Matou a ‘família Globonews’ e foi ao cinema

Jurupoca_47. Desde o Belo. 13 a 19/11/2020. Ano 2

Mark Rothko (s/ título)
Anamnese

 
 Entre um dado e mil dados,
 No correr do sucesso
 De fatos e fotos,
 Enredado em destroços
 Do mundo encapelado
 Pós-tsunami do tédio,
 Já não me cabia
 Entre a dieta e o remédio,
 E me desavinha, náufrago,
 Na estranha paisagem estilhaçada;

 Ousar eu não podia
 Interromper a viagem
 Na jornada estendida
 Que cumprir devia:
 Minha nave errou
 De rota na galáxia?

 Quando a onda entrou,
 A padecer de hipóxia,
 Sei que desde então
 Vago zambo,
 Que quando me canso
 Paro de supetão
 Para um trago,
 Ou num breve remanso
 De farmácia, entre tantas
 Estações que não alcanço;

 Que, penso, não importa,
 Mas a verdade mais lisa,
 É que a vertigem me bate
 No limiar da saída,
 Ao sucumbir à gravidade
 Que antecede a subida.

 [15/"21 Poemas" - Antônio Siúves - 2016] 

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

A Ju, você sabe, é uma influenciadora digital que não influencia ninguém, or as a digital influencer Jurupoca is a big loser, said Mr. Orange Agent in a famous tweet that went viral after retweeted by Mr. Caveirão.

Também não caça-clique por aí, a Ju, como uma influenciadora qualquer.

Pode-se sim dizer que roda a bolsinha entre bits & bytes, mas é vaidosa como poucas.

Não aceita qualquer cliente e diz NÃO terminativo para ministros do STF, partidos políticos e investidores do Silicon Valley.

Agora, era capaz de qualquer sacrifício para salvar a cidade apavorada, surgissem dois mil canhões assim de um Zepelim prateado.

Com quase ano e meio de vida, e relutante como um Quixote dos Pintados, antiga fazenda de Ibirité, Minas dos Matos Gerais, a Ju procura um patrocinador master.

O pedido de colaboração que vai no pé low profile da cartinha é um rematado sucesso. Só no Querosene a Ju tem três leitores abnegados. Todo mês pingam um pingado sem pão quente na chapa.

Deus é pai e é fiel, mas não aceita cartão de ovelha desgarrada.

Já a Crefisa insiste em apoiar exclusivamente o Jornal Nacional. O CEO da emprestadora de grana a juros de pai para filho sequer devolve minhas chamadas.

Seja como for, lá vamos nós, brava gente, longe vá temor servil.

Mas aí, meu bom, vai me a abençoar com o troco do profiteroles?


Com a “família Globonews”

Não chego a extremos, como membros da “família Globonews”, de abandonar mulher e filhos, mas também sou doidinho pela Kamala Harris.

Para entrar no clima

As notas que seguem devem ser lidas ao som de Rhapsody In Blue, do Gershwin, aí não por acaso na trilha de Fantasia 2000, clássico atualíssimo dos estúdios Disney.

Embarrigado pela ignorância

Confesso-me enfeitiçado como numa fantasia de Walt. A redenção hollywoodiana veio depois de quatro anos de tortura infligida ao mundo por um bilionário animador de TV tuiteiro. Ainda na adolescência, menor de idade, se viu embarrigado pela ignorância. Tal criatura alaranjada, pançuda e bronca poderia ter saído do caldeirão das bruxas de Macbeth. Mas não. Brotou dos miolos e úteros da sociedade norte-americana.  

Filiação

Muita gente boa tentou explicar a ascensão da besta quadrada laranja. As melhores repostas não livraram ninguém: a desigualdade crescente, o populismo, as vítimas da exportação de empregos e da desindustrialização, as vítimas da “destruição criativa” exclusivista do Vale do Silício, a vingança branca supremacista contra os governos Obama, a esquerda lacradora há décadas desviada para questões paralelas ao trabalho e ao ganha pão das famílias, o terraplanismo, os republicanos, os democratas, os incas venusianos, eu, você e o Asmodeu. Mas no Bananão (tks, Lessa, sempre) podemos afirmar com segurança: não temos nada a ver com o empreendimento, com a gestação e o parto da criatura em novembro de 2016. Daí certa surpresa, meu senhor, minha senhora.

