Silêncio, por favor

[Coluna da Inclusive.com número 6, julho_2017.]

No começo era o Verbo e a linguagem. O fim parece ter fotos, vídeos, emoticons e kkks comungados com automatismo a roçar o simiesco.

bacon the sea

Francis Bacon, Untitled (Sea), 1953.

O título é verso de um samba de Paulinho da Viola (Para Ver as Meninas), com o qual abro e vou fechar esta coluna.

Pois “hoje eu quero apenas / uma pausa de mil compassos”.

Há muito barulho por todo lado. Um falatório diabólico obscurece o que é vital. A cacofonia de um coaxar transoceânico marca a política, a cidadania e as relações pessoais.

Palavras e metáforas desaparecem na algaravia como dejetos, de link em link, de nó em nó na teia virtual.

No começo era o Verbo e a linguagem. O fim parece ter fotos, vídeos, emoticons e kkks comungados com automatismo a roçar o simiesco. Ao menos numa parte considerável da existência, a leitura e a palavra foram corrompidas.

A telinha colorida do celular praticamente aboliu o céu e o movimento das ruas como inspiradores do pensamento.

Quem estudava os efeitos dos mass media no século passado não podia sonhar com a nova ordenação do mundo. Algoritmos (linguagem não verbal) e Big Data são minas de ouro do século 21. Por meio de aplicativos e inteligência artificial, tangem multidões de usuários — consumidores, não cidadãos — cuja participação precisa ser renovada num ciclo infinito de clicks e egotismo para que se sintam vivas no ciberespaço.

A palavra — o sopro, a luz que iluminava as consciências — se apaga. O idioma se torna impotente. Os sentimentos e as sensações se esvaziam. Os músculos da face se hipertrofiam com o exercício permanente do riso autônomo. O pensamento se encolhe.

No Brasil e no mundo, as referências vocabulares das ideias foram evisceradas. “Direita” e “esquerda” irmanam-se na idiotia.

Como demonstra George Orwell em O que É Fascismo (Cia das Letras), o xingo “fascista” é pau para toda obra; atende a todo o arco-íris ideológico.

Também as categorias da beleza perderam seu território com a invasão bárbara do relativismo e do discurso “politicamente correto”.

O desgaste da linguagem é fenômeno universal que acompanha as mudanças sociais e tecnológicas.

O esgotamento da palavra e das narrativas foi detectado ainda na segunda metade do século 19, com a reação dos pintores, poetas e romancistas do Modernismo que reinventaram sua arte.

Mais tarde é a “expulsão da literatura como influência séria sobre a percepção da vida”, no dizer de um personagem de Philip Roth, processo que termina em nossos dias, era de ouro dos millennials.

Mas agora não há qualquer sinal de reação criativa, além de prazerosa resignação.

Uma tagarelice sem fim distingue nosso tempo. A preferência assombrosa pela frivolidade ulula em todas as plataformas.

Ai, se Eu te Pego e Despacito são a trilha ideal do espírito da época.

“Talvez nossa cultura tenha se tornado esbanjadora de palavras. Talvez tenha vulgarizado ou gasto o que de garantia de percepção e valor luminoso um dia contiveram”, ponderava o filósofo e crítico literário George Steiner num ensaio dos anos 1960, uns 50 anos antes que o WhatsApp e do Facebook começassem a reger a imaginação.

Steiner se refere no mesmo livro ao “atormentado escrúpulo” de Kafka ao retornar várias vezes (nas Cartas a Milena) “à impossibilidade da manifestação adequada, ao esforço infrutífero da tarefa do escritor que é encontrar a linguagem ainda não enxovalhada, desgastada até tornar-se lugar-comum, esvaziada pelo desperdício irresponsável”. Kafka, puxa vida. Então sou o Gregor Samsa.

Cada hora de rola-páginas nas redes sociais incrementa a hiperinflação de palavras que fragiliza a linguagem. Se uma carroça de bolívares venezuelanos não compra um rolo de papel higiênico, um Amazonas diário de palavras no Facebook não produz uma ideia original.

Nem apelos à pornografia e à violência surtem mais efeito, que o diga a publicidade de rapina (“Para você curtir gigante.”)

Pois hoje eu quero apenas o bem precioso do silêncio. Mil compassos de pausa. Contra o veneno do ruído infernal, o antídoto do silêncio, anterior ao verbo. “Deve-se calar sobre aquilo de que não se pode falar”, diz a célebre frase do filósofo.

