“Sting volta ao rock, reflete sobre a morte e chora por Tom Jobim”

Jobim Sting

Deu em O Globo esta entrevista do ex-Police a Eduardo Graça. Aqui vai o trecho em questão: 

(…)
Inclusive a namorar a música brasileira, com sua versão de “Insensatez”…

Que aconteceu com Tom (Jobim) sentado ao meu lado, no piano. Foi das últimas coisas que ele gravou. Ah, agora você me deixou emotivo (enxuga lágrimas). Que honra para mim! Tom sabia tudo de Villa-Lobos, de Chopin, do samba, da bossa nova. Mil desculpas pelo choro. É que me deu saudade do Tom. Ah, o tempo…

Breve diário da manhã de ontem

Piemonte

Langue, Piemonte, maio de 2010. Foto: Antônio Siúves

 

7h50 — Nem só de Zica e pestilência do mar vive a imprensa internacional no Rio. Termino no El País a leitura de uma longa matéria, fruto da mais antiga das pautas jornalísticas. A história de mulheres que estão no rio para se prostituírem durante a Olimpíada e, com o suor da labuta, juntarem algum para a realização de um “sonho agridoce”, como diz o título da edição brasileira do diário espanhol.

Uma mulher tem filho para criar, outra não tira o bastante no emprego, uma terceira diz que o mais vetusto dos ofícios é um vício. Ela não conhece ex-puta, observa; cedo ou tarde a maioria volta ao mercado. O final é de chorar:

Una semana después de encontrarlas por primera vez, la convivencia y las conversaciones con el grupo revelaron algo más en común entre ellas: cuando el ruido de los clubes se apaga y el rastro de alcohol y el sexo se pierde por el desagüe de la ducha, lloran en silencio bajo el edredón.

Para ler o texto em português, vá por aqui.


8h — A Folha de S.Paulo segue a fazer seu marketing, a que chama “pluralismo” —no qual a qualidade dos colaboradores nem sempre é decisiva— e a cabalar com seus leitores da esquerda. Estreia a colunista Vanessa Grazziotin, que soube aproveitar como uma Beth Davis em A Malvada seus dias de estrelato no julgamento do impeachment.

A senadora veio se juntar ao escrete de bombordo do jornal: André Singer, Vladimir Safatle, uma economista ilegível de Campinas, um humorista sem graça, todos, intelectualmente, meia-tigela, além daqueles, vários, que não ousam sair do armário ideológico, ou seja, assumir sua óbvia simpatia pelo lulopetismo.

A direita está muito melhor representada no jornal, em cérebro e estilo. Grazziotin carece dois dois. Eis um parágrafo do seu debute, que fala por si:

Preliminarmente, registro minha satisfação em colaborar com um dos mais tradicionais jornais do país que, tal qual o meu partido, o PCdoB, se aproxima de um século de existência. Ninguém sobrevive tanto tempo sem méritos.


8h50 – Saio para andar e cruzo com um bem-te-vi com um grande tufo de folhinhas de trevo no bico. É antes de tudo um forte, reflito. Os pardais desapareceram da minha vizinhança e ninguém deu pela notícia.

Sigo para sacar algum no meu banco. Na porta da agência vejo o mesmo ambulante de há várias semanas, com exemplares do diário do qual vende assinaturas e uma pilha de panelas fajutas ainda em caixas. Acaba de achacar mais um velhinho às voltas com a pensão e, muitas vezes, com os primeiros sintomas do Alzheimer — quando se tornam vítimas preferenciais de certos mascates e gerentes de banco.


9h30 – Primeiro expresso na Savassi, depois do café que eu meu mesmo coei. O Globo discute em editorial o legado dos Jogos para o Rio e conclui que a cidade está mais para Barcelona —modelo virtuoso na história olímpica de proveito para as cidades-sede— que Montreal —referência negativa.

A despeito dos erros, diz o jornal, a nova linha de metrô, a malha de BRTs, o VLT no Centro e a revitalização da área do Porto são obras positivas e transformadoras. Cita também um estudo da Fundação Getúlio Vargas que aponta não sei que ganhos sociais para a cidade durante a execução do projeto olímpico.

