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Ju #44

Desde o Belo. 23 a 29/10/2020. Nº 44. Ano 2

Opa! Vamos apear?

Apraz-lhe, leitor amigo, uma cidade invernal, bela, ainda que feia, com jeitin nórdico, ainda que austral, só que em plena primavera, depois de um calor setembrino, seco e feroz, caçar nossos escalpos?

Assim está o Belo, dei gratia, enquanto batuco este número da Ju, mais um texto a acenar para a “abundância superficial” da internet…

Pres’tenção, moça, é tomado pelo altruísmo que tenho me dedicado ao serviço de trazer pra cá, para o blog, todo o acervo da Jurupoca.

Até esta quinta-feira (22), foram postadas as edições de 0 a 12, nas respectivas datas de envio da newsletter. Os links vão ao pé desta carta.

Oportunamente, todo o acervo estará neste Livro de Viagem, ainda que, graças ao Corona, nos últimos tempos, a viagem, a viagem mesmo, realmente, mas realmente, só ao redor do meu quarto, como o Maistre.


A MILÍCIA É A GLÓRIA
DO BRASIL DO CAVEIRÃO

A HORA DO ATRASO — A milícia avança, a civilização recua. A milícia prospera e a democracia empaca. A moralidade que pariu o esquadrão da morte e cresceu nos aparatos de tortura e assassinato da ditadura subsiste no incontestável sucesso das organizações milicianas, ora com desinibida torcida no Congresso Nacional.

A PREMIAÇÃO — A recompensa da extorsão e outros crimes é conhecida. Se materializa nos carrões zero quilômetro, nas lanchas, nas moradias nos condomínios fechados (o céu fica na Barra da Tijuca, essa nossa Miami com esgoto a céu aberto), nos relógios de grife e nas pesadas joias de ouro. A ascensão na vida — riqueza, sucesso, status e “respeitabilidade” mantida pelo medo — é celebrada em churrascadas com bebidas caras e prostitutas, ao som do funk no último furo. Revólveres e fuzis à mancheia asseguram a virilidade de tais cabras, que, por certo, honram suas mulheres e filhos, além do Brasil que venceu as eleições de 2018.

A HORA DO CAPITÃO — “Bolsonaro e sua família são representantes ideológicos de uma cultura miliciana que se fortaleceu no Rio e chegou à presidência do Brasil”, resume Bruno Paes Manso, já para o fim de A República das milícias (Todavia).

A GRANDE ALIANÇA — Mancomunados com bicheiros, paramilitares se aliam, por fim, a traficantes contra uma facção rival de ambos. Chegam a alugar ao tráfico os caveirões — veículos blindados usados pela polícia para entrar nos morros — comprados com dinheiro público, como seus próprios serviços, além de se servir de informações privilegiadas da inteligência militar.

A SANTA ALIANÇA — Paramilitares podem se converter em narcomilícias e bancar excrescências como o bando “traficantes de cristo”. O “Bonde de Jesus”, nomeado assim na imprensa carioca, mata, tortura e persegue praticantes do candomblé e da umbanda.

Ô DE CASA — O sindicato de assassinos, vulgo “Escritório do Crime”, bueiro de onde emergiram os matadores de Marielle e Anderson, é íntimo do comando de batalhões nas zonas de domínio miliciano. E seus próceres mijam de porta aberta nas secretarias de segurança e gabinetes de deputados e vereadores, agora também no Congresso Nacional. Os crimes dessa gente vão para uma conta corporativa, onde é dando, e encobrindo, que se recebe, sempre em cash. Como diz Paes Manso, esqueça os filmes americanos, a investigação criminal, no Rio e por aí afora, não é muito diferente da que era feita nos dias de Lampião.

ESPÍRITO DA ÉPOCA — Este é o mundo favorecido pela facilitação da venda de armas e pela redução do controle da matança policial, modalidade em que somos campeões em tudo.

QUEBRA DE TABU — Na Globo, inimiga número 1 do “capitão da República das Milícias” (Paes Manso), criminoso ou suspeitoso é “bandido”, não importa quantas vítimas de “balas perdidas” rendam comoção no Jornal Nacional. Aliás, livros como o de Bruno Paes Manso ensinam algo sobre a qualidade da nossa imprensa. Foi Bruno, em 2007, enviado pelo Estadão, que quebrou o tabu que proíbe jornalista de entrar em favela. Ele foi o único repórter a subir o Morro do Alemão, depois da cinematográfica operação militar realizada no complexo de favelas, cuja cobertura, por sinal, rendeu um prêmio Emmy à Globo. Subiu o morro e mostrou desmandos de policiais. Ouviu moradores e anotou denúncias de roubo, invasões arbitrárias a moradias e brutalidade incontida da tropa liberada.  

