O diário da sexta

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Estranha flor – caminhada no Parque Municipal (Belo Horizonte). Foto: Antônio Siúves

 

PSICANÁLISE

Na Folha de S.Paulo, a verdadeira inteligência está sempre a disputar a atenção do leitor com a impostura intelectual de grife. Com o pretexto da pluralidade ideológica, o jornal realiza seu bem-sucedido marketing, e seja o que deus quiser.  Tomemos a edição desta sexta-feira. No artigo De Marx a Marxilena, Reinaldo Azevedo desmonta com clareza e elegância as ilusões da esquerda de que pode se servir da história como lhe convém — ilusões que não deixam de ser influentes e de fazer estragos. Vladimir Safatle, a pretexto de defender a psicanálise das críticas do neurocientista Ivan Izquierdo, de uma modo tipicamente tortuoso consegue apenas nos mostrar porque a ciência prosperou e a psicanálise, especialmente a pós-freudiana, para qual advoga, naufragou em autoritarismo obscurantista, ditado por bruxos franceses. O que dizer de um período como este?:

“Poucas foram as teses que influenciaram tanto a maneira como nós definimos a nós mesmos quanto a de que somos sujeitos atravessados por algo que nos causa e que não se submete à estrutura representacional de nossa consciência, algo que coloca continuamente questões sobre nossa identidade, a autonomia de nossas ações e a unidade de nossa personalidade”.

Vá tocar piano, Safatle. Influenciaram quem mesmo? Prefiro George Steiner. Psicanálise é para quem quer e pode. Transcrevo mais uma vez o trecho a respeito de sua entrevista ao El País recomenda pelo JS:

A psicanálise é um luxo da burguesia. Para mim, a dignidade humana consiste em ter segredos, e a ideia de pagar alguém para ouvir seus segredos e intimidades me enoja. É como a confissão, mas com um cheque. É o segredo que nos torna fortes, por isso todos meus trabalhos sobre Antígona, que diz: “Posso estar errada, mas continuo sendo eu”. De qualquer forma, a psicanálise está em plena crise. Lembre-se das palavras magníficas de Karl Kraus, o satirista vienense: “A psicanálise é a única cura que inventou sua doença”.

BABENCO

O argentino Hector Babenco foi o grande diretor de cinema que o Brasil não teve nas últimas décadas. Fotogramas de Ironweed, Brincando nos Campos do Senhor, Lúcio Flávio e Pixote passam no nosso imaginário com a fixidez que apenas os verdadeiros artistas são capazes de causar.

O TERROR DO JORNALISMO

A indecente justificativa da exclusão social e do preconceito ocidental contra emigrantes para a ação terrorista nunca é contestada quando aparece, o que é comum, no jornalismo de terceira classe, como o da GloboNews. A explicação ginasiana passa longe da realidade e colabora com o sucesso de novos atentados. Devemos pegar com Alá para entender o que dá em alguém como o motorista do caminhão de Nice. Com a psicologia, a sociologia e a filosofia, até aqui, tem sido inútil.

 HITCHCOCK & TRUFFAUT

Vejo no Philos TV, refúgio ao lixo que grassa nos canais pagos, o filme de Kent Jones que faz um bom resumo da série histórica de entrevista de François Truffaut com Alfred Hitchcock, fonte de um livro clássico, referencial para cineasta e cinéfilos em todo o mundo. Os depoimentos de David Fincher, Martin Scorsese e Wes Anderson no filme explicam por quê. O cinema deve a Truffaut ter, por assim dizer, patenteado a genialidade de Hitchcock. Antes, a crítica torcia o nariz para o inventor de Um Corpo que Cai (Vertigo). A revista Serrote #20 traz as entrevistas de Truffaut feita pela jornalista Lillian Ross, em encontros que vão de 1960 a 1976. É um complemento perfeito ao filme, além obviamente do próprio livro, disponível nas livrarias.

ELLA

Também no Philos assisto de enfiada a três a concertos de Ella Fitzgerald, entre 1969 e 1969, cortejada por bambas como o pianista Tommy Flanagan, o baixista Keter Betts e, no show do clube londrino Ronnie Scott, o guitarrista Joe Pass. Nos três momentos, ainda que àquela altura a artista já tivesse perdido algo da potência do incomparável gogó, Ella ainda era capaz de dobrar e redobrar o tempo como nenhuma outra diva do jazz, de jogar com o silêncio, de exibir uma extensão vocal que leva o ouvinte por uma montanha-russa, sem fôlego e com arrepios.

