Ju #41

Belo. 2 a 8/10/2020. Nº 41. Ano 2

Quando ao meio-dia se está um pouco cansado, isso faz parte do curso natural e feliz do dia. “Para estes senhores, aqui é sempre meio-dia”, disse K. para si mesmo.

Essa balbúrdia de vozes nos quartos tinha algo de extremamente alegre. Soava ora como os gritos de júbilo de crianças que se preparam para uma excursão, ora como o alvorecer num galinheiro, como a euforia de estar em plena harmonia com o dia que raiava, em alguma parte um senhor até imitou o canto de um galo.
Franz Kafka, trechos de O castelo, tradução Modesto Carone, Companhia das Letras.

“Alguns livros funcionam como uma chave para as salas desconhecidas do nosso próprio castelo”.
Anotação de Kafka citada no posfácio de Modesto Carone.

Opa! Vamos apear?  

A leitura de Kafka é intrigante de cabo a rabo. Obscuras  dobras do mundo que mal intuímos parecem receber um pouco da luz solar, ainda que as cenas noturnas de seus romances, (mal) iluminadas por velas, lampiões a querosene e débeis luzes elétricas, sejam, tantas vezes, as mais reveladoras, ou mais aparentemente reveladoras. Não é por nada ele é chamado de “o poeta de Praga” por seu tradutor.

Que personagem fascinante é este escritor, morto a um mês de completar 41 anos. Como sua obra é universal. E quantos ensaios, contos, relatos biográficos e comentários de toda sorte esse fascínio produziu?, para não falar dos diagnósticos psiquiátricos e das tentativas filosóficas e psicanalíticas de decifrar seu universo. Modesto Carone aponta a fortuna crítica do ficcionista no longínquo 1980, quando ultrapassava os dez mil títulos, “entre livros e artigos de porte”. O que permanece irredutível é a relação entre o leitor e a obra.

Tenho me valido dela, da obra kafkiana, nesses dias, para me remediar, ou melhor, refugiar da babel, da permanente orgia da frivolidade (sei das implicações e do rechaço que esta minha expressão pode sofrer, e não me sinto nada desconfortável por saber disso) e da destruição da dignidade do pensamento, no dizer de Hannah Arendt, apesar de a primavera ter entrado em inumano modo micro-ondas, o que pode derreter o gelo e a neve dos píncaros kafkianos, além de nossos miolos.

A ficção de Kafka pode nos ajudar a compreender e aceitar a realidade, mas ela nada tem de anestésica. Não nos livra do choque contra a estupidez, a indiferença ou o poder degenerado. Faz bem o contrário disso.

Vivemos a ilusão de que entendemos tudo, e de que tudo está ao alcance do nosso saber, nada mais temos a aprender, inclusive e sobretudo para educar os sentidos e, sim, valorar a beleza.

Atomizados ou tribalizados, deixamos nos encobrir pela névoa do presente e pela capa da superficialidade. O autor de A metamorfose, também por isso, nos vale por uma pedagogia literária e humanística.

Sinto que a maré do Corona, com seu, muito por baixo, um milhão de mortos empilhados, e todo o repertório da distopia em pauta, da emergência climática à derrota da razão, nada disso vai quebrar o verdadeiro isolamento social em que nos metemos.

Contra todas as evidência e apesar dos pesares, nunca fomos tão confiantes, sob as bênçãos da ciência e da “destruição criativa” — expressão do economista Joseph Schumpeter derivada daquele “tudo que é sólido desmancha no ar”, quase-slogan do Manifesto comunista) — do Vale do Silício, que é verdadeiramente destrutiva e criativa apenas segundo suas próprias finalidades.

Mas vai que tenha sido sempre assim, que sejamos os mesmos conforme alguma essência, apenas a história muda, como mudam as condições de sobrevivência. Como indivíduos, de um jeito ou de outro, sempre vai nos assombrar algum processo, a despeito de nossa pretensa inocência, a ambição de acessar algum castelo impenetrável (outro mundo, outra vida, melhor que a que temos?), e algum medo de acordar, depois de sonhos intranquilos, metamorfoseados em terríveis insetos.