NOVO PARADIGMA — “O entusiasmo que tinha vindo com a Nova República, com a adoção de políticas educacionais, a formação de cidadãos nas favelas e de uma polícia legalista, perdeu espaço para outro paradigma, o da guerra ao crime”, comenta Paes Manso.

PLACAS DE ALERTA — Todas as entradas que dão acesso ao Rio e à Baixada Fluminense deveriam ter placas florescentes para prevenir os mais crédulos, como o Inferno de Dante Alighieri: Deixai toda esperança, vós que entrai.

CAETANOS E CHICOS
NÃO CANTAM NA ZONA OESTE

Inferno à parte, a elite carioca descolada vive bem nos frescor de seus triplex. Caetanos, em eterna crise de identidade-ideológico-existencial entre

o liberalismo e a esquerda que não tem vergonha, nesta altura do campeonato da barbárie, de catar feijões bizantinos entre Hitler e Stalin, e chicos, sempre fiéis a seu castrismo, lançam brados, entoam canções e escrevem romances que espantam, maravilham, chocam, indignam, e, merecidamente, vendem bem. As Caravelas retrata, em versos magistrais, uma guerra de brancos ricos da Zona Sul (vai aí um trechinho da letra) contra jovens pretos que descem das comunidades para ir à praia, os mesmos que, na prisão, remetem aos “crioulos empilhados no porão/ de Caravelas no alto mar”. Já o leitmotiv das milícias e da ordem brutal que governa o cotidiano de um em cada três habitantes da cidade, esse não parece muito inspirador, pois sequer é compreensível, ou midiático. Novo é que não é, já que prospera desde o ano 2000. Até pensei um dia que não existia a tirania do Comando Vermelho e das facções aliadas dos milicianos — Terceiro Comando Puro (TCP) e Amigos dos Amigos (ADA). A culpa deve ser do sol.

[...]
A caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba
A caravana do Irajá, o comboio da Penha
Não há barreira que retenha esses estranhos
Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
A caminho do Jardim de Alá
É o bicho, é o buchicho, é a charanga

Diz que malocam seus facões e adagas
Em sungas estufadas e calções disformes
É, diz que eles têm picas enormes
E seus sacos são granadas
Lá das quebradas da Maré
Com negros torsos nus deixam em polvorosa
A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné

Sol, a culpa deve ser do sol
Que bate na moleira, o sol
Que estoura as veias, o suor
Que embaça os olhos e a razão
E essa zoeira dentro da prisão
Crioulos empilhados no porão
De caravelas no alto mar

O MELHOR HUMOR
 DO PAÍS AINDA RI!

Cronistas, artistas, celebridades, boa parte deles ao menos, conservam a relaxação e o humor incomparável, o melhor do país. O humor que evola da brisa marinha e do suor, dos bares, das rodas de samba e do Carnaval. O humor que se espelha na leveza dos cronistas, os melhores do país. Alguns, como o grande Ruy Castro, ainda podem ostentar seu orgulho desinibido para relativizar a desgraça, com toda graça. Não troca o Rio por nada. A reca de governadores, parlamentares e conselheiros do Tribunal de Contas na carceragem de Bangu, sem falar no criatório insalubre onde prosperou !Caveirão.105mm! pode ser um detalhe, conforme se favorece este ou aquele ponto de vista com ou sem janela para o mar, ou até uma vantagem comparativa, como sugere Ruy, sobre Minas e São Paulo, quando ele cobra, com absoluta, profunda e rotunda razão, tratamento equânime da Justiça para políticos bem relacionados na nossa insuspeita mais alta corte.

A PINDAÍBA UNIVERSAL
DO ARTISTA NA ERA
DA AMAZON E DO SPOTIFY

Como disse Karl Kraus, o verdadeiro fim do mundo é o aniquilamento do espírito. Pode que o mundo esteja acabando. O artista morre, ou se arrasta, tecnicamente morto, perdido na “abundância supérflua” da internet. A ironia, a complexidade e a sutileza perderam o jogo para o que é breve, brilhante, barulhento e fácil de entender. Leio no Los Angeles Review of Books uma crítica de Robert Diab ao livro de  William Deresiewicz: The Death of the Artist: How Creators Are Struggling to Survive in the Age of Billionaires and Big Tech (A morte do artista: como os criadores estão lutando para sobreviver na era dos bilionários e das Big Tech). Spotify, Amazon etc. prometeram um lugar ao sol para todo mundo. Pura propaganda enganosa, acusa Deresiewicz. Músicos e escritores estão à míngua e sem proteção institucional num mercado pulverizado e espumoso. A imensa maioria não consegue viver decentemente do que escreve ou compõe, conclui o autor, depois de entrevistar uma centena de artistas. Há 6 milhões de livros na plataforma Kindle, da Amazon, nos EUA, quase só autopublicação; 68% das obras não vendem mais de duas cópias por mês. Apenas 2 mil autores da loja Kindle conseguem ganhar mais de 25 mil dólares por ano, uma merreca nos EUA. No Spotify, menos de 4% dos 2 milhões de artistas inscritos na plataforma levam 95% do bolo arrecadado com “streams” (cada música tocada por mais de 30 segundos). “A torta foi pulverizada em um milhão de pequenas migalhas. Podemos agora ter acesso universal ao público, mas ao preço do empobrecimento universal”, anota Diab, citando Deresiewicz.  

