Jurupoca #5

NÚMERO 5 — AGOSTO, 30   2019

La vita è questo scialo
di triti fatti, vano
più che crudele
(…)
Addio! — fischiano pietre tra le fronde,
la rapace fortuna è già lontana,
cala un’ora, i suoi volti riconfonde, —
e la vita è crudele più che vana.

A vida é um esbanjamento
De fatos triviais, vão
mais que cruel.
(…)
Adeus! — sibilam pedras nas folhagens,
a tormenta voraz já vai distante,
a hora cai, de novo se confundem as imagens, —
e a vida é mais cruel do que vã.

“Flussi” (“Fluxos”), de “Ossos de Sépia”, Companhia das Letras, 2002, p. 155, na tradução de Renato Xavier.


“Pela graça de Deus, cheguei cedinho a Machado de Assis. Deste não me separaria nunca, embora vez por outra lhe tenha feito umas malcriações. Justifico-me: amor nenhum dispensa uma gota de ácido.”

Carlos Drummond de Andrade em um dos textos reunidos no livro “Amor Nenhum Dispensa Uma Gota de Ácido”, lançado agora pela Três Estrelas.


“A realidade também é feita dessas esperanças íntimas que a imaginação inventa. Esperanças, os males indispensáveis da caixa de pandora. A confiança num destino pelo qual valha a pena sofrer. Em outras palavras, o desejo de ser moldado na forma da verdadeira humanidade. Mas quem é moldado dessa forma? Ninguém sabe.”

Saul Bellow em “As Aventuras de Augie March”, p. tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras, 2009.


“Você pode extrair da pessoa quantas partes do corpo dela quiser, mas jamais encontrará o lugar onde ela está, o lugar do qual o sujeito se dirige a mim e do qual eu, por minha vez, me dirijo a ele. O que importa para nós não são os sistemas nervosos invisíveis que explicam como as pessoas funcionam, mas as aparência visíveis às quais reagimos quanto reagimos a elas como pessoas”.

Roger Scruton em “A Alma do Mundo”, p. 85, Record, 2017, tradução de Martim Vasques da Cunha. 


“O desespero é o preço que pagamos por nos comprometermos com uma meta impossível. É, dizem, o pecado imperdoável, mas um pecado que nunca é cometido pelos corruptos ou pelos maus. Eles sempre têm esperança. Nunca atingem aquele estado paralisante que é o conhecimento do fracasso absoluto. Só os homens de boa vontade levam sempre no coração essa capacidade para a desgraça.”

Graham Greene em “O Cerne da Questão”, tradução de Otacílio Mendes, Biblioteca Azul, 2ª edição impressa, 2019.


Opa. Vamos apear?

Philip Roth: três romances”, um dos ensaios reunidos em “Tudo Tem a Ver: Literatura e Música” (Todavia, 2019), de Arthur Nestrovski, é crítica literária como não existe mais nos jornais brasileiros, ou em parte alguma. “O depauperamento da crítica fica evidente para quem acompanhou o processo; e não foi compensado pelas mídias digitais, até pelo contrário. Isso tem mais gravidade do que parece: diminuir o espaço da crítica significa diminuir o espaço da cultura, vencida pelo jornalismo instrumental: serviço, polêmica, entretenimento”, avalia. Ele se refere ao papel formador, essencial da literatura, que é o de balizar, ou melhor, deslindar a condição humana, ao que a crítica deve estar apta a enfrentar.

O diretor artístico da Osesp, Nestrovski joga nas onze na cancha cultural, o que esses ensaios e textos curtos evidenciam. No ensaio final, escrito para a edição da coletânea, ele faz um balanço de suas suas “vidas”, todas bem vividas, de tradutor, editor, professor e músico. Conta, por exemplo, como traduziu “Ständchen” (1828), lied de Schubert e Ludwig Rellstab.

Explica as alusões feitas ao “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buarque, canção que encarnava a “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias, poema que tem como epígrafe versos de Goethe (“Mignon”) sobre um país imaginário (“onde ardem laranjas de ouro”), sendo Goethe um contemporâneo de Schubert. Tudo pode ter a ver quando se apagam fronteiras. “Gravada por Chico César, à maneira de toada caipira, a ‘Serenata’ entrou na trilha da novela ‘Velho Chico’, dirigida por Luiz Fernando Carvalho, que foi ao ar em 2016, na Globo!”, relata, para celebrar: “Durante meses, mais de 30 milhões de pessoas escutaram este Schubert brasileiro. Dessas coisas, como se gosta de dizer, que “só acontecem aqui”. Foi provavelmente a maior audiência de Schubert de todos os tempos. Aconteceu no Brasil — e em tradução”.

Mas, comecei a dizer, Nestrovski tem Roth em altíssima conta. A qualidade da sua crítica aos romances “O Teatro de Sabbath”, “Pastoral Americana” e “Casei com um Comunista” expressa sua eleição. Em um trecho da primeira parte, a respeito da saga do devasso Mickey Sabbath, lê-se:


“Se Philip Roth tem traços que o ligam familiarmente a Henry Miller, tem muito mais para situá-lo na linhagem dos profetas judeus Franz Kafka e Sigmund Freud, temperados pela leitura de Céline e Joyce (este último homenageado diversas vezes no livro). Nesse contexto tão elevado, de uma literatura em estado de incandescência, ou indignação quase constante, até Updike, que rivaliza com Roth como mestre supremo da língua americana e cronista das ambições sexuais, começa a soar um pouco como o bom burguês.”


Roth e Updike, ambos mortos, ambos escritores americanos canônicos, candidatos ao Nobel e preteridos pela academia sueca. Como tudo tem a ver, peço licença poética para chegar a meu próprio ofício, de que venho falando a conta-gotas nesta Jurupoca, e à minha pequena teia.

“O leitor da obra de Philip Roth só pode ser um obsessivo. O fato de sistematicamente lhe negarem o Nobel é um mote de obsessão. Outro, não tem jeito, chama-se Nathan Zuckerman. Nathan ‘torna-se’ Philip Roth e vice-versa; um mostra-se tão vivo e verdadeiro — na realidade ficcional — quanto o outro”, escrevi aqui.

Nesse texto de 2017, publicado sete meses antes da morte do escritor, aos 85 anos, comento o ótimo documentário “Encontro com Philip Roth – A Biografia de uma Obra”, de Adrien Soland e François Busnel. Aponto o andamento de réquiem que se depreende nas cenas finais.

Na sala de sua casa de campo, Roth põe para tocar as “Quatro Últimas Canções” de Richard Strauss e suspira, revelando seu encantamento por essa música.

À época dessa gravação ele já havia anunciado a aposentadoria, e diz que começava a aproveitar a vida. Um pouco antes, discorre sobre o “ciclo Nêmesis” (2006-2010), como enfeixa os últimos romances, narrativas em torno do envelhecimento, a decadência física e a ronda da morte: “Homem Comum”, “Fantasma Sai de Cena”, “Indignação”, “A Humilhação”, “O Animal Agonizante” e “Nêmesis”.

Alude a uma história que ouviu sobre um genial ator inglês que um dia, ao subir no palco, percebeu que havia perdido a força, a magia, não sabia mais atuar. O célebre ator Simon Axler de “A Humilhação” repõe essa narrativa. Já o publicitário sessentão de “Homem Comum” sofre com os achaques da velhice e a impotência.

“A velhice não é uma batalha. A velhice é um massacre”, ele se lamenta, na frase mais citada do livro. Todo esse contexto não é revelado no documentário francês assim, mastigado. Mas o leitor de Roth percebe a extensão da melancolia e do drama.

Bem, ia a dizer, a obsessão deste leitor baratinado pelos espelhamentos entre Zuckerman e Roth não vinha dali, do ensaio que escrevi para a revista “Inclusive.com”, com o título “Zuckerman Safadinho & Roth Safadão”, mas de antes, de duas décadas de leitura e releitura de seus livros e de uma viagem forçosamente literária a Paris e Florença no outono europeu de 2005.

Narro o episódio em “Inferno em Florença”, crônica incluída em “A Arte da Viagem”, cuja publicação, que tenho anunciado nesta Jurupoca para este mês, sofrerá algum atraso. Não dá para revelar muito dessa história sem spoiler.

Adianto que cheguei à cidade italiana com um exemplar em inglês do “Complô contra América” debaixo do braço. Esse romance de Roth ainda não tinha saído no Brasil. Dois ou três dias depois, cruzei com um desses dois autores (Roth ou Updike) por duas vezes, de manhã, no museu Bargello e, na tarde do mesmo dia, à beira do Arno, num balcão próximo da Piazza dei Frescobaldi, quando o abordei.

Também me refiro à Roth em um dos poemas de viagem que entram no livro como souvenirs, chamado “Carrinho de mão vermelho”. O nome é uma piscadela para “The Red Wheelbarrow”, de William Carlos Williams, poema no qual tentei me inspirar para registar o fechamento de uma livraria de mesmo nome no Marais, em Paris, onde eu havia comprado em 2005, diretamente das mãos da proprietária, a canadense Penelope Fletcher, meu exemplar de “The Plot Against America”.

Sucedeu que numa daqueles acasos de que falei na carta anterior, de volta a Paris cinco anos mais tarde, escolhi um hotel bem ao lado da Red Wheelbarrow Bookstore, que, então, acabava de dar adeus ao ponto.

Na “libraire anglophone” ainda se viam alguns livros e um computador, além do anúncio imobiliário bem visível.

Nos hospedamos no chinfrim Hôtel du 7e Art, um duas estrelas na rue de Saint-Paul. Naquela semana, eu e minha mulher soubemos pelo “The Herald Tribune” que Roth havia, em comunicado público, para tristeza de seus leitores e, todo o mundo, que não escreveria mais ficção. Procurei gravar no poema essa sucessão de eventos.

Recentemente, a propósito, Penelope Fletcher reabriu sua livraria em outro endereço, agora na Rive Gauche.


A amazônica conspiração maquiavelista

“Isso está me cheirando a conspiração que vem de fora”, sussurra Odorico para seu Dirceu. / Aí tem cérebro de gente traquejada nestes maquiavelismos. / Poooovo de Sucupira…  É com a alma [incompreensível]… que venho fazer ao povo uma denúncia de sumíssima gravidade. Um plano maquiavelista está em marcha visando a roubar Sucupira (…) / Querem impedir que Sucupira trilhe o caminho do progresso. / Todos vós sabeis que tenho dado meu o suor e meu sangue pela grandeza de Sucupira. Mas esses maus sucupiranos recebem ordem de potências estrangeiras interessadas em manter o nosso povo no atraso e na dependência.” (…). Ouça a íntegra na Rádio Sucupira da CBN.

