Cuspo o bagaço dos meus dias?

Jurupoca_59 — 19 a 25/2/2021 — Ano 2

Reprodução (detalhe) de página do poema A canção de amor de J. Alfred Prufrock, de T.S. Eliot, em versão HQ

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Escrevo a você, cara leitora, caro leitor, durante o Carnaval fantasmal, frio como um CTI.

TVs e jornais online, sem pautas novas, repetem à náusea entrevistas com epidemiologistas exaustos. E tome falta da vacina; tome folias clandestinas, “ousadas” por jovens fúfios (ordinários, reles, insignificantes, lembrança do Rosa); e  pior, tome melosidades de doer a goela sobre o silêncio das baterias e do frufrulhar das saias das mulatas na avenida.

O Corona agravou a “infodemia”, as exorbitâncias de informação, e recrudesceu o “solucionismo” tecnológico, expressão cunhada por Evgeny Morozov.

Os jornais online nos enchem, imperativos, de “como fica”, “saiba como”, “Por que isso e aquilo”; “Faça assim, assado”.

O público-alvo das folhas online é um idiota, incapaz de discernir o viés de um título caça-clique do mero jornalismo ruim, e ao tempo é esganado por fofocas sobre artistas (com e sem aspas) e diversão de terceira.

 Será assim mesmo, o desrespeitável público?

O lixo habitual da Netflix não ajuda a tratar o tédio. Começo a ver de novo o que vale a pena: Borderliner, Twin Peaks…

Twin Peaks. Quem viu a série de David Lynch (duas estrelinhas segundo os infantes navegantes da plataforma), de 2017, continuação lisérgica e kafkiana das duas temporadas de 25 anos atrás, sabe o que são a Black Lodge e a White Lodge: os mundos divididos entre os hipnóticos cortinados de veludo — vermelhos como os dos velhos cinema — a separar o bem do mal.

Há tempos me sinto, em espírito, em ideias, no Brasil e no mundo, um preso da Black Lodge.

Um artigo que escrevi sobre a obra de Lynch citava Slavoj Žižek, o filósofo esloveno popstar (e adora cinema) sobre o instante em que entramos no “buraco negro” da narrativa do diretor norte-americano e nos “desgarramos sem medo do tecido da realidade”.

Pois é disso que preciso, da inspiração de Lynch para me distanciar um pouco da realidade.

Quero olhar o desrespeitável público que clica em informações valiosas do tipo: “Vitão tatua bumbum de Luísa Sonza na coxa”.

Um amigo estudioso, lente da UFMG, pescou essa pérola de plástico num desses portais google-dependentes e me mandou como um achado entomológico, vale dizer, sociológico.

Respondi: — Claro, não faço a menor ideia de quem sejam, como sempre. Mas aí é que está o busílis.

Como é possível se desgarrar da “realidade” que ordena e anima praticamente a humanidade toda, e encarar a vida de outro jeito, sem recorrer à eutanásia?

Mas, se você chegou até aqui, deixa para lá.

Ou melhor, desgarrados da realidade, sim, vamos tentar, você e eu, ver tal “problemática” por outros ângulos, sem propor, à Dario Peito de Aço, nenhuma espécie de “solucionática”, nada além de nossas perguntas. Que tal?

Reprodução de uma página do poema A canção de amor de J. Alfred Prufrock, de T.S. Eliot, em versão HQ

O bagaço dos meus dias

O título desta edição é tomado de um verso de T.S Eliot (1888–1965): “Como então eu começaria a cuspir/ Todo o bagaço dos meus dias e caminhos/ E como iria atrever-me?”. Já chego ao poema.

Vou me atrever, e convido quem mais tope, a dividir os dilemas expostos por Eliot como se nossos fossem, da nossa época, de quem se incomoda por estar à margem, com receio de ser levado na enxurrada, de tomar na cara sopapos de objetos estúrdios, tangidos na torrente.

Vamos, eu e você, tentar distinguir os azuis quase roxos dos cinzas e dos amarelos de uma noite-em-vias. Não vale fotografar!

Sigamos, você e eu, a tocar na ferida do mundo, que é minha, mas que de mais gente, eu sei.

Vamos de A canção de amor de J. Alfred Prufrock, do Eliot, poema publicado pela primeira vez em 1915, sob influência, segundo experts, dos simbolistas franceses, Mallarmé, Rimbaud, mas sobretudo Corbière e Laforgue (Edmundo Wilson em O castelo de Axel).

Vamos com a soberba tradução de Ivan Junqueira (1934-2014).

O monólogo do narrador, filho ilustrado do modernismo, demarca em cada estrofe sua melancólica e neurótica (tem os “nervos em retalhos”) distância emocional do mundo, das banalidades que o distraem do que podia ser, viver, melhor, mas não tem certeza, ao lado da mulher a quem não ousa dizer o que deveria.

Será mister parar um pouco nas imagens, com calma, enquanto cai a noite no outono setentrional.

Não tem mais jeito.

Vamos nessa (o poema tem uma epígrafe Dante Alighieri, A divina comédia, Inferno, XXVII, que não vem ao caso aqui).

    Sigamos, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Se mistura às conchas das ostras:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão…
Oh, não perguntes: “Qual?”
Sigamos a cumprir nossa visita.


   No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.

Gostou igual desse (celebérrimo) céu a se estender como um paciente anestesiado sobre a mesa (When the evening is spread out against sky/ Like a patiente etherised upon a table)?

Sigamos, assim, a cumprir com nossa visita, e nossas vidas.

Bom, por mais que o poema pareça destinado a ti e a mim, hoje, é preciso mudar o necessário: ninguém mais fala em Michelangelo, mesmo na academia, creio, não seja para impor algo decisivo sobre a sexualidade, quem sabe o irrevelado gênero do, não por isso, gênio das artes.

Fala-se, hoje, muito, muito a sério, nos salões de silício ricamente erguidos nas nuvens, como bem sabemos, é do BBB.

O Prufrock jamais teria algo a expressar a um público capaz de gozar com esse show da vida.

Ruas que se alongam… como um tedioso argumento… E nos enredam em uma angustiante questão: “Qual?” Não me perguntes.

   A neblina amarela que roça na vidraça suas espáduas,
A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu.

E assim estamos, como sinto, agora, transpondo: um densa neblina poluída cobre a sarjeta cobre toda perspectiva e poder de olhar, distinguir e selecionar.

(Penso nas grandes dúvidas do nosso tempo: que nova pose ousar?, qual o fundo florido ideal?, que imagem ponho no status?, que emojis uso para dizer tudo que sinto?, que branding persona devo exibir às 9 da manhã?)

E na verdade tempo haverá
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;

Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.

   No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.

(Ivan Junqueira nota em “tempo para matar e criar” a provável primeira referência direta ao livro do Eclesiastes na obra de Eliot. E haverá no poema outras referências bíblicas, você vai notar, a Lázaro e, de forma mais velada, a João Batista, o que perdeu a cabeça por Salomé dançar para Herodes Antipas. E também a Shakespeare. Mas não vamos nos perder nisso.)

