Jurupoca # 01

Número 01 — JULHO, 5  2019 


“O tempo, meu lorde, carrega uma sacola nas costas onde põe óbolos para o oblívio.”

Citado por Adão, o androide personagem de “Máquinas como Eu – E gente como Você”, novo romance de Ian McEwan, do “Tróilo e Créssida”, de Willian Shakespeare 

“Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço, me sinto são e salvo e forte.
E tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer no ano passado.
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro.
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro.”


Belchior em “Sujeito de Sorte”

Alastra-se a suposição de que, na sociedade em que circula volume inédito de informação, o jornalismo perdera sua razão de ser. O jornalista, a sua razão de viver. O secular e celebrado ofício de editor, em quadro de carências múltiplas e desassossegos de identidade, aparece rebatizado como “curador de notícias”. Ocorre o contrário: nunca o jornalismo foi tão necessário para selecionar, organizar e hierarquizar informações. Diante do caos resultante e da overdose informativa, o jornalismo contextualiza e dá sentido a fatos e ideias. Verificar o que é fato comprovável e o que é ‘notícia falsa’ — expressão imprópria, pois, se falsa, não configura notícia”.

Mário Magalhães em “J – Jornalista”, na “Serrote!” # 29

Opa.

Bem-vinda e bem-vindo. Eis o mix da feira de Jurupoca #1, notas a tratar dos últimos livros, músicas, filmes e ideias que me envolveram.

Na Jurupoca, quero compartir com você o ofício de um editor de cultura autoexilado das lides blogueiras, das redes sociais (exceto pelos poemetos do Insta, de que falo no pé), sobrevivente na diáspora das redações, a concluir o livro “A Arte da Viagem – Como Transformar Turismo em Cultura”, a ser lançado proximamente em Kindle Direct Publishing (KDP), na Amazon.

Esta Jurupoca é para chegar a você às sextas-feiras, quinzenalmente. Agradeço demais a quem comentou a edição de número zero, seja para saudá-la ou não, e convido novos leitores a jurupocarem.

MEUS PARABÉNS

Um brinde — melhor que seja de uísque, bebida preferida da patota — aos 50 anos de fundação do “Pasquim”, transcorridos em 26 de junho. Ivan Lessa, Millôr, Paulo Francis, Jaguar, Ziraldo, Henfil, Sérgio Augusto e outros tantos bambas desopilaram fígados e almas de leitores intoxicados com a carantonha onipresente da ditadura nos anos 1970. Aquela alta concentração de talento, inteligência e humor fundou uma era na nossa imprensa, referendou ideias, aprendizados, deixou saudade e gratidão, numa frase, salvou a pátria.
 

Fotomontagem de Jaguar sobre a pintura “Independência ou Morte [O Grito do Ipiranga], de Pedro Américo. A charge saiu na edição 71 do “Pasquim”, em 28/10/1970. Como conta o cartunista (link para o PDF da tese de Márcia Neme Buzalaf, “A Censura no Pasquim”, defendida em 2009 na Universidade Estadual Paulista) os militares sentiram o golpe. Onze integrantes da redação amargaram dois meses de cana.


O FUTURO VEM AÍ

Conhecido pelos muitos acertos de suas previsões e pela clareza de livros como “A Vida Digital”, o professor Nicholas Negroponte, fundador e diretor do Media Lab do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), diz em entrevista ao El Pais (em português) que o 5G, a tecnologia de comunicações móveis disputada por Estados Unidos e China, não promoverá a revolução que se apregoa. “É apenas uma mudança incremental sobre o 4G. O marco foi o 3G”, considera. Ele sustenta que nossos filhos e netos viverão 150 anos; humanos serão geneticamente modificados para reparar os erros da natureza; a carne de boi artificial (“um projeto maravilhoso”), produzida por meio da replicação de células do animal, vai alimentar o mundo, livrar o boi do abatedouro, reduzir as emissões de gás carbônico e melhorar o meio ambiente; além disso, em 50 anos teremos energia limpa, barata e segura, com o domínio da fusão nuclear. Aí, sim, haverá uma nova era de avanços tecnológicos na história humana. Negroponte relativiza as críticas ao oligopólio na internet e à perda de privacidade com tecnologias como a vigilância por câmaras de reconhecimento facial, empregada largamente na China, promessa de uma “segurança quase perfeita”. Mas, perguntado se temos de valorizar as ciências humanas e a filosofia em uma sociedade hipertecnológica, responde: “As ciências humanas são a coisa mais importante que você pode estudar.”
 

