Grogotó

Daqui a pouco virão o sol, as uvas e o vinho.
Nem é preciso crer nisso.
Nem é preciso crer na sede e na alegria.
Não é preciso crer.
Exceto se a dúvida te divide.

Aí grogotó: pobre de ti,
Quando precisas crer,
Quando queres crer,
Já não podes,
Não podes descrer.

Cabeça de Boi e Cachoeira (poema)

Sugerido por meu compadre P. (mesmo sem o saber) para festejar duas de nossas excursões

Para Naná

Cabeça Cachoeira3

I

Desde horas homéricas e eras de Epicuro

(Que aí cristalizou um saber)

O mundo ou o tempo

Ou como se pense tal túrbida medula

(E.g.: como figurar o presente?)

Às vezes se põe entre uma clareira

(E.g.: quando nos ausentamos)

No contínuo de outros tantos (mosaico)

Parênteses onde nos guardamos

E que oxalá nos guardem da vida baldada

(Quase tudo simulacro marcado

Nos livros de haveres e deveres cujo saldo é sal).

 

II

Na ígnea clareira o ágape

A iluminar na terra redescoberta

(da qual tantas vezes regressamos refeitos)

O verdor, a nuvem, o regato

Que se funde melodioso à maquinaria

Do Tempo (meu e seu, sem antes e depois)

(       )

Que, no entanto, ali (ó instante), entre parêntese

Compartimos, a ponto de desacatá-Lo

A ponto de celebrá-Lo em (mitológica) rebeldia

A ponto de comê-Lo e de bebê-Lo entre nós

(Já que humanamente convertemos o vinho e o pão).

 

 

 

 


 

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Footing no Face
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Fisterra (a menina dos olhos cega)
21 poemas
Poemas de Viagem

 

Vozes da fazenda  

 

Natal e Ano Novo 2009 2010 029

Fazenda Cachoeira (2009/2010). Foto: Aderbal Correa de Sá

 

Ao Compadre, co-autor desta página, e aos primos que preservam a Cachoeira

O Rio se achega e dá-se ao descanso, vale dizer, ao Remanso, pousada breve entre a Pedra e a ravina.

Logo se reparte em dois braços e sobre o penedo rumoreja seu roçar — acalanto da Casa — antes de recomeçar.

Na Casa ouvem-se a Pedra e o Tempo em contracanto.

Ouve-se o claro da flor contra o veludo azul, ao Sol se pôr.

Ouvem-se ecos de risos, lágrimas e suspiros reabsorvidos na Pedra.

Ouvem-se outras vozes no coro: marcos de portas, caibros de telhas, réguas de porão.

Já na aurora, a polifonia no silêncio se fia.

Ouve-se aí só o trio: Rio, Pedra e coração.


Nota: A feitura do poema deve-se inteiramente à inspiração na beleza do ensaio fotográfico que o acompanha, publicado um tanto à revelia do autor, pela mera confiança que se tem num velho e querido cúmplice de jornada, e pelo desejo de compartilhar a expressão artística de um espírito generoso, sensível e incomparável. 

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Fazenda Cachoeira (2009/2010). Foto: Aderbal Correa de Sá

 

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Fazenda Cachoeira (2009/2010). Foto: Aderbal Correa de Sá

 

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Fazenda Cachoeira (2009/2010). Foto: Aderbal Correa de Sá

 

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Fazenda Cachoeira (2009/2010). Foto: Aderbal Correa de Sá

 

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Fazenda Cachoeira (2009/2010). Foto: Aderbal Correa de Sá

 

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Fazenda Cachoeira (2009/2010). Foto: Aderbal Correa de Sá

Arrudário

O ribeiro em si
(águas do dito cujo)
Banha tripas da assembleia.

Desodorizada ricamente,
A casa legiferante propõe
Ao populi, deliberada
E majoritariamente,
Nova fragrância fecal.