A amazônica conspiração comunista

“Brasileiros: (…) forças do mal e do ódio [o comunismo] campearam sobre a nacionalidade ensombrando o espírito amorável da nossa terra e da nossa gente… A dissimulação, a mentira, a felonia constituem as suas armas”, proclama Getúlio, seu Gegê, na Hora do Brasil, ao anunciar que o governo de salvação nacional debelara a Intentona Comunista, o levante organizado por militantes da Aliança Nacional Libertadora, a 23 de novembro de 1935.


Tânato na avenida

De carona com Joaquim Nabuco e Caetano Veloso, que dedicou um disco ao abolicionista, “Noites do Norte” (2000), digo que a imagem do governador Wilson Witzel descendo de um helicóptero na ponte Rio-Niterói com sua figura balofa e curvada sobre as hélices da aeronave, rindo à larga com os punhos erguidos — como um Tânato no Sambódromo ou um goleador nos campos do demônio — permanecerá por muito tempo como a reafirmação de mais uma característica nacional do Brasil.



CONSERVAÇÃO

Meu coração está na dimensão estética da existência”, diz Roger Scruton nesta longa e bem articulada entrevista ao Estadão/Spotnicks. O conservadorismo, como o liberalismo, é malbaratado em toda parte ao gosto do freguês.

Scruton é o melhor defensor dessa corrente tão vilipendiada e pela qual guardo certa simpatia, mas que deve ser entendida, para que as ideias correspondam aos fatos, como liberal, libertária e britânica — fruto dessa história cultural.

Em um país como o nosso, o princípio da conservação — conservar o que presta e devemos preservar para nossos filhos e os que vão nascer, a exemplo do patrimônio arquitetônico ou da melhor tradição música popular, que uma corrente intelectual vê como elitista à luz dos novos ritmos mais “autênticos” porque georreferenciados — só pode ser visto, creio eu, em abstrato, “ad hoc”, ou seja, em situações sociais ou familiares específicas, aqui ou ali.

Por certo, não há o que conservar da miséria, da iniquidade, da ignorância, de uma sociedade atrasada e disfuncional.Tenho para mim que a civilização começa com a universalização do saneamento básico, do que falo no pé. 


A BELEZA IMPORTA?

“Roger Scruton tem inteira razão quando afirma que o conservadorismo procura conservar a ‘ecologia social’ de um povo”, escreve João Pereira Coutinho, a propósito do livro “Filosofia Verde: Como Pensar Seriamente o Planeta”.

“Nessa ecologia, estão as leis, os costumes, as instituições; as liberdades civis, políticas, econômicas; mas também os recursos naturais e, por que não, a mera possibilidade de existir beleza no mundo”.

A deixa do colunista da “Folha” remete ao livro “Beleza” e ao filme da BBC “Beauty” ou “Why Beauty Matters?”, disponível no YouTube com legendas em português, escrito e apresentado pelo filósofo.

Scruton considera um culto à feiura toda a progênie artística semeada pelo urinol de Duchamp, com raras exceções, como um Rothko; toda a música posterior a certas peças de Schoenberg que não siga as fórmulas clássicas; e toda arquitetura derivada do modernismo. “É mais fácil destruir coisas do que criá-las. Isso é, essencialmente, o que Mefistófeles diz no Fausto”, diz nessa entrevista.


MARTELADAS

Seu romantismo é um tanto irritante, mas ele defende em grande estilo o legado da arte constituído em milênios por meio de diálogo entre os mestres, em termos de reverência e inovação.

Ele diz que a catedral da beleza erguida por séculos e séculos foi posta abaixo a marteladas, e o que restou da demolição terminou reduzido a pó no pós-modernismo. Daí nasceu o culto escatológico à marmota.

Ele critica com afinco e disciplina toda a derivação da utopia hegeliana em torno da “inevitabilidade da história”.

“A natureza contraditória das utopias socialistas é uma explicação para a violência envolvida na tentativa de impô-las: é necessária uma força infinita para obrigar as pessoas fazerem o impossível”, escreve em “Tolos, Fraudes e Militantes: Pensadores da Nova Esquerda”.


O ZEITGEIST E A “MERDE D’ARTISTA”

Em grande medida, a arte contemporânea engaja-se com o novo como uma força destinada a superar e sepultar a beleza do mundo. Scruton vai à nascente dessa crença e tenta estancá-la por um instante para criticá-la.

“Cada período sucessivo da história, de acordo com os hegelianos, exibe um estágio no desenvolvimento espiritual da humanidade — um ‘espírito da época’ particular ou Zeitgeist, que é propriedade comum de todos os produtos culturais contemporâneos, e que é inerentemente dinâmico, transformando aquilo que herda e sendo descartado quando chega a sua hora”, diz em “As Vantagens do Pessimismo”.

Conforme essa lei, a história flui continuamente rumo ao progresso espiritual. Identificar o espírito da época em retrospecto, num dado período histórico, vá lá. O problema é estabelecer como inelutável essa ação entre os vivos, quando a noção de progresso científico é levada para o terreno social, político e cultural.

É como se estivéssemos destinados a evoluir espiritualmente da mesma maneira que — graças à ciência — saltamos do uísque empregado como anestésico nas cirurgias à maravilha do Propofol, sugeri em outro lugar.

Então, o que a política e o desarranjo aleatório derivam como a novíssima arte passa a ser a quintessência da criação, a exemplo das latinhas de bosta “Merde d’Artista”, que fizeram a fortuna de Piero Manzoni, ou o a instalação “My Bed” (1998), da britânica Tracey Emin, uma cama de casal desarrumada com roupas sujas espalhadas que faturou 4,3 milhões de dólares num leilão.

“O Zeitgeist que nos governa é o que está agindo agora. A arte verdadeira tem que ser fiel ao Zeitgeist (…). Os artistas verdadeiramente modernos pertencem a sua época, e essa época que dita o que eles devem fazer”, retrata, no capítulo “A falácia do espírito móvel”.

Precisamos ser fiéis ao espírito da época para acatar certas novidades artísticas como avanços inevitáveis e alguns valores em voga como expressão de um contínuo progresso moral. E precisamos ser crentes para considerar reacionária toda heresia contra a crença de que haja tal “viés” na história.


NARIZ DE CERA

Pensei num nariz de cera para as notas acima, como vênia a alguma leitora ou leitor mais sensível a ideias excêntricas ao eixo ideológico marxista. Mas, uai, para quê? Quem segue esta carta sabe que ela não é ideologicamente exclusiva e se nutre do bom e do melhor contra a cegueira.

Scruton, filósofo conservador e escritor britânico foi tipicamente xingado de fascista nos anos 1980, sendo lacrado “avant la lettre”.

A virulenta reação a seu livro “Pensadores da Nova Esquerda”, recentemente ampliado e reescrito no “Tolos, Fraudes e Militantes”, o expulsou do ensino acadêmico. Sua força intelectual e caráter hoje o colocam acima da manada das patotas do pensamento mágico.

É influente e respeitado. Fez crítica de vinhos, escreve crítica literária e de arte, romances, libretos de óperas, compõe, como o lindo tema de abertura da série televisiva “O Belo e a Consolação”, e ainda é o organista de sua igreja. Scruton se considera um “homem de letras” na velha tradição e mantém uma fazenda autossustentável, onde cultiva a terra e a boa vida.




 
O CERNE DA QUESTÃO

Forçando a barra contra o sono, acabo a leitura de “O Cerne da Questão”, romance de Graham Greene escrito há 71 anos.

Me pergunto se em mundo bobo e infantilizado como o nosso haverá leitores para um grande livro adulto sobre o tema da culpa religiosa e a depressão, o abandono e o “suicídio por compaixão”, como Paulo Francis, um fã de Greene de primeira hora, definiu o destino do herói, Scobie.

Não creio que haja. Li algumas vezes “O Poder e a Glória”, opera magna de Greene. O desespero do padre bebum e incasto, que acaba fuzilado por revolucionários mexicanos me acompanha com uma memória pessoal.

Releio de vez em quando a comédia “Nosso Homem e Havana”, sobre um vendedor de eletrodomésticos feito espião por acaso na Cuba pré-revolucionária (o próprio Greene espionou para o MI6, o serviço secreto de sua majestade), narrativa tão engraçada quanto “Furo” ou “Declínio e Queda”, de Evelyn Waugh.

Já o “Cerne da Questão” não tem graça e não faz graça. “Scobie tinha a impressão de que a vida era interminavelmente longa. A prova do homem não poderia ser realizada em menos anos?

Não poderíamos cometer o primeiro pecado importante aos sete, nos arruinar por amor ou por ódio aos dez, nos agarrar à redenção num leito de morte aos quinze?”, diz uma passagem.

O leitor vai se servindo, em discurso livre indireto, desse destilado agônico produzido na alma do major inglês, mal entrado na meia idade. Ele e a mulher perderam a filha pequena e, sufocados pelo clima e o ambiente social de uma colônia africana na Segunda Guerra, onde Scobie se sente prisioneiro e fascinado por essa condição, tentam escamotear a memória trágica. (Leio a reedição da Biblioteca Azul, com tradução de Otacílio Nunes.)

A prosa de Greene nunca é frouxa ou concessiva, mas enxuta e cortante. Às vezes é quase pintura: “Lançou a garrafa por cima do cais, e a boca faminta da água a recebeu com um único arroto”.

Assim ele engrossa as pinceladas que esboçam o mal-estar existencial de Scobie. Durante uma ronda policial no porto, recolhe uma garrafa de uísque que podia ser uma bomba incendiária, “e quando ele sacou as folhas de palmeira o fedor de petisco desidratado para cachorro e de uma podridão sem nome irrompeu como um vazamento de gás”.

Francis escreveu que Greene se debatia com seu jansenismo, doutrina que não conta com a salvação, como adúltero e simpático oportunista do comunismo.

Católico converso na juventude (praticou roleta russa na adolescência para combater o tédio), o autor de “O Terceiro Homem” e “O Americano Tranquilo”, livros que deram filmes excelentes, ia à missa até o final da vida, vivendo com a amante em Nice, num pequeno apartamento com 12 garrafas de J&B alinhadas na estante

. Pode que Francis estivesse certo, mas o pessimismo de “O Cerne da Questão” nunca é hesitante:


Por que, ele se perguntava, desviar o carro para evitar um cachorro morto? Amo tanto este lugar? Será porque aqui a natureza humana não teve tempo de se disfarçar? Ninguém aqui poderia jamais falar sobre um paraíso na Terra. O paraíso permanecia rigidamente em seu lugar do outro lado da morte, e deste lado floresciam as injustiças, as crueldades, a mesquinhez que em outros lugares as pessoas escondiam com tanta engenhosidade. Aqui era possível amar seres humanos quase como Deus os amava, conhecendo o pior: não se amava uma pose, um vestido bonito, um sentimento assumido superficialmente. Ele sentiu uma afeição repentina por Yusef [o sírio contrabandista e corruptor das autoridades locais]. “Um erro não justifica outro. Um dia, Yusef, você vai encontrar o meu pé debaixo de seu traseiro gordo”, ele disse.