Retomo:

Tempo para moldar um rosto para enfrentar os rostos que encontrares, diz o poema.

Então eu me pergunto se levamos quem somos moldados nas redes a encontros ditos “presenciais”.

Aí: qual o peso do pensamento, o valor das ideias?

Aí: o que foi feito do livro, da arte e da literatura?

Perguntas de algum desgarrado, calva à vista.

Qual o lugar para uma centena de visões e revisões no meio de milhões de imagens, janelinhas, memes, música barata composta por 30 autores?

Podcasts, reportagens, artigos, debates, vídeos e chats do Telegram, às centenas de milhares, sobre o BBB, nossa grande efeméride do milênio, nossa contribuição cultural com a bunda de fora para o mundo (o Corona já foi lacrado?), contribuição sucedânea da música popular, de novas bossas, de alguma literatura, alguma arte até, respondem minhas perguntas?

Mas que isso, tais perguntas não respondidas, ao menos nos dê um pretexto para fugir catiquinho, nos desgarrar no prazer de ler um grande poema, dando rédeas à imaginação.

Adiante.

E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. “Ousarei” E “Ousarei?”
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: “Como andam ralos seus cabelos!”)
— Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o queixo,
Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete apruma
(Dirão eles: “Mas como estão finos seus braços e pernas!”)
— Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.

Puxa vida: Do I dare/ Disturb the universe?

Batidas no liquidificador dos novos meios de comunicação, diluídas na régia régua homeopática (é importante lembrar que a tal da “memória da água” é pura alquimia), noções ideológicas como direita e esquerda e disputas de raça e gênero se transformam em “narrativas”, essa chaga, essa peste pós-tudo.

O que, você e eu, podemos fazer, então, entrar no certame, na contradança das narrativas, para nos sentir vivos, vivaldinos?

Não sei dançar o gênero, digo logo.

Quem gestou e pariu o flagelo do separatismo ideológico e do egotismo terminal?

Pergunto ao Eliot, ao Prufrock, humildemente, separados por 110 anos da escritura do poema, num país tropical amaldiçoado por todos os francos.

   Pois já conheci a todos, a todos conheci
—Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café:
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
   Como então me atreveria?

E já conheci os olhos, a todos conheci
—Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se me confino a fórmulas, gingando sobre um alfinete,
Ou se me sinto alfinetado a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
   E como iria atrever-me?

Tic-tac, tic-tac. Também me sinto alfinetado, a colear contra a parede, e, ai de mim, terei medido minha vida em colherinhas de café (I have measured out my life with coffee spoons)?

E já conheci também os braços, a todos conheci
— Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, se quedam lânguidos
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou se enredam num xale.
   E ainda assim me atreveria?
   E como o iniciaria?

O sr. Prufrock cai um pouco em si, na real, diante dos braços alvos e desnudos (também te lembrou Machado? Sedutores braços de Sofia no Quincas Borba, ou do conto). Por certo o perfume de um vestido faz alguém baixar à terra, lançar âncoras. Observamos até a penugem castanha desses braços, com olhos mais atentos, atrevidos.

   Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas
E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, debruçados à janela?

Eu teria sido um par de dilaceradas garras
A esgueirar-me pelo fundo de mares silenciosos.

É preciso pensar numa longuíssima duração, décadas, para entender um pouco as feições do bebê da regressão humana.

Estou certo de que o poema, a palavra poema em si, tornou-se uma palavrão não dito, pensado, sim.

A aliteração veio a propósito.

Mais perguntas: alguma educação e boa grana compram o quê?

Um corpo sadio, malhado e pintado.

Futuro, mais amanhã para, em paz de mar e monte, dispor de comidinhas e quinquilharias hi-tech, novas, das tais que serão enfiadas nos corpo, como extensão.

Compra séries engraçadas para claques de berçário.

Compra viagens que rendem selfies valorosas, essa superestesia do ego, e autossatisfação nas redes sociais.

   E a tarde e o crepúsculo tão docemente adormecem!
Acariciados por longos dedos,
Entorpecidos. . . exangues. . . ou a fingir-se de enfermos,
Lá no fundo estirados, aqui, ao nosso lado.
Após o chá, os biscoitos, os sorvetes,
Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise?
Embora já tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada)
    servida numa travessa,
Não sou profeta — mas isso pouco importa;
Percebi quando titubeou minha grandeza,
E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso, tendo nas mãos meu sobretudo.
Enfim, tive medo.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo, não há como, entre parênteses, não lembrar do Poema em linha reta, mediante esse lacaio a reprimir o riso.)

E nenhuma existência será completa sem um celular de primeira linha à mão?

Até que se dispense o dispositivo, trocando-o por outro trem, é o tal e ditoso celular, se você me permite, a célula que guarda a engrenagem onde gira o tempo do bebê regredido — na corrida de todas as horas contra a marca da atualização de todos os aplicativos.

E valeria a pena, afinal,
Após as chávenas, a geleia, o chá,
Entre porcelanas e algumas palavras que disseste,
Teria valido a pena
Cortar o assunto com um sorriso,
Comprimir todo o universo numa bola
E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação,
Dizer: “Sou Lázaro, venho de entre os mortos,
Retorno para tudo vos contar, tudo vos contarei.”
  —Se alguém, ao colocar sob a cabeça um travesseiro,
     Dissesse: “Não é absolutamente isso o que quis dizer
     Não é nada disso, em absoluto.”

É preciso imaginar Lázaro sem celular, imaginar Lázaro sem Facebook, Lázaro banido das redes sociais, como um Donald qualquer, para figurar o que é bom pra tosse, o que é ser fiel ao Senhor.

Mas divago. Não é absolutamente isso o que quis dizer.

Mas, ninguém é de ferro, como diz Mario Vargas Llosa em A civilização do espetáculo, o entretenimento passageiro se tornou a aspiração suprema da vida humana, como, ele diz, “o direito de contemplar com cinismo e desdém tudo que aborrece, preocupa e lembra que a vida não é só diversão, também drama, dor, mistério e frustração.” [Livre tradução de La civilización del espetáculo, Alfaguara, 2012, pg. 59].

Multidões vão e vem a teclar, falando de quê?

    E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
— Tudo isso, e tanto mais ainda? —
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos . . .
Teria valido a pena,
Se alguém, ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale às pressas,
E ao voltar em direção à janela, dissesse:
“Não é absolutamente isso,
Não é isso o que quis dizer, em absoluto.”

Ao entrar mais uma vez nessas imagens, espero que meu convite não te aborreceu, caso tenha vindo comigo.  

J. Alfred Prufrock a se debater com tantas incertezas, revisões, idas e vindas, opresso, e imagens do lá-fora cá dentro.

Mas e o mundo? Irremediável.

A grande poesia, sim, pode dar um alento, um lenitivo a homens solitários que se postam num bar com seu livro de poemas, seu jornal (quem, ainda?), a contemplar a fumaça que se eleva de uma xícara de latte.

