O espírito (de porco) da época

Arate conceitual

[Coluna da Inclusive.com número 7, agosto_2017]

Tenho buscado me incorporar ao espírito da época, ou incorporá-lo, para ver se penetro no Bailão do Agora; em vão. A que templo, me indago, terreiro, clínica ou app de smartphone recorrerei para não me ver barrado no melhor do presente?

Acaso, como um Fausto reles, como um Riobaldo reles do Arrudas, devo apelar ao pacto com o demo para me sentir mais confortável com a moda mais recente? Nonada.

Se não posso receber o espírito da época, posso esboçar seu perfil. Antes, uma palavrinha sobre esta intangível entidade filosófica.

Todo mundo conhece a palavra alemã Zeitgeist. Ainda me embatuco com o significado, e recorro ao filósofo inglês Roger Scruton. Ele mostra como Hegel, sem querer, é culpado pela praga do progressismo, pela aceitação tola do novo enquanto novo.

“Cada período sucessivo da história, de acordo com os hegelianos, exibe um estágio no desenvolvimento espiritual da humanidade — um ‘espírito da época’ particular ou Zeitgeist, que é propriedade comum de todos os produtos culturais contemporâneos, e que é inerentemente dinâmico, transformando aquilo que herda e sendo descartado quando chega a sua hora”, ensina Scruton em “As Vantagens do Pessimismo”. Conforme essa lei, a história flui continuamente rumo ao progresso espiritual.

Identificar o espírito da época em retrospecto, em dado período histórico, vá lá. O problema começa quando se pretende definir como inelutável esta ação entre os vivos.

Seu efeito que me interessa aqui é a confusão geral que se faz quando a noção de progresso científico é levada para o terreno social, cultural e político.

É como se estivéssemos destinados a evoluir espiritualmente da mesma maneira que — graças à ciência e à técnica — saltamos do uísque como anestésico à maravilha do Propofol.

“O Zeitgeist que nos governa é o que está agindo agora. A arte verdadeira tem que ser fiel ao Zeitgeist (…). Os artistas verdadeiramente modernos pertencem a sua época, e essa época que dita o que eles devem fazer”, critica Scruton no capítulo “A falácia do espírito móvel”.

Alguém tem que ser fiel ao espírito da época para acatar certas novidades artísticas como avanços inevitáveis e alguns valores em voga como expressão de um contínuo progresso moral.

Alguém precisa ser um crente para chamar de “reacionário” o rebelde à crença de que estamos do lado da história rumo à revelação, conforme uma lei inelutável.

Tal é a visão geral dos acontecimentos por trás das sensações que levam multidões a aderir de modo irrefletido a ideias, ações e produtos vendidos como “geniais” e “revolucionários”. Prometi esboçar o perfil do “Zeitgeist que nos governa e está agindo agora” entre nós. Eis um rafe.

Muito do que vemos da denominada arte contemporânea se impõe graças à falácia a que Scruton se refere. A Arte, como a conhecíamos há séculos, está morta, e tudo é permitido nos “espaços expositivos” quando um curador estabelece “poéticas” para encaixar prosopopeias nos ricos pavilhões das bienais.  Eis a ação do Zeitgeist no presente.

Mas a expressão que nasce sem uma gramática artística comum, morre solitária. “Sem sintaxe não há emoção duradoura. A imortalidade é uma função dos gramáticos”, diz Pessoa no “Livro do Desassossego”.

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Temos sido levados a torturar o conceito do que é música — como a entendíamos se construir e reconstruir com beleza, afluência e respeito pela criação através do tempo — para incluir células rítmicas em looping e guinchadas letais.

Ai de quem não aceita acriticamente bossas da arte e o padrão musical reinante.

Ai de quem não queira ver demolidas a riqueza do legado técnico e as formas de linguagem da alta criação.