EDUCAR PARA A MÍDIA

O nome é feio pacas em duas línguas, “media literacy” ou “alfabetização para a mídia”. Prefiro educação para a mídia. Mas seu apelo é urgente. Deveria se tornar disciplina em vários níveis no currículo escolar, incluindo a alfabetização de marmanjos.

Ainda pouco difundida no Brasil, vem na onda da checagem de fatos, do combate às notícias falsas e ao vitimismo alucinatório contra a imprensa, de que já falei bastante na Jurupoca # 2 (ver Fanáticos contra o jornalismo).

O colombiano Thomas Durante, pesquisador para União Europeia de estudos midiáticos, deu uma entrevista à “Folha” sobre o tema. “A ideia é promover e aprimorar o senso crítico dos cidadãos, o conhecimento da mídia, do universo de informações, a compreensão crítica de mensagens e notícias etc.”, ele explica.

“A alfabetização para a mídia busca conceder acesso a ferramentas e conhecimentos gerais sobre o alcance e as oportunidades que a tecnologia representa. Isso inclui gerar habilidades técnicas, pensamento crítico, poder de análise, de solucionar problemas, e então desenvolver a capacidade de lidar com todo tipo de informação, com a mídia e com produtos culturais.”



F WORD, JODER, PQP

Álvaro P. Ruiz de Elvira, no “El País” (“The Wire – o melhor uso de um palavrão”), comenta a sequência do quarto capítulo da primeira temporada dessa série, que julga uma das mais bem escritas, dirigidas e filmadas da história da televisão. O que é, sem dúvida, e inesquecível. Durante quase cinco minutos, apenas uma palavra é repetida 33 vezes, a expressão “fuck”, “joder” em espanhol — em português “puta que pariu” me parece uma tradução mais justa.

O que os detetives estão vendo na cena do crime é de gelar os ossos, mas resolvem o caso. Revi algumas vezes “The Wire” (A Escuta, HBO, 2002), criada por David Simon. É minha série número 1. Até a academia rendeu-se ao seu alcance social e artístico.

Suas cinco temporadas conseguem retratar a sociedade de Baltimore, repartida em guetos pela imigração, o duro trabalho policial, a imprensa decadente, o jogo de poder e seu trânsito corrupto no submundo da droga nos miseráveis bairros negros; o elenco, formado quase que só por atores ingleses, impressiona pelo domínio do patoá.

Segundo uma reportagem de O Globo, um dos mais respeitados sociólogos americanos, William Julius Wilson, definiu a obra como a maior etnografia jamais produzida sobre os Estados Unidos. O prêmio Nobel Mario Vargas Llosa é outro célebre fã do seriado.




OU POR QUE ESTAMOS NA MERDA

A capa (como se dizia) de “O Globo” no domingo, 18/8, trouxe um levantamento oficial sobre as maiores estatais de saneamento no país. Mostra que essas empresas gastam mais com o pagamento dos empregados que com investimentos em infraestrutura. O lobby desses funcionários de altos salários enfrenta duramente a aprovação de um marco regulatório para a privatização do setor, em discussão há séculos no Congresso. Talvez nossos tataranetos vivam em outro país. Hoje, segundo o levantamento o instituto Trata Brasil, quase 100 milhões de pessoas não têm acesso à coleta de esgoto e 35 milhões não recebem água tratada em suas casas. Quem é um pouco informado e não seja um extremista sabe o que isso significa.

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.


Jurupoca #3

 2/agosto/2019


Uma entrada dos magníficos “Diarios” (em espanhol) de Iñaki Uriarte me acode quando tento burlar a bile negra. O autor basco cita o comentário grave e solene do senhor Prudhomme, personagem do dramaturgo, ator e caricaturista francês Henry Monnier (1799-1877), quando vê o mar pela primeira vez:

— Tal cantidad de agua roza el ridículo. (Tal quantidade de água beira o ridículo.)

Do original:

— Une telle quantité d’eau frise le ridicule.

 Ao ouvir astrônomos dissertarem sobre zilhões de zilhões de estrelas, aglomerados de galáxias e buracos negros, distantes zilhões de zilhões de anos-luz da chama breve da vida humana, penso em Prudhomme.  

“O nosso estômago pode congelar”, ela me disse depois que tínhamos andado um ou dois quilômetros. “É muito perigoso”.

“Estômago? Como é que o estômago pode congelar?”

“Podendo. E a gente pode ficar doente pro resto da vida se isso acontecer.”

“O que é que a gente faz pra isso não acontecer?”, perguntei.

“A coisa certa a fazer é cantar”, disse ela (…). Que diabo! Também não vai tirar pedaço. A única música que me veio à cabeça para cantar foi “La cucaracha”. Cantei “La cucaracha” por um ou dois quilômetros e achei que a cantoria tinha me congelado mais do que ajudado.”

Saul Bellow em “As Aventuras de Augie March”, pág. 702, tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras, 2009.  


Opa! Vamos apear?

Na carta passada, disse que encontrei guias insuspeitáveis em obras de arte e ficção, ao escrever “A Arte da Viagem” — a sair este mês em KDP. Depois disso, terminei de ler, pela primeira vez, o clássico “As Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift. Ao dizer adeus aos leitores, depois de quase 500 páginas, o cirurgião Lemuel Gulliver defende a própria literatura de viagem perante a dos perversos yahoos europeus, e dá seu recado. “Para aqueles de nós que viajamos até Países remotos raramente visitados por Ingleses e outros Europeus, é fácil fazer Descrições de Animais maravilhosos do Mar e da Terra”, ele diz. “Porém, o principal Objetivo de um Viajante deveria ser o de tornar os Homens mais sábios e melhores, e aperfeiçoar suas Mentes pelos bons e maus Exemplos colhidos em Sítios estrangeiros”. Eu diria que isso ainda é válido, mudando-se o necessário, mas voltado ao próprio viajante.

Não tenho, ai de mim, pretensões gulliverianas. Creio, entretanto, quando nunca se viajou tanto, que a viagem governada pelo ritmo de aplicativos e orientada por algoritmos se reduz quase sempre à mera vontade de poder do consumidor. O turista-consumidor logra apenas estar nos lugares, lá fora, e dessa superfície, dessa casca das coisas, o que ele faz?, ele coisa, isto é, selfiza-se e se esparrama. “A mania de se exibir diante de conhecidos postando fotos nas redes cretinas: ‘Veja onde estou’ é uma das mais absurdas que o mundo já conheceu” — diz o escritor espanhol Javier Marías — “porque onde cada um está ou já esteve, amanhã estará meia humanidade. Nada tem nenhum mérito, nada mais pode causar inveja, nada mais é estranho ou insólito. Tudo já foi trilhado.”

Pretendo mostrar no livro que o encurtamento das distâncias e a expansão das classes médias nas últimas décadas, assim como fizeram do turismo uma atividade tóxica para quem vive em certas cidades e balneários superlotados, distanciaram o viajante ainda mais do sentido último do que chamo (me perdoe meu compadre P., que questionou a acuidade lógica da expressão) de a verdadeira viagem, que é, no final e contas, interior, moldado pelo que lemos, vemos e sentimos, por isso, digo no livro que a preparação de uma viagem pede bem mais que reservas, guias e gadgets. No cantar dos últimos versos de “Tea at the Palaz of Hoon”, poema de Wallace Stevens, que ouso traduzir: “E o mundo em que caminhei, e o que vi/ Ou ouvi e senti brotava de mim mesmo;/ E ali me achei mais verdadeiro e mais estranho.”

Achei um barato esta capa — “Power Trip”, Joost Swarate

Os paragrafões acima não chegam, na extensão, a proustianos, mas contrariam todos os manuais de redação da internet, que recomendam períodos de duas linhas e textos curtos. Às favas os manuais. Pesquisas mostram que usuários mais ativos de celulares e das redes sociais tornaram-se incapazes de ler qualquer coisa que dure mais de 30 segundos; danou-se a leitura profunda, que um bom romance ou ensaio exigem. Eu diria que isso vale também para todos os tempos lentos da música e do cinema.E a isso devem sua hegemonia, entre adolescentes de 40 anos ou mais, como é corrente, o baticum tribal, a xaropada religiosa ou pornográfica e a montagem ultrarrápida dos filmes de ação e pancadaria, neta do videoclipe, como as bijuterias da série Marvel.

Esta carta está na contramão da tendência, e sua leitora e seu leitor também, estou certo, ou não chegariam até aqui. A propósito, Jurupoca se propõe como expediente antiviral, sucedâneo contra o espírito do que viraliza e tem valor no negócio de caça-cliques, que torna o jornalismo e tudo mais na rede reféns da Alphabet. Dá dinheiro o que gera milhões de acessos, por mais baixo, fútil e degradante seja o conteúdo. É a realidade de quem se informa pelo WhatsApp e Facebook, paraíso das “fake news”, mas afeta também a existência de grande parte dos jornais na internet, obrigados a “equilibrar” o jornalismo com determinada cota de fofocas, celebridades e escândalos variados. Os fait divers, quem diria, se tornaram mais escabrosos e imperativos.

Ajude Jurupoca a combater a Google-dependência. Convide quem você quiser para assiná-la em https://tinyletter.com/asiuves.  

No mais, keep calm and read on.


ÍCONES DA INFLUÊNCIA

Pela segunda vez, ao voltar de minha caminhada pela manhã no Parque Municipal, subindo a Afonso Pena, entro no Palácio das Artes para bispar a exposição “Narrativas em Processo – Livros de Artistas”, da coleção Itaú Cultural. O estande que me atrai é o primeiro à vista e tem obras de Augusto de Campos e Júlio Plaza. Vemos, um tanto descoloridos pela pátina do papel, “Caixa Preta: poemas e objetospoemas”, de 1975, “Viva Vaia”, “Lixo”, “Linguaviagem” (poema-objeto de 1967 reproduzido, 20 anos depois, na capa do livro homônimo que reúne traduções de Augusto de poetas como Keats, Mallarmé, Yeats e Valéry) e outras figurações de teor concretistas. São ícones sagrados da supremacia de uma faceta da arte brasileira supervalorizada e superexposta pelo poder de São Paulo, a riqueza de seu mecenato moderno e a enorme influência de sua imprensa no resto do país. Os concretistas adotaram, ainda em 1950, a expressão joyceana “verbivocovisual. Por décadas, o estropício se tonaria verdadeira praga para todo poeta aspirante exposto a seu forte magnetismo, cujo ego em flor deixava-se tentar pela majestade de cruzados das vanguardas contra a caipirada em geral que lhes contrapunha algo da tradição. Acho tudo imensamente datado, ainda que sinta certo fascínio em me ver diante desse santuário ateu. Disse num post bem lido do Jornal do Siúves que nossa cultura literária deve muito mais ao Augusto tradutor, divulgador, crítico e ensaísta que ao poeta enorme que ele acredita ser. Mas sinto falta dos arranca-rabos intelectuais que ele manteve com tanta gente, como um El Cid campeador de espada em punho pela causa da “transvanguarda”, e de seu etilo enxuto inconfundível em que o ego superinflado expira o mais puro veneno do “anticrítico”, como ele se define em “Linguaviagem”, onde sai atirando já na receita prescrita na “Breve introdução”: “Crítica via tradução. Crítica de iluminação contra a crítica de maledicência. Exopoesia para combater a egopoesia”.