Mas sigamos com nossa visita, já está terminando, num gran finale.   

   Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo.
Sou um lorde assistente, o que tudo fará
Por ver surgir algum progresso, iniciar uma ou duas cenas,
Aconselhar o príncipe; enfim, um instrumento de fácil manuseio,
Respeitoso, contente de ser útil,
Político, prudente e meticuloso;
Cheio de máximas e aforismos, mas algo obtuso;
Às vezes, de fato, quase ridículo
Quase o Idiota, às vezes.

    Envelheci . . . envelheci . . .
Andarei com os fundilhos das calças amarrotados.

    Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um pêssego?
Vestirei brancas calças de flanela, e andarei pelas praias.
Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.

Não creio que um dia elas cantem para mim.

Vi-as cavalgando rumo ao largo,
A pentear as brancas crinas das ondas que refluem
Quando o vento rasga um claro-escuro nas águas.

Demoramo-nos nas câmaras do mar
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas
Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.

[Extraído de T.S. Eliot – Obra completa – Volume 1, Tradução Ivan Junqueira, Editora ARX, 2004.]

Desses últimos versos, o que dizer?, do fecho. Me soam como monumento da poesia mais elevada já composta por nossa espécie, no inglês: “We have lingered in the chambers or the sea/ By sea-girls wreathed with seaweed and brown/ Till human voices wake us, and we drown.”

Mas vozes humanas nos acordam, e afogamos, deveras.

Sim, é apenas o alento do poema, nada além disso.    

Multidões vão e vem a teclar, falando de quê? Não se sabe.

Mas seu barulho nos acorda.                                  

Reprodução (detalha) de uma página do poema A canção de amor de J. Alfred Prufrock, de T.S. Eliot, em versão HQ    

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


O ópio dos imbecis (1)

A religião, ópio do povo na famigerada frase de Karl Marx, e bem mais tarde, numa pirueta dialética, o próprio marxismo e a “ilusão de onipotência” da ideologia prepararam o cachimbo do ópio dos intelectuais, na genial definição de Raymond Aron. Até que engrolamos. Contrariando ilusões sobre o progresso humano em linha reta, “evoluímos” para o “ópio dos imbecis”, já traduzindo o título do livro de Rudy Reichstadt, cientista político que fundou e toma conta do Conspiracy Watch, Observatório de Teorias da Conspiração na França.

“O conspiracionismo está ligado às nossas paixões tristes”, lemos na apresentação de orelha”: “egocentrismo, misantropia, preguiça, covardia, medo, ciúme, ressentimento”. Reichstadt atribui a propensão a crer em tramas de pedófilos satanistas ou no terraplanismo a um “potente transtorno da personalidade narcísica”, como falou a Daniela Fernandes, do Valor. A “teoria do complô” também serve para encobrir o que não se consegue entender, ou, creio, simplesmente não se aceita, e para guerrear inimigos, vítimas da cólera, outra paixão triste, ou emoção negativa.


O ópio dos imbecis (2)

Reichstadt parte do óbvio ao lembrar que o conspiracionismo não nasceu ontem, mas andava mais pelo breu das tocas, antes de rejuvenescer com as tecnologias da informação e as redes sociais. Os jornais, onde as opiniões malucas e radicais acabavam enquadradas, se desidrataram como fonte dominante de informação. E no mundo paralelo, na contramão das rezas dos novos iluministas, a deseducação é geral. “O complô é uma força política, é um discurso ideológico que explica que não devemos confiar nos responsáveis políticos, na ciência ou na imprensa”, disse ele ao Valor.


O ópio dos imbecis (3)

Se boa parte dos médicos brasileiros prescritores, na batida do Caveirão.155mm, de óleo de cobra contra a covid, desprezam o método científico, o que dizer do vulgo diante da complexidade de um vírus, que não se pode matar como lombriga? E a coisa vai longe. Sua Excrescência Jumentíssima acredita que encontrar o remédio contra o
“bicho” é mais fácil e barato que desenvolver vacina. E os sábios de galinheiro caem matando. “É muito reconfortante, de uma certa maneira, pensar que não é um vírus microscópico que mata, mas sim um plano diabólico organizado por uma entidade chamada ‘Big Farma’ (as grandes indústrias farmacêuticas)”, propõe Reichstadt, “que tem um nome ou o rosto de Bill Gates, e que na realidade bastaria colocar essas pessoas na cadeia para resolver o problema da pandemia”.  


Que vergonha, doutores

“Minha mulher e eu pegamos covid-19. Nosso médico no Brasil prescreveu uma droga usada para tratar parasitas em gado”, diz o título da reportagem enviada pelo correspondente do Washington Post no Rio). A autonomia do médico deveria ter a ciência como tutora. Fora isso, o doutor derrapa no curandeirismo, ou ostenta bisonha ignorância sobre o método científico, se não entrega tudo ao diabo para seguir o Caveirão, que é como se juntar ao bando de um Lampião.


Bolsonavirus.22, a calamidade

Captura de tela de página do site da Indústria de Material Básico do Brasil (Imbel)

Augusto de Campos trata Caveirão.155 mm (para você que chega agora à Jurupoca: o nome Caveirão designa a natureza do incumbente, por favor, já o número, 155 mm, e aumentou!, o calibre de um bala de canhão) de Bolsonavírus-22. Mais de um terço dos brasileiros seguem infectados pelo, digamos, organismo, conforme o Datafolha. Reichstadt também disse ao Valor que estamos subestimando a (vamos de ão?) reeleição do Caveirão.155mm, ano que vem, caso a “histeria da população” continue sendo atiçada.


Titanic, o mais seguro

No El País, Javier Marías nos lembra dos passageiros do Titanic afundando, a gritar: “É alarme falso. Já está passando. Viajamos no navio mais seguro da história”. Vale para os políticos brasileiros, mas estes, aderentes, se explicam pelo oportunismo e cupidez. Quando à patuleia, Marías prevê que em 20 anos vamos perguntar como seres tão farsescos como Trump, Bolsonaro, Putin, Chaves, Maduro, Johnson, Duterte (citados pelo escritor) conseguiram seduzir e enganar as massas em seu tempo, da mesma forma como nos perguntamos sobre a paixão por Hitler e Mussolini em seu tempo. Tal é a velha e desgraçada incapacidade humana de reconhecer o perigo.


Cérebros vermiformes

O desgoverno homicida continua a exibir oficialmente suas pudendas, partes onde, logicamente, se localizam os cérebros vermiformes, meros apêndices, dessa gente, ora a reforçar o lobby das armas, quando beiramos 250 mil mortos por covid sem vacina, e a destruição da Amazônia, entregue oficialmente a  garimpeiros com dragas milionárias e sua “prata líquida”.


Patriotismo 2021

Meu coração, do tal país que éramos obrigados a nos ufanar ao som da dupla Dom & Ravel, está assim: verde-cadáver, amarelo-escarro, branco-cianeto, azul-vergonhoso, anil da anileira infestante e venosa.