Conforme fontes terraplanistas no Itamaraty, os incas venusianos teriam provido a vara da qual nasceu a besta quadrada laranja

A Cobertura do Milênio

Nunca houve uma cobertura tão grande feita por tão poucos. Os repórteres da rede de emissoras Globo trabalharam em cadeia global demais e dormiram de menos. Um se viu atrapalhado pelo serviço secreto; outro, olheiras indisfarçáveis pela maquiagem, baralhava a soma de votos em estados que sambavam no telão. A Georgia insistia em fazer fronteira com o Arizona, e o sistema eleitoral aloprado ficava cada vez mais endoidado aos olhos de um brasileiro empoderado pela urna eletrônica.

Kamala ou Raia?

E o Fantástico? Nu. Estava tão show da vida que num piscar de olhos pensei assistir a uma entrevista exclusiva com a Kamala, e já me assanhava. Quem dera. Era a Claudia Raia passando uma série de casamentos e transas a limpo, numa atração exemplar do brazilian new cultural journalism. Nem um pio sobre a arte de interpretar, dançar e sapatear nos palcos e na TV, que ela domina tão bem.

O novo jornalismo cultural

O brazilian new cultural journalism dos ex-cadernos de ex-cultura puseram as sete antigas e belas artes no seu devido lugar. Da arquitetura ao cinema, sai tudo de cena, uma revolução. Já evoluímos para umas 30 ou 40 formas de arte dignas de cobertura via Instagram. A eternamente vanguardista e imperativa Ilustrada incluiu no rol das novíssimas artes, entre várias outras, os games, o colunismo de rede social e o engajamento progressista. Exclusivo: a Folha se prepara para ser o primeiro jornal imprenso a ser inteiramente reabsorvido pelo meio digital.

A mão que balança a coleira

Caveirão.105mm! seguia na moita, caluda, sobre a eleição de Joe Biden. De repente se vira abandonado, e tropicava como trêfego em duas emas. Explicação? É que lá em Washington, num verdejante campo de golfe, tão verdejante que lhe dava vontade de pastar, entre uma tacada e outra, tremeu a mão que segura a coleira, tremeu a balouçar como um doente de São Guido, antes de Biden discursar em Wilmington. Tanto foi assim que, três dias depois, na outras ponta da coleira e a 11 mil km de distância, trincado e tremebundo, Caveirão viria passar uma descompostura na nação, por motivo fútil, como se tivéssemos aclamado Biden e a escultural Kamala: seus maricas!, declarou. E somos um país afeminado pelo Corona e pelo partido Democrata, quem duvida? Na República Federativa e Miliciana do Brasil se resolve é no braço, na peixeira, no AK-47 e na cloroquina. Não tem essa viadagem toda, esse negócio de só uma picadinha, uma gotinha, uma vacininha.

O melhor da NET

Um leitor da Ju, depois de zapear pelos 520 canais a cabo, exausto com a caudalosa e trepidante Cobertura do Milênio pela “família Globonews” (a única no mundo a transmitir na íntegra o pronunciamento de Donald na noite do dia 5), conclui que o Dog TV era o canal mais cult da NET, enquanto o Fish TV, o mais educativo, empatado com E e Pai Eterno.

Picolés de todos os sabores! Olha aí freguesa

A “família Globonews” e outras boas famílias da nossa imprensa repetiam feito louros que Joe Biden não passa de um Alckmin, um “picolé de chuchu”. Era como se o carisma fosse decisivo para a saúde da democracia, além do bem estar dos álacres comentaristas; como se a falta de talento para o espetáculo televisivo, para o show da vida, fosse pecado em nossa civilização, e na verdade pecado até é. Que sabores de picolé seriam Besta Laranja e ¡Caveirão.105mm!?, eu matutava. E você aí já cantou a pedra. Oh, quanta cremosidade lambida gostosamente pela ralé e pelos próceres do olavismo terraplanista.

The Undoing

Nicole Kidman está linda, elegantérrima, cheia de cachos e infernal em The Undoing, aos domingos na HBO. Ela aparece já na abertura, quando vemos, ou ouvimos, ela ter o topete, ou as melenas cacheadas, de cantar a mitológica e quase centenária Dream A Little Dream Of Me (Gus Kahn, André Fabian, Schwandt Wilbur e Gus Kahn). E se sai bem também nisso a danada! Deu certo para a ambientação do suspense, que até aqui nos mantêm vidrados nas reviravoltas enganchadas no final dos episódios. Mal podemos esperar a próxima madrugada de domingo para ver no que a trama dá.

A propósito da bela canção

A quem interessar possa, minha versão favorita de Dream A Little Dream Of Me é esta daí.