O FUTURO POR AÍ

“Máquinas como Eu – E gente como Você” (Companhia das Letras), que acaba de sair em português, novo romance do britânico Ian McEwan, dá o que ler e pensar. Algumas das obras recentes de McEwan me pareceram claudicantes, narrativas em que o autor atraía muita atenção para si, para seu conhecimento enciclopédico e sua fixação em certos hábitos da classe média, como certa obsessão com vinhos e comida. Mas, a despeito dessa onisciência autoral, ei-lo de volta e em grande forma com uma reflexão ética e moral acerca da condição humana, quando a ciência mira a fabricação máquinas que, cedo ou tarde, serão capazes de sentir, interagir desembaraçadamente conosco e nos superar em inteligência e criatividade. O livro não explora a ficção científica corriqueira, mas, antes, atualiza a fábula prometeica — em sintonia, por sinal, com o filme “Ex Machina”, dirigido por Alex Garland.

“Boa parte dessa tradição [da ficção científica] não me interessa. Mas tem outra que acho fascinante, que observa a possível reação à tecnologia. Como em ‘1984’, de George Orwell, ou em ‘Blade Runner’, que mostra um planeta destruído, lidando com a mortalidade dos robôs”, disse McEwan em entrevista à “Folha de S.Paulo”.

O leitor não viaja ao futuro, mas é conduzido a um passado alternativo, como no “Complô contra a América”, romance de Philip Roth — em que os Estados Unidos nos anos 1940 é governador pelo antissemita Charlie Lindbergh, ou, entre outras, nas séries “SS-GB” (exibida no Brasil pela NET) e “The Man in the High Castle” (Amazon Prime), que imaginam o Reino Unido e os EUA ocupados por Hitler. No livro de McEwan, ambientado no início dos anos 1980, a Inglaterra da primeira ministra Margaret Thatcher perde tragicamente a guerra das Malvinas; os Beatles se reencontram depois de 12 anos afastados e lançam o álbum “Love and Lemons”; Alan Turing, pai da computação retratado no filme “O Jogo da Imitação”, está vivo e bem-disposto — é um bilionário casado com seu amado, um físico de renome, e celebrado mundialmente pela generosidade de ter aberto a codificação de um novo paradigma da inteligência artificial, o que levou à confecção de humanoides por meio da resolução de um teorema matemático, do avanço da ciência da computação e da engenharia dos materiais. Turing, que também é um personagem destacado da história de McEwan, ainda jovem reiterava que “no momento em que não pudéssemos notar a diferença no comportamento de uma máquina e de uma pessoa, caberia então atribuir humanidade à máquina”.  

“Artigos sensacionalistas na imprensa anunciaram uma nova era de softwares humanizados. Os computadores estavam prestes a pensar como nós, imitando as razões frequentemente mal definidas com que tomamos decisões ou fazemos escolhas”, conta Charlie Friend, o narrador do livro. Aos 33 anos, Charlie torra a herança dos pais em Adão, um dos 25 primeiros androides, ou seres humanos artificiais lançados por uma firma britânica — 12 mulheres e 13 homens, batizados Adões e Evas. “O manual [de instruções do fabricante] me informava que Adão, além de um sistema operacional, possuía uma natureza — isto é, uma natureza humana — e uma personalidade (…)”. Aí está o busílis, diria o detetive Rosalvo, personagem de “Agosto”, o romance de Rubem Fonseca, aí está o fulcro do bordado literário de McEwan.

Ocorre que em “Máquinas como Eu” há outros ingredientes além de avanços na matemática (a solução positiva para P versus NP, o principal problema aberto da computação), do debate proporcionado pela neurociência (o problema entre cérebro e mente) e da especulação filosófico sobre a ética da ciência e suas implicações na política. O que estimula o leitor a atravessar todas essas dimensões e as 328 páginas do livro é a trama de amor, sexo e, como em “A Balada de Adam Henry” e outros livros  de McEwan, o suspense de tribunal e a discussão dos imperativos da lei. Charlie, um especulador com ações e moedas semifracassado, envolve Adão (o androide é chegado em Shakespeare e escreve haicais) na sua vida, nos seus ganhos e na sua apaixonada transa (latu sensu) com a vizinha Miranda, estudante de pós-graduação dez anos mais jovem que ele, atada a um segredo decisivo. Mais do que isso não direi para não incorrer no tal do spoiler e tirar o prazer da leitora e do leitor. O foco do livro, afinal, o que a leitura nos leva a ruminar, ilumina o que o escritor disse à “Folha”:

Estamos tentando ser Deus, mas não somos. Essa é nossa forma de colocar nossa própria consciência em um robô e, assim, podermos viver eternamente. É um tema ancestral. Está na história de Jasão e os Argonautas, no Gênesis”.

