A vacina obrigatória do impeachment

Foto da exposição Fernando Pessoa no Museu da Língua Portuguesa, São Paulo

 Jurupoca_55. 22 a 28/1/2021. Ano 2.

XX – O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia, 

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus. 

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia. 

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia. 

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

7-3-1914

Arquivo Pessoa: O guardador de rebanhos. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.

O rio da minha aldeia, música de Tom Jobim sobre poema de Fernando Pessoa em fase Alberto Caeiro — faixa A1 do LP da Som Livre A música em  Pessoa (1985), e CD da  Biscoito Fino (2002). O arranjo orquestral é de Paulo Jobim, com Tom ao piano.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Ah, que bom seria haver vacina segura e eficaz para sarar o cloroquinista, o terraplanista, o antivacinista, o freguês da conspiração Q (“pedófilos satanistas tramam o domínio total do mundo”).

Talvez uma nova proeza da bioengenharia com o RNA mensageiro ajudasse.

Escancarar fatos, documentos, expor a realidade diante dessa turma é perda de tempo.

Essa franja da humanidade, conspirativa, sempre existiu, e existirá, suponho, até o advento do pós-humano, e aí será tarde demais para a ação do imunizante.

A 55ª Ju (a publicação segue no vermelho, a pedir a contribuição do leitor) põe a bailar umas notinhas sobre o tema, misturadas a goiabais e abacaxizais mas, você vai ver, também traz uma singela sugestão para que comunguemos o pão e o vinho duma canção de Zé Ramalho: Beira-mar, derivada de Apocalypse, folheto de cordel de sua autoria publicado em 1977.

Antes o caldeirão costumeiro, Janeiro trouxe esta semana ao Belo, não mais que de repente, alguma brisa e um céu azul do qual as nuvens pareciam ter sido banidas.

“O meu olhar azul como o céu/ É calmo como a água ao sol./ É assim, azul e calmo,/ Porque não interroga nem se espanta…”

Ah, que bom seria incorporar a serenidade (fingida) por Pessoa na pele do Caeiro, sentir que o rio da minha aldeia não faz pensar em nada, ou que, por pertencer a menos gente, é mais livre.

Minha aldeia é uma metrópole infectada por um vírus solerte, cujo “rio”, o Arrudas, tem emanações que permitem apenas a urubus estar ao pé dele.

Minha aldeia, minha pátria, é o mundo (“… Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa…”), ora transido e em transição.

Mas é preciso salvar (saudar com tiros de salva) e saldar a inauguration, como dizem lá, a posse de Joseph R. Biden.

(Vi a posse. Que alívio notar o decoro, a decência, a educação e a elegância restaurados no discurso público e no convívio humano. Sem esse básico alento, viver é um inferno. A propósito, me encantei com a menina poeta Amanda Gorman.)

Poetizo uma aldeia global com uma vacina segura e eficaz para sarar o cloroquinista, o terraplanista… Tolice.

Melhor tentar em mim mesmo o Emplasto Brás Cubas, criado pelo personagem de Machado para “aliviar nossa melancólica humanidade”.

Sei que é preciso forcejar, cada um como pode, neste distrito da aldeia global chamado Brasil, pela aplicação da vacina do impeachment!

Abaixo o deletério xamã das grotas milicianas!

Pela desjumentização do Brasil!

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


A vacina do impeachment (1)

A democracia precisa ser imunizada contra um governo que coleciona crimes de responsabilidade. “Impeachment é para quem dá as costas para a Constituição”, ensina o ex-ministro Aires Brito.  Em entrevista à Folha ele recitou o artigo 78 da carta: “O presidente assume o compromisso de observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro…”.  Lembrou que a saúde é dever do Estado e direito de todos. “Salta aos olhos: ele promove aglomerações, não tem usado máscara, não faz distanciamento social. Respostas como “e daí?” ou “não sou coveiro” não sinalizam um caminhar na contramão da Constituição?”, indaga Aires Brito, que chancela o impeachment pelo “conjunto da obra”. A resposta é cristalina.

