Amém para a 3ª temporada de Hinterland e um rápido balanço da série

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Mathias (Richard Harrington), Mared Rhys (Mali Harris) e Brian Prosser (Aneirin Hughes), da série Hinterland, exibida no Brasil pela Netflix

 

A terceira temporada de Hinterland (Netflix) tem sabor de aurora, ainda que de um alvorecer trágico, a lembrar o que o ocorre no poema de Drummond Morte do Leiteiro.

Quem gosta dessa série crepuscular (o título em galês, Y Gwyll, tem a ver com ocaso), cuja atmosfera é comparada ao “noir” nórdico de produções como The Killing, A Ponte e Borgen, diz amém.

Não há sobressalto novelesco no final, sequer o que seria a única celebração de toda a trama. Mas justiça é feita e o desespero, para citar o poema de Tomas Tranströmer que encerra Wallander, rompe seu curso.

Nessa altura se pode considerar o que torna este seriado um entretenimento adulto entre o melhor que o gênero — hoje um tanto inflacionado — produziu.

1 — O hábil trabalho de câmara e montagem faz do espectador de Hinterland alguém íntimo da paisagem do oeste do País da Gales, na área rural de Aberystwyth, com emprego original do velho efeito do suspense cinematográfico.

1.1 — A cada sequência, por meio de “janelas” que se abrem, temos o privilégio de chegar um pouco antes e antecipar as sensações que aguardam os personagens no interior de casarões de pedra e celeiros centenários espalhados por vilarejos escarpados que dão em praias banhadas pelo mar cinzento de Gales.

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2 — Os episódios, com duração e ritmo de longa-metragem, trazem uma coleção verossímil de criaturas destruídas pela herança familiar ou que tiveram a inocência corrompida pelo mal. A direção é sempre segura e o elenco de primeira ordem.

3 — A total ausência de humor, a solidão e a carga de conflitos dos protagonistas são como um reflexo natural do ambiente e das condições de frio, umidade e escuridão onde atuam.

4 — O silêncio e o não dito teatral formam o elemento comum das cenas da investigação policial conduzida pelo inspetor Mathias (Richard Harrington) e a sub Mared Rhys (Mali Harris), ambos afeitos e bem talhados para seus papéis.

5 — A integridade de Mathias e Mared sustenta a moral da audiência. Se Mathias busca a redenção de um passado familiar infausto na metrópole, a mãe solteira Mared tenta apenas dar conta com firmeza do que a vida lhe deu.

6 — O superintendente local Brian Prosser (Aneirin Hughes) atrai nosso interesse na outra ponta da história criminosa de fundo que amarra as três temporadas e aqui se fecha com maestria.

 

 

 

1º episódio de “The Night Of” promete bem

 

HBO Divulgação

Rizwan Ahmed no papel de Nasir Khan em “The Night Of”, minissérie da HBO em oito episódios.

 

A HBO abriu para a freguesia (na internet e no NOW), como teaser, o primeiro de oito episódios do suspense policial The Night Of, que estreia no próximo domingo.

O JS foi pego pelo pé e fisgado.

Na abertura, um inusitado noturno de Nova York.

Um drone percorre o traçado retilíneo do trânsito na madrugada, como um satélite espião capta uma terra incógnita para sua audiência. Seguem-se fragmentos quer aludem à história, inteligentemente encadeados para despertar nossa curiosidade e testar nossa atenção.

O roteiro começa por apresentar o jovem Naz, um americano de ascendência paquistanesa, seu ambiente estudantil e familiar, e, eficientemente, também sua personalidade.

Já estamos a bordo quando o enredo começa a se desenrolar dentro da noite nova-iorquina de 24 de outubro de 2014. A atmosfera é tensa e sensual.

Luciana Coelho, na Folha de S.Paulo, informa:

A narrativa sombria concebida por Richard Price (o roteirista do ótimo “Irmãos de Sangue”, de 1995), Peter Moffat e Steven Zaillian (de “A Lista de Schindler” e “Gangues de Nova York”) acompanha a investigação do assassinato de uma garota em Nova York e os meandros do sistema penal e policial americano.

