Redimiram a gordura saturada

Agora, a certeza sobre os males à saúde causados
pela ingestão de gordura saturada,
defendida a ferro e fogo pelo establishment da medicina,
começa a ser solapada

piramide colagem

A ciência da nutrição, tão em alta em nossa era, comete erros monumentais, e já pode ter acumulado uma dívida muito grande com a humanidade.

Nunca engoli a condenação ao café, que levou tantos pais das últimas gerações a privar suas crias do hábito tão prazeroso e, como se revelou,tão benéfico à saúde da maioria das pessoas.

O ovo, soberano no reino alimentar, foi degredado por cardiologistas há quase 50 anos e só recentemente começou a ser reabilitado.

Agora, a certeza sobre os males à saúde causados pela ingestão de gordura saturada, defendida a ferro e fogo pelo establishment da medicina, começa a ser solapada.

“Há muito se sabe que o açúcar é o vilão, por que a gordura pagou pato durante tanto tempo?”, indaga o subtítulo bem-humorado da reportagem nomeada Conspiração amarga, originalmente publicada pelo jornal britânico The Guardian e traduzido pela Piauí deste mês.

O que segue são apenas algumas pinceladas da minha leitura. Assinantes da Piauí acessam o texto aqui.

O tema da matéria é a história pouco conhecida de um debate que só recentemente começou a chegar a nossos ouvidos leigos.

Um debate que esconde verdadeira guerra travada entre centros acadêmicos e instituições sanitárias de excelência nos EUA e na Grã-Bretanha.

O autor faz referências a novos estudos e a conhecimentos pioneiros do século passado que haviam caído em desgraça por contrariar o papado da ciência médica da nutrição.

“Está mais difícil abafar a denúncia de que a promoção de dietas de baixo teor de gordura foi um modismo de 40 anos com resultados desastrosos, uma moda concebida, abalizada e controlada por nutricionistas”, diz o texto de Ian Leslie.

Estudos epidemiológicos mostraram que, com a substituição do bife, da manteiga e do leite gordo por massas, arroz, leite desnatado ou suco de laranja, as pessoas se tornaram mais obesas e passaram a sofrer mais doenças coronarianas e diabetes tipo 2.

“Como a quantidade de energia que obtemos das proteínas tende a permanecer estável, uma alimentação com baixo teor de gordura, qualquer que seja a sua composição, na prática só pode significar uma dieta rica em carboidratos”, lemos.

Como se sabe, quanto mais colesterol se come, menos nosso fígado produz essa substância, o que tem a ver com o princípio do equilíbrio energético que regula o corpo humano (homeostase). Aprendemos isso no ginásio. É o que explica o fato de não se conseguir relacionar o colesterol ingerido com o colesterol presente no sangue.

O colesterol é processado no fígado, onde se transforma em gordura antes de penetrar na corrente sanguínea. É o que acontece com o mais puro e onipresente dos carboidratos, o açúcar.

Cientistas notaram que, desde que nossa espécie deixou de macaquear, estamos mais bem conformados para traçar um bife mal passado que uma mousse de limão.

“Os carboidratos só passaram a frequentar nossas refeições há 10 mil anos, com o advento da agricultura em massa. O açúcar, um carboidrato puro, sem fibras ou valor nutritivo, faz parte da alimentação ocidental há menos e 300 anos — em termos evolucionários, é como se estivéssemos consumido a primeira dose neste exato segundo. A gordura saturada, pelo contrário, encontra-se intimamente atrelada à nossa evolução: ela é abundante, por exemplo, noite materno”, diz um trecho da matéria.

É provável que na sua próxima consulta seu médico ou nutricionista ainda não vá admitir esse novo paradigma.

Se esperasse aconselhamento dos meus médicos de Belo Horizonte, ainda não teria começado a tomar minha aspirina de 80 mg todo santo dia, como é amplamente recomendado nos EUA, o que faço há uns cinco anos.

Médicos tendem a ser conservadores e, apesar da internet, a desprezar a informação que os pacientes levam consigo aos consultórios, ainda que essa informação tenha sido colhida em boas fontes.

Mas devagar com o andor. Um pouco de ceticismo não faz mal a ninguém.

O inglês que assina a matéria, além de escritor, é publicitário. Muito provavelmente não é o caso dele, mas publicitários tendem a se entusiasmar excessivamente, às vezes de maneira deslumbrada, com seu objeto de aprendizado, pelo menos no Brasil.

“Piauí” digital na “Folha”

Ou: por que não dá para passar sem a revista de João Moreira Salles

 
Desde ontem, o site da “Piauí” tem endereço novo; trocou o “Estadão” pela “Folha”.

Ganha vários pontos a “Folha” digital e o “Estadão” perde ainda mais.

Como crítico do jornalismo, tenho marcado a revista sob pressão, com a isenção de um espectador com cadeira cativa na primeira fila.

Acompanho desde o primeiro número a aventura de João Moreira Salles — que se aproxima de seu 10º aniversário — para emplacar no Brasil uma publicação inspirada na “The New Yorker” — filé intelectual da elite americana.

“Piauí” se mantém sem concorrência e, de certa forma, prega no deserto a que chegamos com a crise da imprensa e do jornalismo cultural, onde não há quem não tenha entregado a rapadura ao pop e ao gosto juvenil.

É coisa de um artista visionário e obra de um empresário disposto e capaz de remar com as contas no vermelho o tempo que for preciso. É do mesmo grupo a ótima revista de ensaios trimestral “Serrote” e a revista de fotografia “Zum”.

Como na publicação na qual se mira, na “Piauí” repórteres têm vários meses para se dedicar a uma pauta, paga-se bem (ou já não bem), valoriza-se a alta cultura, há espaço para poesia e a não ficção, para o cartoon e o humor e seus editores buscam se afinar com leitores bem informados e que não se sentem satisfeito com o que não é superior à média.

Como na “The New Yorker”, mais especificamente a seção “Esquina” (que já foi seu ponto alto) — inspirada no “The Talk of the Town” (algo como “o assunto do dia”) — mantém os textos curtos de alta qualidade abrindo cada edição.

A revista decai com frequência e se desequilibra na tentativa de mostrar-se equidistante — uma missão impossível, como se pode constatar ao ler sua divertida seção de cartas — na política radicalizada do país nos últimos tempos, com a catástrofe do lulopetismo. Em muitas edições, traz como peça de resistência um artigo licenciado e traduzido, claro, da “The New Yorker”.

Mas é o que temos de melhor.

Em seus 116 números saíram grandes, reveladoras e dedicadas reportagens que podem entrar para uma antologia da revista — e certamente haverá algum livro no prelo — como a “A Vitória das Moscas”, de Rafael Cariello, sobre a Operação Mãos Limas, na revista deste mês, comentada pelo jornal e aberta no novo site. Se você não tem o hábito de lê-la ou ainda não leu, aproveite.

Quem não cedeu à era da trivialidade da civilização do espetáculo, à infantilização das indústria cultural, à vulgaridade dos realities shows, ao lixo de celebridades, não trocou a literatura pelo aprendizado de comida e vinho, enfim, quem gosta de ler o que é sério e tem medula e osso e dá valor às nossas pobres cacholas, não pode passar sem ela.