Franz Kafka, 1906. Foto: domínio público

Encobrir os engasgos
É preciso “rebuçar [esconder] as rebordosas com um pouco de pândega”, escreveu Manoel Lobato. A frase salta de uma página do livro que reabro, seu Cartas na mesa – memórias (Imprensa Oficial, 2002), com autógrafo gentilíssimo e galhofeiro do autor, em linda caligrafia. Lobato se foi em julho, aos 94 anos, pelas graças do pândego Corona. Mas a frase lobatina me recorda Os Lusíadas, via Pedro Nava, sobre os navegantes exangues, alquebrados, que enfim podiam refocilar [revigorar, restaurar as forças] a lassa [exaurida, esgotada] humanidade nos portos. Os prostíbulos (fuck clubs em português corrente) estavam lá para acolher e oferecer aos nossos descobridores esse antigo e indispensável serviço humanitário.

O autógrafo galhofeiro do Manoel Lobato

Nunca mais
O corrosivo Zachariah Webb, editor da revista norte-americana The Baffler, semanalmente traz deliciosas novidades, que despacha da “linha de frente da aborrecida distopia”. Sobre a revelação que os corvos possuem alta inteligência e até algo assemelhado a uma autoconsciência, ele comenta: “Bem-vindo, corvídeos, ao inferno”. Mas, claro, Edgar Allan Poe precede, e muito, a ornitologia: “Atônito fiquei por um momento/ Ao compreender que o Corvo compreendia […] Se sois humanos, ó triste solitário!/ Dizei-me em vosso atroz vocabulário, / A verdade de tudo que grasnais!//  Mas Ele, altivo e sacudindo as plumas,/ Olha das noite as relegadas brumas/ E responde impassível: nunca mais.” [Tradução de Benedito Lopes em O corvo e suas traduções, organização Ivo Barroso, Lacerda Editores, 1988.]

A ecologia musical
CDs, que são feitos de policarbonatos (polímeros termoplásticos) fazem menos mal ao planeta que os discos de vinil (hidrocarbonetos). Mas ambos levam um banho em toxicidade do streaming e do download, que a muitos podem parecer uma tecnologia moderna e sustentável. ♪ Ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são… ♪ Em 2016, a nova indústria da música produziu 194 mil toneladas de gases de efeito estufa, cerca de 40 milhões a mais que todas as emissões somadas dos meios de difusão existentes em 2000. Os dados estão no livro Decomposed: The Political Ecology of Music (decomposto: a ecologia política da música), de Kyle Devine, resenhado por Alex Ross na revista The New York. E a emissão de gases é apenas o começo da história. A produção de componentes para smartphones e a mineração do cobalto, usado em baterias, são associadas à exploração de trabalho escravo, infantil e à opressão de minorias étnicas. Investidores seguem a injetar dinheiro no Spotify, apesar dos contínuos prejuízos da gigante, interessados no potencial dos dados gerados por seus usuários, que são monitorados a cada toque. A música, hoje, é outra plataforma da chamada por vozes dissonantes de “vigilância em massa”, mais um tentáculo do Big Data.