Ai de quem crê que sempre haverá uma hierarquia a medir os artefatos culturais. As patrulhas relativistas do espírito da época saem à caça de toda voz destoante que ouse contradizer suas certezas inspiradas.

O progressismo também se manifesta na sexualidade e em valores sociais afirmativos, construções ideológicas e até, de maneira mais prosaica, nas modas que estabelecem uma “correção nutricional” para quem está a fim de viver mil anos.

Já se propalou a hóstia sem glúten. Não cairei de costas quando se passar a exigir o sangue de Cristo com baixo teor de colesterol e a transubstanciação da seiva vegetal do criador na hóstia vegana. Até lá, quem sabe, já tenha me tornado mais dócil ao Zeitgeist, misinfi!

 

 

 

Ainda somos os mesmos na era do Feis? ou: Nossos avatares são melhores do que nós mesmos.

Ciberespaço

NO VAZIO ÁRTICO DO CIBERESPAÇO 

“E cada vez (…) os admiráveis mundos novos chegam mais perto da realidade que os inspirou. Muitos pensam que o mundo de Kurzweil [Ray Kurzweil, diretor de engenharia do Google] está praticamente nos atropelando, conforme a rede mundial de computadores traça seus filamentos no cérebro humano. No futuro idealizado por Kurweill, as pessoas se transformam em avatares, que espreitam uns aos outros no vazio ártico do ciberespaço. Isso já está acontecendo, como podemos depreender do Facebook (…).”

“Ao colocarmos uma tela entre nós e os outros, enquanto mantemos controle sobre o que parece nela, evitamos o encontro verdadeiro — negando aos outros o poder e a liberdade de desafiar-nos em nossa natureza mais profunda e convocar-nos aqui e a agora a assumir a responsabilidade por nós mesmos e por eles.”

Roger Scruton em As Vantagens do Pessimismo, É Realizações Editora, 2015, pág. 18.

 

O REBANHO DAS REDES 

Tangidos na linha do tempo, nas conjuras do advento, avatares trocam confeitos.

Avatares fazem troca-troca com alheios defeitos. 

(Nossos avatares são melhores do que nós mesmos).

(Nossos avatares não mais verdadeiros do que nós mesmos).

Avatares trepam em palanques a pregar sua mercancia.

Avatares têm apitos de caciques, prendas da tecnologia.

Avatares se embelezam e se lambuzam na Justiça sem modos. 

Avatares morais solapam o ar qual lambaris enredados. 

Avatares-commodities jogam na bolsa afetos-ativos.

Avagares ganham e perdem dividendos, função econométrica de algoritmos.

— Avatar, qual é seu perfil de investidor-curtidor? 

Ousado ou conservador?

Avatares encurralados no Feis temem perder seu palco. 

Avatares na ramagem das redes, se delegam e se adiam no espaço.

Uma versão vicária do olho no olho se escreve no Silicon Valley de uma vez. 

Alguém deu um click no Feis, outro não correspondeu e um link se desfez.

 

 

Contra o Brexit, pela Europa

No BrexitA Europa precisa superar todos os limites do projeto de unificação e corresponder aos múltiplos anseios de seus críticos.

Limites e críticas, contudo, vindas da esquerda e da direita, estão aquém da grandeza do feito civilizatório herdado por seus contemporâneos, no qual podem se incluir viajantes e observadores do mundo inteiro.

Por isso, estarei de olho no resultado do referendum desta quinta-feira no Reino Unido, o chamado Brexit (Britain exit, saída britânica), torcendo contra a pretensão separatista.

“Apesar de seus graves e óbvios defeitos, continuo a acreditar que uma Europa mais forte é indispensável não só para os cidadãos do Velho Continente, mas para todos os habitantes do planeta. E para a Europa ser forte é necessário que esteja mais integrada e cada vez mais agir de comum acordo”, diz o colunista do Estadão Moisés Aím, ex-diretor do Banco Mundial e membro da Carnegie Endowment for International Peace.