HOUYHNHNMS E YAHOOS

Não havia lido “As Viagens de Gulliver”, a monumental obra de Jonathan Swift. Na quinta série da Escola Estadual Machado de Assis, em Vespasiano, caiu na prova uma de suas muitas versões ligeiras, com trechos das aventuras do herói. Era uma edição de bolso da Ediouro, creio, mas não era o livro e sim algo mais próximo do desenho animado que passava muito na TV da minha infância. Agora, antes tarde… me pago uma antiga dívida, terminadas as 448 páginas da excelente tradução de Paulo Henriques Britto (Penguin-Companhia das Letras). Não sei se há, nos últimos 300 anos (a primeira edição da obra é 1726), muitos satiristas da envergadura de Swift, mas estou certo de que sua obra segue indispensável, talvez ainda mais agora, como lenitivo contra a vertigem nauseante provocada pela política em toda parte. O clérigo e escritor irlandês, com a perícia de um grande cirurgião esteta, estica no curtume as almas (especialmente as da nobreza, dos altos funcionários de governo, advogados, médicos e administradores da Justiça), desventra sua iniquidade, torpeza, crueldade, ambição, o ódio… e expõe tudo ao sol do meio-dia, com a imensa maestria que apenas ao gênio favorece, tudo com clareza, inventividade e irresistível humor. “Mas, a partir do Relato que me fizeste, e das Respostas que com muito Cuidado arranquei de ti”, diz a Gulliver o rei de Brobdingnag, a terra dos gigantes, “sou obrigado a concluir que o Grosso dos Nativos de tua Terra são a mais perniciosa Raça de Sevandijas [nome comum a todos os parasitas e vermes] abjetas e odiosas que a Natureza permitiu rastejar na Superfície da Terra”. Não é por nada que Gulliver, na quarta e última parte da história, vai se tornar um zelote dos Houyhnhnms, os seres assemelhados a cavalos, dotados de grande racionalidade e sabedoria, e desprezar, exatamente como os Houyhnhnms, a alimária fedorenta e imbecil dos yahoos, nossos irmãos, nossos iguais. Ao voltar para a Inglaterra e a família, a contragosto, quando terminam suas viagens, como o nosso general Figueiredo, mas por motivos nobres, Gulliver preferirá o cheiro de suas cavalgaduras, que ele mantém no bem-bom, ao insuportável odor das pessoas, incluindo o da mulher e dos filhos.

RAIOS DE SOL DE PEPINOS

Agora, há montes de bosta nas viagens do herói, pensei, a me lembrar de Paulo Francis, acho que em 1986, iniciando uma crítica do filme “O Nome da Rosa”. George Orwell tem razão ao enfatizar, no ensaio introdutório, a obsessão escatológica de Swift, que não descuida do xixi e do cocô aonde se aventure. E também ao apontar a implicância do autor com a ciência de sua época. Sobra até, nas sátiras, para a disputa entre Newton e Leibniz sobre invenção do cálculo infinitesimal. A Royal Society, fundada sete anos antes de Swift nascer, em 1667, é mal disfarçada na grã-Academia de Lagado, nos confins de Judas, visitada por Gulliver. Entre as pesquisas que observa na egrégia instituição e descreve oficiosamente há o projeto de “extrair Raios de Sol de Pepinos, os quais seriam guardados em Frascos hermeticamente fechados, e usados para aquecer o Ar nos Verões mais úmidos e inclementes”. O narrador prossegue: “Disse-me ele [o acadêmico que o conduz] julgar que com mais oito anos de Trabalho seria capaz de fornecer Sol aos Jardins do Governador a Preços módicos; porém queixava-se de estar com seu Estoque em baixa, e pediu-me que eu lhe desse algo como Incentivo ao Engenho, especialmente por estarem mui caros os Pepinos naquela Estação. Fiz-lhe uma pequena Doação (…).” Adoro pensar no que Swift escreveria sobre o solucionismo tecnológico do Vale do Silício.

 MALDITOS YAHOOS

Ah, essa raça de yahoos. No “Valor”, o escritor Amir Labaki, diretor-fundador do É Tudo Verdade — Festival Internacional de Documentários, diz, ao celebrar o centenário de nascimento de Primo Levi (31/8), referido na Jurupoca # 0, que apenas “Shoah” (1985), o documentário épico de Claude Lanzmann (1925-2018), incorpora no cinema o “magma” de “É Isto um Homem?”, a narrativa que é uma “experiência literária imorredoura e única”, nas palavras de Labaki, com sua “harmonia entre ética e estética; forma e conteúdo; as palavras e o narrado”. Vi “Shoah” no antigo cine Roxy, no Barro Preto, já no final dos anos 1980. Há uns seis ou sete anos tenho a produção em uma caixa de seis DVDs. No “Arte da Viagem”, digo que é inverossímil pensar a Europa desfocada do passado remexido profundamente por Lanzmann. O que isso tem a ver com os yahoos? É que os miseráveis yahoos de hoje são motivados pela baixaria que “viraliza” e, portanto, é digna de atenção da nossa (baixa e lassa) humanidade. Labaki se refere ao documentário “Retorno a Auschwitz” (1982), de Daniel Toaff, que acompanha a volta de Levi a Auschwitz, pela primeira vez desde os episódios narrados em “A Trégua”. Pois esse curta-metragem, disponível no YouTube e legendado em português, desde maio de 2016, quando escrevo esta nota angariava 4.499 visualizações, uma multidão, não é? Antonio Elorza, em “El País”, lembra que Violeta Friedman, sobrevivente de Auschwitz, uma amiga do colunista, lhe contava que os meios de comunicação se interessaram por seu testemunho apenas com o sucesso de “A Lista de Schindler”, o filme açucarado de Spielberg.

MOLINA AOS SÁBADOS

Minhas manhãs de sábado são imperfeitas sem a leitura das colunas de Antonio Muñoz Molina, no caderno Babelia de “El País” — traduzidas irregularmente na edição brasileira do jornal. Tenho comprado seus livros em viagens a Espanha, mas parte de sua ficção saiu em português pela Companhia das Letras, hoje infelizmente relegada aos sebos. Creio que a voz branda e o texto fluido, refletivo e evocativo do escritor, não raro roçando o poético, melhorou meu ouvido para o espanhol e assim meu gosto pelo idioma. A propósito, seu ensaio “Todo lo que era sólido” (Seix Barral, 2013) é um passaporte VIP para quem queira penetrar na Espanha contemporânea e compreender suas glórias e seus descaminhos; o recomendo penhoradamente a quem viajar ao país com genuína curiosidade. Em textos mais recentes ele celebra João GilbertoMachado de Assim, que lê pela primeira vez, ao tratar do “espírito do romance” e da vida literária. Em “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Molina percebe uma “audácia e uma desenvoltura cervantinas na criação de suas histórias”. Ele valoriza “o espírito singular do romance, sua vocação para indagar os atos e as consciências dos seres humanos, sua generosa ambição abarcadora, sua desolação e seu humor”, para concluir que “não nos importaria tanto a literatura se não aprendêssemos com ela coisas que de outro modo não poderíamos saber. É isso que exigimos dela. Tudo mais que existe em volta carece de importância”.

“SERROTE” PERDE O FIO

Antes de a ler de cabo a rabo, saboreio “Serrote” — revista-livro quadrimestral publicada pelo Instituto Moreira Salles — como o belo produto gráfico que é. Folheio cada edição para apreciar fotografias, ensaios visuais e reproduções. Detenho-me na diagramação, nas cores, no cheiro da encadernação, na textura do papel, no excelente acabamento e passo uma vista no conteúdo, tantas vezes prodigioso, para saber o que me espera. Tenho os 31 números publicados até julho deste ano. Não há rival para a revista no Brasil. Mas sinto que ela tem se apequenado nos últimos anos, ao trazer para suas páginas, meio aos trancos, uma série de ensaios supostamente palatáveis à nova esquerda e seu tribalismo identitário. O problema não é a predominância desses temas. Os textos frequentemente são obscuros e, pior, curto nas ideias e no alcance intelectual. Escritos e editados no calor da divisão ideológica do país e na crista da onda reacionária, simplesmente destoam dos padrões que o IMS se impunha desde o seu lançamento, há dez anos. Muñoz Molina me cai bem sobre isso. Em uma coluna (“Ética da prosa”, sobre um ensaio de Colm Tóibín no “London Review of Books”, no qual o escritor irlandês se expõe como paciente de câncer) ele me lembrou da prestação de contas de Graciliano Ramos quando prefeito de Palmeiras dos Índios, ao defender:


“Uma prosa clara é uma exigência ética, uma necessidade civil, da mesma ordem que a transparência e a probidade na administração pública. Graças à claridade das palavras podemos discernir o grau de solvência dos argumentos de um debate e adquirir informações rigorosas sobre os fatos e, dentro do possível, distinguir as fantasias da realidade. Assim como um interventor submete a escrutínio os planos de gasto de um organismo público, um cidadão há de julgar a veracidade das palavras que lhe são apresentadas em uma informação, em uma coluna de jornal ou discurso político.”


MAS, QUANDO SERRA…

Reli por estes dias até altas da madrugada o perfil de Ernest Hemingway por Lilian Ross (Serrote #27, novembro de 2017, tradução de Alexandre Barbosa de Souza). Publicado originalmente na “The New Yorker”, depois como livro independente, o texto me parece moço como nunca, uma joia clássica. Hemingway ressurge eternamente decadente nas obsessões com lutas, caçadas e touradas, na ansiedade autoral competitiva, na insegurança e compulsão alcoólica, mas ainda assim vivíssimo, autêntico em cada passo, frase, resmungo, comentário, o que diz tudo sobre o alcance de Lilian Ross como jornalista e escritora. Para repetir o bordão de “Papa”, como Hemingway era chamado por Marlene Dietrich, que dá título ao ensaio: “Que tal, Senhores?”.