Dígitos da música digital
A grande cantora brasileira Luciana Souza, que vive nos EUA, revelou recentemente ao jornalista e crítico Carlos Calado que pela média mensal de 50 mil “streams” (ou a audição de uma música por mais de 30 segundos), obtida pelos seus discos no Spotify, ela faturava 38 dólares, ou uma garrafa de vinho. Alex Ross cita Daniel Ed, CEO do Spotify, para quem o músico de hoje, para ganhar a vida, precisa do contínuo e crescente engajamento dos fãs. A atividade criativa no violão ou no piano se mistura à labuta publicitária no Instagram. Qualquer novo Tom Jobim não será nada sem os talentos acessórios de Anittas e Ludmillas para a autopromoção. Não por acaso, os hits da música pop já são bolados por inteligência artificial. Vejo grandes músicos, de longas e respeitadas carreiras, com míseras e constrangedoras audiência no YouTube e Spotify. Como jurupoco autoexilado das redes — Helahoho! helahoho! — sou plenamente solidário com essa turma. Minha expedita lista A rádio Siutônio apresenta: 1.000 canções brasileiras, que por sinal anda por 1.024 músicas e já me toma uns cinco anos de labuta e aprimoramento, tem 16 seguidores! Fiz as contas e conclui que em mais uns 350 anos atingirei o benchmark de um assinante por canção, ou estarei perto disso. Aí, sim, mamãe, farei um bruto sucesso em Quixeramobim.

A estreia de Pátria
O primeiro capítulo de Pátria, seriado em oito episódios lançado no último domingo pela HBO, me fez pensar nos limites da fidelidade de um roteiro adaptado. Comentei o ótimo e extenso romance de Fernando Aramburu na Jurupoca #8, transposto por Aitor Gabilondo para o teledrama. Me senti em casa, demasiadamente em casa, creio. As personagens das mães protagonistas, Bittori (Elena Irureta) e Miren (Ane Gabarain) são bem fidedignas. Fidedigna também é a alternância temporal entre o presente — quando o ETA anunciava um adeus às armas — e os recorrentes recortes do passado, janelas abertas para as sequelas da violência e da desagregação sofridas por duas famílias amigas separadas e marcadas pelo terror, quando se veem em lados opostos. A chuva constante também está lá, como os dias cinzentos, como o pequeno mundo fechado da província vizinha a San Sebastián. E lá está o sangue de Txato, derramado no asfalto por seu assassino e lavado na enxurrada. Mas toda essa fidelidade esbarra no mais difícil, primeiro no ritmo — ao acelerar para encurtar, o que tira profundidade, perspectiva; depois em atuações muito contidas, o que tira brilho e emoção — e tem a ver com uma direção tímida ou pouco ousada; e, para o leitor do livro, por isso mais exigente, esbarra ainda na luz, que não é, sinto muito, suficientemente filtrada nas gradação do cinza-escuro, o que fere a imaginação do espectador, e devemos cobrar isso ao fotógrafo.


Com Chico Buarque em Nina, minha canção favorita de seu álbum de 2011 pela Biscoito Fino, embora Sinhá, em parceria com João Bosco, não me encante menos nesse CD. Nina é uma valsa de lírica essencialmente buarquiana, na delicadeza e na imaginação da figura feminina. Aqui, ele decanta melancolicamente uma jovem de Moscou cuja casa pode bem ser vista em detalhes na tela (pelo Google Street View?).

A letra, que pode não ser poesia, mas é quase-poesia, certamente literatura, quem sabe outro gênero, com sugeriram poetas e letristas espanhóis reunidos pelo Babelia do El País. Só os muito empedernidos fazem questão de não notar que Chico jamais foi abandonado pelas musas, como compositor, o que fica claro, claríssimo, diante de seu verso sempre rigoroso, como em “Nina diz que fez meu mapa/ E no céu o meu destino rapta/ O seu” (vejam que astrologia e alusões mitológicas se misturam aí) ou “Nina anseia por me conhecer em breve/ Me levar para a noite de Moscou/ Sempre que esta valsa toca/ Fecho os olhos, bebo alguma vodca/ E vou”.

O arranjo de Luiz Claudio Ramos é enxuto e exato, na medida para conferir a atmosfera em tom menor que a canção demanda, e que a realiza plenamente. Ramos e o próprio Buarque fazem os violões, Jorge Helder está no baixo, João Rebouças no piano e Hugo Pilger no violoncelo; o acordeão é de Marcos Nimrichter.

