Augusto Massi+Pedro Nava-Piauí

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Franquilim da Silva, primo

Ressurrecto, o engenheiro agrônomo Franquilim da Silva, primo, manda lembrança + recado.

— A revista Piauí não aspira mais a ser a The New Yorker brasileira, portanto, nacional-carioca. A aspiração original é derrocada pela condição nacional-carioca. Não ter um padrão a sinalar-lhe é mais ruim que bom. Em Ipanema se publica boa leitura, ainda, sobretudo quando vertem a The New Yorker. E a repórter Daniela Pinheiro poderia trabalhar na revista americana. E os poemas de Augusto Massi, Piauí # 107, estão acima do nacional-carioquismo associativista da Piauí — e acima também de um certo Estats Units d’Amèrica que a The New Yorker não desborda —, como este:

RELÓGIO DA GLÓRIA

Quando o galo das trevas
disparou contra as têmporas da noite
maio soletrou suas primeiras sílabas de pólvora.

Ao lado do pé de fícus,
sob o relógio da Glória,
a morte cravou suas esporas.
O mundo bateu em retirada.
Pedro Nava foi embora.

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Mário de Sá-Carneiro

Dona Cleonice Berardinelli diz o poema que se segue no encontro com Adriana Calcanhoto. O palco é o Gabinete Real Português, no Rio de Janeiro. O outro poema é feito música por Adriana.

O vídeo deste quinto episódio da série “Poesia em Movimento” está disponível aqui para assinantes do canal Philos. 

Quase

Um pouco mais de sol — eu era brasa,
Um pouco mais de azul — eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho — ó dor! — quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
— Ai a dor de ser-quase, dor sem fim… —
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos d’alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ansias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indicios…
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Mário de Sá-Carneiro, in Dispersão

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza…
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá Carneiro

Um memorial de Pedro Leopoldo e um berro do boi morto

Estive ontem em Pedro Leopoldo, cidade onde vivi a era do janelão aberto para o mundo. Assim defino a travessia dos 17 aos 25 anos por aí. Envelhecemos e tal janelão vai se fechar até virar fresta e vitral opaco, antes da escuridão.

Revi amigos queridos, familiares e autografei o “Moral das Horas” (Manduruvá Edições Especiais). Falei a um seleto auditório sobre a minha Pedro Leopoldo, uma cidade que, hoje, como a Itabira de CDA, é um retrato na parede. Mas como dói! Dói, mas ainda é minha aldeia, onde corre o ribeirão que não é menos belo que o ribeirão que se derrama no Tejo.

Dediquei o lançamento — promovido pela produtora Le Petit Poete, do bravo Caetano Vasconcelos — à memória de Pedro Nava, que suicidou há 30 anos na noite passada, com um tiro na têmpora, em uma praça do bairro da Glória, no Rio de Janeiro.

Também falei do “Meu Boi Morreu – Cantos de Primavera”, livro inédito¹ que cedo ou tarde sairá. Debalde, seus originais já percorreram o circuitão editorial do Eixo Rio-Sumpa. Não será, portanto, o conglomerado Penguin-Companhia das Letras a publicá-lo. Em PL, pude ler um trechinho:

Quem a mascarada enorme que me arrastava pela mão à ilha-mesa no meio do asfalto? Ana Grande, Anão? Tentava, debalde, descobrir, mas ouvia apenas hãhãs. Lembro que na mesinha da Ouro Branco figuravam Dom Pintarroxo, Tibanha e sua irmã professorinha, Perpéia, de quem num instante eu recompunha os contornos a que tivera acesso em outro Carnaval. Livro-me das sereias que me cantavam amarrando-me ao rabo do Boi e deparo a audiência no alpendre da elegante dama Efigênia Mutamba, baronesa de Matozinhos, ao lado de filhas e genros, distinta platéia assentada em suas cadeiras ovais com assento tecidas em nylon verde-bexiga. Avanço rumo à margem contrária, onde vislumbro uma nesga do Quelesmão com o bocal da fronha ensopado de birita mas já me encontro preso a outro cordão, à porta do Açougue do Expedicionário A Chã de Dentro; e sou levado por quem? Marta Gorda, só pode, que me conduz de viés ao claro aberto pelo Boi, nessa altura ferocíssimo, salteando generoso ao repartir marradas, investindo contra toda sorte de alma de vaca inepta para perceber a natureza do que se passava naquele noite, em confrontar o milagre dionisíaco que se operava em Primavera naquele ato derradeiro. Bem feito.

Meu boi morto berrou ontem à noite em Pedro Leopoldo, Vivinho da Silva.

Impecável noite friorenta. Agradeço muitíssimo ao Caetano e às pessoas que estiveram no simpático auditório da Câmara Municipal.

(¹) “Meu Boi Morreu – Cantos de Primavera” é memória ficcional, gênero no qual a massa da vida é (re)passada através do filtro fino da imaginação. Nele, conto um desfile mitológico do Boi da Manta, toda gala e glória de um Enterro do Boi, em que os episódios são modulados por relatos sobre personagens do lugar. Também é, a um tempo, uma despedida do Carnaval, da adolescência e da própria cidade.

 

Atualizado na manhã solar de quinta-feira, 15 de maio de 2014.

 

Lançamento em PL

No próximo dia 13, terça-feira, por iniciativa do promotor cultural Caetano Vasconcelos, o “Moral das Horas” será lançado em Pedro Leopoldo, às 19h30, na Câmara Municipal, como diz o convite aí.

Devo ler alguns poemas e apresentar o livro.

Talvez leia também um trechinho do inédito “Meu Boi Morreu”, memórias ficcionais que correm justamente na cidade.
Convite PL cidade.

Minha entrevista ao Imagem da Palavra

Entrevista a Guga Barros, apresentadora e editora do programa da Rede Minas. O assunto é o lançamento da coletânea “Moral das Horas”, poesia, imprensa cultural e tal. A despeito do péssimo jeito do entrevistado, sempre sério e nervoso, Guga conseguiu encadernar a conversa, creio, bem, pouco importa… Mas não deu para sair as referências que fiz (penso ter feito) a alguns dos “meus outros” de que se fala durante a prosa, meus diletos para sempre Kao Martins (no começo do começo no “Diário de Minas”), Roberto Mendonça (amigo, irmão, editor), Paulo Francis (più profondo del mio cuore que Gay Talase).

Para ver a segunda parte, aperte aqui.

(Atualizado em 21/03/2014, às 15h12.)