GATOS NO PARQUE E UMA ESTRANHA FLOR

A cultura da paixão por gatos e cachorros é uma característica de nosso tempo, outro dado, como a existência de 65 milhões de refugiados no mundo, que tentam sobreviver a guerras e à miséria. Recomendo aos chegados que frequentem o Parque Municipal de Belo Horizonte, onde há centenas, talvez milhares de bichanos à solta, em estado selvagem. Boas almas comparecem diariamente para alimentá-los com fartura; há restos de ração por todo lado.

Em um passeio no parque, desviando dos gatos e de sua caca, fotografei a estranha flor ou estranho cacho da foto acima, de um verde que, à luz da manhã, parecia querer saltar da natureza para se tornar artifício.

GLOBALIZAÇÃO É ISSO

Descubro, depois da cidade inteira, que o antigo Pelicano, no Edifício Maletta, deu lugar ao Duke’n’Duke, um pub que se quer autêntico. O chope é delicioso. Pena que não tenham Guinness na chopeira.

OS SONS DA SEXTA

 

 

 

 

 

 

O Ministério da Cultura e a “cultura do estupro”

É fácil prever que em breve haverá manifestações pelo fim da “cultura da morte”,
como pode pintar uma onda por um basta à “cultura do esgoto”

O massacre dos inocentes Rubens Museu de belas Artes da Bélgica

Corte de O massacre dos inocentes (1610), obra de Peter Paul Rubens

O Ministério da Cultura e a “cultura do estupro” foram apropriados pela esquerda, aqui e ali engatados num #foraTemer, além de outros movimentos sociais vitimistas.

Assim como, duas semanas atrás, muita gente descobriu que o MinC é patrimônio inestimável da nossa humanidade, “revelou-se” que a violência contra a mulher é uma pandemia brasileira. Entre paradas e marchas, foram atirar flores no prédio do STF.

O episódio da adolescente carioca de 16 anos violentada não foi o primeiro a tomar conta do noticiário. Em 2007, uma menina de 15 anos foi estuprada por 20 homens em uma cadeia do Pará, de maneira incontroversa. Naquela região, no interior amazônico, uma adolescente com apelo sexual vale menos que um quilo do bofe que se dá de comer aos cachorros.

Onde batiam, nessas e outras circunstâncias, as ondas feministas que embalaram os acontecimentos da última semana, com seus chavões sobre cantadas, fórmulas do século passado sobre vestuário e propostas de leis para censurar a baixaria do funk?

“Depois das denúncias” — diz esta reportagem do Valor de hoje —, “deram início a um debate feminista cuja repercussão tem escala rara na história recente do país. Em poucos dias, mais de 700 mil pessoas — muitas mulheres— cobriram suas fotos no Facebook com a máscara da campanha ‘Eu luto pelo fim da cultura do estupro’. O assunto chegou ao primeiro lugar entre os mais comentados do Twitter do Brasil e ao terceiro lugar no ranking mundial”.

O MinC já foi deixado de lado, relegado à sua insignificância. O fervor sobre a “cultura do estupro”, da mesma forma, em breve será escanteado.

A selvageria, desgraçadamente, seguirá seu curso.

Convivemos com o fato de mais da metade da população não ter acesso aos serviços de saneamento básico, sendo uma pena que não tenham abraçado causa do fim da “cultura do esgoto a céu aberto”, e seguiremos a conviver com as estatísticas de violência.

É impossível não se estarrecer com a violência contra a mulher. A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no país, lembra o texto do Valor. Em 2015, os registros dessa cresceram 44,74% em comparação com o ano anterior.

Mas é fácil prever que a ocorrência de uma chacina de grandes proporções destacada pelo “Fantástico” há de chamar atenção para os dados do Atlas de Violência (Ipea/FBSP), divulgado no início deste ano — que compilou 59.627 vítimas de homicídios no país em 2014 — o maior número já registrado — e causar outras ondas de comoção.

A esquerda vai reunir seus indignados para novas paradas, nas quais se pedirá a cabeça do presidente e se clamará pelo fim da “cultura da morte”.

É perverso esse oportunismo em tratar a miséria social apenas com palavras de ordem militantes que permanecerão no ar até a próxima hashtag que retrate nossa desgraça como civilização.

A abjeta coluna do deputado Marcelo Freixo esta semana teve um registro neste jornal. Reinaldo Azevedo trata exatamente disso, também na Folha. “A esta altura” — ele comenta, depois de se referir à manifestação realizada anteontem em São Paulo— “a garota cuja história motivou o protesto já era menos do que um meme da internet. Tinha se tornado apenas o pretexto para um feixe de causas”.

A expressão “tempos bárbaros” antecede o ponto final do texto de Azevedo.

Sim, bárbaros, tolos e tediosos.