“Meu europeísmo”, prossegue Aím, “tem como base a convicção de que o mundo seria melhor se os valores europeus fossem mais predominantes do que os que prevalecem na Rússia de Vladimir Putin, na China de Xi Jinping e em muitas outras partes do mundo onde a democracia e a liberdade não são valores fundamentais”.

Eis o ponto fundamental.

Creio que ainda por muito tempo, talvez para sempre, enquanto perdurar, a União Europeia vai traduzir as ideias de concerto e concertação, de obra em progresso, não à toa um estado de arte.

Assim, a Europa pode ser entendida como o enorme, complexo e grato processo de valorização de identidades e convergências e harmonização de diferença e discrepâncias entre povos que, antes do seu advento, não haviam desfrutado os benefícios da paz duradoura e da ajuda mútua institucionalizada.

EUROPA E ESPANHA

Uma pesquisa da Fundação alemã Bertelsmann mostrou que, entre os europeus, os espanhóis estão à frente no repúdio ao Brexit, com vistosos 64%.

É ótimo que assim seja, e torço para que esta opinião majoritária também reflita um rechaço aos próprios projetos separatistas que perduram dentro da Espanha, sendo o mais ardoroso neste momento o catalão.

O fervor nacionalista que o turista atento sente no ar em Barcelona tem algo de nauseabundo, por exemplo, na onipresença da bandeira catalã ou, nos restaurantes, na imposição de cardápios em catalão ou inglês e a frequente descortesia com o cliente que ainda prefira a carta no idioma espanhol.

Esta é uma questão difícil de tratar com amigos espanhóis, e não me vejo no direito de forçar a conversa.Vote stay

Simpatizo com o a ideia de nacionalismo defendida por um filósofo conservador como Roger Scruton, grande apologista do Brexit e célebre devoto da caça à raposa.

Scruton (o historiador Tony Judt, à esquerda, em seus ensaios criticou duramente os fundamentos da UE) enaltece a solidariedade comunitária, no caso britânico, cultivada em torno da “common law”, da ideia de pertença (“aquilo que faz parte de alguma coisa”), de um “nós” contra a razão individual econômica levada às últimas consequências, até o ponto de desfigurar a humanidade e os laços entre famílias e povos preservados virtuosamente no tempo.

O separatismo de Scruton, óbvio, não é da mesma natureza do separatismo de quem alimenta a nostalgia do retorno à tribo, dos movimentos ultranacionalistas que propagam o ódio ao imigrante. A consequência dessa regressão civilizatória está em toda parte, como um perigo perpétuo.

Quando estou na linda e deliciosa Bilbao, convivo com amigos que levam a sério seu distanciamento da Espanha, e opõem suas características, desde o idioma local, trabalho e riqueza à existência das províncias menos afortunadas, com quem se veem obrigados a compartir uma parte dos impostos que pagam.

Mas tomamos um carro e em pouco mais de meia hora cruzamos as fronteiras da França, sem qualquer espécie de barreira, e lá encontramos comunidades que, como qualquer pueblo do País Basco, não se tornaram menos genuínas, onde as pessoas ainda experimentam sua própria noção de pertença. A Europa não lhes impôs o sacrifício irrealizável de se tornarem menos ricos em sua autenticidade.

Mas, quem sabe, a Europa tenha lhes proporcionado segurança e facilidades, abertas à vontade de cada um, de descortinar um mundo avançado, cosmopolita e único na Terra, constituído amplamente sob os princípios da democracia e capaz de inspirar toda a humanidade.