SE TRUMP VENCE,
SUBIMOS PARA MARTE, TÁ OK?

Novembro, 3, vamos todos votar em Joe Biden, falou? Já enviei meu voto translato pelos correios. O escritor David Eggers, que escreve com o martelete, tem o que falar. Seu artigo é o mais destacado da edição “monográfica” do Babelia, caderno cultural do El País, sobre as eleições americanas. Conta que muita gente de seu círculo californiano tem a mochila feita para cair fora, numa reeleição de Trump. Canadá, Austrália, Nova Zelândia são destinos mais prováveis. Ele próprio pensa em voltar para um refúgio na Canárias onde passou três meses com a família no ano passado, num folga da insana América. E quanto ao resto dos terráqueos, o que fazer? Subir para Marte? Já podíamos ter subido. “Os Estados Unidos são uma mistura aterrorizante de reality show televisivo, república bananeira e estado fracassado”, define Eggers no artigo cujo título é À beira do abismo. Compara o quadriênio Trump a uma acidente de carro do qual ninguém conseguiu desviar o olhar todo esse tempo. Constata que desapareceu entre os partidos o consenso sobre honra e decência. “Os republicanos foram espectadores silenciosos enquanto Trump convertia nosso país numa piada cleptocrática”, martela.

O QUE É UM “AMERICANO
 NUMA HORA ABISMAL?

O que é ser americano pra mim?, esta terra dos bravos e livres, indaga melancolicamente Madeleine Peyroux no novo single American, bem no estilo no qual se definiu entre o jazz e pop. O país se meteu numa sinuca com o Agente Laranja. Quem pensa e sente vai pelo fundo do poço, como nós também. O vídeo com a letra está aí.

CORAGEM PARA ELOGIAR
WOODY ALLEN?
SÓ SE FOR NA ESPANHA

Com a propriedade de sempre prosa certeira, Javier Cercas tece loas à autobiografia de Woody Allen, A propósito de nada, que deve sair em português ainda este ano, não se sabe se com esse título, uma tradução direta de Apropos of Nothing. Doravante, ele anuncia que indicará o livro a escritores iniciantes — sempre que responder a pergunta que tanto lhe fazem, como professor e escritor bem-sucedido que é — além da Correspondência de Flaubert. Depois de matizar o fracasso da “fase bergmaniana” de Allen, de filmes como Setembro, o espanhol anota: “[…] um escritor (ou um cineasta que não tem a coragem de se arriscar a fracassar não é um escritor (ou um cineasta): é um escrivão; quer dizer: um mascate”. Cercas termina seu texto, em uma referência ao #MeToo, organização feminista que transformou o diretor, nos EUA, em menos que um zumbi, a ponderar: “E quanto ao filme de terror que ainda vive Allen, me resignarei ao óbvio: a este homem está crucificando um movimento necessário, que, ao crucificá-lo, perde a razão. Além de uma injustiça monstruosa, é um erro monumental”.

FAGNER VOLTA À SERESTA
E ACHA UM BRASIL PERDIDO

Raimundo Fagner Cândido Lopes seresteiro? É. Entre o chamado “pessoal do Nordeste” (Belchior, Ednardo, Alceu Valença, Zé Ramalho e companhia) nosso cantautor, hoje aos 71 anos, é o que mais influências traz nas veias. Filho de um libanês cantor de rádio, carrega ressonâncias árabes e ibéricas que se misturam ao onipresente legado do Rei do Baião. Traduzir-se, icônico LP de 1981 gravado na Espanha, deixa isso bem assentado. “A voz de um árabe tem modos e intervalos de semitons que o baião criado por Seu Luiz, Luiz Gonzaga, tem também”, observa Julio Maria no Estadão. Fagner guardava a seresta da meninice, da vizinhança em Orós do menestrel compositor Evaldo Gouveia e do irmão seresteiro, Fares Cândido Lopes. Serenata, álbum a sair pela Biscoito Fino em novembro, é um acerto de contas com a memória afetiva, comenta Mauro Ferreira em seu blog. O single Lábios que beijei, linda valsa de J. Cascata e Leonel Azevedo,  lançada em 1937 por Orlando Silva, é uma aperitivo fino. Revela um sofisticado trabalho de resgate, renovação e fidelidade ao gênero. O arranjo incorpora a delicadeza do piano de Cristóvão Bastos, o violão de João Lyra e as deliciosas “baixarias” — uma marca do seresteiro — de João Camarero, no sete cordas. Fagner se contém no canto e abre mão dos agônicos vibratos, valorizando a beleza da letra e o tecido instrumental. As 11 faixas do disco, no apontamento de Ferreira, incluem “Rosa (Pixinguinha com letra posterior de Otávio de Souza, 1917 / 1937), Malandrinha (Freire Júnior, 1927), Maringá (Joubert de Carvalho, 1931), Noite cheia de estrelas (Cândido das Neves, 1932), Serenata (Silvio Caldas e Orestes Barbosa, 1935), Chão de estrelas (Silvio Caldas e Orestes Barbosa, 1937), Deusa da minha rua (Newton Teixeira e Jorge Faraj, 1939), Serenata do adeus (Vinicius de Moraes, 1958), Valsinha(Chico Buarque e Vinicius de Moraes, 1970) e As rosas não falam (Cartola, 1976)”, além de Mucuripe, do próprio Fagner em parceria com Belchior, 1972.