[13/ "21 Poemas", antônio siúves — 2015]

Green And Tangerine On Red Mark Rothko

Rothko: Green and tangerine on red

Um memorial de Pedro Leopoldo e um berro do boi morto

Estive ontem em Pedro Leopoldo, cidade onde vivi a era do janelão aberto para o mundo. Assim defino a travessia dos 17 aos 25 anos por aí. Envelhecemos e tal janelão vai se fechar até virar fresta e vitral opaco, antes da escuridão.

Revi amigos queridos, familiares e autografei o “Moral das Horas” (Manduruvá Edições Especiais). Falei a um seleto auditório sobre a minha Pedro Leopoldo, uma cidade que, hoje, como a Itabira de CDA, é um retrato na parede. Mas como dói! Dói, mas ainda é minha aldeia, onde corre o ribeirão que não é menos belo que o ribeirão que se derrama no Tejo.

Dediquei o lançamento — promovido pela produtora Le Petit Poete, do bravo Caetano Vasconcelos — à memória de Pedro Nava, que suicidou há 30 anos na noite passada, com um tiro na têmpora, em uma praça do bairro da Glória, no Rio de Janeiro.

Também falei do “Meu Boi Morreu – Cantos de Primavera”, livro inédito¹ que cedo ou tarde sairá. Debalde, seus originais já percorreram o circuitão editorial do Eixo Rio-Sumpa. Não será, portanto, o conglomerado Penguin-Companhia das Letras a publicá-lo. Em PL, pude ler um trechinho:

Quem a mascarada enorme que me arrastava pela mão à ilha-mesa no meio do asfalto? Ana Grande, Anão? Tentava, debalde, descobrir, mas ouvia apenas hãhãs. Lembro que na mesinha da Ouro Branco figuravam Dom Pintarroxo, Tibanha e sua irmã professorinha, Perpéia, de quem num instante eu recompunha os contornos a que tivera acesso em outro Carnaval. Livro-me das sereias que me cantavam amarrando-me ao rabo do Boi e deparo a audiência no alpendre da elegante dama Efigênia Mutamba, baronesa de Matozinhos, ao lado de filhas e genros, distinta platéia assentada em suas cadeiras ovais com assento tecidas em nylon verde-bexiga. Avanço rumo à margem contrária, onde vislumbro uma nesga do Quelesmão com o bocal da fronha ensopado de birita mas já me encontro preso a outro cordão, à porta do Açougue do Expedicionário A Chã de Dentro; e sou levado por quem? Marta Gorda, só pode, que me conduz de viés ao claro aberto pelo Boi, nessa altura ferocíssimo, salteando generoso ao repartir marradas, investindo contra toda sorte de alma de vaca inepta para perceber a natureza do que se passava naquele noite, em confrontar o milagre dionisíaco que se operava em Primavera naquele ato derradeiro. Bem feito.

Meu boi morto berrou ontem à noite em Pedro Leopoldo, Vivinho da Silva.

Impecável noite friorenta. Agradeço muitíssimo ao Caetano e às pessoas que estiveram no simpático auditório da Câmara Municipal.

(¹) “Meu Boi Morreu – Cantos de Primavera” é memória ficcional, gênero no qual a massa da vida é (re)passada através do filtro fino da imaginação. Nele, conto um desfile mitológico do Boi da Manta, toda gala e glória de um Enterro do Boi, em que os episódios são modulados por relatos sobre personagens do lugar. Também é, a um tempo, uma despedida do Carnaval, da adolescência e da própria cidade.

 

Atualizado na manhã solar de quinta-feira, 15 de maio de 2014.

 

Lançamento em PL

No próximo dia 13, terça-feira, por iniciativa do promotor cultural Caetano Vasconcelos, o “Moral das Horas” será lançado em Pedro Leopoldo, às 19h30, na Câmara Municipal, como diz o convite aí.

Devo ler alguns poemas e apresentar o livro.

Talvez leia também um trechinho do inédito “Meu Boi Morreu”, memórias ficcionais que correm justamente na cidade.
Convite PL cidade.