Jurupoca #5

NÚMERO 5 — AGOSTO, 30   2019

La vita è questo scialo
di triti fatti, vano
più che crudele
(…)
Addio! — fischiano pietre tra le fronde,
la rapace fortuna è già lontana,
cala un’ora, i suoi volti riconfonde, —
e la vita è crudele più che vana.

A vida é um esbanjamento
De fatos triviais, vão
mais que cruel.
(…)
Adeus! — sibilam pedras nas folhagens,
a tormenta voraz já vai distante,
a hora cai, de novo se confundem as imagens, —
e a vida é mais cruel do que vã.

“Flussi” (“Fluxos”), de “Ossos de Sépia”, Companhia das Letras, 2002, p. 155, na tradução de Renato Xavier.


“Pela graça de Deus, cheguei cedinho a Machado de Assis. Deste não me separaria nunca, embora vez por outra lhe tenha feito umas malcriações. Justifico-me: amor nenhum dispensa uma gota de ácido.”

Carlos Drummond de Andrade em um dos textos reunidos no livro “Amor Nenhum Dispensa Uma Gota de Ácido”, lançado agora pela Três Estrelas.


“A realidade também é feita dessas esperanças íntimas que a imaginação inventa. Esperanças, os males indispensáveis da caixa de pandora. A confiança num destino pelo qual valha a pena sofrer. Em outras palavras, o desejo de ser moldado na forma da verdadeira humanidade. Mas quem é moldado dessa forma? Ninguém sabe.”

Saul Bellow em “As Aventuras de Augie March”, p. tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras, 2009.


“Você pode extrair da pessoa quantas partes do corpo dela quiser, mas jamais encontrará o lugar onde ela está, o lugar do qual o sujeito se dirige a mim e do qual eu, por minha vez, me dirijo a ele. O que importa para nós não são os sistemas nervosos invisíveis que explicam como as pessoas funcionam, mas as aparência visíveis às quais reagimos quanto reagimos a elas como pessoas”.

Roger Scruton em “A Alma do Mundo”, p. 85, Record, 2017, tradução de Martim Vasques da Cunha. 


“O desespero é o preço que pagamos por nos comprometermos com uma meta impossível. É, dizem, o pecado imperdoável, mas um pecado que nunca é cometido pelos corruptos ou pelos maus. Eles sempre têm esperança. Nunca atingem aquele estado paralisante que é o conhecimento do fracasso absoluto. Só os homens de boa vontade levam sempre no coração essa capacidade para a desgraça.”

Graham Greene em “O Cerne da Questão”, tradução de Otacílio Mendes, Biblioteca Azul, 2ª edição impressa, 2019.


Opa. Vamos apear?

Philip Roth: três romances”, um dos ensaios reunidos em “Tudo Tem a Ver: Literatura e Música” (Todavia, 2019), de Arthur Nestrovski, é crítica literária como não existe mais nos jornais brasileiros, ou em parte alguma. “O depauperamento da crítica fica evidente para quem acompanhou o processo; e não foi compensado pelas mídias digitais, até pelo contrário. Isso tem mais gravidade do que parece: diminuir o espaço da crítica significa diminuir o espaço da cultura, vencida pelo jornalismo instrumental: serviço, polêmica, entretenimento”, avalia. Ele se refere ao papel formador, essencial da literatura, que é o de balizar, ou melhor, deslindar a condição humana, ao que a crítica deve estar apta a enfrentar.

O diretor artístico da Osesp, Nestrovski joga nas onze na cancha cultural, o que esses ensaios e textos curtos evidenciam. No ensaio final, escrito para a edição da coletânea, ele faz um balanço de suas suas “vidas”, todas bem vividas, de tradutor, editor, professor e músico. Conta, por exemplo, como traduziu “Ständchen” (1828), lied de Schubert e Ludwig Rellstab.

Explica as alusões feitas ao “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buarque, canção que encarnava a “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias, poema que tem como epígrafe versos de Goethe (“Mignon”) sobre um país imaginário (“onde ardem laranjas de ouro”), sendo Goethe um contemporâneo de Schubert. Tudo pode ter a ver quando se apagam fronteiras. “Gravada por Chico César, à maneira de toada caipira, a ‘Serenata’ entrou na trilha da novela ‘Velho Chico’, dirigida por Luiz Fernando Carvalho, que foi ao ar em 2016, na Globo!”, relata, para celebrar: “Durante meses, mais de 30 milhões de pessoas escutaram este Schubert brasileiro. Dessas coisas, como se gosta de dizer, que “só acontecem aqui”. Foi provavelmente a maior audiência de Schubert de todos os tempos. Aconteceu no Brasil — e em tradução”.

Mas, comecei a dizer, Nestrovski tem Roth em altíssima conta. A qualidade da sua crítica aos romances “O Teatro de Sabbath”, “Pastoral Americana” e “Casei com um Comunista” expressa sua eleição. Em um trecho da primeira parte, a respeito da saga do devasso Mickey Sabbath, lê-se:


“Se Philip Roth tem traços que o ligam familiarmente a Henry Miller, tem muito mais para situá-lo na linhagem dos profetas judeus Franz Kafka e Sigmund Freud, temperados pela leitura de Céline e Joyce (este último homenageado diversas vezes no livro). Nesse contexto tão elevado, de uma literatura em estado de incandescência, ou indignação quase constante, até Updike, que rivaliza com Roth como mestre supremo da língua americana e cronista das ambições sexuais, começa a soar um pouco como o bom burguês.”


Roth e Updike, ambos mortos, ambos escritores americanos canônicos, candidatos ao Nobel e preteridos pela academia sueca. Como tudo tem a ver, peço licença poética para chegar a meu próprio ofício, de que venho falando a conta-gotas nesta Jurupoca, e à minha pequena teia.

“O leitor da obra de Philip Roth só pode ser um obsessivo. O fato de sistematicamente lhe negarem o Nobel é um mote de obsessão. Outro, não tem jeito, chama-se Nathan Zuckerman. Nathan ‘torna-se’ Philip Roth e vice-versa; um mostra-se tão vivo e verdadeiro — na realidade ficcional — quanto o outro”, escrevi aqui.

