“Hineni, Hineni / Estou pronto, Senhor”, canta Leonard Cohen

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Rama/Creative Commons

So Long, Marianne

Em julho deste ano Leonard Cohen soube por uma amiga íntima da ex-mulher que Marianne estava à beira da morte, com câncer. Ela não havia falado da doença quando os dois conversaram pela última vez. Cohen então lhe escreve uma carta que começa assim (traduzo livremente): “Bem, Marianne, eis o tempo em que nossos corpos de tão velhos começam a cair aos pedaços. Creio que vou segui-la muito em breve. Agora saiba que estou tão perto que você pode segurar minha mão se me estender a sua”. Marianne viveu o bastante para ouvir a leitura da carta. A história é contada na revista americana The New Yorker.

“Seu dom ou gênio está em conexão com a música das esferas”, diz Bob Dylan sobre o amigo. Dylan deu uma rara entrevista, extensa e clara sobre a música de Cohen para o perfil de David Remnick. “Quando as pessoas falam sobre Leonard, não mencionam suas melodias, que para mim são tão geniais quanto suas letras”, comenta o Nobel de Literatura. “Mesmo as linhas de contraponto dão um caráter celestial e de elevação melódica a cada uma de suas canções. Até onde eu sei, ninguém fez nada parecido na música moderna. Inclusive uma de suas canções mais simples, como The Law, estruturada em dois acordes fundamentais, tem linhas de contraponto essenciais (…)”.

Cohen tem 82 anos e acaba de lançar um novo álbum, You Want It Darker. Tudo faz crer que o grande compositor canadense se despede. “Hineni, Hineni [aqui estou, em hebraico]/ Estou pronto, Senhor”, diz a canção-título.

Cohen merece um Nobel de Literatura.

Cohen tem razão sobre o que disse sobre Dylan na entrevista concedida ao El País. Sua obra é maior que o Nobel: “É como pôr uma medalha no Everest”. Não é que não mereça o prêmio. A academia sueca faz política, ignora a literatura e se apequena diante de uma estrela.



Um Nobel para João Gilberto

João mudou o mundo com seu jeito de cantar. Se não compôs muita nem grande poesia, além de Bim Bom, recria tudo que canta com seu violão revolucionário. A academia sueca premiou uma jornalista, um compositor, por que não reconhecer um inventor como João?



You Want It Darker

Leonard Cohen

If you are the dealer, I’m out of the game
If you are the healer, it means I’m broken and lame
If thine is the glory then mine must be the shame
You want it darker
We kill the flame

Magnified, sanctified, be thy holy name
Vilified, crucified, in the human frame
A million candles burning for the help that never came
You want it darker

Hineni, hineni
I’m ready, my lord

There’s a lover in the story
But the story’s still the same
There’s a lullaby for suffering
And a paradox to blame

But it’s written in the scriptures
And it’s not some idle claim
You want it darker
We kill the flame

They’re lining up the prisoners
And the guards are taking aim
I struggled with some demons
They were middle class and tame
I didn’t know I had permission to murder and to maim
You want…


Publicação atualizada com a foto acima e a letra de You Want It Darker em 10/03/2017. A matéria referida de David Remnick pode ser lida em português na revista Piauí deste mês. Assinantes encontram aqui.

Wim Wenders e aprendendo

O Sal da Terra leva alguém a reconsiderar
a obra de Sebastião Salgado de um jeito ou de outro

Juliano Ribeiro Salgado, Sebastião Salgado e Wim Wenders Divulgação

Juliano Ribeiro Salgado, Sebastião Salgado e Wim Wenders. Foto: Divulgação

O título desta nota não é meu e já lhe dou crédito, mas digo que também tenho aprendido alguma coisa com o cineasta alemão. E quem não tem?

Quem não se enriqueceu com a música e a cultura de Cuba revividas em Buena Vista Social Club, de 1999?

Qual o cinéfilo não preza algo da extensa filmografia do diretor de O Amigo Americano?

Ontem, com mais de dois anos de atraso, vi O Sal da Terra, documentário sobre Sebastião Salgado co-dirigido por Wim Wenders e o filho do fotógrafo, Juliano Ribeiro Salgado, lançado em março de 2014.

Devo a esse filme uma visão mais rica de Salgado e sua obra.