EM OS 7 DE CHICAGO
A ARTE DO ROTEIRO

“O final de Os 7 de Chicago é Hollywood puro”, diz Bruno Tomé, citando Tom Nicholson, da revista Esquire, em artigo sobre o que é fato e ficção na fita. Fiel ou mais ou menos fiel à história, o filme na Netflix é entretenimento qualificado. Seu tema são os protestos em Chicago contra o sumidouro do Vietnã, em 1968, que desbordaram em violência policial e levaram aos tribunais sete líderes líderes do movimento pacifista, entre eles os célebres ativista Abbie Hoffman (Sacha Baron Cohen) e Jerry Rubin (Jeremy Strong). O roteiro de Aaron Sorkin (Oscar pelo roteiro adaptado por A rede social), que também dirige Os 7 de Chicago, aqui, mais uma vez, é a grande atração. Seus diálogos são vibrantes e rápidos — muitas vezes excessivamente, como na série The Newsroom. A ambientação é pontuada de lances que colorem a narrativa, imitando a vida. Um filme não acontece se, ao nos pôr dentro de nós, não nos põe também dentro dele próprio, filme, e não nos faz esquecer de nós e do tempo, por algum tempo. E tal efeito não acontece sem um bom roteiro.

PÁTRIA, AFINAL,
GRANDE MINISSÉRIE

Esqueça a lenga-lenga desta Ju sobre o primeiro episódio de Pátria, minissérie da HBO baseada romance de Fernando Aramburu, que eu havia comentado e recomendado desde Ju #08, muito antes da transposição para a telinha ser cogitada por aqui. Desdigo-me, pois. A série é estupenda. A adaptação de Aitor Gabilondo, direção, elenco, fotografia são dignos do livro, minha melhor leitura em 2019. A história se consolida no terceiro episódio, quanto a trama se encarna e o drama se enquadra. Se você tem algum interesse ou curiosidade pela existência do ETA e pelo País Basco, é pedida obrigatória. No El País, Luis R. Aizpeolea aponta o fosso em que recaíram ataques à série da parte de dirigentes do Bildu, agremiação da esquerda nacionalista. Na raiz da insânia terrorista, com seus ecos, seria possível equiparar e o terror e a sangueira “patriótica”, de inspiração marxista, a seu combate pelo estado espanhol. Os ataques politizam a minissérie, acusa Aizpeolea, sob o risco de deter a saudável revisão autocrítica do passado, que vem se dando aos trancos e barrancos.

INTERVALO

O sentido último da lírica, em seu intrincado e elusivo tema, ou temas, é impenetrável. Mas se trata de uma obra prima, e das maiores. Qual?

A canção três em uma é O que será, em suas variações, Abertura, À flor da pele e À flor da terra, de Chico Buarque de Hollanda.

Foi composta para Dona Flor e seus dois maridos, filme de Bruno Barreto lançado em novembro de 1976 e recordista de público no país por mais de 30 anos, só quebrado em 2010, por Tropa de Elite 2. No cinema, ouvimos a música na penetrante voz de Simone.

Este Intervalo propõe as gravações de Chico e Milton Nascimento dos LPs Meus caros amigos (Phonogram / Philips), de Chico, em ritmo mais alentado, e Geraes (EMI-Odeon), de Milton, em andamento lento. Ambas as bolachas saíram em 1976, com arranjos de Francis Hime, divididos com Bituca no Geraes.