Augusto por ZMW, bim bom

O poeta Campos, a quem Sampa, a cidade, não só a canção, deve muitíssimo, chega aos 90 anos, celebrado como deve ser. A Ilustríssima trouxe um ensaio primoroso de Zé Miguel Wisnik, primoroso em clareza, didatismo e bela escrita. ensina a ler e entender a obra de Augusto em seu valor e energia para intervir a cultura brasileira desde os anos 1950, como poeta e tradutor. Com luvas de lã, ZMW aponta a principal contestação da crítica acadêmica aos concretistas, por interposto autor, o argentino Gonzalo Aguiar, autor do citado Poesia concreta brasileira: as vanguardas na encruzilhada modernista” (Edusp, 2005). Aguiar refuta no concretismo a “teoria essencialista do progresso”, diz ZMW, “articulada em torno da absolutização do novo e da autonomia teleológica dada à forma, em meio às contingências explosivas que cercam a prática artística”. Bim bom. ZMW faz o elogio da, digo eu, caturrice de Augusto, num balanço da bossa concretista, desse jeito: “(…) sua atitude em relação à poesia se afina com a de João Gilberto para a canção, enquanto artista fiel ao grão incorruptível da sua arte, do qual não se afasta de jeito nenhum”. Vá lá. Mas ZMW me parece, talvez, se contradizer ao interpretar favoravelmente o poema Pós-tudo, de 1984, que deu o que falar, como alude, segundo ele por incompreensão ou má vontade dos comentadores. O ensaio ressalta o duplo sentido da palavra “mudo” no poema, atinente, a um tempo, à mudança, ao novo. Pero que pretensa mudança? O que mudou no concretismo, na “teleologia dada à forma”. Emudeceu a corrente? Não se renovou além de seus imitadores e diluidores? E aquele vetusto “fazer o novo” (Make it new, vindo de Ezra Pound)? Está caduquíssimo, ainda que vital num museu da poesia. Wisnik fala da “avaliação diminuidora” de quem vê em poemas de Augusto mero trocadilhos. Propõe “supertrocadilho ou “macrotrocadilho expandido”. Sei. O formalismo aplicado à poesia me lembra publicidade engajada, ou trocadilhismo supercult, tantas vezes.

O poema Pós-tudo, de Augusto de Campos, 1984. Reprodução da Folha

Mayrink

Elio Gaspari, Ruy Castro e agora Sérgio Augusto (Il miglior fabbro), de uma mesma geração, têm louvado Geraldo Mayrink (1942-2009) como um dos grandes textos do jornalismo brasileiro. A oportunidade ensejou o filho, o publicitário Gustavo Mayrink, construtor do site que traz ao público o acervo do jornalista, que passou pelo Jornal do Brasil, O Globo, Veja, Playboy etc. Mayrink, nascido em Juiz de Fora, começou no Binômio e praticou no Diário de Minas, como Fernando Gabeira, Fernando Morais, e, humildemente, este jurupoco, no seu primeiro emprego, e já nos estertores do jornal. Tive o prazer de almoçar com Mayrink em São Paulo, levado por um amigo comum, José Roberto Alencar, outro bamba da reportagem, numa manhã dominical friorenta e soalheira. Não que um texto de qualidade valha muito hoje, mas é delicioso deixar-se levar pelo correr da pena, digamos, pela fluidez, naturalidade e verve da escrita de Mayrink. Pego uma reportagem em destaque no site, sobre Chico Buarque, publicada na Veja em 1973. Tem mais informação concentrada que qualquer dos vários e ralos e baba-ovos perfis de Chico já editados. Vai um excerto:

Perguntas no ar

Os variados personagens interpretados nos últimos meses por Chico Buarque são, pela intensidade com que atingem o público, necessariamente contraditórios. Muitos de seus admiradores preferem ainda o Chico de outros tempos, menos elaborado, feliz com sua Joana debaixo do braço, carregadinha de amor. Para um reitor em Minas, suas palavras nada tinham de talentosas ou corajosas, classificando-as publicamente como a expressão de um bêbado e um imoral. Os censores, talvez excessivamente exasperados por alguns casos isolados, não lhe dão tréguas. Assim, cinco anos depois de ter escrito e vomitado a peça Roda viva, em que manifestava seu cansaço e irritação pelo fato de ser um ídolo do qual todos tudo esperam, ele está mais uma vez numa roda-viva de trabalho, receios e angústias. Como em 1968, é um ídolo – e, de novo, muitos esperam que ele seja e faça tudo.”



Foi show, antes de live

Maria Bethânia pode até reciclar Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, transpor essa música de combate à ditadura para a impostura selvagem do Caveirão, que dá certo. Bethânia tem o tamanho da MPB mais elevada. É uma espécie de sacerdotisa da canção popular. Não é preciso crer para acreditar no que vemos, na sua presença-domínio do palco, dos tempos e dos engates poéticos ao repertório. Ela fez um balanço equilibrado de sua longa carreira (recorda o show Opinião, quando substitui Nara, agradece diretores que a formaram nos palcos, e para o teatro, Fauzi Arap, Flávio Império…) e diz o que tem a dizer, agora, ao cantar Dois de junho, a música de Adriana Calcanhotto sobre o menino da empregada morto no Recife por omissão da patroa. Quem viu, ouviu, viveu uma deliciosa noite de sábado. Taí uma live que foi, na essência, um grande show, e não será a mesma coisa no VT.



Canções irmanadas

O samba-canção Estrada do Sol (Jobim, Dolores Duran), gravada por Silvia Telles em 1958, grande sucesso no mesmo ano com Agostinho dos Santos, num 78 RPM, e a valsa Chovendo na roseira (Jobim) são canções gêmeas em sua natureza. Nelas chove, o sol se abre e há um espécie de convocação comum à alegria de viver com quem se gosta. Chovendo na roseira foi composta como tema e um filme norte-americano justamente esquecido The Adventurers (Os Aventureiros, de 1970), depois gravada por Tom no LP Stone Flower (1970), com arranjos de Eumir Deodato. Em seguida ganharia a letra, na versão do álbum canônico Elis & Tom, de 1974, arranjada por César Camargo Mariano. É uma das mais perfeitas canções que pude escutar, e falo do mundo. A melodia claramente tem começo meio e fim, parece cantar e contar uma história por si própria, a quase no trazer aos olhos, como paisagem, as imagens que a letra adivinhou. A versão de Estrada do sol de que mais gosto é a de Nara Leão, do álbum duplo Dez anos depois, de 1971, produzido por Roberto Menescal e com o próprio, além de Luis Eça e Rogério Duprat nos arranjos. Nara canta acompanhada por um piano de leveza jobiniana, em que as notas caem como pingos de chuva, e um violão magistral. Tudo contido, exato, belo. Jobim conta que Dolores Duran (os dois são parceiros também em Se é por falta de adeus e Por causa de você) ouviu a melodia e não quis saber, mandou a letra no estalo, num papel qualquer, com um lápis de olho. O pesquisador Rodrigo Faour transcreve, a respeito, a fala de Tom no livro Dolores Duran — A noite e as canções de uma mulher fascinante (Record):

 “Dolores Duran, grande compositora, grande amiga, minha parceira em algumas músicas, entre elas Por causa de você. Fiz essa melodia e Vinicius começou a escrever uma letra e eu fui à Rádio Nacional à tarde, que naquele tempo era o centro da música, de tudo, no Edifício A Noite, na praça Mauá. Numa sala, tinha um piano, e entre esses colegas, a nossa Dolores. Tirou um lápis de sobrancelha da bolsa, escreveu uma letra e me disse ‘Outra é covardia’. E Vinicius, que gostava muito dela, aceitou. Ficou a letra dela. Uma das melhores letras que já fizeram pra mim”.

