Outro recado da doutora Suzana

A neurocientista dá notícias do andamento de seu trabalho
nos Estados Unidos, e outra lição aos brasileiros

Trecho doutora Suzana

A ciência brasileira perdeu para uma universidade americana a neurocientista
Suzana Herculano-Houzel, todo mundo sabe isso.

Este jornal deu duas notas sobre o episódio, ao comentar uma entrevista da pesquisadora e sua carta de despedida publicada na revista “Piauí”, quase ninguém sabe disso.

A doutora Suzana foi buscar quem lhe quisesse, o país perdeu o trabalho de uma estrela valorizada mundialmente e o bonde da ciência brasileira anda onde sempre andou: na rabeira do atraso.

Mas há mais que isso no fato.

Com elegância e serenidade, Suzana Carvalho Herculano-Houzel expôs a dimensão assustadora do prejuízo que a ineficiência estrutural de nossas instituições acadêmicas e o corporativismo — infiltrado pela militância sindical ideológica— impõem ao país.

Sua coluna de hoje na “Folha”, “Ciência eficiente”, pode ser lida como uma suíte, no dizer em jargão, um desdobramento à “carta de despedida”, tomando por este significado o mencionado artigo da “Piauí”.

Aí vão alguns trechos, com ênfases do jornal.

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A doutora Suzana Herculano-Houzel. Foto: Wikipedia

“Ah, como é bom poder fazer meu trabalho. Minha nova casa, a Universidade Vanderbilt, é uma universidade particular nos EUA, e como tal pode ser administrada como qualquer empresa preocupada com eficiência. Isso significa que pessoas treinadas em administração fazem seu trabalho de administrar, e pessoas treinadas em pesquisa podem fazer seu trabalho de pesquisar.

“Deveria parecer óbvio, mas os 14 anos que passei na UFRJ e a experiência compartilhada por inúmeros colegas mostram que esse não é o caso nas universidades públicas do Brasil, nossos centros de excelência em pesquisa. Nelas, cientistas perdem tempo tendo que improvisar nas funções de administrador, agente de compras e viagem, contador, técnico em informática, eletricista e o que mais for necessário.

(…)

Ao contrário, em poucos dias na Vanderbilt, já conto com o apoio de uma pessoa que cuida de compras (basta eu enviar um link do produto desejado), outra que gerencia meus fundos para pesquisa (e sabe o quanto eu gastei por meio do responsável pelas compras), mais uma que resolve tudo relacionado a TI (e providenciou um IP fixo para um computador no dia seguinte). Temos um sistema on-line de reembolso de pequenas despesas e uma agência de viagens à disposição.

Em meu instituto na UFRJ, levei meses para conseguir um IP fixo – que foi desconfigurado semanas depois. Uma tentativa de montar um serviço de contabilidade que fizesse nossas prestações de contas deu por água por conta da tentativa do instituto de cobrar uma porcentagem do valor dos auxílios administrados, o que as agências de fomento não autorizam. Eu era tratada como ladra quando tinha que provar na Faperj que havia de fato viajado a trabalho, apresentando um sem-fim de comprovantes.

“(…) aqui nos EUA universidades públicas como a da Califórnia dão o exemplo. Claro que a impossibilidade de punir ou desligar funcionários ineficientes no sistema brasileiro não ajuda.”
(…)

A carta da doutora Suzana aos brasileiros

Millôr

Grite “meritocracia” numa assembleia de professores
e você será simbolicamente linchado

A nota de ontem deste jornal sobre a ida da neurocientista Suzana Herculano-Houzel para uma universidade americana [“Bié-bié, ciência brasileira”] pede um rabicho.

O artigo de despedida da doutora na “Piauí” desde mês [“Bye-Bye, Brasil”, link para assinantes] deve ser lido com uma carta aos brasileiros.

Uma carta endereçada especialmente a eleitores, pagadores de impostos e estudantes.

É um bye-bye elegante, sempre composto e atencioso com as instituições que a ajudaram a fazer ciência no Brasil.

Mas, ao falar dos motivos de sua decisão de ir embora, com suavidade e clareza Suzana explica porque estamos encalacrados.

O mote á nossa condenação ao atraso.

O sistema de isonomia que regula a remuneração e o funcionamento das universidades no Brasil trava qualquer possibilidade de entrarmos um dia para o primeiro mundo da ciência.

O atual sistema, não há quem não saiba disso, será defendido até a morte pela corporação de professores, com lastro ideológico no PT e outras agremiações de esquerda.

Grite “meritocracia” numa assembleia de professores e você será simbolicamente linchado.

“Não importa o quanto um cientista produza, o quanto se esforce, quanto financiamento ou reconhecimento público traga para a universidade – o salário será sempre o mesmo dos colegas que fazem o mínimo necessário para não chamar atenção”, diz Suzana.

É mesmo de se lembrar a frase de Millôr decalcada numa charge de Loredano que ilustra o texto da “Piauí”: “Brasil, país do futuro. Sempre”.

Nos EUA, o pesquisador que não se mexe, não publica e não consegue financiar seu trabalho, pode tirar o cavalo da chuva.

Estabilidade e aposentaria premiam quem alcança a excelência.

Literalmente sem espaço no ICB da UFRJ — obrigada a fazer caber em 3×8 m² bancadas, computadores, equipamentos e seu escritório pessoal —, depois de pagar doutorandos do próprio bolso e de aturar outros tantos desaforos, ela disse basta, estou fora.

“Harvard só se interessa por pessoas que estão mudando o mundo — como você”, lhe disseram em uma entrevista à qual foi levada à universidade, como convidada, “voando business, veja você”, ironiza.

Além da pesquisa sobre o número de neurônios que o cérebro humano comporta, que estabeleceu um novo marco na neurociência, Suzana e o colega Bruno Mota emplacaram na “Science”, a principal referência científica internacional, um artigo, como ela diz, 100% brasileiro.

Após dez anos de trabalho, os dois resolveram “uma questão antiga” da neurociência, o que faz “o córtex cerebral, a parte mais externa do cérebro, se dobrar” [“O Cru, o Cozido e o Cérebro”, link para assinantes.]

Eis o que acabamos de perder. Eis o que veremos no futuro. Sempre.