O romance criado a partir desse alicerce literário talvez seja a melhor obra de McEwan desde “Reparação” e “Sábado”.

COMO SER FELIZ

“E pela minha lei/ A gente era obrigada a ser feliz”, canta Chico Buarque em “João e Maria”. A lei que o obrigava a ser feliz agora leva o louco a se pergunta, “o que é que a vida vai fazer de mim?”. É insano ser feliz? Melhor cantar sempre, como quem bate na madeira, “ilusão, ilusão, veja as coisas como ela são”? Há cinco décadas, a obra de um artista toca profundamente na banda sonora do afeto de tanta gente, refina a música popular brasileira e açula o gosto pelo idioma e pela poesia. Também por isso, a gente vai levando.


Embora tenha todos os discos autorais de Chico em CD ou vinil, fui buscar no Spotify os títulos que faltavam no aplicativo (falei disso na carta anterior). No pacote estão “Morro Dois Irmãos”, “Valsa Brasileira”, “Carioca”, “Iracema Voou”, ‘Sonhos, Sonhos São”, “A Ostra e o Vento”, “Todo o Sentimento”, “Estação Derradeira”, “Bancarrota Blues” etc., canções já clássicas cuja força poética se manterá por muito tempo.

Só Carolina não viu que a obra buarquiana foi se tornando mais complexa em suas melodias, mais apuradas nas harmonias e mais sofisticadas nas letras — José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovsk demonstraram isso com grande didatismo nas suas aulas-shows. Sinto pelas Carolinas musicófilas que brigaram também com a arte do compositor nos embates virulentos contra os devotos do lulopetismo. Que triste. O que disse Belchior sobre os discos de Bob Dylan lançados nos anos 2.000 — em um entrevista ao “Diário do Nordeste” citada no livro de Jotabê Medeiros (“Apenas um Rapaz Latino-americano”, ver comentário abaixo) — vale para Chico Buarque: “Não foi Dylan quem mudou, foi o público que piorou”. A propósito, as músicas citadas estão no playlist A rádio Siutônio apresenta: 1.000 canções da MBP, que me custou três anos de pesquisa e arranjo, e que não paro de atualizar e refinar. Aviso aos navegantes que meu conceito de MPB é pessoal e superelástico, indo de Catulo da Paixão Cearense, do final do século 19, ao Clube da Esquina e além.

COMO? SER FELIZ

De volta à lei que nos obrigava a ser feliz, ouvir “João e Maria” mais uma vez me lembrou, com uma sombra de ironia, um trecho de “A Trégua”, de Primo Levi (ver referência na Jurupoca #0), que acabara de ler. Está na página 346 de minha edição da Companhia das Letras, de 1997. O autor se refere nessa passagem à sensação dos mil e tantos expatriados italianos em comboio, entre os quais sobreviventes de Auschwitz, como o autor, diante do anúncio feito pelo exército soviético que começaria enfim a ansiada volta para casa, depois de dois meses de acampamento na aldeia russa de Stáryie Doróghi e de outros tantos vagando miseravelmente pelo leste europeu, terminada a 2ª Guerra:

“Acendemos fogo no bosque, e ninguém dormiu: passamos o resto da noite cantando e dançando, contando um para o outro as aventuras passadas, e relembrando os companheiros perdidos, pois não é dado aos homens desfrutar alegrias incontaminadas.”

Primo Levi quinta-essenciou — ou quintessenciou, para usar um verbo que aprendo com Mario de Andrade em “Vida de Cantador” (Jotabê Medeiros, op. cit.) — a narrativa possível da destruição do ser humano e, no subtexto, do que restaria de humano no sobrevivente do terror, da violência, do (até então) impensável.
 

RESPIRE FUNDO

A meditação faz bem a muita gente. O relaxamento obtido com a prática — inspirada no budismo e chancelada pela ciência — proporciona equilíbrio, concentração, superação, bem-estar. Ninguém nega isso. Mas há outra dimensão do fenômeno planetário, que é política e econômica, a de um negócio, de uma valorizada commodity do mercado de autoajuda. A indústria da meditação movimenta a baba de 4 bilhões de dólares por ano em cursos, livros, documentários, filmes e uma ramificação que abrange terapias, dietas, liderança e até criação de pets.