Nesse texto de 2017, publicado sete meses antes da morte do escritor, aos 85 anos, comento o ótimo documentário “Encontro com Philip Roth – A Biografia de uma Obra”, de Adrien Soland e François Busnel. Aponto o andamento de réquiem que se depreende nas cenas finais.

Na sala de sua casa de campo, Roth põe para tocar as “Quatro Últimas Canções” de Richard Strauss e suspira, revelando seu encantamento por essa música.

À época dessa gravação ele já havia anunciado a aposentadoria, e diz que começava a aproveitar a vida. Um pouco antes, discorre sobre o “ciclo Nêmesis” (2006-2010), como enfeixa os últimos romances, narrativas em torno do envelhecimento, a decadência física e a ronda da morte: “Homem Comum”, “Fantasma Sai de Cena”, “Indignação”, “A Humilhação”, “O Animal Agonizante” e “Nêmesis”.

Alude a uma história que ouviu sobre um genial ator inglês que um dia, ao subir no palco, percebeu que havia perdido a força, a magia, não sabia mais atuar. O célebre ator Simon Axler de “A Humilhação” repõe essa narrativa. Já o publicitário sessentão de “Homem Comum” sofre com os achaques da velhice e a impotência.

“A velhice não é uma batalha. A velhice é um massacre”, ele se lamenta, na frase mais citada do livro. Todo esse contexto não é revelado no documentário francês assim, mastigado. Mas o leitor de Roth percebe a extensão da melancolia e do drama.

Bem, ia a dizer, a obsessão deste leitor baratinado pelos espelhamentos entre Zuckerman e Roth não vinha dali, do ensaio que escrevi para a revista “Inclusive.com”, com o título “Zuckerman Safadinho & Roth Safadão”, mas de antes, de duas décadas de leitura e releitura de seus livros e de uma viagem forçosamente literária a Paris e Florença no outono europeu de 2005.

Narro o episódio em “Inferno em Florença”, crônica incluída em “A Arte da Viagem”, cuja publicação, que tenho anunciado nesta Jurupoca para este mês, sofrerá algum atraso. Não dá para revelar muito dessa história sem spoiler.

Adianto que cheguei à cidade italiana com um exemplar em inglês do “Complô contra América” debaixo do braço. Esse romance de Roth ainda não tinha saído no Brasil. Dois ou três dias depois, cruzei com um desses dois autores (Roth ou Updike) por duas vezes, de manhã, no museu Bargello e, na tarde do mesmo dia, à beira do Arno, num balcão próximo da Piazza dei Frescobaldi, quando o abordei.

Também me refiro à Roth em um dos poemas de viagem que entram no livro como souvenirs, chamado “Carrinho de mão vermelho”. O nome é uma piscadela para “The Red Wheelbarrow”, de William Carlos Williams, poema no qual tentei me inspirar para registar o fechamento de uma livraria de mesmo nome no Marais, em Paris, onde eu havia comprado em 2005, diretamente das mãos da proprietária, a canadense Penelope Fletcher, meu exemplar de “The Plot Against America”.

Sucedeu que numa daqueles acasos de que falei na carta anterior, de volta a Paris cinco anos mais tarde, escolhi um hotel bem ao lado da Red Wheelbarrow Bookstore, que, então, acabava de dar adeus ao ponto.

Na “libraire anglophone” ainda se viam alguns livros e um computador, além do anúncio imobiliário bem visível.

Nos hospedamos no chinfrim Hôtel du 7e Art, um duas estrelas na rue de Saint-Paul. Naquela semana, eu e minha mulher soubemos pelo “The Herald Tribune” que Roth havia, em comunicado público, para tristeza de seus leitores e, todo o mundo, que não escreveria mais ficção. Procurei gravar no poema essa sucessão de eventos.

Recentemente, a propósito, Penelope Fletcher reabriu sua livraria em outro endereço, agora na Rive Gauche.


A amazônica conspiração maquiavelista

“Isso está me cheirando a conspiração que vem de fora”, sussurra Odorico para seu Dirceu. / Aí tem cérebro de gente traquejada nestes maquiavelismos. / Poooovo de Sucupira…  É com a alma [incompreensível]… que venho fazer ao povo uma denúncia de sumíssima gravidade. Um plano maquiavelista está em marcha visando a roubar Sucupira (…) / Querem impedir que Sucupira trilhe o caminho do progresso. / Todos vós sabeis que tenho dado meu o suor e meu sangue pela grandeza de Sucupira. Mas esses maus sucupiranos recebem ordem de potências estrangeiras interessadas em manter o nosso povo no atraso e na dependência.” (…). Ouça a íntegra na Rádio Sucupira da CBN.

A amazônica conspiração comunista

“Brasileiros: (…) forças do mal e do ódio [o comunismo] campearam sobre a nacionalidade ensombrando o espírito amorável da nossa terra e da nossa gente… A dissimulação, a mentira, a felonia constituem as suas armas”, proclama Getúlio, seu Gegê, na Hora do Brasil, ao anunciar que o governo de salvação nacional debelara a Intentona Comunista, o levante organizado por militantes da Aliança Nacional Libertadora, a 23 de novembro de 1935.


Tânato na avenida

De carona com Joaquim Nabuco e Caetano Veloso, que dedicou um disco ao abolicionista, “Noites do Norte” (2000), digo que a imagem do governador Wilson Witzel descendo de um helicóptero na ponte Rio-Niterói com sua figura balofa e curvada sobre as hélices da aeronave, rindo à larga com os punhos erguidos — como um Tânato no Sambódromo ou um goleador nos campos do demônio — permanecerá por muito tempo como a reafirmação de mais uma característica nacional do Brasil.



CONSERVAÇÃO

Meu coração está na dimensão estética da existência”, diz Roger Scruton nesta longa e bem articulada entrevista ao Estadão/Spotnicks. O conservadorismo, como o liberalismo, é malbaratado em toda parte ao gosto do freguês.