ESTRADA DO SOL – Antonio Carlos Jobim e Dolores Duran

É de manhã
Vem o sol
Mas os pingos da chuva
Que ontem caiu
Ainda estão a brilhar
Ainda estão a bailar
Ao vento alegre
Que nos traz esta canção

Quero que você
Me dê a mão
Vamos sair

Por aí
Sem pensar
No que foi que sonhei
Que sofri, que chorei
Pois a nossa manhã
Já me fez esquecer
Me dê a mão
Vamos sair pra ver o sol

CHOVENDO NA ROSEIRA – Antonio Carlos Jobim

Olha!
Está chovendo na roseira
Que só dá rosa mas não cheira
A frescura das gotas úmidas
Que é de Luísa, que é de Paulinho, que é de João
Que é de ninguém

Pétalas de rosa
Carregadas pelo vento
Um amor tão puro
Carregou meu pensamento

Olha!
Um tico-tico mora ao lado
E passeando no molhado
Adivinhou a primavera

Olha!
Que chuva boa prazenteira
Que vem molhar minha roseira
Chuva boa criadeira
Que molha a terra
Que enche o rio
Que limpa o céu
Que traz o azul

Olha!
O jasmineiro está florido
E o riachinho de água esperta
Se lança em vasto rio de águas calmas
Ah! Você é de ninguém


Marina, e vice-versa

Marina Lima, não é por nada, é das maiores sobreviventes de sua geração. Seu talento de compositora e intérprete, com fértil parceria com o irmão poeta e imortal Antonio Cícero, definiu o que ela criou e registrou. Notar isso é mole. Por exemplo: em 1984 ela gravou ou melhor, como dizem em espanhol, versionó Mesmo que seja eu, de Roberto e Erasmo Carlos (lançada por Erasmo no ano anterior), no LP Fullgás (Polygram/Philips, hoje Universal). É uma faixa inventiva, cheia de graça e vivacidade. A gravação de Erasmo pode ser mais potente (!) e dançante, mas a de Marina vibra, goza com a letra, com as ideias de gênero, claro, mas também com o preconcebido sobre a doçura feminina: note como a música desdobra-se em dois tempos, a suavidade quase de um canto-falado na primeira parte, bem feminil, e uma segunda, mais propriamente rock’n’roll, ou tecnopop. Ela fez bem em tirar a besteira  do “antes mal acompanhada do que só”. Marina intervém com uns cacos seus, na abertura, donde o delicioso xi…, antes da guitarra e da bateria e um sintetizador Roland Juno 60 entrarem com tudo. Uma abordagem mais restrita, acadêmica, diz o óbvio : “[…] Ferreira Filho cita a interpretação de Marina Lima da música Mesmo que seja eu de Erasmo Carlos, na qual o discurso romântico do eu-lírico é claramente masculino e direcionado a outra mulher. […] Quando interpretada na voz de Marina a música ganha também caráter de contestação do lugar comum dos gêneros nas músicas populares.” (de um blog da USP com post sobre a dissertação Nós Duas – Representações LGBT na canção brasileira, de Renato Ferreira). Contestação? A artista se diverte, não contestada nada, ou não pretende contestar nada, faz música, que incorpora para si. Muito além do lugar-comum LGBT-ipsilone. Há mais nos jogos, inclusive semânticos, entre um homem e mulher e vice-versa ao contrário do que um paper acadêmico e militantes de crachá podem sonhar.

MESMO QUE SEJA EU – Roberto e Erasmo Carlos

É, cada um de nós precisa
Precisa de um homem pra chamar de seu

Sei que você fez os seus castelos
E sonhou ser salva do dragão
Desilusão meu bem
Quando acordou, estava sem ninguém
Xi…
Xi… sem ninguém

Sozinha no silêncio do seu quarto
Procura a espada do seu salvador
E no sonho se desespera
Jamais vai poder livrar você da fera da solidão

Sei que você fez os seus castelos
E sonhou ser salva do dragão
Desilusão meu bem
Quando acordou, estava sem ninguém
Sei

Sozinha no silêncio do seu quarto
Procura a espada do seu salvador
E no sonho se desespera
Jamais vai poder livrar você da fera
Da solidão, oh

Com a força do meu canto
Esquento o seu quarto pra secar
Seu pranto
Aumenta o rádio
Me dê a mão

Aumenta o rádio
Me dê a mão
Você precisa é de um homem
Pra chamar de seu
Mesmo que esse homem

Seja eu

Um homem pra chamar de seu
Mesmo que seja eu
Um homem pra chamar de seu
Mesmo que seja eu
Um homem pra chamar de seu
Ah eu


Tá no filó

Me detenho só neste verso de Chico Buarque, do samba O Futebol, do disco de 1989 tão presente neste jornal:

[…]
Parábola do homem comum
Roçando o céu
Um
Senhor chapéu
[…]

Não é pintura de emplacar em pinacoteca, nega? Traçamos no ar, no intervalo do compasso, a curva, lugar geométrico, quase a calcular o espaço que a bola traça e desenha: parábola, que é também para-bola, bola que para no peito ou pé, e o futebol sendo a um tempo parábola (narrativa alegórica) do homem comum. Bem, no ápice da parábola, curva, a bola roça o céu, para delírio das gerais no circo do coliseu. Um senhor chapéu, não se discute. Essa música é um biscoito fino que a massa, incrivelmente, não pode comer. Pena. Aliás, a massa nunca esteve tão distante dos biscoitos finos como hoje, dado o lixão…


Harrison por Ná

While my guitar gently weeps, clássico de George Harrison, foi belamente tributado por Ná Ozzetti. Chegou anteontem ao Youtube.