É que, por preguiça e ignorância, releguei seu trabalho monumental a um plano secundário e o critiquei de maneira um tanto apressada e vã, ou, dizendo de outra forma, para atenuar um pouco esta autocrítica, com mais intuição que observação e leitura.

Não é que tenha me tornado seu fã, literalmente da noite para o dia. Devagar.

Wenders e Juliano Ribeiro fizeram por assim dizer uma hagiografia de Salgado. Tentaram transformá-lo num herói do nosso tempo, um artista e fotojornalista que realizou o prodígio de abrir os olhos do mundo para o êxodo humano, o genocídio na África, o trabalho duro em escala planetária ou as maravilhas que restam na natureza ameaçada pela catástrofe, alguém que, rico e famoso, dedicou-se a regenerar as terras desmatadas de sua família e transformou essa iniciativa numa causa social.

Em O Sal da Terra não cabem análises críticas à estética fotográfica ou à trajetória do militante de esquerda da Ação Popular que, fiel às suas convicções ideológicas, se tornou uma celebridade milionária com residência em Paris. O espectador interessado ou curioso sobre técnica fotográfica também fica a ver navios.

Mas o documentário, com fluidez e beleza, consegue nos dar um panorama razoável da carreira, um perfil e um retrato familiar de Salgado, ainda que, insisto, sempre com grande benevolência. As cenas sobre as realizações do Instituto Terra, em Minas Gerais, são especialmente comoventes.

UM ENSAIO DO BALACOBACO

Graças ao filme, procurei me aprofundar um pouco no assunto.

Li partes de uma reportagem de Dorrit Harazim sobre o trabalho de Salgado, incluída em seu livro que chega às bancas, O Instante Certo (Companhia das Letras), e um ensaio do balacobaco: Sebastião Salgado, um homem de contradições, de Francisco Quinteiro Pires, publicado na Zum #8, revista de fotografia do IMS, em abril do ano passado e disponível na internet.

Harazim preenche os vazios do documentário sobre os aspectos técnicos do trabalho do fotógrafo, com minúcias que tratam de câmaras, filmes, logística, métodos e habilidades de Salgado para se aproximar de quem fotografa, além de trazer um desfile de opiniões e depoimentos sobre a obra do autor.

Quinteiro Pires explora a outra metade dos vazios apontados em O Sal da Terra. Seu ensaio faz um levantamento extenso e cuidadoso da crítica à obra e ao engajamento artístico, jornalístico e ideológico de Sebastião Salgado, seja a de autores que a enaltecem, seja a dos que a procuram desconstruir.

Sebastião Salgado Divulgação

Sebastião Salgado diante de uma das edições de “Gênesis”. Foto: Divulgação

Não vou me deter aqui na visão favorável, muito bem representada, à qual recomendo que se conheça no ensaio da Zum e é igualmente importante a quem se interesse por fotografia e e pelo fotógrafo. De resto, essa é a perspectiva dominante dentro e fora do Brasil.

REVERÊNCIA E COMPOSIÇÃO TEATRAL

Prendo-me ao olhar desfavorável porque suas alegações me parecem mais pertinentes e em melhor sintonia com o que eu mesmo sinto e penso, enquanto revejo o livro Êxodos para escrever esta nota.

O ensaio de Quinteiro Pires recorre, por exemplo, à jornalista Susie Linfield, que considera Salgado “muitas vezes reverente em relação ao que ele fotografa”:

“Suas imagens agradavelmente em preto e branco são compostas com muita minúcia, são dramaticamente teatrais e apresentam um uso da luz semelhante ao da pintura”.

E ainda, citando Linfield e seu livro The Cruel Radiance: Photography and Political Violence, de 2010, em referência à doutrina soviética para as artes contraposta às expressões “burguesas” do modernismo:

“É verdade que as fotografias de Salgado podem sugerir um tipo de romantismo nostálgico que relembra o realismo socialista.”

Em seguida, o texto repassa vários autores, entre eles Susan Sontag e Martha Rosler, os quais, logo que Salgado ganhou fama, nos anos 1980, classificaram sua abordagem como a de um “esteta”, de “alguém preocupado acima de tudo com os elementos harmoniosos e belos da fotografia” e a “estetização do sofrimento”.