Nina — Chico Buarque
 
Nina diz que tem a pele cor de neve
E dois olhos negros como o breu
Nina diz que, embora nova
Por amores já chorou
Que nem viúva
Mas acabou, esqueceu
 
Nina adora viajar, mas não se atreve
Num país distante como o meu
Nina diz que fez meu mapa
E no céu o meu destino rapta
O seu
 
Nina diz que se quiser eu posso ver na tela
A cidade, o bairro, a chaminé da casa dela
Posso imaginar por dentro a casa
A roupa que ela usa, as mechas, a tiara
Posso até adivinhar a cara que ela faz
Quando me escreve
 
Nina anseia por me conhecer em breve
Me levar para a noite de Moscou
Sempre que esta valsa toca
Fecho os olhos, bebo alguma vodca
E vou

O vírus alegre, cartoon da The Spectator

Rir pra não chorar
Fascinante, diria mister Spock. Pensar que cerca de meio Brasil e meio EUA orgulhosamente se deixam embromar pela fabricação mentirosa do discurso político dos presidentes ¡Caveirão.105 mm! [105 mm, caro leitor, é o calibre de uma bala de canhão, ao qual Caveirão — por sinal também aquele carro brindado da polícia com licença para matar nas favelas — acaba de ser promovido pela Ju] e Agente Laranja (apud Spike Lee). Enquanto o primeiro falsifica a ciência e toda a realidade, o segundo se concentra, no momento, em atacar o principal fundamento da democracia, o voto. Rimos, claro, do terraplanismo e das mirabolantes teorias da conspiração, fazer o quê?, chorar é que não vamos, pois nunca choramos pelo mundo, choramos por nós. Tudo isso é mais um ingrediente da distopia que as horas nos reservaram, mas que é dose é. A longo prazo, os historiadores vão escavar as causações e o curso subterrâneo dos acontecimentos, e a longo prazo estaremos todos mortos.

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Neva na Rioja, março de 2015. Foto: Antônio Siúves
Grogotó

Daqui a pouco virão o sol, as uvas e o vinho.
Nem é preciso crer nisso.
Nem é preciso crer na sede e na alegria.
Não é preciso crer.
Exceto se a dúvida te divide.
Aí grogotó: pobre de ti,
Quando precisas crer,
Quando queres crer,
Já não podes,
Não podes descrer.
Poema de Antônio Siúves

JURUPOCA?

Com afinco e aprumo e afeto, Jurupoca dedica-se, como pode, ao jornalismo cultural e às ideias, a selecionar e comentar conteúdos possivelmente relevantes pra você. É mais ou menos o que se entende hoje, veja você, por “curadoria”.

A Ju tem por imperativo a defesa da liberdade de expressão e do jornalismo profissional — contra as notícias fraudulentas, a dependência viciosa das redes sociais e o cárcere do extremismo ideológico.

Cada número da carta se alimenta da leitura de livros, jornais e publicações diversas em três idiomas, movida por um interesse permanente em literatura, artes, história e ciência. A carta é apartidária e repudia o autoritarismo, o obscurantismo e o atraso mental.

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O autor?

Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

“Hineni, Hineni / Estou pronto, Senhor”, canta Leonard Cohen

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Rama/Creative Commons

So Long, Marianne

Em julho deste ano Leonard Cohen soube por uma amiga íntima da ex-mulher que Marianne estava à beira da morte, com câncer. Ela não havia falado da doença quando os dois conversaram pela última vez. Cohen então lhe escreve uma carta que começa assim (traduzo livremente): “Bem, Marianne, eis o tempo em que nossos corpos de tão velhos começam a cair aos pedaços. Creio que vou segui-la muito em breve. Agora saiba que estou tão perto que você pode segurar minha mão se me estender a sua”. Marianne viveu o bastante para ouvir a leitura da carta. A história é contada na revista americana The New Yorker.