Nem uma palavra sobre a malograda despoluição da baia. O Rio e o país se acostumaram à merda.

É fácil prever que o Brasil chegará aos primeiros lugares no quadro de medalhas olímpicas muito antes de poder celebrar a universalização do saneamento básico — um bem fundamental da civilização a que, hoje, menos da metade dos brasileiros têm acesso.


10h20 – Chego à Casa Fiat e conheço a nova Piccola Galleria, onde há uma exposição de fotógrafos italianos do Piemonte. Detenho-me nas obras de Sérgio Fea e seus enquadramentos de vinhedos em La Morra, na província de Cuneo, e de Marco Villa, que mostram a região do Langue diante dos Alpes italianos.

Retomo os dias que percorri aquela terra na primavera, com amigos. Sinto o ar puro, diviso as ondulações suaves do relevo e me integro à calma sob a luz que imprime na memória uma espécie de devaneio, como o sabor do excelente vinho rosado da terra. A foto acima é um registro de minha viagem.


10h40 – No café da Casa Fiat, o segundo expresso e a sexta xícara da manhã. E ainda há quem fale mal da rubiácea.

Releio páginas finais de Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce, do diário de Stephen Dedalus. “O passado é consumido no presente e o presente é vivido somente porque trás consigo o futuro”, anota o artista, pouco antes de lançar-se no mundo, com o célebre registro: “Sê bem-vinda, ó, vida! Eu vou ao encontro, pela milionésima vez, da realidade da experiência, a fim de moldar, na forja da minha alma, a consciência ainda não criada da minha raça”.

Retomo a leitura de O Globo, que, ousadamente para um diário no Brasil de hoje, dá a capa do seu Segundo Caderno ao lançamento de um livro de poesia, ainda mais em uma semana na qual o jornalismo cultural brasileiro comemora um novo produto Harry Potter, agora uma peça de teatro. Ou nem tanto ousado assim, afinal, o moçambicano Mia Couto tornou-se uma estrela da Companhia das Letras. O jornal pinçou dois poemas da coletânea, um deles é

A ADIADA ENCHENTE

Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.

Gravidez de fúrias e cegueiras,
os bichos perdendo o pé,
eu perdendo as palavras.

Simples espera
daquilo que não se conhece
e, quando se conhece,
não se sabe o nome.


O SOM DE ONTEM, ANTES DO ALMOÇO

De volta ao escritório, navego pelo Spotify e descubro esta grata gravação da tradicional canção Dream a Little Dream of Me, dos anos 1930, com o grupo americano Pink Martini em seu disco de 2014 com os cantores von Trapps, e me lembro do bem-te-vi valentão meu vizinho.

Espécie em extinção, leio ‘O Globo’ no Kahlúa, com ‘Fora Temer’ e tudo

Kahlua

JORNAL E CAFÉ

Leio vários jornais online, mas nos últimos tempos me deu na telha de ir a uma banca, comprar O Globo e me sentar em um café com a calma devida à leitura. Há muito não tinha esse gosto quando não viajava.

Tenho consciência do significado histórico e afetivo que o gesto tem. Sou um dos últimos terráqueos a desfrutar do prazer de combinar café e jornal impresso. Estamos em inexorável extinção, bem sei.

Basta dizer que encontrar certos jornais em bancas de revista de Belo Horizonte tornou-se tarefa para bandeirantes.

Mas, por que O Globo, me indaguei esta manhã? A resposta veio pronta e clara. Ora, o diário dos Marinhos foi o primeiro jornal nacional a que tive acesso. Era o único que chegava a Pedro Leopoldo no final dos anos 1970.

Comprava meu exemplar na banca do Tonico, indo para a rodoviária, e o lia no ônibus da empresa Zezé, durante a hora do trajeto até BH, primeiro para aulas do cursinho, depois para as da Escola Técnica, convertida mais tarde no atual Cefet.