…SERRA BEM

Da Serrote # 31, a mais recente, louvo a inserção de “O Toldo Vermelho de Bolonha” (tradução de Samuel Titan Jr.), livro do romancista, pintor e crítico de arte inglês John Berger (1926-2017), formatado por meio de notas que se referem à memória de um tio do autor, à cidade italiana e seu encantamento com o tom vermelho que a caracteriza, com suas “tende” (toldos) confeccionadas com um linho grosso dessa cor. A prosa deliciosa, aerada poeticamente, é nobre e reconfortante. Já o número anterior disse a que veio em “Branco como Eu” (tradução de Érico Assis), obra primorosa dos historiador Henry Louis Gates Jr. sobre Anatole Broyard, o célebre crítico literário do “The New York Times”, alguém que morreu mentindo para si mesmo e sua família sobre a origem negra, porque “queria ser um escritor, não um escritor negro”. É um dos melhores ensaios já publicados na revista. O ensaio visual dessa edição traz o requinte de beleza que são as monotipias (método de impressão de triagem única) de Luiz Zerbini, criadas a partir de flores, folhas e caules extraídos do jardim do artista. As obras repõem a natureza investigada, repensada e mesmo sonhada em deliciosas formas aleatórios.

MEU BOM MARÍAS

“Meu bom Maria”, ou “Meu Maria”, era o tratamento amoroso que Vinicius de Morais dispensava, nas cartas que lhe endereçava, ao grande amigo, poeta, cronista e compositor pernambucano Antonio Maria, parceiro de Luiz Bonfá na linda “Manhã de Carnaval”. Pois o escritor espanhol Javier Marías é “meu bom Marías” desde já. Leio com muito gosto suas crônicas dominicais em “El País Semanal” e logo chegarei aos romances. Soube que ele reuniu 96 desses textos, escritos entre fevereiro de 2017 e janeiro de 2019, em “Cuando la sociedad es el tirano” (Alfaguara). Fui logo buscar a versão eletrônica (RS 33,18). Marías é um cronista mordaz e refinado, crítico inclemente das besteiras de nossas épocas e do fanatismo de toda cepa. O que diz sobre a dificuldade atual de muita gente entender a ironia — o que torna o mundo mais burro — cala bem com minha vivência: “Isso está acabando. Cada vez menos se entende a ironia, as pessoas cada vez mais leem ao pé da letra, literalmente. O que se diz ironicamente é entendido tal qual. Quanto ao humor, temo que cada dia seja mais perseguido. Não se pode fazer uma piada sobre nada, qualquer piada é ofensiva”. Marías também olha em nossa direção, ao falar do presidente norte-americano: “Há um problema com Trump. Ele é uma figura tão tosca, tão fuleira, que nos impede de levá-lo verdadeiramente a sério. Parece menos perigoso do que provavelmente é. (…) Mas não ocorre somente com Trump. O que está se passando com as pessoas que engolem Salvini, Orban, Duterte nas Filipinas, Bolsonaro no Brasil etc.? Não pretendo ter razão, mas pessoalmente os vejo muito perigosos e daninhos para a democracia”.

INVEJA

Quem me dera escrever assim, ser capaz de resumir a ópera como Ruy Castro (24/07): “A chapa está esquentando. Jair Bolsonaro, o presidente mais boquirroto da história da República, tem se superado ultimamente em sua especialidade de atacar adversários, ofender aliados, ignorar protocolos, diminuir instituições, promover crises, agredir minorias, comprar brigas gratuitas, humilhar seus próprios amigos, mentir com grande convicção, desdizer-se na maior cara dura e, de modo geral, escoicear a liturgia do cargo.” A escolha vocabular (“escoicear”) é perfeita.

DE COICES

“Recalcitrat undique tutus” (“de sua posição de segurança ele escoiceia em todas as direções”). De um poema de Horácio, como nos informa uma nota do livro, que é fonte de certa passagem de “As Viagens de Gulliver”. O narrador imagina os Houyhnhnms reagindo a uma invasão de seu país por corruptos povos europeus.

ENGOLINDO CARURUS


“Calígula venceu”, disse ele, atendendo o telefone. Pensava que fosse outra pessoa, e depois de um instante eu disse: “É o que parece, mas aqui é o Zuckerman. “Hoje é um dia negro, senhor Zuckerman. Passei a manhã inteira engolindo sapo. Eu não conseguia acreditar que isso fosse acontecer. As pessoas votaram nos valores morais? Que valores são esses? Mentir para meter o país numa guerra? Que idiotice! Que idiotice! (…)

“Religião!”, exclamava Kliman. “Por que é que eles não adotam a bola de cristal para saber o que é a verdade? Imagine se descobrem que a evolução não tem nada a ver, que Darwin era mesmo maluco. Será que ele é tão maluco quanto o livro do Gênese, com a história da criação do homem? Essas pessoas não acreditam no conhecimento”. (…)

Trecho de “Fantasma Sai de Cena”, romance de Philip Roth (Companhia das Letras, 2008, tradução de Paulo Henrique Brito). Nathan Zuckerman é o narrador desta e outras histórias de Roth. Aqui, envelhecido, está doidinho por uma jovem casada (apesar da impotência adquirida na ablação da próstata) e envolvido com o legado do contista E. I. Lonoff, seu padrinho intelectual. Zuckerman liga para Richard Kliman, jovem escritor e pé no saco, porque precisava dele naquela manhã de 2004, com Nova York de ressaca pela vitória de George W. Bush sobre John Kerry. Bush filho ganhara o segundo mandato, depois de justificar fajutamente a invasão do Iraque com aquela, diríamos, monumental “fake news” sobre as armas de destruição em massa de Saddan Hussein. Esta passagem de Roth tem brotado como ideia fixa das conexões sinápticas do subscritor. Por que será? Deixo a resposta ao descortino do leitor.

A vacina obrigatória do impeachment

Está na hora. É preciso defender, cada um como possa, neste distrito da aldeia global chamado Brasil, a aplicação da vacina do impeachment! Abaixo o deletério xamã das grotas milicianas! Nossa sanidade precisa ser imunizada contra a loucura, a incúria, o negacionismo e a náusea permanente da razão. Continuar lendo



EPICURISMO

No extraordinário site Aeon, a jornalista freelance Temma Ehrenfeld confronta noções populares sobre epicurismo e estoicismo com o que essas tradições filosóficas defendiam para valer. Epicuro valorizava a amizade, chiava com a política mas presava a democracia, admitia mulheres e escravos em suas aulas — um escândalo para os gregos à época — e via a felicidade como a evitação da dor, por meio da busca de prazeres com escolhas sóbrias e racionais. O epicurismo, diz a autora, em boa medida atende à vida moderna. Traduzo dois parágrafos.


“A racionalidade que ele vinculou à democracia dependia da ciência. Nós agora conhecemos Epicuro sobretudo por meio do poema “Sobre a Natureza da Coisas”, uma exposição de 7.400 versos do filósofo romano Lucrécio, que viveu cerca de 250 anos depois dele. O poema circulava entre um pequeno número de leitores até ser redescoberto no século 15, quando desafiou radicalmente a cristandade.

“Seus princípios são considerados surpreendentemente modernos, até a física. Em seis livros, Lucrécio afirma que tudo é feito de partículas invisíveis, espaço e tempo são infinitos, a natureza é uma experimento sem fim, a sociedade humana começou com uma batalha pela sobrevivência, não há vida após da morte, religiões são delírios cruéis, e o universo não tem um propósito claro. O mundo é material — com uma pitada de livre arbítrio. Como devemos viver? Racionalmente, abandonando as ilusões. Ideias falsas quase sempre nos tornam infelizes. Se minimizamos a dor que elas nos causam, maximizamos nosso prazer.”


RAMILONGA

Desde o originalíssimo “Tambong” (2000), seu segundo disco, não o perco de vista. Vitor Ramil, 57 anos, é um raro “cantautor” a encontrar seu lugar na mpb estropiada a partir dos anos 1980. Além das faixas que entraram para nosso cancioneiro como “Não É Céu”, “Foi no Mês que Vem” (acompanhada por um piano atonal de Egberto Gismonti) e “Grama Verde, o álbum estabelecia Ramil como um descendente da linhagem de Caetano Veloso e Belchior. O disco demarcava suas elevadas referências poéticas (Paulo Leminski, Allen Ginsberg, versões de Dylan e a temática regional sintonizada com o mundo, formulada na “Estética do Frio – Ramilonga”), com uma instrumentação enxuta, colorida e bem arranjada. Deu na “Folha” que ele apresentou novas canções em Porto Alegre, em julho, com poemas de Angélica Freitas, e deve reuni-las em disco. Alvíssaras. Uma referência na reportagem de Paula Sperb a “Délibáb”, CD de 2010 com poemas de Borges e do gaúcho João da Cunha Vargas musicados por ele, me faz clicar logo no Spotify. Ouço várias vezes “Milonga de los Morenos”, versão na medida, esférica, para as redondilhas de Borges, gravada com Caetano. Ramil se impôs na rica tradição popular brasileira de voz e violão, um grande feito. Aprendeu a trabalhar com perfeição uma ótima técnica instrumental com sua bela voz melancólica, cuja emissão parece modular a cada frase, efeito que acentua o páthos das letras.

“Milonga de los Morenos”, poema de Jorge Luis Borges musicado por Vitor Ramil, com participação da Caetano Veloso

JOÃO EM 55 MINUTOS

Do balacobaco o especial João Gilberto do “Playlist do Zuza”, programa semanal com roteiro e apresentação de Zuza Homem de Mello, disponível na rádio de internet do Instituto Moreira Salles, a Rádio Batuta. Músico, escritor, curador, produtor e não sei que mais, Zuza é um guia insuperável sobre música brasileira e jazz. Esse “Playlist”, pelo que toca, conta e analisa, vale por um curso intensivo sobre João e sua música, uma aula de 55 minutos. Perto de completar 86 anos, o autor, entre vários títulos, de “João Gilberto” (Publifolha, 2008), segue dividindo generosamente com leitores e ouvintes a cancha dos sonhos de quem viu de perto Miles Davis, John Coltrane e outros tantos recriadores do gênero, quando estudava música em Nova York. A propósito, é uma beleza o documentário “Zuza Homem de Jazz”, produzido pelo Cine Group, com direção de Janaina Dalri, em cartaz no canal Curta!.

