Esquerdismo, by Francis

FrancisPaulo Francis, morto há 19 anos, foi o mais original e um dos mais cultos jornalistas brasileiros. Sua ausência tornou nossa imprensa mais árida, pretensiosa e mal-humorada. Também foi o mais implacável crítico do esquerdismo no país, em cujo ideário via anacronismo e condenação ao atraso. Não creio que se possa contestá-lo.

A seguir, trechos do seu “Diário da Corte”, página inteira de notas que era distribuída a vários jornais, inclusive O Tempo.

À época, editor do Magazine, o caderno de cultura do jornal, me alegrava sempre às quartas-feiras, ao ler, na véspera da publicação, seus textos incomparáveis. Tenho em minha sala a colagem de Fernando Fiuza que ilustrou sua última coluna. Saudade.

Os grifos são do blogueiro.

Esquerda Brasileira – Viegas acha que o problema das esquerdas é uma religiosidade que impede o raciocínio. É bem observada, mas eu somaria a indisposição brasileira ao conflito cultural, a tendência à corriola onde todo mundo troca certezas. (FSP, 19/10/80)

  • Em 1968, a vida era mais agradável no Brasil do que hoje. Para nós, jornalista que estávamos no fogo da ditadura. Isso porque nos sentíamos mais vivos com as ameaças do s nossos inimigos, nos sentíamos requestados na nossa profissão miserável, éramos gente,nos levavam tão a sério que nos censuravam e nos prendiam. A esquerda sempre foi e é um saco de gatos. Ninguém se entende. Todo esquerdista convicto se considera o legítimo concessionário da verdade e não admite concorrência. Mas naqueles tempos de repressão nossos antagonismos se diluíram em fase do inimigo comum. Nossa vidinha fútil ganhou uma nova dimensão, e vibrante, quando nos perseguiam. Havia, claro, a humilhação de que gente bronca e subletrada (estou usando eufemismo) pudesse dispor de nós como roupa suja. Mas era compensada pela imensa superioridade moral que sentíamos em relação a eles. (FSP, 29/10/88)

Esquerdismo – Adonias Filho, o romancista com quem trabalhei no Serviço Nacional de Teatro, dizia que era inacreditável que eu citasse Shakespeare e Eliot de cabeça, e gostasse, e fosse de esquerda. Ele tinha razão.  (FSP, 28/7/90)

Extraído de “Waaal – O Diário da Corte de Paulo Francis” – Organização: Daniel Piza (Companhia das Letras, 1996).

 

Inverno no Rio com Aylan no colo. Vejo Francis, leio Nooteboom, procuro Ferreira Gullar. História sem vida

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rio frioPreso no túnel de Botafogo, observo faixas de luz vermelho e verde na abóbada. Penso no Natal neste começo de setembro frio, esta tarde. O mar em Copacabana parecia mais distante de manhã, lá pela linha do cinza que recurva o horizonte para além da areia encardida. É quinta-feira, dizia o jornal de manhã; era quinta-feira quando havia a página de Paulo Francis, a preencher o dia, a consolar a inteligência, a confortar o caráter de quem lia. Mas tudo é tão diverso, mas tudo é tão igual, mas tudo é tão sem nexo e sem música agora, penso, seco por dentro. Tenho Dia de Finados na bolsa de pano azul com tiras em roxo e um personagem de Cees Nooteboom diz a outro: — Onde alguém lê jornal, você lê história, leio no café da República do Peru. Para você um jornal vira logo mármore, eu acho. O que é um absurdo! E assim você simplesmente se esquece de viver. Sabedor de que a vida não tem explicação, cruzei antes a Duvivier desde o Copa. Não vi o poeta Gullar. Alhures, Ferreirão, no dizer do Roberto, receberá outro prêmio, outra carimbada oficial merecida. Mas, não, não era isso. Fecho o livro e a caderneta. Hoje uma única e outra e mesma praia do mundo convoca o olhar de quem enxerga um palmo à frente do nariz. Na praia turca, o pequeno Aylan jaz desde sempre nos braços paternos de um guarda. Porque hoje é quinta-feira e estou no Rio de Janeiro, alheio, meio perturbado. A alienação, como a impotência, como o acaso, é imune à inflação cósmica, desde o Big Bang.