“Seu dom ou gênio está em conexão com a música das esferas”, diz Bob Dylan sobre o amigo. Dylan deu uma rara entrevista, extensa e clara sobre a música de Cohen para o perfil de David Remnick. “Quando as pessoas falam sobre Leonard, não mencionam suas melodias, que para mim são tão geniais quanto suas letras”, comenta o Nobel de Literatura. “Mesmo as linhas de contraponto dão um caráter celestial e de elevação melódica a cada uma de suas canções. Até onde eu sei, ninguém fez nada parecido na música moderna. Inclusive uma de suas canções mais simples, como The Law, estruturada em dois acordes fundamentais, tem linhas de contraponto essenciais (…)”.

Cohen tem 82 anos e acaba de lançar um novo álbum, You Want It Darker. Tudo faz crer que o grande compositor canadense se despede. “Hineni, Hineni [aqui estou, em hebraico]/ Estou pronto, Senhor”, diz a canção-título.

Cohen merece um Nobel de Literatura.

Cohen tem razão sobre o que disse sobre Dylan na entrevista concedida ao El País. Sua obra é maior que o Nobel: “É como pôr uma medalha no Everest”. Não é que não mereça o prêmio. A academia sueca faz política, ignora a literatura e se apequena diante de uma estrela.



Um Nobel para João Gilberto

João mudou o mundo com seu jeito de cantar. Se não compôs muita nem grande poesia, além de Bim Bom, recria tudo que canta com seu violão revolucionário. A academia sueca premiou uma jornalista, um compositor, por que não reconhecer um inventor como João?



You Want It Darker

Leonard Cohen

If you are the dealer, I’m out of the game
If you are the healer, it means I’m broken and lame
If thine is the glory then mine must be the shame
You want it darker
We kill the flame

Magnified, sanctified, be thy holy name
Vilified, crucified, in the human frame
A million candles burning for the help that never came
You want it darker

Hineni, hineni
I’m ready, my lord

There’s a lover in the story
But the story’s still the same
There’s a lullaby for suffering
And a paradox to blame

But it’s written in the scriptures
And it’s not some idle claim
You want it darker
We kill the flame

They’re lining up the prisoners
And the guards are taking aim
I struggled with some demons
They were middle class and tame
I didn’t know I had permission to murder and to maim
You want…


Publicação atualizada com a foto acima e a letra de You Want It Darker em 10/03/2017. A matéria referida de David Remnick pode ser lida em português na revista Piauí deste mês. Assinantes encontram aqui.

Wim Wenders e aprendendo

O Sal da Terra leva alguém a reconsiderar
a obra de Sebastião Salgado de um jeito ou de outro

Juliano Ribeiro Salgado, Sebastião Salgado e Wim Wenders Divulgação

Juliano Ribeiro Salgado, Sebastião Salgado e Wim Wenders. Foto: Divulgação

O título desta nota não é meu e já lhe dou crédito, mas digo que também tenho aprendido alguma coisa com o cineasta alemão. E quem não tem?

Quem não se enriqueceu com a música e a cultura de Cuba revividas em Buena Vista Social Club, de 1999?

Qual o cinéfilo não preza algo da extensa filmografia do diretor de O Amigo Americano?

Ontem, com mais de dois anos de atraso, vi O Sal da Terra, documentário sobre Sebastião Salgado co-dirigido por Wim Wenders e o filho do fotógrafo, Juliano Ribeiro Salgado, lançado em março de 2014.

Devo a esse filme uma visão mais rica de Salgado e sua obra.

É que, por preguiça e ignorância, releguei seu trabalho monumental a um plano secundário e o critiquei de maneira um tanto apressada e vã, ou, dizendo de outra forma, para atenuar um pouco esta autocrítica, com mais intuição que observação e leitura.

Não é que tenha me tornado seu fã, literalmente da noite para o dia. Devagar.

Wenders e Juliano Ribeiro fizeram por assim dizer uma hagiografia de Salgado. Tentaram transformá-lo num herói do nosso tempo, um artista e fotojornalista que realizou o prodígio de abrir os olhos do mundo para o êxodo humano, o genocídio na África, o trabalho duro em escala planetária ou as maravilhas que restam na natureza ameaçada pela catástrofe, alguém que, rico e famoso, dedicou-se a regenerar as terras desmatadas de sua família e transformou essa iniciativa numa causa social.