O que os guias de viagem não revelam

Guias

Como escolher um guia de viagem e tirar o melhor proveito das melhores publicações do gênero, assim como de outras fontes indispensáveis ao turista interessado em cultura — livros, jornais, internet e o que estiver à mão.  É do que trata o texto abaixo, parte do inédito Livro de Viagem — Estratégias, dicas e vivências de um turista literário e cultural


O QUE OS GUIAS DE VIAGEM DO DR. STRABO NÃO REVELAM

Os guias de viagem do Dr. Strabo vendem como pão quente na Holanda. O Guia da América do Norte e o Guia do Oeste e do Norte da Espanha contam entre dezenas de títulos publicados em centenas de edições e tiragem espetacular. Dr. Strabo é o alter ego e meio de vida do professor de “línguas mortas” Herman Mussert, tradutor dedicado dos poetas latinos Virgílio e Horácio . Do ponto de vista intelectual, Mussert e Strabo são como Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Se você é apaixonado por Lisboa, como o autor destas linhas, há de ver interesse nesta luta de egos. Acompanhe uma confissão de Mussert:

“Toda a cidade é um adeus. A borda da Europa, a última costa do primeiro mundo, é lá que o continente corroído afunda no mar, se dissolve na bruma infinita que o oceano faz lembrar, hoje. Esta cidade não pertence ao presente; aqui é mais cedo porque é mais tarde. O agora banal ainda não chegou; Lisboa é relutante. Esta deve ser a palavra. Esta cidade protela o momento da partida; é aqui que a Europa diz adeus a si mesma. Canções letárgicas, suave decadência, grande beleza. Memória, adiamento da metamorfose. Nenhuma dessas coisas entraria no Guia de viagem do Dr. Strabo. Eu mando os tolos para as tavernas de fado, para sua dose de saudade processada. Slauerhoff e Pessoa eu guardo para mim, ainda que não os mencione; guio os pobres coitados ao Mouraria e ao Brasileira, para uma xícara de café, e para o resto eu preferiria manter a boca fechada. Não direi uma palavra sobre as mudanças de alma do poeta alcoólico, para a persona líquida, multiforme que ainda percorre as ruas de Lisboa em todo o seu brilho sombrio, que se insinuou invisivelmente em tabacarias, embarcadouros, muros, cafés escuros onde Slauerhoff e ele facilmente poderiam estar juntos, sem saber.”

Jan Jacob Slauerhoff (1898-1936) é poeta e romancista holandês desconhecido no Brasil. Fernando Pessoa, o enorme poeta dos heterônimos, a quem se voltará neste livro. A passagem acima foi extraída de A Seguinte História:, novela do escritor holandês Cees Nooteboom publicada em 1993 e vencedora do Prêmio Literário Europeu. Além de buscar a “alma” de Lisboa, o texto ilustra de modo original o limite dos guias de viagem. É preciso notar que Nooteboom, que também é poeta e viajante contumaz, escreveu, ele mesmo, diversos relatos de viagem pelo mundo, inclusive um sobre a Bahia, em 1968. Seu nome está sempre entre os favoritos ao Nobel.

Antes de melhor situar o alcance dos guias — como o turista não vive sem este bom serviço —, falemos um pouco deles e de seus complementos.

chanceleiros
Nos fundos da Casa Visconde de Chanceleiros (Sabrosa, Portugal). Foto de Antônio Siúves

Há guias muitos bons. Obrigado à feroz concorrência no mercado de viagens. Os melhores, entre Michelin, Lonely Planet, Time Out, Baedeker, Rough Guide, Frommer’s, Geoguia, Fodor’s e tutti quanti serão os mais atualizados. Neles, você achará, por óbvio, a informação que melhor quadre com seus planos, orçamento, sua curiosidade, suas preferências e seu humor.

A viagem cultural é cultivada pela aristocracia europeia há séculos. Do chamado Grand Tour da nobreza surgiu o embrião dos guias atuais, aí para o final dos 1600. Eram narrativas com observações sobre arte, arquitetura e antiguidades, geralmente dedicadas à Itália. Os guias como os conhecemos, com informação e avaliações estreladas, são da primeira metade dos 1800. (Goethe viaja à Itália apoiado no guia de viagem do historiador e crítico de arte Johann Jacob Volkmann, editado em Leipzig, em 1770).

Um dos mais velhuscos é o alemão Baedeker, que me deu o prazer apenas em 2013, em uma edição em inglês, quando me preparava para viajar à Andaluzia. Karl Baedeker publicou o primeiro livro para excursionistas com seu nome em 1830. O poeta norte-americano e Nobel de Literatura T.S. Eliot “homenageou” o guia no poema Burbank com um Baedeker: Bleistein com um charuto, escrito em Londres, no ano de 1919. Embora se refiram a um judeu, os versos parecem ironizar o gosto burguês pela viagem. É típico do antissemita e nariz- empinado Eliot. Eis duas das estrofes, na tradução de Ivan Junqueira:

Burbank cruzou uma pequena ponte
 E escolheu um hotel de custo baixo;
Volupina, a princesa, ali chegando,
 Uniu-se a ele, e Burbank veio abaixo.

(…)

De um modo ou de outro, assim era Bleistein:
 Cotovelos e joelhos com um vago
Arco alquebrado, as mãos espalmadas,
 Um vienense semita de Chicago.

Guardo dezenas de guias, que ainda vão me servir por muito tempo no que trazem de permanente e vai se repetindo a cada reedição. No Brasil, os estoques das livrarias em geral são limitados. Quanto antes você os encomendar, ou baixar em seu Kindle, melhor, já que alguns títulos terão de vir importados.

Ao planejar meu roteiro, gosto de cruzar avaliações e impressões distintas de três ou quatro guias. Embora a maior parte desses volumes seja escrita por equipes, há sempre um colaborador principal. Ele conhece mais intimamente a cidade ou uma parte da cidade retratada. Percorreu cada bairro, ruela e beco atrás de novidades para agradar você e o patrão.

O Lonely Planet, publicado no país pela Editora Globo, tem excelentes roteiros de Paris. Meus preferidos são os das galerias, mercados e a Volta literária no Quartier Latin. Em um par de horas, avistam-se os apartamentos onde James Joyce, Ernest Hemingway, Paul Verlaine, George Orwell e outros grandes autores do século 20 viveram e produziram suas obras.

O Time Out e o Rough Guide (editado pelo Publifolha) de Lisboa são enxutos e valiosos, como o Frommer’s de Buenos Aires. Da robusta e pesada edição Lonely Planet sobre a Itália, vou aos poucos e sem piedade extraindo os cadernos regionais, conforme minha excursão pela Bota.

Comparando as avaliações do Baedeker e o português Geoguia, ambos importados, pude fazer ótimas escolhas de hotéis na Andaluzia. Uma delas foi a Casa de los Azulejos, em Córdoba, com boas instalações, simpatia, um lindo pátio com jardins e fonte, a preço módico. Avaliações seguem critérios técnicos, mas sempre há um grau de subjetividade quando se conferem pontos, ou uma, duas ou três estrelas. Os juízos do guia alemão e do português são complementares na apreciação que cada leitor possa fazer deles.

