e tudo

Kahlua

JORNAL E CAFÉ

Leio vários jornais online, mas nos últimos tempos me deu na telha de ir a uma banca, comprar O Globo e me sentar em um café com a calma devida à leitura. Há muito não tinha esse gosto quando não viajava.

Tenho consciência do significado histórico e afetivo que o gesto tem. Sou um dos últimos terráqueos a desfrutar do prazer de combinar café e jornal impresso. Estamos em inexorável extinção, bem sei.

Basta dizer que encontrar certos jornais em bancas de revista de Belo Horizonte tornou-se tarefa para bandeirantes.

Mas, por que O Globo, me indaguei esta manhã? A resposta veio pronta e clara. Ora, o diário dos Marinhos foi o primeiro jornal nacional a que tive acesso. Era o único que chegava a Pedro Leopoldo no final dos anos 1970.

Comprava meu exemplar na banca do Tonico, indo para a rodoviária, e o lia no ônibus da empresa Zezé, durante a hora do trajeto até BH, primeiro para aulas do cursinho, depois para as da Escola Técnica, convertida mais tarde no atual Cefet.

Aquele meu luxo, que solapava o apertado orçamento familiar gerido por minha mãe, ficou associado à negociação diária que nós dois mantínhamos. Quando pedia à Dona Hilda a prata do jornal, além do contadinho para passagem e lanche, antes de conceder o mimo ela não deixava de me cutucar: — Por que não lê o de ontem mesmo, meu nego? — e ria-se.

Da época, o que trago de mais memorável das paginas de O Globo são as colunas de Artur da Távola (1936-2008).

Não tenho dúvida que devo ao jornalista algo do meu gosto pela escrita. Retenho a imagem do segundo caderno dobrado na última página com o texto da coluna, o corpo da letra, a sensação táctil de segurá-la e até o cheiro do papel-jornal, que mal havia começado a ser impresso em offset.

Por meio da prosa a um tempo dúctil, polida e afiada de Artur da Távola, li pela primeira vez algo sobre tomismo, por exemplo. Lembro-me de ele dissertar sobre o início da vida para valer, quando a juventude começa a surgir no retrovisor, e de seus perfis carinhosos e nunca vulgares de atores e atrizes. A crítica de telenovelas jamais foi a mesma depois dele e reduziu-se à fofoca e à banalidade.

CAFÉ E JORNAL

Caminho com meu jornal até o Kahlúa, um dos raros cafés de BH onde você pede um expresso e se sente à vontade para usar seu notebook, ler um livro, jornal ou tomar uma anotação.

O dono do lugar conta, creio, entre casos extremos de capitalistas que militam politicamente com a própria clientela. Há meses, que eu saiba, o freguês do Kahlúa recebe comandas amarelinhas carimbadas com o slogan “FORA TEMER”.

Free country, dizem na corte, e assino embaixo na colônia. Mas me parece claro que o bem-sucedido empresário entende bastante bem de política nacional e sabe calcular seus riscos com a freguesia. Não é homem de renegar o dinheiro, como pode parecer. Vejamos.

O que aconteceria caso ele operasse com sinal trocado e manifestasse sua consciência política, como a maioria dos brasileiros, contra roubalheira e os estragos ao país perpetrados pelo PT com seus aliados?

Aposto um bilhete para Caracas que a distribuição de comandas com uma chancela como VIVA MORO ou ADEUS, QUERIDA desfalcaria a casa para sempre da pecúnia daquela rapaziada exclusivista, pobre e humilde de coração, que só troca afagos e clicadas com seus iguais, com quem comunga a hóstia consagrada pelo corpo e sangue daquele outro judeu, quase tão célebre quanto o nazareno.

Continuo deixando no Kahlúa meus caraminguás e até acho graça dos protestos do seu dono. Dia desses, por chiste, perguntei a ele, sempre simpático e atencioso, como só os melhores negociantes sabem ser, se eu podia pendurar a despesa na conta da afastada. Ele apenas riu, enquanto me devolvia o troco.

O Petrolão chega à crítica de moda, em grande estilo

Editora de O Globo censura trajes e trejeitos
da senhora Eduardo Cunha, que, ao menos acerta na escolha das grifes.
Não está fácil ser rica e elegante para não minimalistas

Consumo de luxo

Infográfico de O Globo com as informações dos extratos dos cartões de Claudia e Daniela Cunha

 

A Operação Lava-Jato, entre vários padrões de roubalheira, denuncia a modalidade lavagem de dinheiro em artigos de luxo, praticada com exuberância por Claudia Cruz, mulher do deputado Eduardo Cunha. “Dinheiro público foi convertido em sapatos e roupas de grifes”, anunciou o procurador Deltan Dallagnol.