 

O diário da sexta

Delfim, Scruton e nossa arte de distribuir a riqueza judiciosamente;
Jorge Coli e uma injustiça com Inhotim;
A indústria da música ressurgiu mesmo?;
Rosemary Standley e Dom La Nela

Diário da sexta 17_06

 

A SÍNTESE DELFINIANA

No Valor, Delfim Netto diz que nossa esquerda, “infantil, desinformada, mas com alto poder vocal, não chega sequer a entender” que apenas o mercado pode resolver o problema da informação para se coordenar a necessidade de milhões consumidores com livre escolha com a capacidade produtiva de milhões de produtores igualmente livres para escolher o que produzir. Critica também o liberalismo puro para dizer que não há contradição entre Estado e Mercado. “O que precisamos não é uma política de ‘esquerda’ ou de ‘direita’, mas de uma política que admita as duas!”, diz o professor.

DISTRIBUINDO A RIQUEZA

Delfim talvez tenha tentado empurrar sua premissa ao governo petista, do qual foi conselheiro enquanto as águas eram calmas e o vento a favor do partido. A esquerda brasileira, como o ex-ministro sabe melhor que ninguém, se enquadra à perfeição no que Roger Scruton, referindo-se a certo crítico da Nova Direita, à época de Thatcher e Reagan, escreve em Como Ser um Conservador (Record): “O autor” —diz o filósofo britânico— “supunha que a principal incumbência do governo é a de distribuir a riqueza coletiva da sociedade entre seus membros e que, em matéria de distribuição, o governo é deveras competente. O fato de que a riqueza só pode ser distribuída caso antes tenha sido criada parecia escapar à sua observação.”

O JUDICIÁRIO É UM LUXO SÓ

“Distribuir a riqueza” é o que nossos Poderes têm feito com grande desembaraço, sobretudo o quinhão do PIB destinado às próprias corporações públicas. E o Judiciário é de longe o mais generoso dos três.

Este jornal louvou anteontem o prêmio da ANJ aos jornalistas da Gazeta do Povo, do Paraná, vítimas de “assédio judicial” de magistrados e procuradores no Estado. A tal reportagem que despertou a ira corporativa baseou-se em informações abertas a qualquer interessado. A equipe da Gazeta mostrou que, graças a uma série de benefícios autoconcedidos, o teto salarial do funcionalismo, que é de R$ 33,7 mil por mês, na Justiça paranaense pode saltar, em determinado caso, para R$ 148,7 mil, e várias outras situações semelhantes, todas legais.

Nosso Judiciário é ineficiente, mas continuamente se concede um luxo só em remuneração e privilégios, como gozo de folgas, férias e aposentadoria, coisa para causar inveja aos países mais ricos.

O JS se reportou a Hélio Schwartsman, colunista da Folha, e ao estudo de 2014, citado por ele, de Luciano Da Ros, da UFRGS, a revelar que a Justiça brasileira, sem contar Ministérios Público e defensorias, toma dos pagadores de impostos 1,3% do PIB e é 6,5 vezes mais cara que a francesa e 4 vezes mais cara que a alemã.

COLI E O INHOTIM

Em entrevista a João Pombo Barile, no Suplemento Literário, o filósofo e historiador da arte Jorge Coli faz uma crítica requentada ao Inhotim, que podia fazer algum sentido quando o lugar foi inaugurado e de fato tinha um quê de ilha exótica, como foi notado pela imprensa estrangeira. Hoje bate no vazio, além de chover no molhado.

O problema do lugar, ele diz, é que se parece com a Suíça, um “recorte suntuoso numa geografia de pobreza”. Coli compara a grande obra de Bernardo Paz a “um mundinho perfeito e isolado” e aos desvarios de “antigos ricaços mineiros”, como o contratador de diamantes João Fernandes “rasgando um mar artificial para que Chica da Silva navegasse”.

Ora, este “mundinho perfeito” recebe milhares de pessoas anualmente, inclusive milhares de escolares, que bem ou mal têm ali, além da informação cultural de primeira no universo da arte contemporânea, uma experiência estética e sensorial incomum no país, incluído no ingresso o contato delicioso com os jardins e a vegetação da Mata Atlântica que lá se preserva.