Também gosto de mapas. Guardo-os aos montes em caixas e espalhados pela casa. Vão desde mapas da Europa inteira aos pequenos planos de cidades que nos dão nos escritórios de turismo. Como disse no capítulo anterior, prefiro conjugar aplicativos no celular com tecnologias tão boas quanto a roda, como é o livro. Não rejeito tablets e um dia quem sabe até venha “vestir” uns óculos da Google e o que mais se inventar. Mas não me furto ao prazer de usar a caneta colorida para demarcar caminhadas do hotel e endereços dos guias, ou traçar roteiros em um pedaço de mapa aberto na rua ou num café.

Não vejo muita graça no Google Street View. Muito raramente abro essa ferramenta para rever um lugar saudoso, exceto quando indispensável. A visão geral que um mapa nos oferece nos diz muito mais de onde estivemos e iremos. Às vezes lembram os filmes que assistimos e em alguma cena reencontramos uma praia, um bar ou esquina familiar.

Guias

Enquanto folho e refolho os guias, faço incursões na internet. Em geral, confiro, como fazem milhares de leitores, as indicações das reportagens 36 Hours, do The New York Times, que saem nos fins de semana. Tirei dessa abençoada série ótimas dicas sobre o que ver, onde comer e me hospedar. Divirjo de seus avaliadores por vezes, mas os bendigo com mais frequência. Com sorte, à véspera de seu embarque para Hanói ou Chicago, o jornal soltará uma matéria fresquinha sobre uma dessas cidades, ajuizando o que há de mais novo e excitante por lá. Atualizar as indicações dos guias é a melhor serventia de seções como essa.

O jornalão norte-americano mantém uma editoria de viagem (Travel) provavelmente maior que as congêneres dos grandes jornais brasileiros somadas. Além de 36 Hours, publicam-se com regularidade despachos de seus críticos de artes, comida e vinhos.  A leitura do wine writer Isaac Asimov me guiou com grande proveito na Rioja e no Triângulo de Ouro do Jerez; uma reportagem assinada por Gisela Williams, de novembro de 2007, me chamou atenção para a entrada da região do Douro no mapa mundi dos grandes vinhos. (Para fazer justiça: entre minhas fontes sobre terroir, fermentação malolática e otras cositas más figura sempre o crítico brasileiro Jorge Lucki e sua página semanal no Valor Econômico.)

Graças a outro experto do NYT, o colunista Frank Bruni —escritor e jornalista polivalente, antes mandachuva da crítica de restaurantes do jornal — consegui recompensar uma noite a mais em Lisboa, em 2012, depois de problemas com um voo para Roma [leia mais sobre o episódio nos Diários].

Também navego no El País e The Guardian. Estão entre meus jornais favoritos e praticam com grande originalidade o jornalismo cultural voltado à viagem. Um correspondente do jornal britânico me deixou à vontade nas ruas de Logronho, no norte da Espanha, com raríssimos turistas à volta, a conferir o circuito de pintxos (tapas na língua basca, ou euskera) e a concorrência entre os bares das calles Laurel e San Agustín. Valorizo, com cuidado, as indicações do blog El Viajero, do El País. Certa vez, sugeri ao jornalista responsável a correção de alguns erros em um post sobre gastronomia mineira — e fui completamente ignorado: dois anos depois, os erros continuavam na página.

Buscas no Google e nos sites dos jornais pedem método e calma. Se o primeiro nos leva antes ao interesse de seus anunciantes ou ao que — supõem seus algoritmos metidos — sejam os nossos, os últimos empacam com frequência. Procuro associar precisamente meu objeto, por exemplo: NYT+vinhos+Douro+Portugal.

Entro devagar em sites e blogs de viagem. Há muito jabá na área (jabá é jargão entre jornalistas para agrados e propinas regulares oferecidos por empresas e governos). Tal praga, que infelizmente ainda acomete o jornalismo de viagem praticado no Brasil, contamina muito da informação que se põe na rede. [No final do livro há uma relação de endereços confiáveis e outras referências.]

Guias

O Guia de Lisboa do Dr. Strabo, como vimos, não é o livro aberto da alma de Herman Mussert.  Ao comprar um guia, pagamos por informação objetiva e útil. O turista se vale dele para sondar o terreno, fazer escolhas, se planejar. O que faz cada um de nós perceber e experimentar a viagem deste ou daquele jeito — a despeito da beleza dos lugares — está além dele. O viajante conta com o repertório que tem para filtrar ideias e sensações. Cultura e arte são referências significantes, guias internos por assim dizer.

O leitor de Marcel Proust que for a Veneza será tentado a chegar até Pádua, distante apenas 15 minutos de trem da estação Mestre. Nem que seja para dar um pulo à Cappella degli Scrovegni, também chamada Arena, e paquerar os afrescos de Giotto. Além de repassar suas lições de historiada arte, há de se recordar do narrador de Em Busca do Tempo Perdido, nesta passagem do final de A Fugitiva —penúltimo dos sete livros que compõem o romance (a tradução é de Carlos Drummond de Andrade):

“(…) Na véspera de nossa partida, quisemos chegar até Pádua, onde se acham aqueles “vícios” e aquelas “virtudes” cujas reproduções me dera Swann; depois de atravessar, com o sol a pino, o jardim da Arena, entrei na capela dos Giotto, em que a abóbada inteira e os fundos da pintura a fresco são tão azuis que é como se também o dia radioso houvesse transposto o umbral em companhia do visitante, indo por um momento colocar na frescura da sombra o seu céu límpido, apenas um pouco mais escuro porque se desembaraçou dos raios dourados da luz, como nessas pausas breves que interrompem os dias mais claros, quando, sem que se visse qualquer nuvem, e tendo o sol virado sua pálpebra por um instante para mais longe, o azul, mas doce ainda, se obscurece. (…).”

O livrão de Proust pode não ser o melhor exemplo de literatura de viagem, embora a viagem seja um tema caro ao autor. Já os livros de Nooteboom e Sebald misturam memória, relato de viagem e história. Sebald, a propósito, também visita a capela Scrovegni. Está na página 69 de Vertigem outro tipo de perspectiva das pinturas que o turista que for a Pádua pode conferir. Em vez do encantamento que os afrescos do pintor florentino inspiram a Marcel (ou a um grande pintor do século passado: “Encontrei três reproduções de Giotto em Pádua, que envio a você. Giotto é para mim o ápice dos meus desejos” — de uma carta de Henri Matisse, já perto da morte, ao amigo Pierre Bonnard), o que admira o autor alemão, incomodado pelo calor dos infernos, é “o lamento silencioso erguido havia quase sete séculos pelos anjos que pairam sobre a infinita desventura”. Ele ainda observa que “em sua dor, os próprios anjos haviam franzido de tal modo as sobrancelhas que se poderia supô-los de olhos vendados”.

O narrador de A Seguinte História: viaja de Amsterdã a Lisboa e segue então de navio até o Rio Amazonas. Quem refizer o itinerário há de ter Mussert também como uma espécie de guia, apesar dele mesmo. Poderá então casar o gozo da viagem com o da leitura:

 “Em Manaus, atravessamos a linha que dividia o Amazonas e o rio Negro, a água preta correndo lado a lado com a marrom, no meio da corrente, dois tons desafiando a interação, a água negra da morte polida como ônix, a marrom bronzeada e forte, falando de distância, de selva.”