Projeção em prédio no centro de São Paulo. Captura/recorte de foto de Amanda Perobelli – 15.jan.21/Reuters

A vacina do impeachment (2)

Nossa sanidade precisa ser imunizada contra a loucura, a incúria, o negacionismo e a náusea permanente da razão. O governo de Sua Excrescência Jumentíssima, Caveirão.105mm, teve e tem ministros que deveriam estar recolhidos à Casa Verde (que me perdoem os humanistas da luta antimanicomial). Mas não. Os lelés estão soltinhos da Silva, como este das Relações Exteriores. Como o deixaram entrar no Instituto Rio Branco? Eu lhe receitaria, à maneira do Caveirão e seu general da Saúde, doses maciças de Haldol.  

A vacina do impeachment (3)

Ignorar a ciência, zombar da medicina e receitar, receitar, leitora amiga (como um estúpido macho decante orgulhoso de própria estupidez—como militar refugado convertido em deletério xamã das grotas milicianas), tratamentos precoces” não bastam para o impeachment? O lenga-lenga de Rodrigo Maia e da oposição é um menosprezo face a sordidez de uma realidade de desgoverno e desvario.

Sennett na fossa

Abatido com as cenas do putsch contra o Capitólio (ele se desculpa mais de uma vez com o entrevistador pelo desânimo), levando a pandemia com a mulher em Londres, Richard Sennett não se perde em bizantinices. O sociólogo diz ao Clarín que é preciso desnazificar (se refere a uma “versão mais suave do nazismo”) e destrumpificar os Estados Unidos. Sennett foi seguidamente, em longa campanha, chamado de “impatriota” por um senador republicano, apontado como prócer da conspiração da “elite cosmopolita” que teria vendido o país às corporações.

Desjumentizar o Bananão

E se vamos destrumpificar os EUA, é mister desjumentizar o Bananão (tks, Lessa).

Elas e eles góstiam

Como Dona Santinha Pureza (Nádia Carvalho), a personagem da Escolinha do Professor Raimundo abusada pelo marido que, diante da indignação do mestre, diz o bordão “eu góstio!”, os adeptos do QAnon também góstiam, conclui o perfil de uma soldada dessa seita no New York Times. Valerie Gilbert é uma nova-iorquina endinheirada educada em Harvard. Várias vezes por dia ela entra no Facebook para atualizar seu voluntariado contra a cabala mundial de pedófilos adoradores de Satanás que governa o mundo e da qual fazem parte Joe Biden, Lady Gaga e possivelmente até o leitor desta Ju. É difícil trazer essa gente para a realidade, reconhece a matéria. Mike Rothschild, um pesquisador do fenômeno, diz ao jornal que essa gente, que também pulula por aqui (como imitadores), não baba nem é vítima de gurus promotores de lavagem cerebral. A resposta é mais simples. Quem acredita em Q gosta de acreditar e de compartilhar sua crença, não vive sem isso, como um adicto não vive sem seu pico. Esfregar fatos e realidade na cara do crente é perda de tempo. Uma conspiração puxa outra num novelo eterno, por mais que, para quem insista no contrário, o Sol nasça toda manhã com o giro terrestre.

Hatoum e a dor no peito de Manaus

No artigo para O Globo  ‘É na confluência de incompetência, descaso e crueldade que reside a tragédia em Manaus‘, Milton Hatoum vê (e comenta) as cenas que apertaram o peito da humanidade civilizada com tutano e coração. Manauara, autor de uma rica ficção ambientada no Amazonas, o também professor e cronista Hatoum se atém aos problemas do Estado, castigado, não é de hoje, pela pororoca da corrupção. Lembra que mais da metade dos domicílios de Manaus não tem acesso ao saneamento básico. Não tem saneamento, mas ostenta a joia da Arena da Amazônia, dádiva do lulismo na Copa do Mundo. “Há décadas o povo amazonense é vítima de descaso, humilhação, enganação, crueldade”, registra o escritor, para encerrar: “Morrer por falta de oxigênio é ápice desse exercício de crueldade. Não deixa de ser uma tortura, que sempre soube (e sabe) usar sua lógica e sua logística.”