Scruton é o melhor defensor dessa corrente tão vilipendiada e pela qual guardo certa simpatia, mas que deve ser entendida, para que as ideias correspondam aos fatos, como liberal, libertária e britânica — fruto dessa história cultural.

Em um país como o nosso, o princípio da conservação — conservar o que presta e devemos preservar para nossos filhos e os que vão nascer, a exemplo do patrimônio arquitetônico ou da melhor tradição música popular, que uma corrente intelectual vê como elitista à luz dos novos ritmos mais “autênticos” porque georreferenciados — só pode ser visto, creio eu, em abstrato, “ad hoc”, ou seja, em situações sociais ou familiares específicas, aqui ou ali.

Por certo, não há o que conservar da miséria, da iniquidade, da ignorância, de uma sociedade atrasada e disfuncional.Tenho para mim que a civilização começa com a universalização do saneamento básico, do que falo no pé. 


A BELEZA IMPORTA?

“Roger Scruton tem inteira razão quando afirma que o conservadorismo procura conservar a ‘ecologia social’ de um povo”, escreve João Pereira Coutinho, a propósito do livro “Filosofia Verde: Como Pensar Seriamente o Planeta”.

“Nessa ecologia, estão as leis, os costumes, as instituições; as liberdades civis, políticas, econômicas; mas também os recursos naturais e, por que não, a mera possibilidade de existir beleza no mundo”.

A deixa do colunista da “Folha” remete ao livro “Beleza” e ao filme da BBC “Beauty” ou “Why Beauty Matters?”, disponível no YouTube com legendas em português, escrito e apresentado pelo filósofo.

Scruton considera um culto à feiura toda a progênie artística semeada pelo urinol de Duchamp, com raras exceções, como um Rothko; toda a música posterior a certas peças de Schoenberg que não siga as fórmulas clássicas; e toda arquitetura derivada do modernismo. “É mais fácil destruir coisas do que criá-las. Isso é, essencialmente, o que Mefistófeles diz no Fausto”, diz nessa entrevista.


MARTELADAS

Seu romantismo é um tanto irritante, mas ele defende em grande estilo o legado da arte constituído em milênios por meio de diálogo entre os mestres, em termos de reverência e inovação.

Ele diz que a catedral da beleza erguida por séculos e séculos foi posta abaixo a marteladas, e o que restou da demolição terminou reduzido a pó no pós-modernismo. Daí nasceu o culto escatológico à marmota.

Ele critica com afinco e disciplina toda a derivação da utopia hegeliana em torno da “inevitabilidade da história”.

“A natureza contraditória das utopias socialistas é uma explicação para a violência envolvida na tentativa de impô-las: é necessária uma força infinita para obrigar as pessoas fazerem o impossível”, escreve em “Tolos, Fraudes e Militantes: Pensadores da Nova Esquerda”.


O ZEITGEIST E A “MERDE D’ARTISTA”

Em grande medida, a arte contemporânea engaja-se com o novo como uma força destinada a superar e sepultar a beleza do mundo. Scruton vai à nascente dessa crença e tenta estancá-la por um instante para criticá-la.

“Cada período sucessivo da história, de acordo com os hegelianos, exibe um estágio no desenvolvimento espiritual da humanidade — um ‘espírito da época’ particular ou Zeitgeist, que é propriedade comum de todos os produtos culturais contemporâneos, e que é inerentemente dinâmico, transformando aquilo que herda e sendo descartado quando chega a sua hora”, diz em “As Vantagens do Pessimismo”.

Conforme essa lei, a história flui continuamente rumo ao progresso espiritual. Identificar o espírito da época em retrospecto, num dado período histórico, vá lá. O problema é estabelecer como inelutável essa ação entre os vivos, quando a noção de progresso científico é levada para o terreno social, político e cultural.

É como se estivéssemos destinados a evoluir espiritualmente da mesma maneira que — graças à ciência — saltamos do uísque empregado como anestésico nas cirurgias à maravilha do Propofol, sugeri em outro lugar.

Então, o que a política e o desarranjo aleatório derivam como a novíssima arte passa a ser a quintessência da criação, a exemplo das latinhas de bosta “Merde d’Artista”, que fizeram a fortuna de Piero Manzoni, ou o a instalação “My Bed” (1998), da britânica Tracey Emin, uma cama de casal desarrumada com roupas sujas espalhadas que faturou 4,3 milhões de dólares num leilão.

“O Zeitgeist que nos governa é o que está agindo agora. A arte verdadeira tem que ser fiel ao Zeitgeist (…). Os artistas verdadeiramente modernos pertencem a sua época, e essa época que dita o que eles devem fazer”, retrata, no capítulo “A falácia do espírito móvel”.

Precisamos ser fiéis ao espírito da época para acatar certas novidades artísticas como avanços inevitáveis e alguns valores em voga como expressão de um contínuo progresso moral. E precisamos ser crentes para considerar reacionária toda heresia contra a crença de que haja tal “viés” na história.


NARIZ DE CERA

Pensei num nariz de cera para as notas acima, como vênia a alguma leitora ou leitor mais sensível a ideias excêntricas ao eixo ideológico marxista. Mas, uai, para quê? Quem segue esta carta sabe que ela não é ideologicamente exclusiva e se nutre do bom e do melhor contra a cegueira.

Scruton, filósofo conservador e escritor britânico foi tipicamente xingado de fascista nos anos 1980, sendo lacrado “avant la lettre”.

A virulenta reação a seu livro “Pensadores da Nova Esquerda”, recentemente ampliado e reescrito no “Tolos, Fraudes e Militantes”, o expulsou do ensino acadêmico. Sua força intelectual e caráter hoje o colocam acima da manada das patotas do pensamento mágico.

É influente e respeitado. Fez crítica de vinhos, escreve crítica literária e de arte, romances, libretos de óperas, compõe, como o lindo tema de abertura da série televisiva “O Belo e a Consolação”, e ainda é o organista de sua igreja. Scruton se considera um “homem de letras” na velha tradição e mantém uma fazenda autossustentável, onde cultiva a terra e a boa vida.




 
O CERNE DA QUESTÃO

Forçando a barra contra o sono, acabo a leitura de “O Cerne da Questão”, romance de Graham Greene escrito há 71 anos.

