Facebook, democracia e história

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Duelo a Garrotazos (1820-1823), uma das Pinturas Negras de Goya, transplantadas de um mural da Quinta del Sordo, a casa de campo onde viveu o artista nas redondezas de Madrid, para a tela hoje exposta no Museu do Prado.

 

O voluntariado do formigueiro planetário desfila no bilionário calçadão virtual do capitalismo tecnológico. Não ganha um tostão, mas o que é o dinheiro diante de uma vitrine onde alguém pode compartir reflexos e refluxos com audiência Silicon Valley et Orbi, ainda que fantasiosa, e experimentar a sensação de que não se está só, de que tudo que diga, ganhe ou faça da própria vida é importante para alguém.

A praça pública do Facebook reúne todos os vícios da democracia e suas virtudes mais estreitas.

Os passeantes confortam-se em assentar juízos, mas não se batem por consensos ou clamam pela verdade.

Nas era das redes sociais vence o Brexit na Grã-Bretanha e perde a Paz duramente acordada na Colômbia (a Primavera Árabe o que era mesmo?), sob a força gravitacional do rancor.  Os últimos profetas do mundo como obra em progresso deveriam pedir o boné.

As instituições republicanas não são aperfeiçoadas, mas o estatuto universal da correção política e a impostura intelectual se mostram aptas para forçar os Poderes a celebrar as decisões precárias exigidas pelos coletivos do voluntariado. A verdade é que não damos a mínima para as gerações que vão nascer. Continuamos a estragar tudo, ao patinar no presente.

Mas as redes, isto sim, instilam desinformação, ampliam a ignorância, potencializam a burrice ativa e promovem a hegemonia mental de cérebros que operam ideologicamente em apenas dois circuitos neuronais.

 

 

Ainda somos os mesmos na era do Feis? ou: Nossos avatares são melhores do que nós mesmos.

Ciberespaço

NO VAZIO ÁRTICO DO CIBERESPAÇO 

“E cada vez (…) os admiráveis mundos novos chegam mais perto da realidade que os inspirou. Muitos pensam que o mundo de Kurzweil [Ray Kurzweil, diretor de engenharia do Google] está praticamente nos atropelando, conforme a rede mundial de computadores traça seus filamentos no cérebro humano. No futuro idealizado por Kurweill, as pessoas se transformam em avatares, que espreitam uns aos outros no vazio ártico do ciberespaço. Isso já está acontecendo, como podemos depreender do Facebook (…).”

“Ao colocarmos uma tela entre nós e os outros, enquanto mantemos controle sobre o que parece nela, evitamos o encontro verdadeiro — negando aos outros o poder e a liberdade de desafiar-nos em nossa natureza mais profunda e convocar-nos aqui e a agora a assumir a responsabilidade por nós mesmos e por eles.”

Roger Scruton em As Vantagens do Pessimismo, É Realizações Editora, 2015, pág. 18.

 

O REBANHO DAS REDES 

Tangidos na linha do tempo, nas conjuras do advento, avatares trocam confeitos.

Avatares fazem troca-troca com alheios defeitos. 

(Nossos avatares são melhores do que nós mesmos).

(Nossos avatares não mais verdadeiros do que nós mesmos).

Avatares trepam em palanques a pregar sua mercancia.

Avatares têm apitos de caciques, prendas da tecnologia.

Avatares se embelezam e se lambuzam na Justiça sem modos. 

Avatares morais solapam o ar qual lambaris enredados. 

Avatares-commodities jogam na bolsa afetos-ativos.

Avagares ganham e perdem dividendos, função econométrica de algoritmos.

— Avatar, qual é seu perfil de investidor-curtidor? 

Ousado ou conservador?

Avatares encurralados no Feis temem perder seu palco. 

Avatares na ramagem das redes, se delegam e se adiam no espaço.

Uma versão vicária do olho no olho se escreve no Silicon Valley de uma vez. 

Alguém deu um click no Feis, outro não correspondeu e um link se desfez.

 

 

Uma melô golpista?

Dedico esta canção a todos os habitantes do planeta Zuckerberg que acusam e temem a “imprensa golpista”, embora a usem sempre que lhes convém, com presteza e diligência.

A melodia vai para a patota que açula seus camaradas a agredir nas ruas repórteres e funcionários da Rede Globo e de outras emissoras, ou acha isso justo ou se delicia quando isso acontece.

A cantiga é dos irados que hoje golpeiam ministros do supremo, procuradores e outras autoridades como quem suplicia um condenado, para amanhã, satisfeitos por suas decisões eventuais favoráveis às suas crenças, os incensarem e reproduzirem tais feitos em seus perfis do “Feis”, em inequívoca demonstração de caráter.

Comparto a obra de Chico Anysio, Arnaud Rodrigues e Renato Piau com amigos cujo ideal é instituir o “controle social da mídia”.

Cantem comigo, camaradas que buscam a verdade em blogs cem por cento servis ao poder e se atualizam pelo “Feis”, onde as informações são organizadas e checadas pela simples adesão ideológica, quando não pecuniária.

Curtam a verdade tão pura e simples que sai da boca da tribo amiga, bem ao alcance dos sentidos: não apenas a “verdade” (perdão pelas aspas) política, mas a verdade científica, jurídica ou estética.

Receba esta modinha quem é incapaz de criticar este ou aquele veículo e apontar-lhe falhas e desvios, pontuais ou sistemáticos, prefere, com autômata autonomia (uaal!), incluir tal veículo na grande conspiração golpista que ameaça as conquistas populares e trama a fome e a miséria dos necessitados destituídos do Grande Guia revolucionário.

Por fim, quero dedicar  esta singela “Vô Batê Pá Tu” aos amigos (amigos?) capazes de enfiar 300, 350 posts todos os dias no “Feis”, cheios de fel e ferocidade, a acusar o “ódio” nos olhos rubros do inimigo golpista (serei um deles, senhor?).

Ah, também para Caetano Veloso e Chico Buarque, com amor.

Democracia roubada (Diário Tempestivo 2)

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No coliseu ideológico das redes sociais a elegância foi enjaulada diante da troca de arrotos e puns em que a conversa se converteu. Argumentos pueris, bravatas roubadas das arquibancadas, cegueira inculta, ignorância brutal, indisposição permanente com os fatos, com a razão, sempre com o outro. Tudo em nome de uma certa democracia idealizada deusa de bordel. O infernal desfile de imagens com montagens e dizeres indubitavelmente cretinos rodando sem parar —sem falar no esgotamento egotista do selfismo, fontes do mesmo e gordo chorume onde as multidões se comprazem de beber. O som e a fúria e as tempestades de pixels fazem aumentar a cada segundo o valor de mercado das empresas dessas mídias, enquanto a democracia é sistematicamente aviltada. Novo iluminismo o quê! Entramos no neojurássico.