Wall Street, a bolsa de valores dos EUA, o Vale do Silicone — berço da Gafam (acrônimo dos gigantes da rede, Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft), agências estatais americanas, inclusive as militares e CEOs habitués do Fórum Econômico de Davos promovem como chefes de torcida os benefícios da meditação e da “atenção plena” (mindfulness), em geral associada ao método MBSR (Mindfulness-Based Stress Reducion), criado por Jon Kabat-Zinn, um professor emérito da Escola Médica da Universidade de Massachusetts. No fundo dessa cultura ecoa a busca da adequação espiritual ao status quo. Os grandes devotos da meditação estão em paz com a realidade, são resilientes e autocontrolados; subjugam as contradições, creem que as causas da inconformidade e da aflição com o mundo residem em si próprios; não se deixarão moer pelo sistema, ao contrário, aproveitarão seus avanços para trabalhar mais e enriquecer na era prodigiosa do capitalismo tecnológico.

SOLTE O AR

Acabei de resumir a linha de ataque da crítica de esquerda à “mindfulness”. O jornal britânico “The Guardian” condensou (em inglês) os argumentos do livro “McMindfulness: How Mindfulness Became the New Capitalist Spirituality” (McMindfulness: Como a Atenção Plena Tornou-se a Nova Espiritualidade Capitalista), de Ronald Purser, um professor de administração e negócios em São Francisco, a sair no próximo dia 9. O título sugere uma óbvia correlação entre a cadeia de fast food McDonalds e a “atenção plena”, ancorada no sopro do momento e na consciência sem julgamento. A não inquirição moral sobre as consequências das decisões corporativas e a mentalidade apolítica que a prática favorece — defende o autor — encobrem a desigualdade e o sofrimento das vítimas do capitalismo. Ele cita, por certo, o filósofo esloveno Slavoj Žižek, para quem a “atenção plena” tornou-se a “ideologia hegemônica do capitalismo global”, com a qual as pessoas se sentem confortáveis para “participar plenamente da dinâmica capitalista, mantendo a aparência de saúde mental”.
Não achei no texto adaptado do livro de Puser nenhuma ocorrência da palavra “alienação”, a velha e boa pedra de toque da crítica marxista à ideologia. Mas vivemos outros tempos e, seja como for, é estimulante acompanhar o confronto de ideais e a liberdade de pensar e de valorizar a inteligência. Os radicais extremistas evangelizados não sabem o que estão perdendo.

ODE AO ÓDIO

Os radicais extremistas evangelizados do Partido do Brexit, liderados pelo feroz Nigel Farage, apresentaram ao mundo seu intocável autorretrato. Na sessão de abertura do Parlamento Europeu, na terça-feira, dia 2, os 29 eurodeputados eleitos pela agremiação viraram as costas durante a execução do trecho final (Ode à Alegria) do hino europeu, a Nona Sinfonia de Beethoven. A turma de Farage conseguiu o que pretendia: deu as costas à humanidade, à esperança de fraternidade que todos os homens de boa vontade deveriam alimentar ou respeitar, compondo, com seu gesto, uma verdadeira ode ao ódio. Os eurocéticos da ultradireita certamente se ofendem com o que podem inspirar a música de Beethoven e o poema de Friedrich Schiller cantado pelo coro no quarto movimento da “Nona”, que diz:

Alegria, mais belo fulgor divino,
Filha de Elíseo, (...)
Todos os homens se irmanam
Onde pairar teu voo suave.
A quem a boa sorte tenha favorecido
De ser amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma doce companheira
Rejubile-se conosco!

A BELCHIOR, O QUE É SEU

Saiu claramente malcuidada a biografia de Belchior por Jotabê Medeiros, um jornalista de cultura e crítico musical que joga na Série A da nossa imprensa. Só agora pude ler “Apenas um Rapaz Latino-Americano” (Todavia, 2017). É mais um livro-promessa, lançado na carona da morte inesperada do “cantautor” cearense, aos 70 anos, depois de uma década de sumiço austral. Há lapsos, falhas de continuidade, pontos descritivos sem nó, bastante especulação. Um editor de classe poderia tê-lo enxugado e exigido mais do autor em pesquisa e entrevistas de campo. Mas, se lido pelo fã como perfil biográfico extenso, tem lá seu valor. É acurado na análise da obra e rico em curiosidades da trajetória do ídolo — educado como frade capuchinho, estudante de medicina, flâneur apaixonado por poesia e pintura, arte na qual quis tanto se apurar.

Jotabê se sai bem ao dimensionar a energia criativa e erudição de Antônio Carlos Belchior, bem como ao retratar a verve “dylanesca”, a elegância e também as fraquezas mundanas do ídolo da MPB que parece ter se embriagado além da conta com o sucesso, com seu dom-juanismo e novorriquismo, lembrado por Caetano Veloso no artigo para o “Estadão” em que fala das aparições nas festas ao lado de André Midani “usando ternos finos, fumando charutos caros e falando na cultura da Rive Gauche”, na esteira do estrondoso sucesso crítico e comercial do LP “Alucinação” (vendeu meio milhão de cópias, faixa onde apenas Roberto Carlos roçava). O mais importante: a agudeza da poética e sua singularidade em nossa herança cultural, a inventividade das canções, que supera suas carências em harmonia, e sua adequação ao canto de timbre inequívoco ficam bem assentadas no livro.