Me pergunto se em mundo bobo e infantilizado como o nosso haverá leitores para um grande livro adulto sobre o tema da culpa religiosa e a depressão, o abandono e o “suicídio por compaixão”, como Paulo Francis, um fã de Greene de primeira hora, definiu o destino do herói, Scobie.

Não creio que haja. Li algumas vezes “O Poder e a Glória”, opera magna de Greene. O desespero do padre bebum e incasto, que acaba fuzilado por revolucionários mexicanos me acompanha com uma memória pessoal.

Releio de vez em quando a comédia “Nosso Homem e Havana”, sobre um vendedor de eletrodomésticos feito espião por acaso na Cuba pré-revolucionária (o próprio Greene espionou para o MI6, o serviço secreto de sua majestade), narrativa tão engraçada quanto “Furo” ou “Declínio e Queda”, de Evelyn Waugh.

Já o “Cerne da Questão” não tem graça e não faz graça. “Scobie tinha a impressão de que a vida era interminavelmente longa. A prova do homem não poderia ser realizada em menos anos?

Não poderíamos cometer o primeiro pecado importante aos sete, nos arruinar por amor ou por ódio aos dez, nos agarrar à redenção num leito de morte aos quinze?”, diz uma passagem.

O leitor vai se servindo, em discurso livre indireto, desse destilado agônico produzido na alma do major inglês, mal entrado na meia idade. Ele e a mulher perderam a filha pequena e, sufocados pelo clima e o ambiente social de uma colônia africana na Segunda Guerra, onde Scobie se sente prisioneiro e fascinado por essa condição, tentam escamotear a memória trágica. (Leio a reedição da Biblioteca Azul, com tradução de Otacílio Nunes.)

A prosa de Greene nunca é frouxa ou concessiva, mas enxuta e cortante. Às vezes é quase pintura: “Lançou a garrafa por cima do cais, e a boca faminta da água a recebeu com um único arroto”.

Assim ele engrossa as pinceladas que esboçam o mal-estar existencial de Scobie. Durante uma ronda policial no porto, recolhe uma garrafa de uísque que podia ser uma bomba incendiária, “e quando ele sacou as folhas de palmeira o fedor de petisco desidratado para cachorro e de uma podridão sem nome irrompeu como um vazamento de gás”.

Francis escreveu que Greene se debatia com seu jansenismo, doutrina que não conta com a salvação, como adúltero e simpático oportunista do comunismo.

Católico converso na juventude (praticou roleta russa na adolescência para combater o tédio), o autor de “O Terceiro Homem” e “O Americano Tranquilo”, livros que deram filmes excelentes, ia à missa até o final da vida, vivendo com a amante em Nice, num pequeno apartamento com 12 garrafas de J&B alinhadas na estante

. Pode que Francis estivesse certo, mas o pessimismo de “O Cerne da Questão” nunca é hesitante:


Por que, ele se perguntava, desviar o carro para evitar um cachorro morto? Amo tanto este lugar? Será porque aqui a natureza humana não teve tempo de se disfarçar? Ninguém aqui poderia jamais falar sobre um paraíso na Terra. O paraíso permanecia rigidamente em seu lugar do outro lado da morte, e deste lado floresciam as injustiças, as crueldades, a mesquinhez que em outros lugares as pessoas escondiam com tanta engenhosidade. Aqui era possível amar seres humanos quase como Deus os amava, conhecendo o pior: não se amava uma pose, um vestido bonito, um sentimento assumido superficialmente. Ele sentiu uma afeição repentina por Yusef [o sírio contrabandista e corruptor das autoridades locais]. “Um erro não justifica outro. Um dia, Yusef, você vai encontrar o meu pé debaixo de seu traseiro gordo”, ele disse.


EDUCAR PARA A MÍDIA

O nome é feio pacas em duas línguas, “media literacy” ou “alfabetização para a mídia”. Prefiro educação para a mídia. Mas seu apelo é urgente. Deveria se tornar disciplina em vários níveis no currículo escolar, incluindo a alfabetização de marmanjos.

Ainda pouco difundida no Brasil, vem na onda da checagem de fatos, do combate às notícias falsas e ao vitimismo alucinatório contra a imprensa, de que já falei bastante na Jurupoca # 2 (ver Fanáticos contra o jornalismo).

O colombiano Thomas Durante, pesquisador para União Europeia de estudos midiáticos, deu uma entrevista à “Folha” sobre o tema. “A ideia é promover e aprimorar o senso crítico dos cidadãos, o conhecimento da mídia, do universo de informações, a compreensão crítica de mensagens e notícias etc.”, ele explica.

“A alfabetização para a mídia busca conceder acesso a ferramentas e conhecimentos gerais sobre o alcance e as oportunidades que a tecnologia representa. Isso inclui gerar habilidades técnicas, pensamento crítico, poder de análise, de solucionar problemas, e então desenvolver a capacidade de lidar com todo tipo de informação, com a mídia e com produtos culturais.”



F WORD, JODER, PQP

Álvaro P. Ruiz de Elvira, no “El País” (“The Wire – o melhor uso de um palavrão”), comenta a sequência do quarto capítulo da primeira temporada dessa série, que julga uma das mais bem escritas, dirigidas e filmadas da história da televisão. O que é, sem dúvida, e inesquecível. Durante quase cinco minutos, apenas uma palavra é repetida 33 vezes, a expressão “fuck”, “joder” em espanhol — em português “puta que pariu” me parece uma tradução mais justa.

O que os detetives estão vendo na cena do crime é de gelar os ossos, mas resolvem o caso. Revi algumas vezes “The Wire” (A Escuta, HBO, 2002), criada por David Simon. É minha série número 1. Até a academia rendeu-se ao seu alcance social e artístico.

Suas cinco temporadas conseguem retratar a sociedade de Baltimore, repartida em guetos pela imigração, o duro trabalho policial, a imprensa decadente, o jogo de poder e seu trânsito corrupto no submundo da droga nos miseráveis bairros negros; o elenco, formado quase que só por atores ingleses, impressiona pelo domínio do patoá.