Wagner Homem narra em História de canções – Chico Buarque (Leya, 2009) que o compositor viu diversas vezes o copião de Dona Flor, mas acabou se inspirando para escrever numas fotografias de Cuba que o jornalista Fernando Moraes lhe havia mostrado. Daí Chico ter batizado a música de “cubaião”, baião cubano, mix de ritmos afro-cubanos com o nordestino. Homem continua:

“Entretanto, as três letras nada têm a ver com Cuba, ele garante. Quando, em 1992, Chico teve acesso à sua ficha no Dops, deu de cara com a interpretação que os censores fizeram da letra e achou graça, já que nem ele mesmo sabe ‘o que será’, e se soubesse não haveria sentido em explicar, uma vez que a letra em si é uma pergunta. O dueto com Milton Nascimento surgiu de maneira absolutamente casual. Francis Hime tocava a canção ao piano na gravadora quando Milton, que estava no estúdio ao lado, ouviu, encantou-se com a música e sugeriu que fosse cantada em dueto pela dupla. Chico e Francis gostaram da ideia determinaram os arranjos já considerando a voz do cantor mineiro.”  

Um paper do mestre de comunicação Emerson Ike Coan recorre a José Miguel Wisnik ao abordar essa canção. Para Wisnik, a MPB durante a ditadura exerceu o papel de “uma rede de recados”. E não faltam recados aqui.

O bordão das adivinhas, “o que será, que será”, empregado por Chico nas variantes que retratam o amor carnal desmedido e o clamor libertário, abre uma série de ambivalências onde oscilam pulsões reprimidas a ponto de eclodir, que desacatam a gente, que salta aos olhos, que não tem mais jeito de dissimular… 

História cultural e exegese à parte, não me parece que se possa subestimar a força e beleza da melodia e a maravilha dos duetos Chico & Milton, nos quais, por certo, sobressai a potência e o verdadeiro milagre da voz de Bituca em seu esplendor. Sua introdução ao canto, em vocalize no Geraes é toda uma primeira missa, todo um lamento anterior ao Big Bang, ou uma mensagem aos anjos e ao Redentor em nome da humanidade ferida que, a um tempo, se redime no próprio canto. A voz e Milton é um luxo absurdo!

O QUE SERÁ – Chico Buarque. Três versões

Abertura

O que será que lhe dá
O que será meu nego, será que lhe dá
Que não lhe dá sossego, será que lhe dá
Será que o meu chamego quer me judiar
Será que isso são horas de ele vadiar
Será que passa fora o resto do dia
Será que foi-se embora em má companhia
Será que essa criança quer me agoniar
Será que não se cansa de desafiar
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda Bahia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo…

À flor da terra

O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza

Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho

O que será que será
Que vive nas ideias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia a dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos

Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido

O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo

À flor da pele

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo.

E DAÍ? (¿QUÉ MÁS DA?)

“E daí?”, diz o escritor espanhol Manuel Vicent, “que exista um ou mil universo, com um número de galáxias e estrelas além da imaginação, se no fundo não passam de pedras incandescentes ou mortas que dão voltas e voltas cegamente, sem sentido algum”. Ele segue nessa batida, “qué más dá” (expressão que pode ser traduzida como “que diferença faz?” ou “que importa?”) e já próximo do final, reflete: “E daí? que digam os cientistas que a vida não passa de um conjunto de carbono, hidrogênio e nitrogênio, com uma pitada de enxofre combinados ao acaso, se, depois de tudo, esses elementos químicos te conduzem ao sorriso da Gioconda, aos versos de Walt Whitman ou à luz de Matisse”. Vicent fecha a crônica, como chamaríamos esse gênero de texto no Brasil, com maestria: “E se ao final aqueles sonhos que você teve na juventude se reduzem a jogar uma partida de tute na casa de um aposentado e a confundir a felicidade com o bom resultado do exame de urina, e daí?

 

«Em 26 de setembro fez 20 anos da morte de Baden Powell (1937-2000). A Jurupoca celebra, em tempo, a grande arte e a memória do violinista, compositor. Reinaldo Figueiredo, na Rádio Batuta, dedica-lhe um programa especial. O Instituto Moreira Salles guarda o acervo do artista, que é cheio de raridades.»

«Nem bossa nova, nem afro-samba: Vinicius de Moraes estreou em ritmo de fox. Por Pedro Paulo Malta no site Discografia Brasileira, do IMS.»

«The Day the Music Died ou as celebrações aos 50 anos de American Pie, além de um entrevista com seu autor, Don McLean. No The Guardian.»

«Keith Jarrett encara o futuro sem piano. No New York Times.»

«Pedro Almodóvar: “O algoritmo me apavora e horroriza”. Por Elsa Fernández-Santos, no El País Brasil.»

«Estados Unidos: à beira do abismo: Guia cultural para entender uma sociedade partida. Os livros sobre Trump, o feminismo, as armas, os opiáceios ou o Vale do Silício dominaram os quatro anos de mandato do presidente. Edição especial do Babelia, no El País, em espanhol, ou no El País Brasil

«Corrupção, Raiva, Caos, Incompetência, Mentiras, Decadência. O Caso contra Donald Trump, pelo conselho editorial do The New York Times.»

«Duelo à distância — Sabatinas conferiram a Trump derrota no quesito pelo qual é obcecado: a audiência. Por Dorrit Harazin, no Globo.»