 A APOLO 11 E A POESIA

A newsletter do NiemandLab, da Universidade de Harvard, me conduz a um artigo sobre os 50 anos da chegada da Apolo 11 à Lua, em 21/07/1969, e o desafio que o fato representou para os jornais se porem à altura do feito. Destaca a primeira página do “The New York Times” com um improvável poema. O “Times” soube ler as horas da história e marginar convenções editoriais. Quem ousaria hoje? “Cinquenta anos depois de ‘Voyage to the Moom’, em um país fraturado”, diz Joshua Benton, “parece impossível imaginar o momento de assombro comunal que a Apollo 11 inspirou. Quase tanto quanto um poema na capa do ‘The New York Times’. Mas houve um tempo, não muito longe, quando o jornalismo viu seus limites, os pôs de lado, e deixou o momento cantar”. O poeta convocado pelo “Times” era Archibald MacLeish. “Voyage to the Moom”, seu poema, alude a “andarilhos do céu” e ao “deslumbramento prateado” do luar “em nossas folhas e águas”. Mas impossível mesmo é imaginar algum jornal estampar na primeira página o desalento áspero de “Descida na Lua”, poema de W.H. Auden. Quatro de suas dez estrofes, na primorosa tradução de João Paulo Paes (minha edição da Companhia das Letras é de 1986), dizem assim:

Os heróis de Homero não eram certamente mais audazes
que o nosso Trio, mas tiveram sorte: Heitor
    foi poupado ao vexame de a sua bravura
    ser coberta pelas câmaras de televisão.

Vale a pena ir ver? Eu posso bem acreditar que sim.
Vale a pena ver? Bah! Atravessei um deserto certa vez
     de carro, mas não me encantei; deem-me antes um jardim
    viçoso, bem regado, longe dos que tagarelam

sobre o Novo, os Von Brauns e sua laia, e onde eu possa
nas manhãs de agosto desfrutar as glórias
    matinais, onde morrer tenha um sentido
    e máquina alguma possa alterar a minha perspectiva.

Intacta, graças a Deus, a minha Lua, ainda rainha
dos Céus, minguante ou cheia, uma Presença incrível
    O Velho dela, feito de areia, não de proteína,
    visita ainda as minhas regiões austrais.

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Zuckerman Safadão & Roth Safadinho

[Ensaio publicado na Inclusive.com número 8, setembro_2017]

Philip Roth

Philip Roth, o artista quando mais ou menos jovem, num momento Nathan Zuckerman

I

O leitor da obra de Philip Roth só pode ser um obsessivo. O fato de sistematicamente lhe negarem o Nobel é um mote de obsessão. Outro, não tem jeito, chama-se Nathan Zuckerman.

Nathan “torna-se” Philip Roth e vice-versa; um mostra-se tão vivo e verdadeiro — na realidade ficcional — quanto o outro. Imagino o escritor lendo este texto com a cara se abrindo em seu típico meio sorriso sarcástico. Ele podia exclamar, diante da diversidade de seus críticos: pois é, ganhei, papudos!

O leitor fervoroso de Roth, como o idealizo, é alguém educado na arte da ficção. Alguém que não deixa se abater pelo desamor à graça e à beleza do pós-modernismo e desdenha as atribuladas discussões sobre coincidências entre a ficção de um autor e sua biografia. Desdenha ainda mais o histerismo das cobranças identitárias que, à sua maneira, queimam livros e ideias. Mas, cá entre nós, leitor, Roth e Zuckerman não nos dão paz, e vamos virando página após página, e depois relendo as histórias, obstinadamente.

Zuckerman, a quem Roth significativamente não matou (matar, até que matou, provisoriamente), antes de, em outubro de 2012, anunciar sua aposentadoria como romancista, é narrador ou protagonista da parte mais substantiva da obra do autor.

O jogo de esconde-esconde autobiográfico Zuckerman/Roth, ou o jogo de luz e sombras entre criador e criatura — matéria-prima literária essencial de sua ficção — é mitológico e decisivo, com o perdão do trocadilho (talvez com algum eco significante) com o ensaio clássico de Albert Camus[1].

O Avesso da Vida (1986)[2] me parece o ponto alto desse espelhamento entre ficção e realidade. Esse romance polissêmico pode ser lido em duas vertentes principais: como crítica imaginosa à tentativa do público menos dócil e menos afeito à ficção de gabaritar uma na outra, e a um tempo como a autoanálise de um escritor judeu sobre os limites que esta condição deve ou não impor à liberdade artística.

O livro, que me parece subestimado no conjunto da obra, revela uma grande violência verbal, à la Roth, por óbvio. O autor-narrador nos dá a sensação de lutar obsessivamente contra a própria sombra e de ajustar contas de vida ou morte com a ficção e o judaísmo — de fato, depois desse romance, Zuckerman reaparecerá apaziguado como narrador em Pastoral Americana (1997)[3], e só o reconheceremos como “persona” atormentada, e por outras razões, é verdade, vinte anos mais tarde, do que falo à frente. O Avesso da Vida é, enfim, uma obra densa, febril e aflitiva. Como diz o próprio Roth em um de seus relatos autobiográficos, o livro expõe, no sentido de “entregar” ao leitor, a ossatura do romance que ele está a ler.

Pelas tantas da narrativa, seguimos o pensamento de Nathan:

“Enquanto ele [Henry, irmão de Zuckerman, que, como o próprio, morre num capítulo para reviver no seguinte] falava, eu ia pensando, as histórias em que as pessoas transformam a vida, as vidas em que as pessoas transformam as histórias”.

Ocorreu-me, então, esta paráfrase tonta de Pessoa: Roth ficcionista é um fingidor que chega a fingir que é ficção a ficção que deveras cria. Isso será arte?

Pois não é que reencontrei a mesma frase grifada ao abrir Os Fatos – A Autobiografia de um Romancista (1988)[4], obra só lançada no Brasil no ano passado e que é complementar ao romance. E, nada menos, como a epígrafe do relato, que, ora pois, começa e termina com a correspondência meio azeda entre Roth e Zuckerman.

O que mais gosto em O Avesso da Vida é da passagem na qual, depois do enterro de Nathan, com Roth assumindo o volante da narrativa, agora em terceira pessoa, um Henry indignado suborna a zeladora do edifício para entrar no apartamento do irmão, antes dos responsáveis por seu espólio, e surrupiar as anotações e “minutas” que lhe dizem respeito e converteriam sua vida na típica ficção falocêntrica: a ficção que já conhecemos. Aí está uma arrojada e precisa cambalhota narrativa, Mr. Roth, pensei com meus botões.

II

No início deste inverno, depois de mantê-lo à cabeceira a se empoeirar por quase dois anos, pus fim ao descanso imerecido de Zuckerman Acorrentado [5], o grosso volume com os relatos iniciais do personagem de Roth (escritos entre os anos 1970 e o começo da década seguinte).

Em O Escritor Fantasma, a primeira das quatro histórias reunidas, Nathan é um ficcionista que engatinha, ainda no final dos anos cinquenta. Para júbilo seu, é recebido pelo mestre com quem sonha como pai intelectual adotivo e por quem almeja ser ungido e abençoado.

Zuckerman chega à propriedade rural de Emanuel Isidore Lenoff, nos montes Berkshires, Nova Inglaterra, nos Estados Unidos. A visita será retomada mais tarde em “Fantasma Sai de Cena” (2007)[6]. Nathan então será um sexagenário à beira de um colapso mental, incontinente e impotente — sequelas da extração da próstata — e ainda assim vítima da tormentosa sedução de uma moça linda, culta, inteligente… e casada.

O leitor de Roth idealizado dá boas risadas com o Zuckerman escritor saindo das fraldas. Algumas frases guardam o melhor do humor corrosivo do personagem:

“Lenoff pronunciou ‘ficção’ como se tratasse de um cereal matinal”. 

Ou sobre a primeira visão de Nathan diante da linda Amy Bellette, personagem que ressurgirá quase 30 anos mais tarde:

“Com aquele rosto, cujos ossos fortes me pareciam ter sido alinhados por um escultor menos inocente que a natureza — com aquele rosto, ela devia ter mais que doze anos. Se bem que, se não tivesse, eu podia esperar”.

Há em O Escritor Fantasma — a par da centralidade do sexo e da crítica habitual à intelectualidade norte-americana, à academia, à crítica literária, à imprensa etc. — achados como este, a lembrar (por fora) as “tríades conradianas” mencionadas na prosa sexy entre Zuckerman e Jamie Logan em Fantasma Sai de Cena:

“A batedeira zumbia, a lenha estalava, o vento soprava e as árvores gemiam enquanto eu, aos vinte e três anos de idade, tentava pensar num modo de aplacar a melancolia daquele homem”.

Em Zuckerman Libertado e O Professor de Anatomia, que completam com A Orgia de Praga (chamado “um epílogo”) a edição compilada, nosso anti-herói, paranoico e enroscado com seu “harém” e suas dores excruciantes nas costas, paga o pato por ter lançado o muito bem-sucedido “Carnovsky”. A amoralidade, a salacidade e a liberalidade do livro com o judaísmo fazem de Zuckerman persona non grata entre nacionalistas israelenses e guardiães da Torá e do Talmude.

“Carnovsky”, por óbvio, é o simétrico irônico-cômico do padecimento que o próprio Roth sofreu com a publicação de O Complexo de Portnoy (1969), saga de um rapaz judeu campeão no que já se chamou nos manuais cristãos de “vício solitário” ou “autoviolação” — obra que ainda impõe um desafio ao leitor para controlar o riso.

Por essas e outras, trato intimamente o autor de “Carnovsky” de Zuckerman Safadão, fruto da verve de um Philip Roth que, por tê-lo imaginado, o homem e suas circunstâncias — por certo modeladas em experiências reais exageradas e distorcidas — merece formar com seu rebento uma dupla nada caipira. Agora com vocês, Zuckerman Safadão & Roth Safadinho.

III

Sigo lendo e relendo Roth, como deixei antever até aqui. Minha principal motivação foi ter assistido umas seis vezes ao ótimo documentário Encontro com Philip Roth – A Biografia de uma Obra, de Adrien Soland e François Busnel, lançado na França em 2015 e exibido este ano no canal Curta!.

O filme reúne trechos de entrevistas gravadas em ocasiões diversas, incluindo o período posterior à aposentadoria do autor. O roteiro apõe falas de Roth à leitura de passagens da obra e imagens de ruas e esquinas de Nova York nela retratadas e fixadas no mapa literário da cidade, bem como no GPS amoroso de seus leitores.

Retenho a última sequência, gravada na casa rural do escritor no estado norte-americano de Connecticut. A câmara se alterna entre o entrevistado, no seu jardim e na sala de estar, onde ouve um vinil clássico, e a fachada grafite da casa, que avistamos no contracampo desde os limites da área verde e de árvores seculares que há muito preservavam a paz do autor octogenário. Ao anoitecer, as luzes dessa fachada se apagam, uma após outra, uma persiana de tecido é abaixada; então o fade-out e os créditos finais.

