O uso abjeto de crianças na propaganda

Renoir

“Estudo dos Filhos de Paul Berard” (1881) – Pierre-Auguste Renoir – Instituto de Arte Sterling e Francine Clark (EUA)

Parece-me abjeta a banalização do uso da imagem infantil em comerciais de TV para adultos.

Contei num mesmo intervalo comercial a presença de crianças como “motivo condutor” de anúncios de um banco, de uma provedora de internet, de uma operadora de telefonia e de uma marca de carro.

Há algo de perverso no mundo da propaganda, provavelmente um reflexo do declínio da tradição literária e da hegemonia do audiovisual.

Alguém me mandou dia desses um comercial das Lojas Pernambucanas veiculado em 1962. E me lembrei de outro, dos Cobertores Parahyba, da mesma época.

As duas peças, me ocorreu, podiam ser vistas na história da propaganda como um idílio de uma era da inocência ante a atrofia da delicadeza.

A propaganda tem sofisticado a investigação dos desejos e da alma humana no capitalismo financeiro e tecnológico.

A criação publicitária parece fundamentada em pareceres de psicanalistas, antropólogos sociais e marqueteiros empregados como mascates pós-modernos.

Apelar à fragilidade, à inocência e à beleza inerentes à imagem infantil — de maneiras mais e mais refinadas — tornou-se a ideia mais valorizada pelas agências de publicidade e por seus clientes.

Elementos adaptativos relacionados à preservação da espécie — como a ternura filial — são a moeda de troca simbólica mais bem cotada no mercado publicitário — e quase um sucedâneo da realidade.

Isso não lembra a pornografia?

Sim, existe um quê de pornográfico na hiperexposição vicária de um desejo primitivo associado ao consumo.

Acabar com a exploração da imagem infantil na propaganda é uma causa que me parece mais urgente que a agenda verde e mais essencial que a luta por banheiro transgênero ou pela criação de um SUS veterinário.

Gil & Caetano, decantados no sertão da pauliceia pelo grande midas Nizan, contra a carniça existencial e moral que nos entala

Ao pé desta ouverture cabocla vão trechos do artigo do midas publicitário baiano Nizan Guanaes oferecido à nação pela Folha de S.Paulo, nesta terça-feira, 1º de Setembro do ano da graça de 2015.

Sim, temos a mandioca (Manihot esculenta) e temos Gil & Caetano (“dois patrimônios da humanidade intombáveis”: peço licença poética para esse aposto e sic e teaser a um tempo) para nos salvar das misérias que nos açoitam há quinhentos e poucos anos e vão de genocidas de índios ao Petrolão do PT e à crise-carniça moral & existencial que empesteia tudo por todo lado agora.

Sim, precisamos do nosso maior Einstein da comunicação de atacado e varejo (que os temos à mancheia), deste truste-feito-carne, para —num texto puro poema concreto, lotado de palavras-valises que supera as artes dum Augusto de Campos, dum Chico Buarque, dum Luís Antônio Giron, dum Washington-Olivetto- vendendo-Brastemp-vendendo-Du- Loren-e-vendendo-Cofap-como-quem-compõe-um-quarteto-de-Beethoven— nos resgatar da mediocridade de franquias Mcdonald’s que incorporou os cadernos de cultura —dos ilustríssimos a um humilde caderno B de Quixeramobim— e nos quais o caderno Mercado (economia) aplica um quinau.

O Brasil é isso, nhanhã. Cesse tudo que os antigos Dorival, João Gilberto, Villa-Lobos e Pixinguinha cantam. A grande musa da propaganda se alevanta para nos passar na cara o valor que os cavaleiros de belíssimas figuras e impolutas almas, dons Quixotes do Recôncavo e do mundo todo Gil & Caetano generosamente emprestam e entregam e sacrificam à nossa pequenez nambiquara.

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Caetano e Gil

Escrevo este artigo ainda sob o impacto do antológico show de Caetano e Gil. Chego ao teatro morto, com o corpo doído e tenso, como ele costuma chegar todas as sextas-feiras após cinco dias lidando com a crise.(…)

Mas aí entram eles, dois jovens de mais de 70 anos, para apresentar uma obra de 50 anos feita à mão.

A cada canção, um órgão do meu corpo ressuscita. Os pelos do braço morto dão sinais de vida e se arrepiam, o coração volta a bater, o peito se enche de orgulho e destrava as costas cheias de Dorflex. Os dois ali sozinhos são uma orquestra, um coral e um corpo de baile. São tudo.
(…)
Estamos diante de uma brasiliana, uma biblioteca musical imensa. Dois patrimônios da humanidade intombáveis, que chegaram aclamados aqui hoje, mas que foram perseguidos, exilados, caçados e cassados por todo tipo de preconceito, burrice e caretice Duas criaturas femininas, mas dois lutadores de UFC na hora de brigar pelo que acreditam.
(…)
Somos um país de muitas riquezas naturais —Caetano e Gil são duas delas.(…)