Quanto ao “recorte suntuoso numa geografia de pobreza” se poderia dizer o mesmo do MASP, do MAM, da Osesp e da Filarmônica de Minas Gerais. Não falta miséria à volta dessas instituições. O que Coli queria, ver macumba e rodas de samba em quintais de barracões de zinco? Congado e arte barroca em calçadas de capistranas?

O comentário tem a típica petulância preconceituosa da elite intelectual paulistana para quem Minas e o que sobra do Brasil jamais perderão certa essência caipira, incluindo o Rio de Janeiro. Se o Inhotim estivesse nos arredores da capital ou no interior de São Paulo, dificilmente o crítico teria tido a mesma impressão.

VINIL E STREAMING

O Valor de hoje também traz reportagem de Jotabê Medeiros que se vende como “ressurgimento da indústria musical”. O título claramente força a barra. Não há fatos que comprovem o que se anuncia. Por volta dos anos 1980, a indústria da música chegou a movimentar US$ 40 bilhões; hoje fatura menos da metade disso, US$ 15 bilhões.

No Brasil, o vinil parece ter voltado para ficar, com uma nova fábrica para ser aberta em São Paulo capaz de fabricar 30 mil discos por mês. Mas o mais promissor é o streaming, de serviços como Spotify e Dezzer, que desbanca o download e cai no gosto das pessoas, movimentando R$ 200 milhões por ano, com um milhão de assinantes no país.

O que vende hoje, diz Jotabê, é o sertanejo e também os gêneros religiosos, o arrocha (?) e o “funk mais pop, como Ludmilla e Anitta”. As letras duplas, me pergunto, são uma características das estrelas do Funqui?

POSSO CANTAROLAR

Escrevi acima é um luxo só e me lembrei, claro, de Ary Barroco. “…Mexe com as cadeiras mulata/ teu requebrado me maltrata…”. Esses versos já foram enquadrados em nossa “cultura do estupro”?

SAMBINHA

Por que estas duas se escondiam de mim? Ano passado descobri Rosemary Standley, componente do grupo franco-americano Moriarty e, assim, a jovem gaúcha Dom La Nela. Caí de amores por Sambinha e Duerme Negrito, do álbum Birds On A Wire, por sinal com uma bela versão dessa música de Leonard Cohen. Vejam as duas nos vídeos abaixo, em apresentação na Chapelle de la Trinité, em Lyon.

Se você gostar, me diga. Veja também Moriarty Isabella and I will do The Missing live 2/3 in Shakespeare Company, uma graça. Aproveite, em seguida, para dar uma bordejada na Shakespeare and Company em Paris e conhecer a belíssima história dessa livraria, se for o caso.

Duerme Negrito

 

Sambinha

O melhor programa de TV já feito

Os produtos culturais de altíssima qualidade raramente se tornam populares na internet. A série holandesa “O Belo e a Consolação” segue disponível no YouTube [esteve fora do ar, ano passado, por exigência dos produtores; por alguma razão, está aberta, novamente. Oxalá continue assim.] relativamente inédita, se a menina me entende. Os 25 vídeos deste programa de entrevistas, exibidos entre 2001 e 2002 pela  portuguesa SIC, depois reprisados em 2006, foram “subidos” no canal de Francisco Grave, de quem colho tais informações. “Como escreveu alguém num blog”, diz este altruísta, “a uma dada altura a SIC passou aquele que talvez tenha sido o melhor programa de televisão alguma vez feito”.

Originalmente, a série apresentada pelo jornalista, cineasta e escritor Wim Kayzer e produzida por Vera de Vries, é do canal público holandês VPRO, em 2000, nos explica F. Grave. Kayzer é autor de outra atração (como se diz hoje em dia) para TV do balacobaco chamada “Maravilhosa Obra do Acaso”, que conheci da versão em livro editada no Brasil pela Nova Fronteira (1995), hoje esgotada.