Segundo uma reportagem de O Globo, um dos mais respeitados sociólogos americanos, William Julius Wilson, definiu a obra como a maior etnografia jamais produzida sobre os Estados Unidos. O prêmio Nobel Mario Vargas Llosa é outro célebre fã do seriado.




OU POR QUE ESTAMOS NA MERDA

A capa (como se dizia) de “O Globo” no domingo, 18/8, trouxe um levantamento oficial sobre as maiores estatais de saneamento no país. Mostra que essas empresas gastam mais com o pagamento dos empregados que com investimentos em infraestrutura. O lobby desses funcionários de altos salários enfrenta duramente a aprovação de um marco regulatório para a privatização do setor, em discussão há séculos no Congresso. Talvez nossos tataranetos vivam em outro país. Hoje, segundo o levantamento o instituto Trata Brasil, quase 100 milhões de pessoas não têm acesso à coleta de esgoto e 35 milhões não recebem água tratada em suas casas. Quem é um pouco informado e não seja um extremista sabe o que isso significa.

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.


O espírito (de porco) da época

Arate conceitual

[Coluna da Inclusive.com número 7, agosto_2017]

Tenho buscado me incorporar ao espírito da época, ou incorporá-lo, para ver se penetro no Bailão do Agora; em vão. A que templo, me indago, terreiro, clínica ou app de smartphone recorrerei para não me ver barrado no melhor do presente?

Acaso, como um Fausto reles, como um Riobaldo reles do Arrudas, devo apelar ao pacto com o demo para me sentir mais confortável com a moda mais recente? Nonada.

Se não posso receber o espírito da época, posso esboçar seu perfil. Antes, uma palavrinha sobre esta intangível entidade filosófica.

Todo mundo conhece a palavra alemã Zeitgeist. Ainda me embatuco com o significado, e recorro ao filósofo inglês Roger Scruton. Ele mostra como Hegel, sem querer, é culpado pela praga do progressismo, pela aceitação tola do novo enquanto novo.

“Cada período sucessivo da história, de acordo com os hegelianos, exibe um estágio no desenvolvimento espiritual da humanidade — um ‘espírito da época’ particular ou Zeitgeist, que é propriedade comum de todos os produtos culturais contemporâneos, e que é inerentemente dinâmico, transformando aquilo que herda e sendo descartado quando chega a sua hora”, ensina Scruton em “As Vantagens do Pessimismo”. Conforme essa lei, a história flui continuamente rumo ao progresso espiritual.

Identificar o espírito da época em retrospecto, em dado período histórico, vá lá. O problema começa quando se pretende definir como inelutável esta ação entre os vivos.

Seu efeito que me interessa aqui é a confusão geral que se faz quando a noção de progresso científico é levada para o terreno social, cultural e político.

É como se estivéssemos destinados a evoluir espiritualmente da mesma maneira que — graças à ciência e à técnica — saltamos do uísque como anestésico à maravilha do Propofol.

“O Zeitgeist que nos governa é o que está agindo agora. A arte verdadeira tem que ser fiel ao Zeitgeist (…). Os artistas verdadeiramente modernos pertencem a sua época, e essa época que dita o que eles devem fazer”, critica Scruton no capítulo “A falácia do espírito móvel”.

Alguém tem que ser fiel ao espírito da época para acatar certas novidades artísticas como avanços inevitáveis e alguns valores em voga como expressão de um contínuo progresso moral.

Alguém precisa ser um crente para chamar de “reacionário” o rebelde à crença de que estamos do lado da história rumo à revelação, conforme uma lei inelutável.

Tal é a visão geral dos acontecimentos por trás das sensações que levam multidões a aderir de modo irrefletido a ideias, ações e produtos vendidos como “geniais” e “revolucionários”. Prometi esboçar o perfil do “Zeitgeist que nos governa e está agindo agora” entre nós. Eis um rafe.

Muito do que vemos da denominada arte contemporânea se impõe graças à falácia a que Scruton se refere. A Arte, como a conhecíamos há séculos, está morta, e tudo é permitido nos “espaços expositivos” quando um curador estabelece “poéticas” para encaixar prosopopeias nos ricos pavilhões das bienais.  Eis a ação do Zeitgeist no presente.

Mas a expressão que nasce sem uma gramática artística comum, morre solitária. “Sem sintaxe não há emoção duradoura. A imortalidade é uma função dos gramáticos”, diz Pessoa no “Livro do Desassossego”.

Leia também

Temos sido levados a torturar o conceito do que é música — como a entendíamos se construir e reconstruir com beleza, afluência e respeito pela criação através do tempo — para incluir células rítmicas em looping e guinchadas letais.

Ai de quem não aceita acriticamente bossas da arte e o padrão musical reinante.

Ai de quem não queira ver demolidas a riqueza do legado técnico e as formas de linguagem da alta criação.

Ai de quem crê que sempre haverá uma hierarquia a medir os artefatos culturais. As patrulhas relativistas do espírito da época saem à caça de toda voz destoante que ouse contradizer suas certezas inspiradas.

O progressismo também se manifesta na sexualidade e em valores sociais afirmativos, construções ideológicas e até, de maneira mais prosaica, nas modas que estabelecem uma “correção nutricional” para quem está a fim de viver mil anos.

Já se propalou a hóstia sem glúten. Não cairei de costas quando se passar a exigir o sangue de Cristo com baixo teor de colesterol e a transubstanciação da seiva vegetal do criador na hóstia vegana. Até lá, quem sabe, já tenha me tornado mais dócil ao Zeitgeist, misinfi!

 

 

 

Ainda somos os mesmos na era do Feis? ou: Nossos avatares são melhores do que nós mesmos.

Ciberespaço

NO VAZIO ÁRTICO DO CIBERESPAÇO 

“E cada vez (…) os admiráveis mundos novos chegam mais perto da realidade que os inspirou. Muitos pensam que o mundo de Kurzweil [Ray Kurzweil, diretor de engenharia do Google] está praticamente nos atropelando, conforme a rede mundial de computadores traça seus filamentos no cérebro humano. No futuro idealizado por Kurweill, as pessoas se transformam em avatares, que espreitam uns aos outros no vazio ártico do ciberespaço. Isso já está acontecendo, como podemos depreender do Facebook (…).”

