De volta ao nonsense

Meu primeiro e único poema nonsense fora “Un deux trois”, de longa data.

Agora algo novo, conformado aos novos tempos e ao Instagram.

Talvez seja o começo de uma série, a que batizo #não tem registro.

A hashtag acende uma vela à memória do matreiro robô (“sua lata de sardinha enferrujada?”, batia-lhe o bordão do Dr. Smith) do seriado americano “Perdidos no Espaço”, manancial de imaginação de minha infância.

Saberes

Sonho com supercordas.
A um tempo alcanço
O sortilégio em pleno
Supermercado das ideias ideais,
Não sem me surpreender,
É certo:
A suma do saber,
A me apontar a saída final,
Se
Definitiva e categórica;
Sei.

Mas me assanho
E saio ao encalço
Dos mundos de costas
Uns para os outros,
Mundo às avessas;
Busco a travessia
Com a faca matemática
Presa entre os dentes,
Mas não corto ninguém.
Nada de sumo acho,
E nada do caixa, além.

[7/ “21 Poemas” – 2015]

38.1952

Um Mark Rothko (Nº 10, 1950)

Galícia

Trago o sabor do Urujo,
O musgo cor de mostarda
Nas pedras a amparar as Rías,
E o teu sol impresso,
Tal como sonhara;

Trago o semblante da mulher
Que me vende um Godello,
E o sorriso do velho
De jaleco branco atrás do balcão,
Tal como sonhara;

Tudo a dizer que éramos,
O que morremos
No deserto da desmemória,
No paraíso amarelo do presente,
Tal como sonhara;

Trago o conviver entre tempos
Sem muros, a transigência
Entre ontens e hoje a iluminar
As lâminas que formam viagem
E viajante, tal como sonhara;

Trago no corpo a terna transição
Entre Portugal e Espanha,
Tenho na carne o canto galego
E a beleza do Parque Alameda
De Santiago, tal como sonhara;

Trago a piscadela de Rosalía de Castro,
Aonde me levam camélias em flor,
Gerânios e jacintos,
Aura a cingir o colo da poeta-mártir,
Tal como sonhara.

[4/”21 Poemas” – 2015]

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Pôr do sol Rinlo, Lugo (Galícia), Espanha – Foto: José Fontan

Egon Jumenteu

Tu padeces de sol a sol, Egon Jumenteu.
E sob os destroços das redes sociais,
sucumbes na maré contínua do desastre.


Que mais te afliges, alma perdida,
a poluição virtual graxa ou o
gozo derramado qual lava insular,
polução glacial na penugem do dia?


Dói-te, Egon Jumenteu, a pichação online
nas fachadas do colosso Io&Yo&Ich&Eu
bem dentro dos lobos frontais
do mim mesmo, do teu euzinho trágico
a arrotar teu ser a sós sem aplicativo.


Por que te perdes face ao soberbo?
Galáxias-pixels a rebrilhar no plasma:
picam-piscam para ti no inflacionado céu cósmico.
Não tenhas medo de surfar as ondas do tempo.
O que é o tempo sem ontem nem amanhã?


(Imagens criam mantras. Canta:
eu-no-ventre, eu-de-pagão,
eu-em-uniforme, eu-chico, eu-bebum,
eu-doutor, eu-campeão-em-tudo,
eu-“tamos”-aí, eu-igual-minha-cria,
eu-meu-no-outro, eu-cool,
eu-comigo-ninguém-pode, eu-fodido,
eu-descolado, eu-apodrecendo,
eu-direito-esquerdo, eu-gourmet,
eu-do-bem, eu-instantâneo,
eu-em-ramas, eu-em-pó,
eu-derridente-“kkk”-cacofônico,
eu-fogo-fátuo eletromagnético.)


Tu não percebes a maravilha de um mundo
onde todos somos Rembrandts
a trocar figurinhas em Louvres singelos,
à revelia dos guias de turismo à escolta.


Não bebes do caudaloso sopão de self
à moda do divino Zuckerberg,
prato em nós enraizado, nova tradição
em nós cravada com os pregos
de todos os hiperlinks que nos reconstroem.
Não, não te maravilhas com este prato
servido em infinita resolução semântica.


Logo te enraiveces, Egon Jumenteu,
com o gozo de viver em um mundo
que persegue a saúde eterna
sob o domínio diário da morte.
Mundão, ó Jumenteu, ô meu irmão,
—pareces insinuar quando gaguejas—
onde o culto idiota ao suicídio
se multiplica em cada selfie no lixo.


— É o fim da arte, escutas de um niilista erradio,
e te enojas no poço do vômito do próprio tédio,
moribundo da existência desencantada.


Como te pões como cordeiro
sob a influência da multidão,
ó Egon, irmão condenado,
qual inseto na teia de aranha?


Ouves o raspar de unhas
nas malhas do eu na tela-papelão?
“— É corrente.”


Ouves o chuá ininterrupto
de bocas, corações, pés, olhos, mamas
e a função irrefreável do sexo, duodeno,
dos intestinos digitalizados?
“— É geral.”


Compartes? áureas de enxaquecas alheias,
o correr de corizas, borborigmos,
o estrebuchar de todas as cólicas em cadeia,
corrimentos, a infiltração dos cânceres
e tudo quanto é urro silencioso e inútil da dor
de quem sofre e morre inutilmente.
“— Todo mundo sente.”


Percebes o ruído da festa e do festival?
“— Demorô.”


Não sabes a origem da afecção
que te dá ganas toda manhã
de mergulhar nos vulcões de Io,
meu Jumenteu, meu ser azul.


Recusas a dividir o pão
dos prazeres do amor partido,
da transa telepática, dos cliques,
das curtidas e lambidas de cão
e dos miados de gatos vicários.


Diz, Jumenteu, também não anelas
a transparência desta energia escura
que acelera a vida planetária?


É o fim da pornografia
e a superação da palavra
no reino do emoji?
“— Hurra!”


É o apocalipse do bem nas trombetas
do Silicon Valley.
“— Aleluia!”


É fim do fim, o pessach das diásporas do bem.
“— Alvíssaras!”


Baixou a hegemonia do sim, do igual,
sim, do igual a ti, Jumenteu.


Desiste, meu irmão, meu igual,
deixa-te afogares na maré montante
do mar que derrama seu óleo
no espelho d’água de todos os oceanos
e a tudo concede
uma espessa capa negra da igualdade.


Publica-te.


Ama a publicidade de teus sonhos.


Goza de ti.


A gente mal pode esperar para
curtir teus selfies,
tua última lágrima, pobre Jumenteu.


Fica lançada assim a aposta
sobre se aqui dizes adeus.


Francis Bacon, 965, Três estudos para um retrato de Lucian Freud

Francis Bacon (1965): Três estudos para um retrato de Lucian Freud

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Outra página

Poema da coletânea “Moral das Horas” (Manduruvá Edições Especiais), deste blogueiro, que será lançado na manhã de sábado, 30 de novembro de 2013, das 10h às 12h, na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa (Praça da Liberdade, 21). 

A certeza flutua