«Backer faz festa e relança cerveja dez meses após casos de intoxicação. Por Izabela Ferreira Alves, em O Tempo.»

NÚMEROS ‘ATRASADOS’ DA JU:
«São estes os números anteriores da Ju, enviados exclusivamente por e-mail para os assinantes da Tinyletter, já disponíveis no blog: #0#01#02#03#04#05#06#07#08#09#10#11#12»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.


Ju #41

Belo. 2 a 8/10/2020. Nº 41. Ano 2

Quando ao meio-dia se está um pouco cansado, isso faz parte do curso natural e feliz do dia. “Para estes senhores, aqui é sempre meio-dia”, disse K. para si mesmo.

Essa balbúrdia de vozes nos quartos tinha algo de extremamente alegre. Soava ora como os gritos de júbilo de crianças que se preparam para uma excursão, ora como o alvorecer num galinheiro, como a euforia de estar em plena harmonia com o dia que raiava, em alguma parte um senhor até imitou o canto de um galo.
Franz Kafka, trechos de O castelo, tradução Modesto Carone, Companhia das Letras.

“Alguns livros funcionam como uma chave para as salas desconhecidas do nosso próprio castelo”.
Anotação de Kafka citada no posfácio de Modesto Carone.

Opa! Vamos apear?  

A leitura de Kafka é intrigante de cabo a rabo. Obscuras  dobras do mundo que mal intuímos parecem receber um pouco da luz solar, ainda que as cenas noturnas de seus romances, (mal) iluminadas por velas, lampiões a querosene e débeis luzes elétricas, sejam, tantas vezes, as mais reveladoras, ou mais aparentemente reveladoras. Não é por nada ele é chamado de “o poeta de Praga” por seu tradutor.

Que personagem fascinante é este escritor, morto a um mês de completar 41 anos. Como sua obra é universal. E quantos ensaios, contos, relatos biográficos e comentários de toda sorte esse fascínio produziu?, para não falar dos diagnósticos psiquiátricos e das tentativas filosóficas e psicanalíticas de decifrar seu universo. Modesto Carone aponta a fortuna crítica do ficcionista no longínquo 1980, quando ultrapassava os dez mil títulos, “entre livros e artigos de porte”. O que permanece irredutível é a relação entre o leitor e a obra.

Tenho me valido dela, da obra kafkiana, nesses dias, para me remediar, ou melhor, refugiar da babel, da permanente orgia da frivolidade (sei das implicações e do rechaço que esta minha expressão pode sofrer, e não me sinto nada desconfortável por saber disso) e da destruição da dignidade do pensamento, no dizer de Hannah Arendt, apesar de a primavera ter entrado em inumano modo micro-ondas, o que pode derreter o gelo e a neve dos píncaros kafkianos, além de nossos miolos.

A ficção de Kafka pode nos ajudar a compreender e aceitar a realidade, mas ela nada tem de anestésica. Não nos livra do choque contra a estupidez, a indiferença ou o poder degenerado. Faz bem o contrário disso.

Vivemos a ilusão de que entendemos tudo, e de que tudo está ao alcance do nosso saber, nada mais temos a aprender, inclusive e sobretudo para educar os sentidos e, sim, valorar a beleza.

Atomizados ou tribalizados, deixamos nos encobrir pela névoa do presente e pela capa da superficialidade. O autor de A metamorfose, também por isso, nos vale por uma pedagogia literária e humanística.

Sinto que a maré do Corona, com seu, muito por baixo, um milhão de mortos empilhados, e todo o repertório da distopia em pauta, da emergência climática à derrota da razão, nada disso vai quebrar o verdadeiro isolamento social em que nos metemos.

Contra todas as evidência e apesar dos pesares, nunca fomos tão confiantes, sob as bênçãos da ciência e da “destruição criativa” — expressão do economista Joseph Schumpeter derivada daquele “tudo que é sólido desmancha no ar”, quase-slogan do Manifesto comunista) — do Vale do Silício, que é verdadeiramente destrutiva e criativa apenas segundo suas próprias finalidades.

Mas vai que tenha sido sempre assim, que sejamos os mesmos conforme alguma essência, apenas a história muda, como mudam as condições de sobrevivência. Como indivíduos, de um jeito ou de outro, sempre vai nos assombrar algum processo, a despeito de nossa pretensa inocência, a ambição de acessar algum castelo impenetrável (outro mundo, outra vida, melhor que a que temos?), e algum medo de acordar, depois de sonhos intranquilos, metamorfoseados em terríveis insetos.