Em O Sal da Terra não cabem análises críticas à estética fotográfica ou à trajetória do militante de esquerda da Ação Popular que, fiel às suas convicções ideológicas, se tornou uma celebridade milionária com residência em Paris. O espectador interessado ou curioso sobre técnica fotográfica também fica a ver navios.

Mas o documentário, com fluidez e beleza, consegue nos dar um panorama razoável da carreira, um perfil e um retrato familiar de Salgado, ainda que, insisto, sempre com grande benevolência. As cenas sobre as realizações do Instituto Terra, em Minas Gerais, são especialmente comoventes.

UM ENSAIO DO BALACOBACO

Graças ao filme, procurei me aprofundar um pouco no assunto.

Li partes de uma reportagem de Dorrit Harazim sobre o trabalho de Salgado, incluída em seu livro que chega às bancas, O Instante Certo (Companhia das Letras), e um ensaio do balacobaco: Sebastião Salgado, um homem de contradições, de Francisco Quinteiro Pires, publicado na Zum #8, revista de fotografia do IMS, em abril do ano passado e disponível na internet.

Harazim preenche os vazios do documentário sobre os aspectos técnicos do trabalho do fotógrafo, com minúcias que tratam de câmaras, filmes, logística, métodos e habilidades de Salgado para se aproximar de quem fotografa, além de trazer um desfile de opiniões e depoimentos sobre a obra do autor.

Quinteiro Pires explora a outra metade dos vazios apontados em O Sal da Terra. Seu ensaio faz um levantamento extenso e cuidadoso da crítica à obra e ao engajamento artístico, jornalístico e ideológico de Sebastião Salgado, seja a de autores que a enaltecem, seja a dos que a procuram desconstruir.

Sebastião Salgado Divulgação

Sebastião Salgado diante de uma das edições de “Gênesis”. Foto: Divulgação

Não vou me deter aqui na visão favorável, muito bem representada, à qual recomendo que se conheça no ensaio da Zum e é igualmente importante a quem se interesse por fotografia e e pelo fotógrafo. De resto, essa é a perspectiva dominante dentro e fora do Brasil.

REVERÊNCIA E COMPOSIÇÃO TEATRAL

Prendo-me ao olhar desfavorável porque suas alegações me parecem mais pertinentes e em melhor sintonia com o que eu mesmo sinto e penso, enquanto revejo o livro Êxodos para escrever esta nota.

O ensaio de Quinteiro Pires recorre, por exemplo, à jornalista Susie Linfield, que considera Salgado “muitas vezes reverente em relação ao que ele fotografa”:

“Suas imagens agradavelmente em preto e branco são compostas com muita minúcia, são dramaticamente teatrais e apresentam um uso da luz semelhante ao da pintura”.

E ainda, citando Linfield e seu livro The Cruel Radiance: Photography and Political Violence, de 2010, em referência à doutrina soviética para as artes contraposta às expressões “burguesas” do modernismo:

“É verdade que as fotografias de Salgado podem sugerir um tipo de romantismo nostálgico que relembra o realismo socialista.”

Em seguida, o texto repassa vários autores, entre eles Susan Sontag e Martha Rosler, os quais, logo que Salgado ganhou fama, nos anos 1980, classificaram sua abordagem como a de um “esteta”, de “alguém preocupado acima de tudo com os elementos harmoniosos e belos da fotografia” e a “estetização do sofrimento”.