Nossa imprensa mostrou-se atenta e perita em examinar os hábitos de Claudia, a quem vimos ao lado do marido na Comissão de Ética da Câmara como que numa terrível mas, por falar nisso, improvável, saia-justa. Desconcertada, sem saber onde pousar os olhos azuis algo esbugalhados, e evidente preocupação com o alinho dos cabelos, Cláudia lembrava a quem lhe assistia pela TV alguém que, por deus, passaria todos os cartões que possuísse para conseguir desaparecer daquela cloaca e ressurgir no refrigério duma loja Louboutin na rive droite.

O Petrolão pode ser visto como desvio ético, como crime contra o patrimônio público e, em seus desdobramentos, também pelo lado da ofensa ao estilo e ao bom gosto dos muito ricos, estágio em que ora entramos.

Em O Globo, a editora do caderno Ela, Renata Izaal, assina o artigo “Claudia Cruz esbanja com marcas, mas jamais foi vista na lista das mais bem-vestidas”. O subtítulo, ou bigode, no jargão, diz: “Excesso nas compras contradiz máxima da moda de que menos é mais”.

O leitor deve abstrair a questão essencial da origem do dinheiro do qual Claudia é, como sabemos, mera usufrutuária. A conversa aqui é outra. Devemos cuidar, isto sim, de certo nível de jequice que a editora do Ela atribui à dona Cunha. Denotasse sofisticação nos seus usos e costumes, por tal viés, estaria redimida.

Izaal põe Claudia, e com isso ela certamente não teria sonhado, ombreada à Maria Antonieta e Imelda Marcos, almas irmanadas pelo amor ao excesso.

Antes, Izaal nos garante que Claudia, ao menos, acertou nas marcas: “Chanel, Balenciaga, Louis Vuitton, Hermès, Prada, Dior e Fendi são alguns dos mais importantes nomes da moda internacional”, aponta, para ponderar e descascá-la, diria Ibrahim Sued, de leve: “Apesar disso, alguém já leu o nome da jornalista em uma daquelas listas das mulheres mais bem-vestidas? Certos milagres nem mesmo a Chanel realiza”.

A especialista em estilo censura Claudia por gostar de bater pernas em Paris entre lojas caras e torrar o burro do cobre em seus passeios. “Dizem os gurus de estilo e, é claro, o bom senso, que ostentar é vulgar, comprar em excesso também”, sentencia.

Ao final, aprendemos com a editora, que, segundo os novos códigos de consumo de luxo, chique hoje, para valer, é alguém “render-se ao dolce far niente numa praia em Tulum, no México: pés descalços, peixe fresquíssimo feito na brasa, festa com os amigos no barco, uma massagem no fim do dia. Talvez custe menos do que uma bolsa Birkin, a mais famosa da Hermès (que pode variar de R$ 30 mil a R$ 200 mil).”

CLAUDIA E CAROLINE

Mario Sergio Conti, na Folha, dedica à questão um número maior de grupos neuronais.

O colunista desenha o fundo econômico da divisão do trabalho e da globalização para localizar o papel da indústria do luxo na Europa, fruto da desindustrialização, e a empenhada contribuição de brasileiros como Claudia Cunha ou Caroline Collor para que as aparências sejam mantidas e enganem a todos os invejosos deste mundão.

As bolsas, vestidos e sapatos são manufaturados “nos subúrbios do planeja” e “turbinados no seu centro” irradiador de modas.

Eis os primeiros parágrafos, muito bem construídos, da coluna de Conti: “Cunha e Collor são luxo só”.

O coração palpita e se agita mais ligeiro diante dos gastos de Fernando Collor e Eduardo Cunha. Registradas em documentos das encrencas jurídicas nas quais estão encalacrados, as suas despesas dão vontade de sambar ao som de João Gilberto: é luxo só. Como o zelo diuturno pelo bem da pátria é exaustivo, Cunha e sua senhora de olhos ofuscantes passaram o Réveillon de 2013 em Miami. Numa semana, detonaram R$ 84 mil. O salário do pio deputado era de R$ 18 mil.

Meses depois, a discreta Caroline Collor foi espairecer na Europa. Não é fácil ser cônjuge de um senador cujo denodo obsessivo é atenuar as agruras de seus conterrâneos das Alagoas. Levou R$ 45 mil em espécie, ofertados por um gentil intermediário de patranhas na Petrobras.

(…)