O canto torto de Belchior cortou a carne do seu ouvinte adolescente nos anos 1970 e deixou por cicatriz memórias microvulcânicas de versos desta densidade, que brilham e reluzem como uma esfera de aço: “A minha alucinação é suportar o dia a dia, e o meu delírio é a experiência com coisas reais”, da canção-tema de “Alucinação” (1976), que comentei no aniversário de 40 anos desse álbum.

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Jurupoca #0


jurupoca
ju·ru·po·ca
sf
ZOOL
1 Peixe teleósteo, siluriforme (Hemisorubim platyrhynchus), de água doce, encontrado nos rios da Amazônia e do Sudeste brasileiro e no Paraguai, com boca com grande prognatismo, dorso esverdeado, ventre esbranquiçado e manchas negras nas laterais; boca-de-colher, jeripoca, jerupoca, jiripoca, jurupensém, mandiaçu.
2 V surubim-lima.
ETIMOLOGIA
tupi iurupóka.

Etimologia
“Jurupoca”, “jerupoca” e “jiripoca” são oriundos da junção dos termos tupis yu’ru (“boca”) e ‘poka (gerúndio de pog, “arrebentar”), significando, portanto, “boca arrebentando”. É uma referência à sua mandíbula projetada para frente (prognatismo)[1]. “Hemisorubim” vem do grego hemi, “meio”[2], significando, portanto, “meio surubim”, numa referência à sua semelhança com os surubins. “Platyrhynchos” vem da junção dos termos gregos platýs, êia, ý (“chato”)[3] e rhýgchos, eos-ous (“bico”)[4], ou seja, “bico chato”, numa referência, novamente, a sua mandíbula projetada para frente.  

Opa.

A Jurupoca vai piar, logo, começo por dizer algo original.

Isto é uma carta dentro de um e-mail, velhos meios reciclados diante do cansaço com a balada das redes sociais, a burrice da inteligência artificial (IA) e, por certo, a dureza da vida de jornalistas e escritores.

“Publicar por e-mail ganha quase um ar retrô”, escreveu em abril Maurício Meireles em reportagem na “Folha de S.Paulo” sobre a volta das newsletters literárias. A matéria mostrava que uma “série de autores estabelecidos” se queixavam da “supremacia dos algoritmos e a economia dos likes” das redes sociais. “Hoje a internet é permeada pelos likes, algoritmos e publicidade constantes. São pilhas de informação moldadas por algoritmos que criam uma ansiedade de consumo de informação. E a leitura não é para ser uma experiência assim. Há uma estrutura de informação que não privilegia o interesse dos usuários, mas das corporações e dos anunciantes”, ponderava Daniel Galera.

Daniel Pellizzari ampliava a opinião do xará: “Não tinha [quando ele começou a divulgar seu trabalho na rede] essa maquininha pavloviana de likes e comentários, toda essa parafernália meio detestável. [Fazer newsletter] não é pura nostalgia, mas lembra uma época em que a internet era um lugar cheio de possibilidades legais e não uma realidade de coisas horríveis”.

Então, a internet tem seus nostálgicos, ora vejam, minha amiga, meu amigo. Aonde vamos parar?

Além de newsletters, os escritores recorrem à autopublicação e ebooks; se viram como podem.

Aí vamos nós.


A ARTE DA VIAGEM

Redescobri meu próprio livro ao voltar a um manuscrito inédito. Xongas, pensei, este texto é uma declaração de amor e uma reflexão sobre certa maneira de viajar, não é um guia de viagens, como pretendia. Junte nele as últimas crônicas europeias, reescreva o que pedir para ser reescrito, revise tudo mais uma vez e terá “A Arte da Viagem – Como Transformar Turismo em Cultura”. Ah, não caia de novo na asneira de procurar editoras brasileiras! Recebi ainda o estímulo de Carlos Moreira, amigo jornalista velho de guerra: anda, faça um e-book, ele me disse, vá de Kindle Direct Publishing (KDP), mas retire o livro do gavetário nas nuvens!

Por falar no Kindle, minha mulher me presenteou com o aparelhinho, o novo Paperwhite, que até à prova d’água é, ao qual aderi e com o qual divido minhas leituras deste então. A edição caprichada de “A Arte da Viagem”, recheada de fotos, com revisão profissional aos cuidados de Beto Arreguy, sairá antes do final de julho. Um trechinho da introdução:

A viagem como extensão da vida cultural e certa maneira de praticá-la são temas deste livro. O prazer de viajar é sua razão de ser.