A Zum também compila a sarrafada com o título Boas Intenções dada por Ingrid Sischy na revista The New Yorker, em 1991. Para a autora, o fotógrafo brasileiro era um obcecado pela “composição de suas fotografias: interessava-lhe, sobretudo, achar ‘a graça’ e ‘a beleza’ nas ‘formas distorcidas de seus retratados agoniados’”:

Sischy preferiria o ponto de vista de Walker Evans (1903-75), conhecido por seu trabalho sobre a Grande Depressão, feito para a Farm Security Administration (órgão do governo norte-americano) (…). Ao contrário de Salgado, Evans não seria nem didático nem sentimental ao fotografar pessoas desfavorecidas, que na obra do brasileiro seriam “cuidadosamente compostas à semelhança de naturezas-mortas”. “E o embelezamento da tragédia resulta em imagens que, ao fim e ao cabo, reforçam nossa passividade em relação à experiência que elas revelam”, escreveu Sischy. “A estetização da tragédia é o caminho mais rápido para anestesiar os sentimentos daqueles que a testemunham. A beleza é um chamado para a admiração, não para a ação.” Sischy reclamou do culto a Salgado, um fotojornalista a cujo trabalho se atribuiria um poder transformador sobre noções classistas, raciais e étnicas.

As contradições de Salgado como militante de esquerda que nunca abandonou suas convicções e a desenvoltura com que trabalhou para grandes empresas, incluindo Silk Cut (cigarros), Le Creuset (panelas), Volvo (carros), Illy (café) e a brasileira Vale, gigante da mineração, que patrocina seu livro Genesis, no qual denuncia o aquecimento global, e que também apoia seu projeto de reflorestamento da Mata Atlântica.

Na campanha para a Illy, iniciada em 2002, Salgado visitou oito países (…) para fotografar os cafeicultores e a produção de café. “Em vez de se apresentar como uma promoção do café da Illy, o site da campanha declara ser o resultado de uma homenagem conjunta da Illy e de Salgado aos cultivadores de café”, escreve Nair [Parvati,] em A Different Light. [A Different Light: The Photography of Sebastião Salgado (2012)].

“Salgado usa a fotografia para promover a sua visão de mundo, que é planetária e panorâmica. E o resultado é o seguinte: o maior crítico dos impasses globais gera lucro”, resume essa autora.

Feitas as críticas, insisto que devem ser contrapostas ao que dizem os críticos que defendem as escolhas do fotógrafo. Além disso, é preciso reconhecer que a obra de Sebastião Salgado tornou-se uma referência planetária e, em muitos sentidos, nos é essencial para compreendermos as transformações do mundo nas últimas décadas.

Como diz  um leitor da Zum na área de comentários do site, “o trabalho dele é mais um ganho para a humanidade, e não uma perda”.

Quanto ao trocadilho esperto do título, devo-lhe ao jornalista, hoje executivo da Companhia das Letras Matinas Suzuki Jr., em um texto seu na Folha de S.Paulo, quando era editor da Ilustrada, creio que ainda no final dos anos 1980, e possivelmente falando de Paris, Texas, longa-metragem de Wim Wenders rodado nos Estados Unidos.

Augusto Massi+Pedro Nava-Piauí

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Franquilim da Silva, primo

Ressurrecto, o engenheiro agrônomo Franquilim da Silva, primo, manda lembrança + recado.

— A revista Piauí não aspira mais a ser a The New Yorker brasileira, portanto, nacional-carioca. A aspiração original é derrocada pela condição nacional-carioca. Não ter um padrão a sinalar-lhe é mais ruim que bom. Em Ipanema se publica boa leitura, ainda, sobretudo quando vertem a The New Yorker. E a repórter Daniela Pinheiro poderia trabalhar na revista americana. E os poemas de Augusto Massi, Piauí # 107, estão acima do nacional-carioquismo associativista da Piauí — e acima também de um certo Estats Units d’Amèrica que a The New Yorker não desborda —, como este:

RELÓGIO DA GLÓRIA

Quando o galo das trevas
disparou contra as têmporas da noite
maio soletrou suas primeiras sílabas de pólvora.

Ao lado do pé de fícus,
sob o relógio da Glória,
a morte cravou suas esporas.
O mundo bateu em retirada.
Pedro Nava foi embora.

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