O jovem ator  Rizwan Ahmed, no papel do universitário Riz Ahmed; Bill Camp, como o detetive veterano Dennis Box, e John Turturro,  na pele do advogado Jack Stone são de primeira classe e imediatamente nos despertam empatia, no seguinte sentido:

“capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende etc.” (Houaiss).

O espectador é levado respeitosamente pela trama, como alguém capaz de observar e pensar. Como nos contos que inspiram os melhores roteiristas, sinais vão sendo plantados para estabelecer o enigma, e distinguir a série com alguma originalidade. A ver.

A montagem é ágil, mas não causa vertigem.

Oxalá a coisa não degringole em lugares-comuns intoleráveis, um perigo no gênero inflacionado de porcarias.

A promessa é excelente.

 

 

 

 

Louvação a “Downton Abbey”

downton abbey

A senhora Hughes e o senhor Carson devolvem os aplausos. Foto: Divulgação

“Downton Abbey” é o mais inteligente novelão nunca filmado.

“Downton Abbey” é um conto de fadas para adultos educados com noções de elegância, decência e hombridade.

E de romantismo, claro.

É por aí que a ficção enseja a perfeição.

O sucesso mundial da série mostra que nem tudo se derreteu na revolução cultural que Mario Vargas Llosa condena no panfleto “A Civilização do Espetáculo” (Objetiva).

A diversão rasteira, a banalidade da fofoca e a superestimação da internet, afinal, não anularam in totum um modo de vida orientado, diria Llosa, pelo apreço à liberdade, às ideias, aos valores, aos livros, à arte e à literatura.

Sem querer, “Downton Abbey” denuncia a miséria de um mundo que perdeu o senso de ironia e se rendeu à feiura e à ditadura da correção política.

Tal é o mundo fascinado pelo riso fácil (“kkkk”) e que se entende com a peculiar profundidade da linguagem dos sinais (emojis).

Nele, Lady Violet, a condessa de Grantham, e sua língua de cobra coral deve ser vista como alguma espécie alienígena. A conversação é uma arte morta.

Tipos como a personagem de Maggie Smith, o mordomo Charles Carson (Jim Carter), a governanta Elsie Hughes (Phyllis Logan), a herdeira Lady Mary Crawley (Michelle Dockery) e o valete Mr. Bates, vivido por Brendan Coyle, ou sua querida Anna, por Joanne Froggatt, serão lembrados por muito tempo.

Algumas cenas entre Carson e Hughes ou da velha condessa Crawley e Isobel (Penelope Wilton) podem integrar uma antologia do melhor já feito para a TV.

A série cativa a inteligência do público em cada pormenor, da carpintaria aos arranjos de época e aos figurinos, da confecção dos cenários à música, da direção de atores à edição de imagens.

Julian Fellowes, seu criador e roteirista, do pico dos seus 66 anos, não deu a mínima para os críticos que tacharam “Downton Abbey” de “direita”.

E pede licença poética aos que caçam e acham brechas no rigor histórico que move a trama, caso do historiador Simon Schama.

Vencedor de um Oscar pelo argumento de “Gosford Park” (2001), um dos belos filmes do legado de Robert Altman, Fellowes entende do riscado ao romantizar a aristocracia inglesa.

O próprio escritor é membro da Câmara dos Lordes e detém o título de barão de West Stafford.

Séries como “The Wire”, “Mad Men”, “Boardwalk Empire” e algumas outras, entre as quais a primeira temporada de “True Detective” (e, a propósito, as britânicas da BBC “Wallander” e “Hinterland”) ou a microssérie “Olive Kitteridge”, à qual dediquei um poema,  escritas e dirigidas com maestria, cultivam um tônus literário (em maior ou menor grau) e repelem a infantilização de Hollywood.

Titular dessa primeira liga da TV mundial, “Downton Abbey” é um descanso em meio há tanto furdunço imbecil, uma corrente de água limpa a roçar pedras miúdas na manhã invernal.

Durante cada episódio podemos esquecer a porcaria reinante na era dos realities shows de comida e dejeção.

Já é mais do que se poderia esperar de um produto televisivo com seis temporadas de extensão.