O Álbum musical (WEA, 1977;  Biscoito Fino, 2004) de Francis Hime tem faixas sublimes como este samba Anoiteceu, de Hime e Vinicius de Morais, na voz de Milton Nascimento.

A participação de Milton é comentada por Hime no encarte:

Desde que conheci Bituca, ele gostou muito dessa música. E chegamos a cantá-la várias vezes em Três Pontas, num evento em homenagem a Milton, quando se inaugurou a praça Travessia com um grande show. Logo depois eu a gravei no meu disco Passaredo, e Bituca ficou “brabo” comigo (como ele costuma dizer), pois queria que eu o chamasse para tocar violão na gravação. Imaginem, que modéstia! E agora, cerca de 20 anos depois, vejam que coisa mais bonita que ficou o samba cantado por ele. A propósito, aquelas vozes todas da introdução à capela ele inventou na hora”.

“Aquelas vozes todas” são outra pura singularidade de Milton. Ele parece conseguir recriar a relação intrínseca que existe entre música e silêncio. Depois, com perfeição, cai no andamento cadenciado do arranjo de Cristóvão Bastos.

Compare-se com o registro de Passaredo (Som Livre, 1977) — igualmente antológico — com os intervalos de um “sambão” clássico. Não duvido que a escolha do andamento tenha sido orientada pela adequação do samba ao timbre bituquiano.

O piano de Bastos tece uma trama com as percussões de Marco Suzano, pontuada por crucial cuíca, o violão de Marcos Pereira, o baixo de Omar Carvalho, os trombones de Vittor Santos e a bateria de Elcio Cáfaro.

Suponho que não tenha vindo do nada a escolha de Anoiteceu para abrir o disco, uma síntese da sofisticação harmônica e da criatividade melódica do compositor, cantor, pianista, arranjador e maestro Francis Victor Walter Hime, hoje aos 81 anos. O maior dos parceiros de Chico Buarque, por profícuos 12 anos, sabia melhor que qualquer outro ouvinte o que tinha nas mãos.

Anoiteceu foi um de suas primeiras composições com Vinícius, primeiro parceiro. No mesmo ano, 1963, fizeram Sem mais adeus, interpretada por Chico Buarque neste Álbum musical.

ANOITECEU – Francis Hime e Vinicius de Moraes

(A luz morreu, o céu perdeu a cor
Anoiteceu no nosso grande amor)

Ah! Leva a solidão de mim
Tira esse amor dos olhos meus
Tira a tristeza ruim do adeus
Que ficou em mim
Que não sai de mim
Pelo amor de Deus

Vem suavizar a dor
Dessa paixão que anoiteceu
Vem e apaga do corpo meu
Cada beijo seu
Porque foi assim
Que ela me enlouqueceu

Fatal, cruel
Cruel demais

Mas não faz mal
Quem ama não tem paz

Praia dos Ossos

Depois da prescrição do dr. P., vi quase de enfiada os oito episódios de Praia dos Ossos, da Rádio Novelo, produtora de podcasts parceira da Piauí. Está tudo lá — a saga de Ângela Diniz e o que dela decorre como sinal do patriarcado e do machismo eterno, feroz e letal —  muito bem pesquisado, documentado, roteirizado e narrado. Podiam ter evitado boa parte da fofoca de colunismo social sobre a carnalidade de Ângela, no quinto episódio. Em nome da curiosidade lascívia do público, correram o riso de dar uma força e até apimentar os argumentos do advogado Evandro Lins e Silva sobre os apetites da pantera mineira, apetites que a teriam levado ao suicídio pelas “mãos de outrem”. E podiam ter me poupado, como ao doutor P., da tese estapafúrdia da historiadora Mary Del Priore sobre a tradição da infidelidade no nosso high Society. Os ouvintes mais atentos hão de se perguntar de onde saiu a base empírica daquelas afirmações sobre a “normalidade” das trocas de casais entre amigos. Tais senões não estragam um ótimo e exemplar produto jornalístico.

«Sozinho em Veneza, por Colm Tóibín. No London Review of Books

« Dvořák: por onde começar com sua música. No Guardian

«Um mundo sem trabalho? Por Aaron Benanav, na Dissent

«Bibi Ferreira: Gota D’Água e Basta Um Dia (ao vivo)»

«Ná Ozzetti e Dante Ozzetti em live colaborativa reunindo artistas da Circus Produções: Suzana Salles, Patrícia Bastos, Lívia Nestrovski e Juliana Amaral. Recomenda-se muita atenção no soprano cristalino de Livia, muito próximo do timbre de Ná.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.