Mário de Sá-Carneiro

Dona Cleonice Berardinelli diz o poema que se segue no encontro com Adriana Calcanhoto. O palco é o Gabinete Real Português, no Rio de Janeiro. O outro poema é feito música por Adriana.

O vídeo deste quinto episódio da série “Poesia em Movimento” está disponível aqui para assinantes do canal Philos. 

Quase

Um pouco mais de sol — eu era brasa,
Um pouco mais de azul — eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho — ó dor! — quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
— Ai a dor de ser-quase, dor sem fim… —
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos d’alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ansias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indicios…
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Mário de Sá-Carneiro, in Dispersão

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza…
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá Carneiro

Uma apresentação de Tião Nunes

Reprodução de O Tempo Online

Ao poeta, escritor e editor Sebastião Nunes (perfilado aqui pelo poeta Fabrício Marques) devo a generosa leitura dos originais do meu Quem Escreve nunca Alcança. Tião, cronista do jornal mineiro O Tempo, por duas vezes se referiu ao livro. Na primeira, em 4 de abril deste ano, ele trata de poesia, menciona as obras de Ana Martins Marques, Romério Rômulo e, audaciosamente, introduz um inédito titubeante e conta:

“Outro que me veio do nada, ou pelo menos de outras margens. Conheci Siúves quando ele era editor deste Magazine, e foi quem me convidou para escrever aqui, atividade que exerço com prazer e orgulho lá se vão mais de oito anos. Nunca suspeitei o poeta, e desconfio que ele mesmo não se sentia em terra firme, tal a modéstia com que me enviou, meses atrás, os originais de “Quem Escreve Nunca Alcança“, inédito.”

Não satisfeito em gastar  espaço e tempo com um desconhecido autor bissexto, poeta aventureiro, Tião me surpreendeu mais uma vez ao ocupar de cabo a rabo seu quinhão dominical em O Tempo (2/5/2010) com uma análise do Quem Escreve… O estilo agudo da grande crítica, a profundidade da avaliação lenta e elaborada dedicados ao meu livrinho!

Eis um passagem de “Antônio Siúves e o sentimento irônico do mundo”  

“O que diferencia a poesia de Antônio Siúves de boa parte dos poetas atuais é que ele parece seguir à risca (talvez sem conhecer) o recado de Eliot: ler, experimentar e viver. Como não conheço o autor pessoalmente, não sei como são sua vida e leituras. Mas basta folhear ao acaso “Quem Escreve Nunca Alcança” para saber que se está junto de um poeta que chegou lá pelo caminho do aprendizado, evoluindo ao longo das duas linhas mestras do gráfico imaginário”.

Por exemplo, em “Retrato“:

“Homem-carro acelera contra o dia/ e o sorvedouro da luz engolfa/ outra esperança tardia./ A cidade oca expulsa os mortos -/ os vivos – seres tortos -/ padecem dessa ausência.// A luz suave – carícia não havida -/ em cada ponto é defletida/ no fundo da esfera onde a cidade repousa -/ e para na fotografia”.

Que é o retrato da cidade moderna, qualquer cidade, com seus homens-carro, seus vivos tortos e seus mortos, parados em fotografia.

A história inicial do livro, logo, é a história do estímulo e do impulso oferecidos de coração aberto pelo Tião. Além dos links para as duas crônicas de O Tempo, vou reproduzir os textos aqui, para resguardá-los mais um pouco neste baú virtual. A poesia e, em termos absolutos, incompatível com este mundo. Exatamente por isso nunca foi tão essencial, tão necessária à humanidade.

Antônio Siúves e o sentimento irônico do mundo

Publicado originalmente em O Tempo, em 02/05/2010

Antônio Siúves e o sentimento irônico do mundo

SEBASTIÃO NUNES

Como é que alguém chega a se tornar um bom poeta? T. S. Eliot, um dos maiores escritores de língua inglesa do século XX, também crítico e editor (dominando assim um espectro bastante amplo da literatura), escreveu o seguinte: “A evolução do poeta se processa ao longo de duas linhas de um gráfico imaginário. Uma das linhas é o esforço constante e consciente em busca da excelência técnica, isto é, do desenvolvimento de seu meio de expressão para quando tiver realmente alguma coisa a dizer. A outra linha é apenas o curso normal de seu desenvolvimento existencial, o acúmulo de experiência, que deve ser a soma de leituras, reflexões, interesses de todos os tipos, contatos e conhecimentos, tanto quanto paixão e aventura. É quando as duas linhas convergem que nascem as obras de arte”. (Introdução do livro “Ezra Pound, Selected Poems“, 1928.) Acrescento que, além da tradução fajuta que fiz, também cortei e selecionei apenas os trechos que me interessavam.

DE CIMA E DE BAIXO
O que diferencia a poesia de Antônio Siúves de boa parte dos poetas atuais é que ele parece seguir à risca (talvez sem conhecer) o recado de Eliot: ler, experimentar e viver. Como não conheço o autor pessoalmente, não sei como são sua vida e leituras. Mas basta folhear ao acaso “Quem Escreve Nunca Alcança” para saber que se está junto de um poeta que chegou lá pelo caminho do aprendizado, evoluindo ao longo das duas linhas mestras do gráfico imaginário. Por exemplo, em “Retrato”:

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