Contra a tirania das big techs (1)

O professor da Universidade do Texas em Austin Michael Lind ironiza o banimento de Trump do Spotify. Coitado, “não pode mais compartilhar suas listas de música!”, lamenta em Tablet. As grandes corporações da tecnologia se tornaram uma tirania fora de controle, acusa o escritor, sem compromisso com a lei e a ordem. O Google se transformou na versão século 21 das páginas amarelas; a Amazon não é submetida à mesma regulação imposta aos varejistas, como o Uber não é taxado como as companhias de táxis.  “Em teoria”, ele segue, “é fácil tirar o ‘e’ protetor das empresas de tecnologia e redefini-las como empresas de transporte e prestadoras de serviços públicos. Os velhos conceitos do direito costumeiro são flexíveis e serviriam de base a uma nova legislação, com uma exceção”.

Contra a tirania das big techs (2)

A exceção, claro, são as redes sociais. Seu modelo de negócio é protegido das regulações contra difamação e obscenidade, a que editores de livros e revistas são submetidos, no caso norte-americano. FB e Twitter estão isentos de responsabilidade editorial. Se essa proteção for retirada, muito provavelmente essas mídias se dissolveriam. Mas e daí? Justiça seria feita! Um jornal sério, aqui ou nos EUA, não publica artigos sob pseudônimo sem saber quem é o autor, mas qualquer tarado extremista se sente à vontade para “postar” o que bem entender a hora que desejar, como a fazer uso da própria latrina. Se uma minoria é massacrada depois de um chamamento de carrascos via Face, como os rohingya em Mianmar, ou se a democracia é minada a tuitadas, essas corporações dizem que o problema não é delas, ou fazem o que pode, ou, para manter as aparências, promovem uma limpeza pontual aqui e ali.

Contra a tirania das big tech (2)

Demétrio Magnoli, na Folha, alerta sobre os festejos (esta Ju também celebrou!) dos “progressistas” contra o cancelamento de Trump na internet, inclusive, como vimos, pelo Spotify. Nos EUA, os magnatas das big techs são quase todos alinhados com os democratas, ou a esquerda “liberal”. Pois deveriam, diz Michael Lind, se adaptar às mesmas regras que seguem publicações de esquerda ou centro esquerda, como as revistas Salon ou Jacobin. Que direita e esquerda tenham seus próprios meios de comunicação regulados, defende Lind. Magnoli vira outra página: “Que ninguém se engane”, anota, “no caso das plataformas globais de mídias sociais, os banimentos seletivos não derivam de padrões éticos mas de cálculos de negócio”, diz, referindo-se aos processos de monopólio que enfrentam nos EUA. O colunista parece ter lido o artigo de Lind, ao concluir sobre a necessidade de o poder público determinar a qualidade da “curadoria” da informação nas redes sociais”: “É hora de derrubar a muralha do privilégio, submetendo-os [os “plutocratas” Jack Dorsey, do Twitter, e Mark Zuckerberg, do Facebook, que Magnoli denomina “Editores Supremos”] ao mesmo universo de regras de responsabilidade que regula a imprensa. Ah, isso implodiria o modelo de negócio dos gigolôs da xenofobia e do extremismo? Que pena…”.