Em Austerlitz, Sebald deixa o leitor terrificado com a descrição da Centraal Station de Antuérpia e da arquitetura da Salle des pas perdus; espantado com as observações sobre a construção da nova Biblioteca Nacional de Paris; admirado com a descrição das paisagens do País de Gales; contemplativo, ao refazer um trajeto de trem na periferia de Londres ao chegar à Liverpool Station:

“Eu mirava a paisagem plana, quase sem árvores, os enormes campos marrons (…), as hortas, os arbustos desfolhados recobertos de clematites secas que crescem nos taludes (…) a feia visão dos fundos dos prédios enfileirados junto aos quais corre a ferrovia nos subúrbios da metrópole.”

Eu pensei nesta página ao chegar a Londres, quando o Eurostar começava a perder velocidade. A memória do texto me fez sentir, de certa maneira, mais ambientado ao desembarcar em St. Pancras num início de tarde chuvoso.

Bons livros de história começam onde a visão do guia de viagem já não enxerga. Danúbio, do germanista italiano Claudio Magris, acompanha o trajeto do rio europeu da nascente, na Alemanha, à foz, entre a Romênia e a Ucrânia. Em cada tópico ou parada, ele repassa as marcas da história e da cultura que vicejaram nas cidades às margens do rio de muitos nomes: Donau, Dunaj, Duna, Dunav, Dunărea, Dunay.

Com erudição, Magris reflete no diário de viagem sobre as marcas deixadas pelas obras de Kafka, Wittgenstein, Freud, Haydn, mas também pelos atos e omissões do carrasco nazista Adolf Eichmann e do Comandante em Auschwitz Rudolf Höss. Lemos o livro como roteiros para esquetes do “teatro do século” daquela civilização intricada. Em Linz, na Áustria, ao retratar o escritor Adalbert Stifter, ele, talvez sem se dar conta, vê a si próprio:

“De 1848 a 1868, ou seja, até sua morte, Stifter olhava das suas janelas para o Danúbio, a amada paisagem austríaca que lhe parecia conter séculos de história que se tornaram natureza, impérios e tradições absorvidos pela terra como folhas e árvores pulverizadas. (…).”

O gênero também está bem representado por A Lebre com Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal. O escritor descreve suas viagens por Londres, Paris, Viena e Tóquio para reconstituir os passos de sua família judia. O pretexto e contar a história dos proprietários de uma coleção de miniaturas japonesas. O turista que viajar a uma das três capitais encontrará grande valor na leitura dessa obra. [Leia mais sobre o livro em Peregrinações culturais.]

Arte e cinema ampliam do mesmo jeito o horizonte do turismo cultural. O observador atento de algumas paisagens de Renoir, Monet ou Pissarro terá uma visão dupla de certos recantos do Sena, ao se distrair em Paris. “É evidente que os olhos se formem em consonância com os objetos que divisaram desde a infância”, diz Goethe, ao refletir sobre a obra de Veronese e concluir que o artista “há de ver com maior clareza e limpidez do que outros homens”.

Ainda em Paris, ao se deixar levar pelas ruas do Marais e, à porta de uma velha escola, deparar a placa alusiva ao envio de seus ex-alunos aos campos nazistas, o cinéfilo talvez tente se apoiar em uma cena de Adeus, Meninos, de Louis Malle. Quando flanar por Roma, em cada esquina vai se ver assediado — e também reconfortado — pela memória de quilômetros de fotogramas rodados naquelas ruas e praças.

Perde-se muito ao zanzar por cidades europeias sem um domínio básico de arquitetura e história da arte. É dar mole à síndrome do viajante infeliz. Para o turista pronto haverá interesses dentro e fora dos museus. Saber identificar e apreciar os artifícios das construções — de ruínas etruscas ou grego-romanas ao arrojo dos prédios de Frank Gehry ou Norman Foster, com o gótico, o renascentista, o barroco e outros estilos a permear os séculos — ajuda a se pensar a ocupação do espaço urbano. Também é uma forma de abordar o ideário dos homens em cada época e compará-lo ao nosso.

O ciclo da viagem é mais rico para o turista que se deixa conduzi pela cultura. Para quem já rodou por livros, quadros e filmes, a vista do Grande Canal de Veneza será ainda mais excitante. Do camarote VIP franqueado por Shakespeares, Canalettos e Viscontis assistirá por um instante ao desfile dos sucessos que eternizaram a Serenissima Repubblica di Venezia. Ondas desbordantes de comércio, guerra,  tragédia, arte, e invenção vão inundar seus olhos.

O interesse cultural pode sim tornar um passeio por ruas de Paris ou Roma uma experiência estética em si. Presente e passado formam uma rede inextricável de vivos e mortos que se estende como por camadas geológicas.

Como diz o escritor espanhol Antonio Muñoz Molina, escrevendo sobre o Prêmio Nobel de Literatura de 2014, “a Paris de [Patrick] Modiano, como a Dublin de Joyce é uma cidade literal e a metáfora de um estado de espírito”.  O viajante que tenha lido estes e outros autores não se prenderá às aparências. “Os aparecidos e desaparecidos povoam a literatura, e a cidade por onde se movem está igualmente feita de lugares reais e visíveis e outros que já na o existem”, diz Muñoz Molina no mesmo artigo.

Visto dos desfiladeiros das villas de Ravello, no sul da Itália, o mar Tirreno ressoa viagens de Ulisses cantadas por Homero. Estar em Paris, Berlim, Viena, Zurique ou São Petersburgo é um convite e uma oportunidade a considerar a saga marxista narrada por Edmund Wilson em Rumo à Estação Finlândia.  Cenas de filmes de Fellini, Rossellini e Scola nos assombram em Roma tanto quanto a presença desconcertante do passado imperial em cada esquina.

A memória abre portas para o turista cultural. Os mapas do Google que nos guiam tornam-se rotas mais intrigantes se as sobrepomos às cartas de portulano que carregamos em nós.

O viajante que se deixa puxar pela memória vai entender melhor o mundo em que se mete — para o bem e para o mal. Pode ser pela glória e pela honra. Pode ser pela culpa ou nódoa que se enraízam na história de um país. A Paris ou a Berlim de hoje — para dizer isso de outra forma — não serão bem conhecidas se não forem ajuizadas na relação que ambas tiveram e têm com o flagelo do Nazismo. Quem percorrer a Espanha sem uma noção das diferenças culturais entre suas regiões autônomas ou a Itália — e não levar a em conta a indisposição entre sulistas e nortenhos — também estará exposto à síndrome do viajante infeliz.

Guias

Leia também: apresentação do livro e fragmentos dos Diários e partes dos Souvenirs: Poemas de Viagem e O Averno no Arno ou meu inferno em Florença.