Creio que o título em holandês (“Van De Schoonheid en de Troost“) e inglês (“Of Beauty and Consolation”), vertido em Portugal para “O Belo e a Consolação” talvez nos quedasse melhor no Brasil como “A Consolação do Belo”. A legendagem em português em geral é boa. (Há uma versão em  mp3 no inglês original disponível aqui.)

Eis é a relação das entrevistas disponíveis no YouTube:

Richard Rorty, filósofo – Link
Simon Schama, historiador – Link
Martha Nussbaum, filósofa – Link
George Steiner, escritor e filósofo – Link
Roger Scruton, filósofo – Link
Stephen Jay Gould, zoólogo e paleontólogo – Link
Edward Witten, cientista e matemático – Link
Steven Weinberg, cientista – Link
Gary Lynch, neuropsicologista – Link
Leon Lederman, cientista experimental – Link
Vladimir Ashkenazy, pianista e maestro – Link
Catherine Bott, soprano – Link
Rudi Fuchs, director de museu – Link
Karel Appel, pintor – Link
John Coetzee, escritor – Link
Elizabeth Loftus, psicóloga – Link
Germaine Greer, escritora – Link
Wole Soyinka, escritor – Link
Yehudi Menuhin, violinista e maestro – Link
Dubravka Ugresic, escritora – Link
György Konrád, escritor – Link
Jane Goodall, escritora e etóloga – Link
Tatjana Tolstaja, escritora – Link
Rutger Kopland, poeta e psiquiatra – Link
Grand Finale (debate em Amsterdã entre alguns dos participantes)  – Link

Da produção deveriam constar 26 conversas, que variam entre 1h e 1h40 de duração. Os programas com o cientista Freeman Dyson, que aparece no último, e o maestro Richard Dufallo nunca vieram ao ar, conforme o bom Francisco, e disso, ele nos diz, não se sabe a razão. O derradeiro, 25º, intitulado “Gran Finale”, com duas horas e pico, apresenta o debate de encerramento entre alguns dos participantes. A discussão é precedida de recital de câmara e cantata da qual se extraiu a bela vinheta da série. A peça foi composta pelo filósofo Roger Scruton, um dos convidados.

Os encontros de Wim Kayzer com pintores, poetas, cientistas, músicos e filósofos são tão livres quanto poderia ser uma produção nesta mídia. A duração variável mostra isso. Tomadas de cenas nas cidades, nas suas praças, jardins, numa praia na África do Sul, um panorama de Chicago, nos EUA, e até num campo inglês em meio à caça à raposa, se alternam com a gravação das conversas em apartamentos, salões de hotéis, bastidores de orquestra.

Ao assistir à série, me senti instigado a pensar, a pesquisar, a ler mais e ouvir concertos e canções dos quais se falou. Os temas não se limitam às artes, mas se estendem por um leque ilimitado do conhecimento que abarca filosofia, história, ciência, matemática, psicologia e religião. Tomei notas e posso dizer que me entretive com gosto e proveito como há muito não fazia. Uma experiência assim, que explora essencialmente a inteligência, oferece o padrão mais elevado dos propalados benefícios da internet para a humanidade. Pena que até esta quadra do jardim de infância da rede tal aspiração pouco contou.

Entre as melhores entrevistas destaco os diálogos com George Steiner, Roger Scruton, Richard Rorty, Simon Schama, Edward Witten, Vladimir Ashkenazy e Stephen Jay Gould. Gould e Yehudi Menuhin faleceram pouco depois de terem gravado os programas. O entrevistador teve que se rebolar com a mudez de John Coetzee e enfrentar a metralhadora verbal da indizivelmente chata e ególatra Martha Nussbaum, com seu timbre de bambu rachado. Não deu para encarar a escritora Germaine Greer, francamente. Mas posso dizer que nos melhores momentos dos diálogos me vi regressar a um mundo de ideias elevadas, elegância, beleza, protegido do lixo cultural circundante, da banalidade e deste viver às cegas tão peculiar à nossa era de muito teclar e pouco pensar. Isso para mim se chama consolação.