O assunto da entrevista nessa parte são as duas derradeiras obras de ficção e a expectativa da morte que ronda quem dependurou as chuteiras. O escritor, aos 82 anos à época, refere-se à “perda da magia” de muitos artistas depois dos 65 anos, tema de A Humilhação (2009) — a história de um ator abandonado pelo talento — e da sombra da Indesejada das gentes[7] que ressurge em Nêmesis (2010) — o relato da juventude feliz de um atleta sugada pela poliomielite. Resignado, o escritor diz, num meio sorriso, ao abordar sua retirada de cena: “a Nêmesis está mesmo ali na esquina. Então me aposentei e comecei a curtir a vida”.

Ouvimos na sequência alguns compassos das Quatro Últimas Canções de Richard Strauss, obra que merece um suspiro de Roth. Ele pergunta ao entrevistador se conhece as obras e exclama, risonho: “São uma maravilha”.

O leitor idealizado de Roth[8] vai se lembrar da referência de Zuckerman à música em um trecho de Fantasma Sai de Cena, onde Nathan justifica dessa forma a escolha desses lieder como trilha do diálogo teatral que ele tenta esboçar em seu tormentoso regresso a Nova York, depois de um longo autoexílio no campo:

“Pela profundidade obtida não através da complexidade, e sim da clareza e simplicidade. Pela pureza do sentimento sobre a morte, o adeus, a perda. Pela longa linha melódica que se estende e a voz feminina que ascende mais e mais. Pelo equilíbrio e tranquilidade, a graça, a beleza e a intensa ascensão. Pela maneira como o ouvinte é atraído para dentro do tremendo arco de dor. O compositor tira todas as máscaras e, aos oitenta e dois anos de idade, se expõe ao ouvinte nu. E o ouvinte se dissolve.”

Os documentaristas não quiseram tirar o prazer do espectador e leitor atento de Roth, ao evitarem frisar o paralelismo do desfecho. Não enfatizaram no roteiro a força simbólica de vermos o escritor — retirado da cena literária, com a obra muito bem-sucedida — a ouvir, arrebatado, o último e iluminado trabalho do velho Strauss.

O ciclo da vida e a plácida aceitação do seu fim ressoam melancolicamente nas quatro canções, compostas sobre poemas de Herman Hesse e Joseph von Eichendorff.  Transcrevo o verso final de In Abendrot (crepúsculo), a última delas:

O weiter, stiller Friede!
So tief im Abendrot.
Wie sind wir wandermüde —
Ist dies etwa der Tod?

(Na tradução da Wikipédia:)

Ó paz imensa e tranquila
tão profunda no crepúsculo!
Como nós estamos cansados dessa jornada —
Seria talvez isso já a morte?

O escritor I. E. Lenoff, cuja memória é recuperada em Fantasma Sai de Cena, é citado no reencontro entre Nathan e Amy Bellette, quando o mentor de Zuckerman é lembrado em suas palavras finais: “O fim é imenso, é sua própria poesia. Quase não pede retórica. É só enunciá-lo tal como ele é.”

O que atrai o idealizado leitor de Philip Roth, em boa medida, é o que molda o leitor ideal per se.

No fim de um capítulo de Fantasma Sai de Cena, Zuckerman se pergunta se, para uns poucos, o sofrimento real, por maior que seja, não dispensa “uma amplificação ficcional que dê às coisas uma intensidade que é efêmera na vida e que por vezes chega a passar despercebida. Ao que responde:

“Não para algumas pessoas. Para umas poucas, muito poucas, essa amplificação, que brota do nada, insegura, constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante”.

Mas o que é isso senão uma manifestação do espírito proustiano, como o sentimos encarnado já no final do longo curso de Em Busca do Tempo Perdido[9]:

“A vida verdadeira, a vida afinal descoberta e tornada clara, por conseguinte a única vida plenamente vivida, é a literatura”.

No ensaio Alfabetização Humanista[10], George Steiner se refere à mesma substância da intersecção entre vida e arte, ao formular, de modo inesquecível:

“Quando é mais que devaneio de um apetite indiferente nascido do tédio, a leitura é uma forma de atuação. Atraímos a presença, a voz do livro. Permitimos que entre, ainda que não sem reservas, em nosso íntimo. Um poema magnífico, um romance clássico, entram à força em nosso interior; tomam de assalto e ocupam as praças fortes de nossa consciência. Exercem sobre nossa imaginação e desejos, sobre nossas ambições e sonhos mais secretos, um domínio estranho e contundente. Quem queima livros sabe o que está fazendo. O artista é a força incontrolável: depois de Van Gogh, nenhum olhar ocidental pode contemplar um cipreste sem notar nele o princípio de uma chama”.

IV

Fiz uma árdua releitura de Pastoral Americana. Árdua, talvez porque a vida do Sueco — uma pequena estrela no céu onírico americano à mercê da atração gravitacional do buraco negro da Guerra do Vietnã — tenha se tornado tão familiar como um episódio que muitas vezes recobramos, ou tentamos recobrar, e cuja memória não traz qualquer escape de redenção. Mas é o que costuma ocorrer com grandes romances.

Três passagens de que não me lembrava valeram especialmente o esforço. O devaneio do Sueco ao revelar seu ideal mais profundo: ter sido um Johnny Semente de Maçã (Johnny Appleseed), o herói do folclore norte-americano, e podido vagar pelos campos do mundo a espalhar árvores frutíferas e bondade. É uma imagem que nos fere como um verso de Lorca, pois se choca contra o infortúnio do personagem como uma onda gigante a engolir um bote à deriva.

Reli e senti ainda mais intensamente a força tremenda contida na narração do reencontro do Sueco com sua filha Merry, então um trapo humano convertido ao jainismo, em um quarto sórdido de um beco miserável de sua cidade natal. Que leitor dedicado consegue mergulhar nessa longa passagem e emergir, ao atravessá-la, sendo o mesmo leitor de antes?

Nathan Zuckerman, o narrador, em outro episódio memorável, leva o Sueco — depois de ele ter saboreado todos os círculos do inferno abertos pelo Vietnã e pelos conflitos familiares entre judeus e góis — a considerar que o Dia de Ação de Graças é a “pastoral americana por excelência, e dura vinte e quatro horas”. Porque nesse feriado, quando “um peru colossal alimenta todo mundo”, vigora uma “moratória” das barreiras raciais e religiosas, “uma moratória de comidas esquisitas, comportamentos esquisitos e exclusividade religiosa, uma moratória da nostalgia de três mil anos dos judeus, uma moratória de Cristo, da cruz e da crucificação para os cristãos”.

Não esperava, mas afinal obtive mais prazer — não recordava quase nada do livro — ao ter relido, antes, Casei com um Comunista (1998)[11], romance que termina com a frase “as estrelas são indispensáveis”, num raro laivo lírico na obra do Roth.

Ao retomarmos os anos do Macarthismo e sua mancha na civilização norte-americana, nosso interesse recai no misto de graça e tragédia na representação da doença do fanatismo e seus efeitos perversos em Ira Ringold, ou Iron Rinn, o personagem central que tentou ser uma espécie de pai substituto para o adolescente Nathan Zuckerman.

Casei com um Comunista retrata de maneira implacável e, por assim dizer, demasiadamente humana, o socialista pró-soviético Ringold, como também toda a adesão a posições extremas, seja na literatura, na estética ou na política.

A narrativa disseca a gênese da cooptação de um espírito frágil e desamparado pela ideologia, a dizer muito sobre nosso próprio mundo[12]:

“O léxico pseudocientífico do marxismo, o jargão utópico que o acompanhava — despeje essa conversa em cima de alguém tão sem instrução e sem cultura como Ira, doutrine com o glamour intelectual das Grandes Ideias Radicais um adulto que não é lá muito desembaraçado no que diz respeito a usar a cabeça, catequize um homem de inteligência limitada, um tipo suscetível que seja tão inflamado quanto Ira… Mas esse um assunto bem distinto, o nexo da exasperação e não pensar”.

O livro inteiro é rico em sínteses como essa, que trazem a beleza da verdade revelada. Quando Zuckerman e seu querido professor Murray, o irmão de Ira, estão ouvindo a canção soviética Dubinuchka, cujo refrão diz “Eia! Avante”, de um LP regalado a Nathan pelo grande homem (Ira lembrava Abraham Lincoln fisicamente e o representou como ator amador), ele, Nathan, reflete:

“‘Eia! Avante!’ vinha de um local remoto no tempo e no espaço, um resíduo espectral daqueles arrebatadores tempos revolucionários quando todo mundo que almejava mudanças, de forma programática, ingênua — louca e imperdoável — subestimou a capacidade humana para mutilar suas ideias mais elevadas e convertê-las numa farsa trágica. Eia! Avante! Como se a malícia, a fraqueza, a burrice a corrupção humanas não tivessem a mínima chance ao enfrentar o coletivo, a força do povo que, unido, empurrava para a frente, a fim de transformar suas vidas e abolir a injustiça”.

Vou ao YouTube buscar Dubinuchka, música executada no romance em um disco do Coro e Banda do Exército Soviético. Vale a pena o leitor ouvi-la para ampliar a sintonia com o teor emocional suscitado pelo trecho transcrito.

É uma canção de melodia tocante, cheia de pathos. Na tradução do livro, diz a letra:

“Vamos, levante e lute,
Eia! Avante!
Força, todo mundo junto,
Eia! Avante!”

 

Minhas leituras de Philip Roth têm proporcionado, como inesperado desdobramento, outras descobertas musicais. Além desse LP de 78 rotações da Rússia stalinista — e das citadas Quatro Últimas Canções de Strauss, há nessa história o repertório de um recital privado na mansão de Ira e Eve Frame (ex-celebridade do cinema mudo com quem o homem de ferro se casa e enseja sua desgraça) com o trio formado pela filha de Eve, a harpista Sylphid (“com seu tronco quadrado, pernas troncudas e aquele esquisito excesso de carne que a estufava, um pouco com um bisonte, na parte de cima das costas…”) e duas amigas instrumentistas: duos para harpa e flauta de Fauré (Berceuse) e Franz Doppler (Fantasie de Casilda) e o Interlúdio da Sonata para Flauta, Viola e Harpa, de Debussy.

O leitor idealizado de Roth, por certo, também procurará escutar o repertório do recital, levado pela graça da descrição e do enlevo do seu narrador, o velho conhecido Nathan. A audição será recompensada se você, como o autor dessas notas, é alguém que alimentava preconceitos contra a sonoridade da harpa.

Convidado para a festa de gala, Zuckerman se manda de ônibus de Newark para Manhattan, cheio da tensão da expectativa que um adolescente pode ter diante da ventura de frequentar outro mundo social, pleno de políticos, intelectuais e mulheres sedutoras. O relato do narrador é saboroso desde o início:

“E, num sábado à noite bem cedo, joguei uma balinha aromática na boca e, com o coração batendo como se eu fosse cruzar a fronteira do estado para cometer um assassinato, fui até a avenida Chancellor e peguei um ônibus para Nova York”.