O objetivo é compartilhar com o leitor um estilo ou jeito de viajar, dentro da modalidade “turismo cultural”. Nada a ver, aqui, com o conceito acadêmico, ensinado em faculdades de turismo, e ainda menos com o institucional, das hashtags do Instagram e promoções de agências públicas e privadas.

Viajar é — ou deveria ser — coisa tão pessoal quanto o gosto por livros, filmes, quadros e comida, bem como sua motivação e sentido, numa época de excursões breves e facilitadas.

Se a experiência humana pode ser tão rica quanto almejamos, com a viagem não é diferente. A mera diversão pode transformar-se em caminho espiritual e razão de viver.

A verdadeira viagem, em busca de beleza, diversidade e conhecimento, desvela mundos, educa, inspira e torna o viajante mais apto para compreender o próprio quintal interior.

O contato com uma civilização mais avançada ou diversa da nossa tem o dom de quebrar preconceitos e abrir cabeças.

Vida e trabalho podem se tornar mais prazerosos com as experiências que acumulamos, além das “milhas” de viagem. É disso que este livro vai tratar.

Como dizem Ruy Castro e Heloisa Seixas em “Terramarear – Peripécias de Dois Turistas Culturais” (Companhia das Letras, 2011), “turismo também é cultura, como se sabe. Mas mais divertido é quando a cultura se transforma em turismo.”

A frase invertida tem o mesmo teor. Transformado em cultura, o turismo se torna uma prática mais rica e divertida. Turismo também é cultura, ou seja, não necessariamente.

Há quem viaje em férias exclusivamente para caçar e pescar, cavalgar e mergulhar, correr e surfar, comprar e vender, comer e beber, fotografar passarinhos ou o que queira na vida. Tudo isso é ótimo e bacana. Mas é preciso bem mais que a boa vontade de antropólogos culturais pós-modernos para classificar tais atividades estritamente como “culturais”.

O turismo de massa, às vezes restrito ao limite de quarteirões, bairros e algumas atrações vistas em uma única tarde, é antípoda da arte da viagem. Milhões de pessoas da classe média planetária obtiveram meios para viajar nas últimas décadas. Estima-se o número de turistas chineses em 156 milhões, em 2018, contra 10,5 milhões em 2000. Globalmente, o turismo internacional, que em 1960 era de menos de 70 milhões, chega a 1,4 bilhão de pessoas no final da segunda década do século 21. Facilitado por companhias aéreas de baixo custo e locações de sites como Airbnb — a companhia criada e sediada em São Francisco, nos Estados Unidos, avaliada pela Forbes em 38 bilhões de dólares —, a atividade turística em larga escala enfrenta a rejeição popular e campanhas virulentas de ativistas em cidades como Barcelona (com uma população de 1,6 milhão de pessoas, recebe 30 milhões de visitantes anualmente) e Veneza (500 mil habitantes e 20 milhões de turistas).

Barulho, arruaça, desrespeito à cultura, inflação no preço dos aluguéis, gentrificação — a descaracterização de áreas populares e da genuína vida local pela reconfiguração de imóveis para receber mais turistas e lhes oferecer cafés, restaurantes e outros serviços em padrão globalizado, distantes da tradição de cada povo — são algumas das acusações levantadas contra o turismo massivo.  

Este livro tentará mostrar que a fuga do lugar-comum, a busca pelo genuíno e a aproximação respeitosa da vida local são fundamentos da arte de viajar, que demanda preparo e maturação — e tenderá a ser bem-vinda onde a praticarem.


FRACASSAR MELHOR

A citação mais conhecida do escritor irlandês Samuel Beckett — “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.” (Tente. Fracasse. Não importa. Tente de novo. Fracasse melhor.) extraída do “Worstward Ho, uma de suas últimas obras — é bastante inspiradora e uma epígrafe na medida para a vida do futricado eleitor brasileiro.

Somos todos iguais nesta noite sob o mantão da imbecilidade. Um país amazônico e diabólico, que sequer conseguiu prover serviço de esgoto para mais do que a metade de sua população, perde tempo e a energia de Itaipus em tuítes e fofocário político imprestável.

Em “As Viagens de Gulliver”, Jonathan Swift narra, com grande clarividência para um leitor brasileiro, o grande cisma de Lilipute, que causou milhares de mortos naquele império de homúnculos (os seres medem 15 cm de altura), entre Extremidade-Grandinos e Extremidade-Pequeninos, em torno da forma ideal de quebrar o ovo para comê-lo, se pelo lado maior, conforme a tradição, ou pelo menor, segundo a heresia revolucionária — algo assim como “marxismo cultural”. Penso que o atual ministro das Relações Exteriores defende com verve e erudição a ideologia da Extremidade Maior, contra os radicais corporativistas, que morrerão pela Extremidade Menor do ovo, em nome da verdade, do povo e dos próprios cargos régios.