“Ao colocarmos uma tela entre nós e os outros, enquanto mantemos controle sobre o que parece nela, evitamos o encontro verdadeiro — negando aos outros o poder e a liberdade de desafiar-nos em nossa natureza mais profunda e convocar-nos aqui e a agora a assumir a responsabilidade por nós mesmos e por eles.”

Roger Scruton em As Vantagens do Pessimismo, É Realizações Editora, 2015, pág. 18.

 

O REBANHO DAS REDES 

Tangidos na linha do tempo, nas conjuras do advento, avatares trocam confeitos.

Avatares fazem troca-troca com alheios defeitos. 

(Nossos avatares são melhores do que nós mesmos).

(Nossos avatares não mais verdadeiros do que nós mesmos).

Avatares trepam em palanques a pregar sua mercancia.

Avatares têm apitos de caciques, prendas da tecnologia.

Avatares se embelezam e se lambuzam na Justiça sem modos. 

Avatares morais solapam o ar qual lambaris enredados. 

Avatares-commodities jogam na bolsa afetos-ativos.

Avagares ganham e perdem dividendos, função econométrica de algoritmos.

— Avatar, qual é seu perfil de investidor-curtidor? 

Ousado ou conservador?

Avatares encurralados no Feis temem perder seu palco. 

Avatares na ramagem das redes, se delegam e se adiam no espaço.

Uma versão vicária do olho no olho se escreve no Silicon Valley de uma vez. 

Alguém deu um click no Feis, outro não correspondeu e um link se desfez.

 

 

Contra o Brexit, pela Europa

No BrexitA Europa precisa superar todos os limites do projeto de unificação e corresponder aos múltiplos anseios de seus críticos.

Limites e críticas, contudo, vindas da esquerda e da direita, estão aquém da grandeza do feito civilizatório herdado por seus contemporâneos, no qual podem se incluir viajantes e observadores do mundo inteiro.

Por isso, estarei de olho no resultado do referendum desta quinta-feira no Reino Unido, o chamado Brexit (Britain exit, saída britânica), torcendo contra a pretensão separatista.

“Apesar de seus graves e óbvios defeitos, continuo a acreditar que uma Europa mais forte é indispensável não só para os cidadãos do Velho Continente, mas para todos os habitantes do planeta. E para a Europa ser forte é necessário que esteja mais integrada e cada vez mais agir de comum acordo”, diz o colunista do Estadão Moisés Aím, ex-diretor do Banco Mundial e membro da Carnegie Endowment for International Peace.

“Meu europeísmo”, prossegue Aím, “tem como base a convicção de que o mundo seria melhor se os valores europeus fossem mais predominantes do que os que prevalecem na Rússia de Vladimir Putin, na China de Xi Jinping e em muitas outras partes do mundo onde a democracia e a liberdade não são valores fundamentais”.

Eis o ponto fundamental.

Creio que ainda por muito tempo, talvez para sempre, enquanto perdurar, a União Europeia vai traduzir as ideias de concerto e concertação, de obra em progresso, não à toa um estado de arte.

Assim, a Europa pode ser entendida como o enorme, complexo e grato processo de valorização de identidades e convergências e harmonização de diferença e discrepâncias entre povos que, antes do seu advento, não haviam desfrutado os benefícios da paz duradoura e da ajuda mútua institucionalizada.

EUROPA E ESPANHA

Uma pesquisa da Fundação alemã Bertelsmann mostrou que, entre os europeus, os espanhóis estão à frente no repúdio ao Brexit, com vistosos 64%.

É ótimo que assim seja, e torço para que esta opinião majoritária também reflita um rechaço aos próprios projetos separatistas que perduram dentro da Espanha, sendo o mais ardoroso neste momento o catalão.

O fervor nacionalista que o turista atento sente no ar em Barcelona tem algo de nauseabundo, por exemplo, na onipresença da bandeira catalã ou, nos restaurantes, na imposição de cardápios em catalão ou inglês e a frequente descortesia com o cliente que ainda prefira a carta no idioma espanhol.

Esta é uma questão difícil de tratar com amigos espanhóis, e não me vejo no direito de forçar a conversa.Vote stay

Simpatizo com o a ideia de nacionalismo defendida por um filósofo conservador como Roger Scruton, grande apologista do Brexit e célebre devoto da caça à raposa.

Scruton (o historiador Tony Judt, à esquerda, em seus ensaios criticou duramente os fundamentos da UE) enaltece a solidariedade comunitária, no caso britânico, cultivada em torno da “common law”, da ideia de pertença (“aquilo que faz parte de alguma coisa”), de um “nós” contra a razão individual econômica levada às últimas consequências, até o ponto de desfigurar a humanidade e os laços entre famílias e povos preservados virtuosamente no tempo.

O separatismo de Scruton, óbvio, não é da mesma natureza do separatismo de quem alimenta a nostalgia do retorno à tribo, dos movimentos ultranacionalistas que propagam o ódio ao imigrante. A consequência dessa regressão civilizatória está em toda parte, como um perigo perpétuo.

Quando estou na linda e deliciosa Bilbao, convivo com amigos que levam a sério seu distanciamento da Espanha, e opõem suas características, desde o idioma local, trabalho e riqueza à existência das províncias menos afortunadas, com quem se veem obrigados a compartir uma parte dos impostos que pagam.

Mas tomamos um carro e em pouco mais de meia hora cruzamos as fronteiras da França, sem qualquer espécie de barreira, e lá encontramos comunidades que, como qualquer pueblo do País Basco, não se tornaram menos genuínas, onde as pessoas ainda experimentam sua própria noção de pertença. A Europa não lhes impôs o sacrifício irrealizável de se tornarem menos ricos em sua autenticidade.

Mas, quem sabe, a Europa tenha lhes proporcionado segurança e facilidades, abertas à vontade de cada um, de descortinar um mundo avançado, cosmopolita e único na Terra, constituído amplamente sob os princípios da democracia e capaz de inspirar toda a humanidade.