Aquele meu luxo, que solapava o apertado orçamento familiar gerido por minha mãe, ficou associado à negociação diária que nós dois mantínhamos. Quando pedia à Dona Hilda a prata do jornal, além do contadinho para passagem e lanche, antes de conceder o mimo ela não deixava de me cutucar: — Por que não lê o de ontem mesmo, meu nego? — e ria-se.

Da época, o que trago de mais memorável das paginas de O Globo são as colunas de Artur da Távola (1936-2008).

Não tenho dúvida que devo ao jornalista algo do meu gosto pela escrita. Retenho a imagem do segundo caderno dobrado na última página com o texto da coluna, o corpo da letra, a sensação táctil de segurá-la e até o cheiro do papel-jornal, que mal havia começado a ser impresso em offset.

Por meio da prosa a um tempo dúctil, polida e afiada de Artur da Távola, li pela primeira vez algo sobre tomismo, por exemplo. Lembro-me de ele dissertar sobre o início da vida para valer, quando a juventude começa a surgir no retrovisor, e de seus perfis carinhosos e nunca vulgares de atores e atrizes. A crítica de telenovelas jamais foi a mesma depois dele e reduziu-se à fofoca e à banalidade.

CAFÉ E JORNAL

Caminho com meu jornal até o Kahlúa, um dos raros cafés de BH onde você pede um expresso e se sente à vontade para usar seu notebook, ler um livro, jornal ou tomar uma anotação.

O dono do lugar conta, creio, entre casos extremos de capitalistas que militam politicamente com a própria clientela. Há meses, que eu saiba, o freguês do Kahlúa recebe comandas amarelinhas carimbadas com o slogan “FORA TEMER”.

Free country, dizem na corte, e assino embaixo na colônia. Mas me parece claro que o bem-sucedido empresário entende bastante bem de política nacional e sabe calcular seus riscos com a freguesia. Não é homem de renegar o dinheiro, como pode parecer. Vejamos.

O que aconteceria caso ele operasse com sinal trocado e manifestasse sua consciência política, como a maioria dos brasileiros, contra roubalheira e os estragos ao país perpetrados pelo PT com seus aliados?

Aposto um bilhete para Caracas que a distribuição de comandas com uma chancela como VIVA MORO ou ADEUS, QUERIDA desfalcaria a casa para sempre da pecúnia daquela rapaziada exclusivista, pobre e humilde de coração, que só troca afagos e clicadas com seus iguais, com quem comunga a hóstia consagrada pelo corpo e sangue daquele outro judeu, quase tão célebre quanto o nazareno.

Continuo deixando no Kahlúa meus caraminguás e até acho graça dos protestos do seu dono. Dia desses, por chiste, perguntei a ele, sempre simpático e atencioso, como só os melhores negociantes sabem ser, se eu podia pendurar a despesa na conta da afastada. Ele apenas riu, enquanto me devolvia o troco.

O Petrolão chega à crítica de moda, em grande estilo

Editora de O Globo censura trajes e trejeitos
da senhora Eduardo Cunha, que, ao menos acerta na escolha das grifes.
Não está fácil ser rica e elegante para não minimalistas

Consumo de luxo

Infográfico de O Globo com as informações dos extratos dos cartões de Claudia e Daniela Cunha

 

A Operação Lava-Jato, entre vários padrões de roubalheira, denuncia a modalidade lavagem de dinheiro em artigos de luxo, praticada com exuberância por Claudia Cruz, mulher do deputado Eduardo Cunha. “Dinheiro público foi convertido em sapatos e roupas de grifes”, anunciou o procurador Deltan Dallagnol.

Nossa imprensa mostrou-se atenta e perita em examinar os hábitos de Claudia, a quem vimos ao lado do marido na Comissão de Ética da Câmara como que numa terrível mas, por falar nisso, improvável, saia-justa. Desconcertada, sem saber onde pousar os olhos azuis algo esbugalhados, e evidente preocupação com o alinho dos cabelos, Cláudia lembrava a quem lhe assistia pela TV alguém que, por deus, passaria todos os cartões que possuísse para conseguir desaparecer daquela cloaca e ressurgir no refrigério duma loja Louboutin na rive droite.