A Zum também compila a sarrafada com o título Boas Intenções dada por Ingrid Sischy na revista The New Yorker, em 1991. Para a autora, o fotógrafo brasileiro era um obcecado pela “composição de suas fotografias: interessava-lhe, sobretudo, achar ‘a graça’ e ‘a beleza’ nas ‘formas distorcidas de seus retratados agoniados’”:

Sischy preferiria o ponto de vista de Walker Evans (1903-75), conhecido por seu trabalho sobre a Grande Depressão, feito para a Farm Security Administration (órgão do governo norte-americano) (…). Ao contrário de Salgado, Evans não seria nem didático nem sentimental ao fotografar pessoas desfavorecidas, que na obra do brasileiro seriam “cuidadosamente compostas à semelhança de naturezas-mortas”. “E o embelezamento da tragédia resulta em imagens que, ao fim e ao cabo, reforçam nossa passividade em relação à experiência que elas revelam”, escreveu Sischy. “A estetização da tragédia é o caminho mais rápido para anestesiar os sentimentos daqueles que a testemunham. A beleza é um chamado para a admiração, não para a ação.” Sischy reclamou do culto a Salgado, um fotojornalista a cujo trabalho se atribuiria um poder transformador sobre noções classistas, raciais e étnicas.

As contradições de Salgado como militante de esquerda que nunca abandonou suas convicções e a desenvoltura com que trabalhou para grandes empresas, incluindo Silk Cut (cigarros), Le Creuset (panelas), Volvo (carros), Illy (café) e a brasileira Vale, gigante da mineração, que patrocina seu livro Genesis, no qual denuncia o aquecimento global, e que também apoia seu projeto de reflorestamento da Mata Atlântica.

Na campanha para a Illy, iniciada em 2002, Salgado visitou oito países (…) para fotografar os cafeicultores e a produção de café. “Em vez de se apresentar como uma promoção do café da Illy, o site da campanha declara ser o resultado de uma homenagem conjunta da Illy e de Salgado aos cultivadores de café”, escreve Nair [Parvati,] em A Different Light. [A Different Light: The Photography of Sebastião Salgado (2012)].

“Salgado usa a fotografia para promover a sua visão de mundo, que é planetária e panorâmica. E o resultado é o seguinte: o maior crítico dos impasses globais gera lucro”, resume essa autora.

Feitas as críticas, insisto que devem ser contrapostas ao que dizem os críticos que defendem as escolhas do fotógrafo. Além disso, é preciso reconhecer que a obra de Sebastião Salgado tornou-se uma referência planetária e, em muitos sentidos, nos é essencial para compreendermos as transformações do mundo nas últimas décadas.

Como diz  um leitor da Zum na área de comentários do site, “o trabalho dele é mais um ganho para a humanidade, e não uma perda”.

Quanto ao trocadilho esperto do título, devo-lhe ao jornalista, hoje executivo da Companhia das Letras Matinas Suzuki Jr., em um texto seu na Folha de S.Paulo, quando era editor da Ilustrada, creio que ainda no final dos anos 1980, e possivelmente falando de Paris, Texas, longa-metragem de Wim Wenders rodado nos Estados Unidos.

Augusto Massi+Pedro Nava-Piauí

franquilim
Franquilim da Silva, primo

Ressurrecto, o engenheiro agrônomo Franquilim da Silva, primo, manda lembrança + recado.

— A revista Piauí não aspira mais a ser a The New Yorker brasileira, portanto, nacional-carioca. A aspiração original é derrocada pela condição nacional-carioca. Não ter um padrão a sinalar-lhe é mais ruim que bom. Em Ipanema se publica boa leitura, ainda, sobretudo quando vertem a The New Yorker. E a repórter Daniela Pinheiro poderia trabalhar na revista americana. E os poemas de Augusto Massi, Piauí # 107, estão acima do nacional-carioquismo associativista da Piauí — e acima também de um certo Estats Units d’Amèrica que a The New Yorker não desborda —, como este:

RELÓGIO DA GLÓRIA

Quando o galo das trevas
disparou contra as têmporas da noite
maio soletrou suas primeiras sílabas de pólvora.

Ao lado do pé de fícus,
sob o relógio da Glória,
a morte cravou suas esporas.
O mundo bateu em retirada.
Pedro Nava foi embora.

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