DEMOCRACIA ASSOPRADA

Na Europa também assopram contra a chama da democracia e, do jeito que vai a coisa, acabarão por conseguir apagá-la.Na nave do novo nacional populismo vai na proa Matteo Salvini, um imbecil idolatrado por multidões. O filósofo italiano Umberto Galimberti lembra que a Itália está em último lugar na Europa na compreensão de um texto escrito. A ignorância predomina entre jovens acorrentados às redes sociais. Hormônios de mais, paciência de menos e incultura geral fertilizam o campo da revolta dos “tifosi” das trevas.

TEU NOME É PETRA

Atualizo esta carta depois de assistir na Netflix, ainda na manhã desta quarta-feira (19/06), a “Democracia em Vertigem”, documentário de Petra Costa. A cineasta  é neta de fundadores da construtora Andrade Gutierrez e filha de militante políticos; seu nome, Petra, homenageia Pedro Pomar, líder do PCdoB assassinado por militares, em 1976. A conjunção autobiográfica define o filme e sua narrativa. O dilema pessoal da diretora, de uma eleitora com a idade aproximada do nosso último período democrático, conduz a retrospectiva dos últimos anos — as manifestações de 2013, a Operação Lava-Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a eleição de Jair Messias Bolsonaro. “Grande parte da minha família votou em Bolsonaro, enquanto, segundo a cosmologia de Bolsonaro, meus pais deveriam ter sido assassinados”, diz Petra, como resumo da ópera, já no final do filme. Vemos cenas da infância da diretora, imagens de bastidores cedidas pelo fotógrafo Ricardo Stuckert (o “Velásquez do poder petista”, segundo Mario Sérgio Conti), entrevistas com os protagonistas da tragicomédia brasileira, com a própria mãe (que amargou o mesmo calabouço de Dilma, alguns anos antes e por menos tempo) e imagens dos eventos marcantes dos últimos oito anos, incluindo o picadeiro do Grande Círculo Tétrico da votação do impeachment, no domingo de 17 de abril de 2016. Revemos nosso atual presidente dedicar seu voto à “memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”, e mais uma vez sentimos vontade de vomitar. Mesmo sem se aprofundar no desastre do governo Dilma na economia e seus reflexos para os mais pobres, e se apegar forte e inocentemente à simplificação da conspiração das elites para iluminar os abalos sofridos pelo sistema e a descrença cívica, “Democracia em Vertigem” é um documentário sensível, inteligente, honesto, por vezes comovente. É cinema de primeiríssima ordem. Diretores simpáticos à direta e à esquerda, incluindo suas obras de ficção, inspirados no tema, nem de longe realizaram algo da mesma estatura.

A PRIMEIRA ESTRELA

José Ovejero descreve no “El País” sua visita ao túmulo de Primo Levi (1919-1987) no cemitério de Turim, depois de muita andança para localizar a lápide, que é sóbria e humilde, conforme diz. Não apareceram outros visitantes durante o tempo em que esteve lá nem havia uma pedra sobre a sepultura, segundo o costume judaico de honrar a memória dos mortos, neste centenário do autor de “A Tabela Periódica”. “A lápide não informa que jaz ali um partisan antifascista nem um químico nem um imenso escritor, ainda que tenha sido todas essas coisas. E só o número 174.517 recorda sua passagem por Auschwitz”, diz o texto de Ovejero. Li há muito “É Isto um Homem?” e, depois de décadas de espera em minha estante, retomo “A Trégua”. São livros, me parecem, obrigatórios à nossa pretensa humanidade. Mas não. Na própria Alemanha estão agora a ulular lunáticos neonazistas.

A revista Piauí de junho publica alguns dos poemas de Levi do livro “Mil Sóis”, traduzidos por Maurício Santana Dias, a ser lançado em julho pelaTodavia. “Così passo il giorno, e fu sera,/ Ma quando fiori in cielo la prima stella…” (Assim passou o dia, e foi noite,/ Mas quando no céu floriu a primeira estrela…) são dois versos do poema “Eram cem” que me bateram na quina.

FESTA LITERÁRIA

Também neste e no próximo mês saem novas traduções de “Apanhador nos Campos de Centeio” (Todavia), de J. D. Salinger, “O Jogo de Amarelinha” (Cia das Letras), de Júlio Cortázar, e “No Coração das Traves”, de Joseph Conrad (Ubu). Três motivos de festa. Três brindes justos.