 

O diário da sexta

Delfim, Scruton e nossa arte de distribuir a riqueza judiciosamente;
Jorge Coli e uma injustiça com Inhotim;
A indústria da música ressurgiu mesmo?;
Rosemary Standley e Dom La Nela

Diário da sexta 17_06

 

A SÍNTESE DELFINIANA

No Valor, Delfim Netto diz que nossa esquerda, “infantil, desinformada, mas com alto poder vocal, não chega sequer a entender” que apenas o mercado pode resolver o problema da informação para se coordenar a necessidade de milhões consumidores com livre escolha com a capacidade produtiva de milhões de produtores igualmente livres para escolher o que produzir. Critica também o liberalismo puro para dizer que não há contradição entre Estado e Mercado. “O que precisamos não é uma política de ‘esquerda’ ou de ‘direita’, mas de uma política que admita as duas!”, diz o professor.

DISTRIBUINDO A RIQUEZA

Delfim talvez tenha tentado empurrar sua premissa ao governo petista, do qual foi conselheiro enquanto as águas eram calmas e o vento a favor do partido. A esquerda brasileira, como o ex-ministro sabe melhor que ninguém, se enquadra à perfeição no que Roger Scruton, referindo-se a certo crítico da Nova Direita, à época de Thatcher e Reagan, escreve em Como Ser um Conservador (Record): “O autor” —diz o filósofo britânico— “supunha que a principal incumbência do governo é a de distribuir a riqueza coletiva da sociedade entre seus membros e que, em matéria de distribuição, o governo é deveras competente. O fato de que a riqueza só pode ser distribuída caso antes tenha sido criada parecia escapar à sua observação.”

O JUDICIÁRIO É UM LUXO SÓ

“Distribuir a riqueza” é o que nossos Poderes têm feito com grande desembaraço, sobretudo o quinhão do PIB destinado às próprias corporações públicas. E o Judiciário é de longe o mais generoso dos três.

Este jornal louvou anteontem o prêmio da ANJ aos jornalistas da Gazeta do Povo, do Paraná, vítimas de “assédio judicial” de magistrados e procuradores no Estado. A tal reportagem que despertou a ira corporativa baseou-se em informações abertas a qualquer interessado. A equipe da Gazeta mostrou que, graças a uma série de benefícios autoconcedidos, o teto salarial do funcionalismo, que é de R$ 33,7 mil por mês, na Justiça paranaense pode saltar, em determinado caso, para R$ 148,7 mil, e várias outras situações semelhantes, todas legais.

Nosso Judiciário é ineficiente, mas continuamente se concede um luxo só em remuneração e privilégios, como gozo de folgas, férias e aposentadoria, coisa para causar inveja aos países mais ricos.

O JS se reportou a Hélio Schwartsman, colunista da Folha, e ao estudo de 2014, citado por ele, de Luciano Da Ros, da UFRGS, a revelar que a Justiça brasileira, sem contar Ministérios Público e defensorias, toma dos pagadores de impostos 1,3% do PIB e é 6,5 vezes mais cara que a francesa e 4 vezes mais cara que a alemã.

COLI E O INHOTIM

Em entrevista a João Pombo Barile, no Suplemento Literário, o filósofo e historiador da arte Jorge Coli faz uma crítica requentada ao Inhotim, que podia fazer algum sentido quando o lugar foi inaugurado e de fato tinha um quê de ilha exótica, como foi notado pela imprensa estrangeira. Hoje bate no vazio, além de chover no molhado.

O problema do lugar, ele diz, é que se parece com a Suíça, um “recorte suntuoso numa geografia de pobreza”. Coli compara a grande obra de Bernardo Paz a “um mundinho perfeito e isolado” e aos desvarios de “antigos ricaços mineiros”, como o contratador de diamantes João Fernandes “rasgando um mar artificial para que Chica da Silva navegasse”.

Ora, este “mundinho perfeito” recebe milhares de pessoas anualmente, inclusive milhares de escolares, que bem ou mal têm ali, além da informação cultural de primeira no universo da arte contemporânea, uma experiência estética e sensorial incomum no país, incluído no ingresso o contato delicioso com os jardins e a vegetação da Mata Atlântica que lá se preserva.

Quanto ao “recorte suntuoso numa geografia de pobreza” se poderia dizer o mesmo do MASP, do MAM, da Osesp e da Filarmônica de Minas Gerais. Não falta miséria à volta dessas instituições. O que Coli queria, ver macumba e rodas de samba em quintais de barracões de zinco? Congado e arte barroca em calçadas de capistranas?

O comentário tem a típica petulância preconceituosa da elite intelectual paulistana para quem Minas e o que sobra do Brasil jamais perderão certa essência caipira, incluindo o Rio de Janeiro. Se o Inhotim estivesse nos arredores da capital ou no interior de São Paulo, dificilmente o crítico teria tido a mesma impressão.

VINIL E STREAMING

O Valor de hoje também traz reportagem de Jotabê Medeiros que se vende como “ressurgimento da indústria musical”. O título claramente força a barra. Não há fatos que comprovem o que se anuncia. Por volta dos anos 1980, a indústria da música chegou a movimentar US$ 40 bilhões; hoje fatura menos da metade disso, US$ 15 bilhões.

No Brasil, o vinil parece ter voltado para ficar, com uma nova fábrica para ser aberta em São Paulo capaz de fabricar 30 mil discos por mês. Mas o mais promissor é o streaming, de serviços como Spotify e Dezzer, que desbanca o download e cai no gosto das pessoas, movimentando R$ 200 milhões por ano, com um milhão de assinantes no país.

O que vende hoje, diz Jotabê, é o sertanejo e também os gêneros religiosos, o arrocha (?) e o “funk mais pop, como Ludmilla e Anitta”. As letras duplas, me pergunto, são uma características das estrelas do Funqui?

POSSO CANTAROLAR

Escrevi acima é um luxo só e me lembrei, claro, de Ary Barroco. “…Mexe com as cadeiras mulata/ teu requebrado me maltrata…”. Esses versos já foram enquadrados em nossa “cultura do estupro”?