 

Quero, de passagem, como que entre parênteses, fazer um registro nesses apontamentos, sabendo que talvez me exceda como leitor obcecado do criador de Alexander Portnoy a adentrar no terreno espinhoso da crítica literária stricto senso. Paciência. Mas vejo Roth como um “ironista trágico”, a categoria na qual Harold Bloom[13] inscreve Flaubert, Eça, Calvino, Borges e Machado de Assis.

Talvez ainda — conforme o estado de arte da crítica literária — um tanto longe da grandeza perene de todos esses grandes, o que apenas a posteridade, creio, poderá avaliar, Roth é o contemporâneo que conheço cuja obra destila a ironia mais elevada, aguda e excitante à inteligência.

 

Mas, e agora José, para onde? O que reler — indago à minha estante, já que o homem já se retirou da ficção e, ao se aproximar da nona década de vida, não deve mesmo voltar atrás — vale dizer, teremos nós próprios de imaginar um final de vida para Nathan Zuckerman?

Olho então para a subseção Roth entre a literatura norte-americana e, em resposta, como dentro do foco de um tambor de luz, reencontro lombadas que nos últimos vinte anos se tornam íntimas a ponto de dispensarem todo tipo de formalidade. O Teatro de Sabbath? A Mancha Humana? Operação Shylock? Homem Comum…? Uni, duni, tê…


 

[1] Refiro-me ao ensaio de Alberto Camus Mito de Sísifo (Editora Guanabara, 1989). A pronúncia do título original em francês (Le Mythe de Sisyphe), remete ao mito grego, mas também a “o mito decisivo” (le mythe décisif). É dessa obra a célebre afirmação de Camus: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”.

[2] O Avesso da Vida, como os outros livros citados de Philip Roth, são publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras. Tradução de Beth Vieira, neste caso.

[3] Traduzido por Rubens Figueiredo.

[4] Traduzido por Jorio Dauster.

[5] Traduzido por Alexandre Hubner.

[6] Traduzido por Paulo Henrique Britto.

[7] De Consoada, poema de Manoel Bandeira: “…quanto ela chegar (…) talvez sorria, ou diga:/ — Alô, iniludível! / O meu dia foi bom, pode a noite descer…”.

[8] Sugiro como informação complementar, que pode ou não revelar algo mais sobre um leitor particular de Philip Roth, a leitura de Inferno em Florença, no blog do autor https://goo.gl/oQA751

[9] Em Busca do Tempo Perdido: O Tempo Redescoberto, de Marcel Proust, tradução de Fernando Py, Ediouro, 2001.

[10] Linguagem e Silêncio, Companhia das Letras, 1988, tradução de Gilda Stuart e Felipe Rajabally.

[11] Tradução de Rubens Figueiredo.

[12] Nestes dois textos, disponíveis no blog do autor, discute-se a singela e prosaica constituição de um espírito radical no ambiente das faculdades de humanas no Brasil, em “Lobotomias” (https://goo.gl/pZ6jkq) e “Chaui não é mais pícara que outros luminares do lulopetismo” (https://goo.gl/CqK9LN).

[13] A classificação dos “ironistas trágicos” está em Yesod (“fundação”) no livro Gênio, de Harold Bloom, Objetiva, 2003, tradução de José Roberto O’Shea.

Silêncio, por favor

[Coluna da Inclusive.com número 6, julho_2017.]

No começo era o Verbo e a linguagem. O fim parece ter fotos, vídeos, emoticons e kkks comungados com automatismo a roçar o simiesco.

bacon the sea

Francis Bacon, Untitled (Sea), 1953.

O título é verso de um samba de Paulinho da Viola (Para Ver as Meninas), com o qual abro e vou fechar esta coluna.

Pois “hoje eu quero apenas / uma pausa de mil compassos”.

Há muito barulho por todo lado. Um falatório diabólico obscurece o que é vital. A cacofonia de um coaxar transoceânico marca a política, a cidadania e as relações pessoais.

Palavras e metáforas desaparecem na algaravia como dejetos, de link em link, de nó em nó na teia virtual.

No começo era o Verbo e a linguagem. O fim parece ter fotos, vídeos, emoticons e kkks comungados com automatismo a roçar o simiesco. Ao menos numa parte considerável da existência, a leitura e a palavra foram corrompidas.

A telinha colorida do celular praticamente aboliu o céu e o movimento das ruas como inspiradores do pensamento.

Quem estudava os efeitos dos mass media no século passado não podia sonhar com a nova ordenação do mundo. Algoritmos (linguagem não verbal) e Big Data são minas de ouro do século 21. Por meio de aplicativos e inteligência artificial, tangem multidões de usuários — consumidores, não cidadãos — cuja participação precisa ser renovada num ciclo infinito de clicks e egotismo para que se sintam vivas no ciberespaço.

A palavra — o sopro, a luz que iluminava as consciências — se apaga. O idioma se torna impotente. Os sentimentos e as sensações se esvaziam. Os músculos da face se hipertrofiam com o exercício permanente do riso autônomo. O pensamento se encolhe.

No Brasil e no mundo, as referências vocabulares das ideias foram evisceradas. “Direita” e “esquerda” irmanam-se na idiotia.

Como demonstra George Orwell em O que É Fascismo (Cia das Letras), o xingo “fascista” é pau para toda obra; atende a todo o arco-íris ideológico.

Também as categorias da beleza perderam seu território com a invasão bárbara do relativismo e do discurso “politicamente correto”.

O desgaste da linguagem é fenômeno universal que acompanha as mudanças sociais e tecnológicas.

O esgotamento da palavra e das narrativas foi detectado ainda na segunda metade do século 19, com a reação dos pintores, poetas e romancistas do Modernismo que reinventaram sua arte.

Mais tarde é a “expulsão da literatura como influência séria sobre a percepção da vida”, no dizer de um personagem de Philip Roth, processo que termina em nossos dias, era de ouro dos millennials.

Mas agora não há qualquer sinal de reação criativa, além de prazerosa resignação.

Uma tagarelice sem fim distingue nosso tempo. A preferência assombrosa pela frivolidade ulula em todas as plataformas.

Ai, se Eu te Pego e Despacito são a trilha ideal do espírito da época.

“Talvez nossa cultura tenha se tornado esbanjadora de palavras. Talvez tenha vulgarizado ou gasto o que de garantia de percepção e valor luminoso um dia contiveram”, ponderava o filósofo e crítico literário George Steiner num ensaio dos anos 1960, uns 50 anos antes que o WhatsApp e do Facebook começassem a reger a imaginação.

Steiner se refere no mesmo livro ao “atormentado escrúpulo” de Kafka ao retornar várias vezes (nas Cartas a Milena) “à impossibilidade da manifestação adequada, ao esforço infrutífero da tarefa do escritor que é encontrar a linguagem ainda não enxovalhada, desgastada até tornar-se lugar-comum, esvaziada pelo desperdício irresponsável”. Kafka, puxa vida. Então sou o Gregor Samsa.

Cada hora de rola-páginas nas redes sociais incrementa a hiperinflação de palavras que fragiliza a linguagem. Se uma carroça de bolívares venezuelanos não compra um rolo de papel higiênico, um Amazonas diário de palavras no Facebook não produz uma ideia original.

Nem apelos à pornografia e à violência surtem mais efeito, que o diga a publicidade de rapina (“Para você curtir gigante.”)

Pois hoje eu quero apenas o bem precioso do silêncio. Mil compassos de pausa. Contra o veneno do ruído infernal, o antídoto do silêncio, anterior ao verbo. “Deve-se calar sobre aquilo de que não se pode falar”, diz a célebre frase do filósofo.

E por silêncio clama Paulinho da viola em seu lindo samba: “Quem sabe de tudo não fale / quem não sabe nada se cale / se for preciso eu repito / porque hoje eu vou fazer / ao meu jeito eu vou fazer / um samba sobre o infinito”. Que o silêncio nos resgate.

Dylan, Nobel de Literatura, e um mundo que acabou

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Nunca perdi o interesse por Bob Dylan. Quando minha geração, desde a quarta década de vida, começou a sepultar precocemente seus velhos ídolos entrados no outono, não os perdi, não os perco de vista.

Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Leonard Cohen, muita gente. Poucos mantiveram a vitalidade criativa como Dylan. Para sentir isso basta ouvir seus álbuns mais recentes, a exemplo de Modern Times (2006) ou Time out of Mind (1997), que trouxeram canções da riqueza de Not Dark Yet e Workin’ Man Blues II.

Luis Antonio Giron tascou a escolha do cantautor, como dizem em espanhol, como Prêmio Nobel de Literatura. “Depois de a Academia Sueca premiar uma jornalista no ano passado, chegou a hora de um músico. Eu sempre digo que o Nobel é o Oscar sueco. Agora o Nobel parece o Grammy da Suécia. Salvo se, de acordo com os boatos, Bob Dylan é Thomas Pynchon. E que tal um Grammy para Philip Roth?”,comentou no Facebook.

Tipicamente, a Folha de S.Paulo, que encomendou a Giron uma análise, publicada mais tarde, apontou em outro texto mais uma razão estaparfúdia para a glória de Dylan como Nobel de Literatura: “Artista é agora o único com Nobel, Oscar, Grammy e Globo de Ouro”. Qual o sentido disso, dizer que um criador acumula prêmios como um tenista conquista o Grand Slam? Informação pop, entretenimento oco, cultura gasosa, tudo que se identifica com o laurel anunciado nesta quinta-feira.

Ano após ano, aguardamos feito bobos o prêmio para Philip Roth. Não veio e não virá.

A literatura e a própria arte perderam a centralidade na vida humana, agora pautada pelo ordenamento dos dispositivos tecnológicos, do consumo e das redes sociais. Por certo ainda há no mundo uma miríade de bons autores e uma indústria editorial próspera. Mas, pense, qual foi a última vez que você conversou com alguém sobre a obra de um grande romancista?, ou misturou cinema, música e literatura num papo enebriante através da noite.

Não creio que a academia de doutores suecos tenha se rendido a isso. Bobagem. Mas, há décadas seu galardão literário deixou de fazer sentido. O que importa é a novidade, o episódico, a conversa frouxa e irrelevante que será esquecida ainda esta tarde.

Um mundo acabou, pode crer, amizade. A lembrança de Roth é exemplar. A literatura de Roth, como toda grande literatura, é capaz de transformar nossa compreensão de nós mesmos e do nosso semelhante. Dificilmente alguém poderá dizer o mesmo da lírica de Dylan. Mas quem sabe nos próximos anos não dão o Nobel a Chico Buarque? Estaríamos onde chegamos.