Contracapa, a série

Assisto a Contracapa, série paranaense, ou curitibana?, em cartaz na fajuta plataforma Looke, no fajuto Now da NET/Claro. A série mistura suspense policial com um drama sobre a vida na redação de jornal em crise, em transição terminal do imprenso para o online. Assistimos a esse filme desde o início do século. Mas ninguém antes o havia rodado no Brasil. Em meio a mais um passaralho, o jornalismo dá lugar ao entretenimento fútil caça-clique. Cada recorde de visitação online exibido em telões é aplaudido. Quando mais baixo e vulgar um conteúdo, mais clique; quando mais obscenidade e extremismo, mais clique. A ficcional Gazeta Brasileira, como toda a imprensa regional, depende de verbas públicas para sobreviver, jamais terá o “rabo preso com o leitor”, o que degrada toda redação e o ofício. Para cortar despesas só faltam regrar o consumo de água filtrada. A história é realista e se vê que quem propõe o enredo é do metiê. E quem viveu a realidade de um jornal em crise crônica se reconhece facilmente nos personagens do bom elenco, ainda que haja muito amadorismo em toda a produção. A série se perde ao tentar “humanizar” os jornalistas da Gazeta, revelando os dramas pessoais e familiares. Isso torna 70% dos episódios puro culebrone televisivo, como os hispânicos chamam o novelão. A história seria melhor contada em 5 ou 6 episódio, em vez dos 13 com 52 minutos de duração! Entre outras precariedades, a trama escancara a miséria da roteirização no Brasil. Há uma meia dúzia de escritores creditados em Contracapa. Para que tanta gente?, a gente se pergunta. O resultado são cenas arrastadas e diálogos inacreditáveis, além de atuações precárias. Estranhamente, o seriado exclui sequer insinuações de sexo ou namoro da vida dos jornalistas.

O corpo e o sangue da arte
de Zé Ramalho em Beira-mar

Superprodução (dirigida pelo cineasta Ivan Cardoso) bancada pelo cantautor: Xuxa Lopes, Zé do Caixão, Zé Ramalho, Monica Schmidt, Satã e Hélio Oiticica de parangolé em foto do LP A peleja do diabo com o dono do céu

Pinço uma faixa de um LP, um clássico popular, um ícone do fantástico na MPB, um prodígio de criação artística.

Beira-mar é uma das menos esotéricas (ou lisérgicas) canções de Zé Ramalho (Brejo da Cruz, Paraíba, 1949), fruto de um prévio livreto do autor. E uma de suas letras mais bem trabalhadas na oficina poética.

Beira-mar é um dos rubis de seu segundo disco pela CBS, A peleja do diabo contra o dono do céu, gravado em junho e lançado em setembro de 1979, apenas três anos depois de o artista baixar no Rio com uma mão na frente e outra atrás (Garoto de aluguel – Taxi boy, outra faixa do disco, tem tintas autobiográficas), e tornar-se uma exótica paixão nacional.

A gravadora botou muita grana na obra de sua estrela em ascensão, como ainda era praxe naquele finzinho de uma era de ouro.

Deu-lhe liberdade autoral para definir o repertório e compor os arranjos de base. O produtor Carlos Alberto Sion dividiu a direção de estúdio com Zé, e convocou o regente Paulo Machado para escrever os arranjos de cordas e metais.

Agora, veja você, a CBS foi amarrar na produção da capa idealizada por Zé. Mas ele não quis saber de mesquinharias. Tirou do bolso o que precisava —não era uma merreca — para embalar o álbum com o luxo que sua arte demandava e merecia. O pesquisador Marcelo Froes conta que Zé já cuidava da produção gráfica de seus LPs, inspirando-se nas cultuadas capas do Pink Floyd.  

O cineasta Ivan Cardoso dirigiu a produção que juntou, além do próprio cantautor, Zé do Caixão (José Mojica Martins) e Satã, produtor e guarda-costas do cineasta mestre do nosso Terrir, a atriz Xuxa Lopes, a cantora  Mônica Schmidt e o artista plástico Hélio Oiticica, envergando um de seus parangolés, em sessões de fotos na feira de São Cristóvão, conforme Froes, e num casarão abandonado de Santa Tereza, no Rio, segundo verbete da Enciclopédia Itaú cultural.

Beira-mar cristaliza o espírito de A peleja do diabo contra do dono do céu. O repertório alude à obra de Aldous Huxley, ao cinema de Glauber Rocha, ao folk de Bob Dylan.

Mas o que pulsa pra valer é o sangue da rítmica nordestina, e a inspiração da literatura de cordel. O verbete da Itaú aponta influências do repentista Otacílio Batista (1923) e do cantador surrealista Zé Limeira (1886-1954).