A GENIALIDADE DO GORDO

Devora-se o segundo e último volume do “Livro de Jô: Uma Autobiografia Desautorizada” (Cia das Letras), escrito por Jô Soares e Matinas Suzuki Jr., como o primeiro: de um fôlego só. Os calhamaços podem ser lidos como imensos esquetes, pois rimos sem parar a cada página. Os autores entretecem a iluminada trajetória artística e pessoal de Jô com episódios do teatro, cinema e TV — a própria história desses meios — com grande fluidez e excelente apreensão dos fatos. O gordo promove um festival autocongratulatório e celebrante de amigos e ídolos (você sabia que ele foi ministro da eucaristia e oficiou a comunhão ao lado de Don Hélder Câmara? Eu não). Não há controversas, dilemas, angústias, brigas. É tudo de bom. Claro, não vamos encontrar nada disso em uma autobiografia, por mais “desautorizada” que seja. Mas Jô, ele e Chico Anysio, são ícones imensos. Honram cada letra do malbaratado substantivo Gênio.


PARA ADULTOS

“Chernobyl”, da HBO, é o melhor da TV em 2019, uma respiro de programa adulto na sufocante atmosfera púbere poluída de vampiros, zumbis, dragões e mil comediotas. Dracarys neles. A série retrata quase à perfeição a desgraça humana que o estado totalitário sempre poderá perpetrar em nome do “povo”. É de gelar o sangue. Os roteiros (tornados públicos) são baseados em “Vozes de Tchernóbil”, da Nobel Svetlana Aleksiévitch, publicada no Brasil pela Cia das Letras.

“Band of Brothers” (2001), também da HBO, novamente disponível na NET, é outra atração para gente grande. Revê-la hoje nos liberta temporariamente da prisão do presente eterno na qual nos meteram o Silicon Valley e seu deus Big Data. O mundo não começou ontem, nos recorda a série, produzida por Tom Hanks e Steven Spielberg, sobre a saga da brigada Easy Company, parte da 101ª Divisão Aerotransportada do Exército dos Estados Unidos, na Segunda Guerra Mundial. Também faz gelar o sangue, e quase literalmente, os dois episódios que retratam as batalhas no terrível inverno das Ardenas, na Bélgica.
 
HINTERLAND


Com “Wallander” já excluído do acervo, “Hinterland” é o que de melhor a Netflix tem para oferecer aos amantes do suspense policial. Acabo de rever as três curtas temporadas pela terceira vez. Me alegra que esta série, incrivelmente desprezada ou despercebida pelos críticos e divulgadores, seja a campeã de audiência do blog. Para alguma coisa a postagem, inteiramente grátis, serviu, leitora e leitor amigo. Faltou falar ali da música incidental de altíssimas qualidade, constituída por sutis ruídos eletrônicos e notas de piano que dosam ou ampliam o pathos da narrativa.



DYLAN INTEIRO

“Let me forget about today until tomorrow” (Deixe-me esquecer o hoje até amanhã), suplica Dylan em “Mr. Tambourine Man”, num dos bons momentos de “Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story”, que estrou no último dia 12 na Netflix. Martin Scorsese recria a turnê meio mambembe do artista em 1975, em caravana formada também por Joan Baez, Joni Mitchell,Roger McGuinn e o poeta Allen Ginsberg, com apresentações em pequenas casas e, às vezes, para públicos inusitados, incluindo um asilo de idosos e uma reserva indígena. Ótima pedida. Besteira contestar o Nobel de Literatura de Dylan, pensei, ao terminar de assistir ao documentário, há bastante poesia em sua obra, contando que deem o laurel também a Chico Buarque, atual Prêmio Camões, com mais merecimento. Por falar em Chico, 75 anos completos em 19/06, mais 17 de seus álbuns chegam nesta sexta-feira (21/06) ao streaming, incluindo os belíssimos “Francisco” (1987), “Chico Buarque” (1989), “ParaTodos” (1993), “Chico Buarque de Mangueira” (1997) e “Chico Buarque ao Vivo – Paris, Le Zenith”, de 1990.
 

A CONVERSA

A conversa civilizada é uma antiguidade na era do WhatsApp. Ler e ouvir com atenção são velharias. David Lynch, creio que foi ele, disse que nossa janela para o mundo vai se fechando enquanto envelhecemos. Deve ser assim, pois está uma falta de graça danada por aí, um tédio só num mundo esvaziado de inteligência, ideias e grande criação. Mas, bem sei, sou um desafinado, e nunca importou que os desafinados também têm coração, hahaha. 

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