E por silêncio clama Paulinho da viola em seu lindo samba: “Quem sabe de tudo não fale / quem não sabe nada se cale / se for preciso eu repito / porque hoje eu vou fazer / ao meu jeito eu vou fazer / um samba sobre o infinito”. Que o silêncio nos resgate.

Humanos estão podendo

Como “diz” o cachorro da NET, “meus” humanos estão podendo. A publicidade da operadora, digo de passagem, não me parece obra humana. Mas o tema da coluna não é o mundo cão da propaganda.

É a ciência, ou o ideal que alguns homens de ciência superdotados fazem da vida.

Ali por volta de 2030, anuncia-se, a humanidade terá vencido a morte e alcançado a vida eterna.

A ciência da computação é a origem comum desses novos Einsteins, claro. Os reis do Vale do Silício se veem predestinados a melhorar o mundo com seus fantásticos algoritmos e aplicativos. Alguns podem tanto que não aceitam menos que viver para sempre.

Prescindir de sua grandeza seria trágico para o Universo.

O inglês Aubrey de Grey, da ONG Fundação Sens, era do metiê, antes de tornar-se biogerontologista. Promete nos livrar do envelhecimento com um “detox” de terapias genéticas.

Viveremos mil anos ou mais sem azias, dores lombares ou de cotovelo, assegura. Seremos férteis e produtivos, com a memória e a libido para sempre em dia.

Um jovem mancebo de 870 anos encontrará uma nova parceira, um brotinho de 530.

O novo casal vai compartir terabytes de selfies e álbuns acumulados em centenas de uniões passadas, pencas de filhos e parentalha a perder de vista, se ainda houver geração. Pois o que será da posteridade num planeta de seres perpétuos?

Já o bilionário russo Dmitry Itskov e o diretor de engenharia da Google Raymond Kurzweil exploram soluções de inteligência artificial para garantir a eternidade de nossos netos ou bisnetos.

Interfaces biológicas, com os cérebros escaneados e hospedadas nas nuvens, tornarão perene a existência individual.

Colagem sem título

Não se sabe se o planeta ainda será sacudido por tragédias. Kurzweil, Itskov e de Grey não se aborrecem com efeitos colaterais. Conflitos éticos, demográficos ou desigualdade não tiram o sono dos adventistas do humano 2.0.

Há gente séria e sabida que respeita a ciência deste amanhã no qual tecnologias vão bulir com o DNA como blocos de Lego.

Mas não são essas tecnologias que me fascinam. Se tiverem que vir, virão; então, (não) seja o que deus quiser! O que me encanta é pensar como a própria ideia do que é a vida pode ser tão distinta.

Entendo Kurzweil, Itskov, de Grey e seguidores como entendo o matraquear de incas venusianos. Não há buraco de verme que possa aproximar meu mundo do mundo onde operam.

A vida eterna que concebem é, em essência, como a vejo, a definitiva iluminação da morte. A vida como avatar, sem velhice, higiênica, controlável, alheia à sorte e ao azar, é o enterro definitivo do humano.

Vá lá que estejamos fadados a nos recriar, pela tecnociência, livres de todos os males. Mas só um ciborgue é capaz de defender o poder e a glória do humano 2.0. Por isso desconfio de que nossos super-heróis já não têm a humanidade preservada. Evoluíram. Receberam seu upgrade.

A imortalidade vai derreter o que presta na espécie. Laços de afeto perderão o sentido.

Amamos também ou essencialmente porque somos seres cariados e finitos. Que papel teria o amor em um mundo de perfeição em que tudo é para sempre?

Acaba-se com a dor e leva-se junto a arte; livram-nos do sofrimento e também de Michelangelo, Shakespeare e Bach.

O admirável mundo novo de Kurzweil, Itskov e de Grey me devolve a Cioran e Fernando Pessoa. Talvez para lhes dar razão.

No último texto para esta revista lembrei um dos aforismos do filósofo romeno, “a vida, esse mau gosto da matéria”. Depois, ao folhear Pessoa no Livro do Desassossego, acho esta passagem: “Viver parece-me um erro metafísico da matéria, um descuido da inação”.

Ou, no mesmo livro: “Considero a vida um estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo”.

Se Pessoa ainda vivesse, saberia que, em vez daquela diligência, está por vir o expresso da eternidade.

E que a própria poesia sumirá como lágrimas na chuva, no dizer do androide de Blade Runner.

— “Time to die?” Never more, dear.

Logo, se a vida é mesmo essa porcaria, melhor recriá-la.

Salve a Humanidade 2.0!, a qual, não duvido, pode estar por trás dos comerciais da NET.


[Coluna originalmente publicada na revista Inclusive.com que chega às bancas.]