SAMBINHA

Por que estas duas se escondiam de mim? Ano passado descobri Rosemary Standley, componente do grupo franco-americano Moriarty e, assim, a jovem gaúcha Dom La Nela. Caí de amores por Sambinha e Duerme Negrito, do álbum Birds On A Wire, por sinal com uma bela versão dessa música de Leonard Cohen. Vejam as duas nos vídeos abaixo, em apresentação na Chapelle de la Trinité, em Lyon.

Se você gostar, me diga. Veja também Moriarty Isabella and I will do The Missing live 2/3 in Shakespeare Company, uma graça. Aproveite, em seguida, para dar uma bordejada na Shakespeare and Company em Paris e conhecer a belíssima história dessa livraria, se for o caso.

Duerme Negrito

 

Sambinha

O melhor programa de TV já feito

Os produtos culturais de altíssima qualidade raramente se tornam populares na internet. A série holandesa “O Belo e a Consolação” segue disponível no YouTube [esteve fora do ar, ano passado, por exigência dos produtores; por alguma razão, está aberta, novamente. Oxalá continue assim.] relativamente inédita, se a menina me entende. Os 25 vídeos deste programa de entrevistas, exibidos entre 2001 e 2002 pela  portuguesa SIC, depois reprisados em 2006, foram “subidos” no canal de Francisco Grave, de quem colho tais informações. “Como escreveu alguém num blog”, diz este altruísta, “a uma dada altura a SIC passou aquele que talvez tenha sido o melhor programa de televisão alguma vez feito”.

Originalmente, a série apresentada pelo jornalista, cineasta e escritor Wim Kayzer e produzida por Vera de Vries, é do canal público holandês VPRO, em 2000, nos explica F. Grave. Kayzer é autor de outra atração (como se diz hoje em dia) para TV do balacobaco chamada “Maravilhosa Obra do Acaso”, que conheci da versão em livro editada no Brasil pela Nova Fronteira (1995), hoje esgotada.

Creio que o título em holandês (“Van De Schoonheid en de Troost“) e inglês (“Of Beauty and Consolation”), vertido em Portugal para “O Belo e a Consolação” talvez nos quedasse melhor no Brasil como “A Consolação do Belo”. A legendagem em português em geral é boa. (Há uma versão em  mp3 no inglês original disponível aqui.)

Eis é a relação das entrevistas disponíveis no YouTube:

Richard Rorty, filósofo – Link
Simon Schama, historiador – Link
Martha Nussbaum, filósofa – Link
George Steiner, escritor e filósofo – Link
Roger Scruton, filósofo – Link
Stephen Jay Gould, zoólogo e paleontólogo – Link
Edward Witten, cientista e matemático – Link
Steven Weinberg, cientista – Link
Gary Lynch, neuropsicologista – Link
Leon Lederman, cientista experimental – Link
Vladimir Ashkenazy, pianista e maestro – Link
Catherine Bott, soprano – Link
Rudi Fuchs, director de museu – Link
Karel Appel, pintor – Link
John Coetzee, escritor – Link
Elizabeth Loftus, psicóloga – Link
Germaine Greer, escritora – Link
Wole Soyinka, escritor – Link
Yehudi Menuhin, violinista e maestro – Link
Dubravka Ugresic, escritora – Link
György Konrád, escritor – Link
Jane Goodall, escritora e etóloga – Link
Tatjana Tolstaja, escritora – Link
Rutger Kopland, poeta e psiquiatra – Link
Grand Finale (debate em Amsterdã entre alguns dos participantes)  – Link

Da produção deveriam constar 26 conversas, que variam entre 1h e 1h40 de duração. Os programas com o cientista Freeman Dyson, que aparece no último, e o maestro Richard Dufallo nunca vieram ao ar, conforme o bom Francisco, e disso, ele nos diz, não se sabe a razão. O derradeiro, 25º, intitulado “Gran Finale”, com duas horas e pico, apresenta o debate de encerramento entre alguns dos participantes. A discussão é precedida de recital de câmara e cantata da qual se extraiu a bela vinheta da série. A peça foi composta pelo filósofo Roger Scruton, um dos convidados.

Os encontros de Wim Kayzer com pintores, poetas, cientistas, músicos e filósofos são tão livres quanto poderia ser uma produção nesta mídia. A duração variável mostra isso. Tomadas de cenas nas cidades, nas suas praças, jardins, numa praia na África do Sul, um panorama de Chicago, nos EUA, e até num campo inglês em meio à caça à raposa, se alternam com a gravação das conversas em apartamentos, salões de hotéis, bastidores de orquestra.

Ao assistir à série, me senti instigado a pensar, a pesquisar, a ler mais e ouvir concertos e canções dos quais se falou. Os temas não se limitam às artes, mas se estendem por um leque ilimitado do conhecimento que abarca filosofia, história, ciência, matemática, psicologia e religião. Tomei notas e posso dizer que me entretive com gosto e proveito como há muito não fazia. Uma experiência assim, que explora essencialmente a inteligência, oferece o padrão mais elevado dos propalados benefícios da internet para a humanidade. Pena que até esta quadra do jardim de infância da rede tal aspiração pouco contou.

Entre as melhores entrevistas destaco os diálogos com George Steiner, Roger Scruton, Richard Rorty, Simon Schama, Edward Witten, Vladimir Ashkenazy e Stephen Jay Gould. Gould e Yehudi Menuhin faleceram pouco depois de terem gravado os programas. O entrevistador teve que se rebolar com a mudez de John Coetzee e enfrentar a metralhadora verbal da indizivelmente chata e ególatra Martha Nussbaum, com seu timbre de bambu rachado. Não deu para encarar a escritora Germaine Greer, francamente. Mas posso dizer que nos melhores momentos dos diálogos me vi regressar a um mundo de ideias elevadas, elegância, beleza, protegido do lixo cultural circundante, da banalidade e deste viver às cegas tão peculiar à nossa era de muito teclar e pouco pensar. Isso para mim se chama consolação.