Franz Kafka, 1906. Foto: domínio público

Encobrir os engasgos
É preciso “rebuçar [esconder] as rebordosas com um pouco de pândega”, escreveu Manoel Lobato. A frase salta de uma página do livro que reabro, seu Cartas na mesa – memórias (Imprensa Oficial, 2002), com autógrafo gentilíssimo e galhofeiro do autor, em linda caligrafia. Lobato se foi em julho, aos 94 anos, pelas graças do pândego Corona. Mas a frase lobatina me recorda Os Lusíadas, via Pedro Nava, sobre os navegantes exangues, alquebrados, que enfim podiam refocilar [revigorar, restaurar as forças] a lassa [exaurida, esgotada] humanidade nos portos. Os prostíbulos (fuck clubs em português corrente) estavam lá para acolher e oferecer aos nossos descobridores esse antigo e indispensável serviço humanitário.

O autógrafo galhofeiro do Manoel Lobato

Nunca mais
O corrosivo Zachariah Webb, editor da revista norte-americana The Baffler, semanalmente traz deliciosas novidades, que despacha da “linha de frente da aborrecida distopia”. Sobre a revelação que os corvos possuem alta inteligência e até algo assemelhado a uma autoconsciência, ele comenta: “Bem-vindo, corvídeos, ao inferno”. Mas, claro, Edgar Allan Poe precede, e muito, a ornitologia: “Atônito fiquei por um momento/ Ao compreender que o Corvo compreendia […] Se sois humanos, ó triste solitário!/ Dizei-me em vosso atroz vocabulário, / A verdade de tudo que grasnais!//  Mas Ele, altivo e sacudindo as plumas,/ Olha das noite as relegadas brumas/ E responde impassível: nunca mais.” [Tradução de Benedito Lopes em O corvo e suas traduções, organização Ivo Barroso, Lacerda Editores, 1988.]

A ecologia musical
CDs, que são feitos de policarbonatos (polímeros termoplásticos) fazem menos mal ao planeta que os discos de vinil (hidrocarbonetos). Mas ambos levam um banho em toxicidade do streaming e do download, que a muitos podem parecer uma tecnologia moderna e sustentável. ♪ Ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são… ♪ Em 2016, a nova indústria da música produziu 194 mil toneladas de gases de efeito estufa, cerca de 40 milhões a mais que todas as emissões somadas dos meios de difusão existentes em 2000. Os dados estão no livro Decomposed: The Political Ecology of Music (decomposto: a ecologia política da música), de Kyle Devine, resenhado por Alex Ross na revista The New York. E a emissão de gases é apenas o começo da história. A produção de componentes para smartphones e a mineração do cobalto, usado em baterias, são associadas à exploração de trabalho escravo, infantil e à opressão de minorias étnicas. Investidores seguem a injetar dinheiro no Spotify, apesar dos contínuos prejuízos da gigante, interessados no potencial dos dados gerados por seus usuários, que são monitorados a cada toque. A música, hoje, é outra plataforma da chamada por vozes dissonantes de “vigilância em massa”, mais um tentáculo do Big Data.

Dígitos da música digital
A grande cantora brasileira Luciana Souza, que vive nos EUA, revelou recentemente ao jornalista e crítico Carlos Calado que pela média mensal de 50 mil “streams” (ou a audição de uma música por mais de 30 segundos), obtida pelos seus discos no Spotify, ela faturava 38 dólares, ou uma garrafa de vinho. Alex Ross cita Daniel Ed, CEO do Spotify, para quem o músico de hoje, para ganhar a vida, precisa do contínuo e crescente engajamento dos fãs. A atividade criativa no violão ou no piano se mistura à labuta publicitária no Instagram. Qualquer novo Tom Jobim não será nada sem os talentos acessórios de Anittas e Ludmillas para a autopromoção. Não por acaso, os hits da música pop já são bolados por inteligência artificial. Vejo grandes músicos, de longas e respeitadas carreiras, com míseras e constrangedoras audiência no YouTube e Spotify. Como jurupoco autoexilado das redes — Helahoho! helahoho! — sou plenamente solidário com essa turma. Minha expedita lista A rádio Siutônio apresenta: 1.000 canções brasileiras, que por sinal anda por 1.024 músicas e já me toma uns cinco anos de labuta e aprimoramento, tem 16 seguidores! Fiz as contas e conclui que em mais uns 350 anos atingirei o benchmark de um assinante por canção, ou estarei perto disso. Aí, sim, mamãe, farei um bruto sucesso em Quixeramobim.