Numa das fotos da capa, o artista é tentado por uma vampira (Xuxa Lopes) e o diabólico Zé do Caixão (José Mojica Martins)

A canção é extraída do cordel Apocalypse, escrito por Zé, que seria retomado em dois discos futuros.

A estrutura da letra deriva do martelo-agalopado, modalidade de repente com versos decassílabos e acentuação na segunda, quinta, oitava e 11ª sílabas.

O resultado do arranjo é o pão que corporifica o corpo e o sangue da fusão de gêneros com o colorido instrumental. Quem o toma, ao ouvir a canção, percebe o milagre da transfiguração da música em júbilo e consolação.

Trompas e cordas emolduram violões de 12 cordas (Geraldo Azevedo) e nylon (Zé), o baixo-condutor de Novelli e a percussão com bongôs (Chacal), ganzá (Borel) e triângulo (Cátia de França).

BEIRA-MAR – Zé Ramalho

I

Eu entendo a noite como um oceano
Que banha de sombras o mundo de sol
Aurora que luta por um arrebol
De cores vibrantes e ar soberano
Um olho que mira nunca o engano
Durante o instante que vou contemplar
Além, muito além onde quero chegar
Caindo a noite me lanço no mundo
Além do limite do vale profundo
Que sempre começa na beira do mar

II
Por dentro das águas há quadros e sonhos
E coisas que sonham o mundo dos vivos
Há peixes milagrosos, insetos nocivos
Paisagens abertas, desertos medonhos
Léguas cansativas, caminhos tristonhos
Que fazem o homem se desenganar
Há peixes que lutam para se salvar
Daqueles que caçam em mar revoltoso
E outros que devoram com gênio assombroso
As vidas que caem na beira do mar

III

E até que a morte eu sinta chegando
Prossigo cantando, beijando o espaço
Além do cabelo que desembaraço
Invoco as águas a vir inundando
Pessoas e coisas que vão arrastando
Do meu pensamento já podem lavar
No peixe de asas eu quero voar
Sair do oceano de tez poluída
Cantar um galope fechando a ferida
Que só cicatriza na beira do mar


Luxuosamente, Bituca

Mônica Salmaso e André Mehmari interpretam o repertório de Milton. Coisa finíssima. Mais uma vez juntos durante o reinado do Corona num show com “ingresso consciente”, fazem um espetáculo marcante, íntegro, rigoroso e galvanizante. A seleção do repertório de Milton e parceiros é diferenciada e impecável. Mais uma vez Mehmari (piano e marimba de vidro) nos encanta a cada compasso com variações harmônicas que jogam com melodias e o pathos das cações. E a Salmaso? Ora bolas, neste momento ela é nossa maior cantora. Teco Cardoso (flauta baixo e sax soprano) é convidado deste concerto luxuoso.

Pérolas aos pouquíssimos

A Blue Note, na série Lives pela arte com “ingresso consciente”, apresenta Ná Ozzetti e Dante Ozzetti. Os irmãos atiram, em uma live pandêmica, suas pérolas aos poucos, ou pouquíssimos. Não deixe de se incluir neste happy few, afinal você é leitora ou leitor desta Ju. O repertório base de Ná me remete à sofisticação do cabaré alemão dos anos 1920, ou da atual Ópera Cômica de Berlim.


Dá licença, ô do #MeToo,
mas vou falar de Woody Allen

Woody Allen: The Origins Podcast (em inglês). A apresentação do programa revela como os EUA estão cultural e politicamente encalacrados; sim, te ouço comentar: qual a novidade?, por aqui sempre estivemos. Pois é. O apresentador tem de justificar a mera escolha de Allen como entrevistado. Será preciso lembrar, sempre, que o cineasta foi desgraçado pela moralidade macarthista de esquerda do país, presente grandemente no #MeToo e outros movimentos lacradores. Mr. Allan Stewart Konigsberg foi inocentado pela Justiça da acusação, levantada pela ex-mulher, de ter abusado da própria filha, num processo limpo e cabal. Mas isso vale um peido para os caçadores de reputação que o destroçaram vivo, e tentaram se alimentar de seu gênio e da sua arte. Que sofram uma épica indigestão!