O Petrolão pode ser visto como desvio ético, como crime contra o patrimônio público e, em seus desdobramentos, também pelo lado da ofensa ao estilo e ao bom gosto dos muito ricos, estágio em que ora entramos.

Em O Globo, a editora do caderno Ela, Renata Izaal, assina o artigo “Claudia Cruz esbanja com marcas, mas jamais foi vista na lista das mais bem-vestidas”. O subtítulo, ou bigode, no jargão, diz: “Excesso nas compras contradiz máxima da moda de que menos é mais”.

O leitor deve abstrair a questão essencial da origem do dinheiro do qual Claudia é, como sabemos, mera usufrutuária. A conversa aqui é outra. Devemos cuidar, isto sim, de certo nível de jequice que a editora do Ela atribui à dona Cunha. Denotasse sofisticação nos seus usos e costumes, por tal viés, estaria redimida.

Izaal põe Claudia, e com isso ela certamente não teria sonhado, ombreada à Maria Antonieta e Imelda Marcos, almas irmanadas pelo amor ao excesso.

Antes, Izaal nos garante que Claudia, ao menos, acertou nas marcas: “Chanel, Balenciaga, Louis Vuitton, Hermès, Prada, Dior e Fendi são alguns dos mais importantes nomes da moda internacional”, aponta, para ponderar e descascá-la, diria Ibrahim Sued, de leve: “Apesar disso, alguém já leu o nome da jornalista em uma daquelas listas das mulheres mais bem-vestidas? Certos milagres nem mesmo a Chanel realiza”.

A especialista em estilo censura Claudia por gostar de bater pernas em Paris entre lojas caras e torrar o burro do cobre em seus passeios. “Dizem os gurus de estilo e, é claro, o bom senso, que ostentar é vulgar, comprar em excesso também”, sentencia.

Ao final, aprendemos com a editora, que, segundo os novos códigos de consumo de luxo, chique hoje, para valer, é alguém “render-se ao dolce far niente numa praia em Tulum, no México: pés descalços, peixe fresquíssimo feito na brasa, festa com os amigos no barco, uma massagem no fim do dia. Talvez custe menos do que uma bolsa Birkin, a mais famosa da Hermès (que pode variar de R$ 30 mil a R$ 200 mil).”

CLAUDIA E CAROLINE

Mario Sergio Conti, na Folha, dedica à questão um número maior de grupos neuronais.

O colunista desenha o fundo econômico da divisão do trabalho e da globalização para localizar o papel da indústria do luxo na Europa, fruto da desindustrialização, e a empenhada contribuição de brasileiros como Claudia Cunha ou Caroline Collor para que as aparências sejam mantidas e enganem a todos os invejosos deste mundão.

As bolsas, vestidos e sapatos são manufaturados “nos subúrbios do planeja” e “turbinados no seu centro” irradiador de modas.

Eis os primeiros parágrafos, muito bem construídos, da coluna de Conti: “Cunha e Collor são luxo só”.

O coração palpita e se agita mais ligeiro diante dos gastos de Fernando Collor e Eduardo Cunha. Registradas em documentos das encrencas jurídicas nas quais estão encalacrados, as suas despesas dão vontade de sambar ao som de João Gilberto: é luxo só. Como o zelo diuturno pelo bem da pátria é exaustivo, Cunha e sua senhora de olhos ofuscantes passaram o Réveillon de 2013 em Miami. Numa semana, detonaram R$ 84 mil. O salário do pio deputado era de R$ 18 mil.

Meses depois, a discreta Caroline Collor foi espairecer na Europa. Não é fácil ser cônjuge de um senador cujo denodo obsessivo é atenuar as agruras de seus conterrâneos das Alagoas. Levou R$ 45 mil em espécie, ofertados por um gentil intermediário de patranhas na Petrobras.

(…)