A estreia de Pátria
O primeiro capítulo de Pátria, seriado em oito episódios lançado no último domingo pela HBO, me fez pensar nos limites da fidelidade de um roteiro adaptado. Comentei o ótimo e extenso romance de Fernando Aramburu na Jurupoca #8, transposto por Aitor Gabilondo para o teledrama. Me senti em casa, demasiadamente em casa, creio. As personagens das mães protagonistas, Bittori (Elena Irureta) e Miren (Ane Gabarain) são bem fidedignas. Fidedigna também é a alternância temporal entre o presente — quando o ETA anunciava um adeus às armas — e os recorrentes recortes do passado, janelas abertas para as sequelas da violência e da desagregação sofridas por duas famílias amigas separadas e marcadas pelo terror, quando se veem em lados opostos. A chuva constante também está lá, como os dias cinzentos, como o pequeno mundo fechado da província vizinha a San Sebastián. E lá está o sangue de Txato, derramado no asfalto por seu assassino e lavado na enxurrada. Mas toda essa fidelidade esbarra no mais difícil, primeiro no ritmo — ao acelerar para encurtar, o que tira profundidade, perspectiva; depois em atuações muito contidas, o que tira brilho e emoção — e tem a ver com uma direção tímida ou pouco ousada; e, para o leitor do livro, por isso mais exigente, esbarra ainda na luz, que não é, sinto muito, suficientemente filtrada nas gradação do cinza-escuro, o que fere a imaginação do espectador, e devemos cobrar isso ao fotógrafo.


Com Chico Buarque em Nina, minha canção favorita de seu álbum de 2011 pela Biscoito Fino, embora Sinhá, em parceria com João Bosco, não me encante menos nesse CD. Nina é uma valsa de lírica essencialmente buarquiana, na delicadeza e na imaginação da figura feminina. Aqui, ele decanta melancolicamente uma jovem de Moscou cuja casa pode bem ser vista em detalhes na tela (pelo Google Street View?).

A letra, que pode não ser poesia, mas é quase-poesia, certamente literatura, quem sabe outro gênero, com sugeriram poetas e letristas espanhóis reunidos pelo Babelia do El País. Só os muito empedernidos fazem questão de não notar que Chico jamais foi abandonado pelas musas, como compositor, o que fica claro, claríssimo, diante de seu verso sempre rigoroso, como em “Nina diz que fez meu mapa/ E no céu o meu destino rapta/ O seu” (vejam que astrologia e alusões mitológicas se misturam aí) ou “Nina anseia por me conhecer em breve/ Me levar para a noite de Moscou/ Sempre que esta valsa toca/ Fecho os olhos, bebo alguma vodca/ E vou”.

O arranjo de Luiz Claudio Ramos é enxuto e exato, na medida para conferir a atmosfera em tom menor que a canção demanda, e que a realiza plenamente. Ramos e o próprio Buarque fazem os violões, Jorge Helder está no baixo, João Rebouças no piano e Hugo Pilger no violoncelo; o acordeão é de Marcos Nimrichter.

Nina — Chico Buarque
 
Nina diz que tem a pele cor de neve
E dois olhos negros como o breu
Nina diz que, embora nova
Por amores já chorou
Que nem viúva
Mas acabou, esqueceu
 
Nina adora viajar, mas não se atreve
Num país distante como o meu
Nina diz que fez meu mapa
E no céu o meu destino rapta
O seu
 
Nina diz que se quiser eu posso ver na tela
A cidade, o bairro, a chaminé da casa dela
Posso imaginar por dentro a casa
A roupa que ela usa, as mechas, a tiara
Posso até adivinhar a cara que ela faz
Quando me escreve
 
Nina anseia por me conhecer em breve
Me levar para a noite de Moscou
Sempre que esta valsa toca
Fecho os olhos, bebo alguma vodca
E vou

O vírus alegre, cartoon da The Spectator

Rir pra não chorar
Fascinante, diria mister Spock. Pensar que cerca de meio Brasil e meio EUA orgulhosamente se deixam embromar pela fabricação mentirosa do discurso político dos presidentes ¡Caveirão.105 mm! [105 mm, caro leitor, é o calibre de uma bala de canhão, ao qual Caveirão — por sinal também aquele carro brindado da polícia com licença para matar nas favelas — acaba de ser promovido pela Ju] e Agente Laranja (apud Spike Lee). Enquanto o primeiro falsifica a ciência e toda a realidade, o segundo se concentra, no momento, em atacar o principal fundamento da democracia, o voto. Rimos, claro, do terraplanismo e das mirabolantes teorias da conspiração, fazer o quê?, chorar é que não vamos, pois nunca choramos pelo mundo, choramos por nós. Tudo isso é mais um ingrediente da distopia que as horas nos reservaram, mas que é dose é. A longo prazo, os historiadores vão escavar as causações e o curso subterrâneo dos acontecimentos, e a longo prazo estaremos todos mortos.

facaumadoacao8-

Neva na Rioja, março de 2015. Foto: Antônio Siúves
Grogotó

Daqui a pouco virão o sol, as uvas e o vinho.
Nem é preciso crer nisso.
Nem é preciso crer na sede e na alegria.
Não é preciso crer.
Exceto se a dúvida te divide.
Aí grogotó: pobre de ti,
Quando precisas crer,
Quando queres crer,
Já não podes,
Não podes descrer.
Poema de Antônio Siúves

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O autor?

Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.