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“Sting volta ao rock, reflete sobre a morte e chora por Tom Jobim”

Jobim Sting

Deu em O Globo esta entrevista do ex-Police a Eduardo Graça. Aqui vai o trecho em questão: 

(…)
Inclusive a namorar a música brasileira, com sua versão de “Insensatez”…

Que aconteceu com Tom (Jobim) sentado ao meu lado, no piano. Foi das últimas coisas que ele gravou. Ah, agora você me deixou emotivo (enxuga lágrimas). Que honra para mim! Tom sabia tudo de Villa-Lobos, de Chopin, do samba, da bossa nova. Mil desculpas pelo choro. É que me deu saudade do Tom. Ah, o tempo…

1 Siúves, 3 Antonios e 1 Jobim

Há muito esperava rever a fita. Meu tape em VHS sumiu no porão.

Apareceu no tubo da Google.

O média-metragem 3 Antonios e 1 Jobim, de 1993, realiza a bela ideia de um encontro entre Antonio Callado, Antonio Houaiss, Antonio Candido e Tom Jobim, no Rio de Janeiro.

O diretor Rodolfo Brandão e o produtor executivo Augusto Casé não vão se importar com o gesto da boa alma que o fez subir ao tubo, há coisa de seis meses. Até segunda-feira, apenas uns 3,7 mil o tinham visitado, we few, we happy few.

Os 4 Antonios se reúnem no museu Chácara do Céu, em Santa Tereza, e almoçam um macarrão preparado pelo chef Houaiss; passeiam pela cidade e proseiam risonha e francamente. Em cenas alternadas, cada um fala de si do que acha belo e bom.

Callado cobriu a Segunda Guerra e ouviu as bombas alemãs silvarem sobre Londres; ao voltar, se interessou pelos índios e enveredou sua obra Brasil a dentro.

Houaiss decanta Portinari e tasca a ditadura manuseando o próprio prontuário do SNI.

O acadêmico deixará sua receita de gafanhotos fritos no “azeite de oliveira”: “quando começar a estalar, você leva à boca: é um camarão delicioso! São João Batista comeu com muito prazer, pode estar certo.” Nosso grande tradutor do “Ulisses” também recomenda a farofa com bundinhas de formigas ao ponto.

Candido enaltece as utopias do século 18, liberalismo, socialismo, comunismo, o anarquismo, a fraternidade universal, a igualdade… “A utopia cria o homem superior. Faz você subir acima de você mesmo”, nos diz. Utopias já eram, lamenta.

Callado lembra a empregada portuguesa da família em Paris. A boa senhora se virava bem no francês mas implicava “com a mania” de chamarem água de “l’eau”. Não, água é água.

Candido louva a imigração. Cita com ternura a memória dum libanês gritando “Nagibêêê, vosso pai está te chamando você!”. “Três formas de tratamento numa frase simples”, diz Callado.

Depois cantarola a “Balada de Pedro Nava”, de Vinicius de Moraes: “Meu amigo Pedro Nava/ Em que navio embarcou: / A bordo do Westphalia/ Ou a bordo do Lidador? // Em que antárticas espumas/ Navega o navegador?”

Como inteligência e elegância fazem diferença. O comunismo de Houaiss, Callado e Candido soa idílico perto do esquerdismo rude e, diria o próprio Houaiss, ágrafo dos nossos dias.

Hoje só temos o Candido entre nós, mestre de mestres com seu “Formação da Literatura Brasileira – Momentos Decisivos”.

Os outros xarás se foram.

Ao revê-los, me dei conta de que a arte da conversa de fato estrebuchou. Não há mais reunião que não seja mediada pelo tédio de telinhas abertas a cada instante para alguém nos exibir fotocas e filmocos engraçadinhos. Não se discutem mais ideias soltas sobre a vida e arte, livros e discos e tal.

Tom: “O Brasil precisa merecer a bossa nova, casar com mulher bonita, ter filhos, passear no barquinho do Menescal… o barquinho vai, a tardinha cai… o barquinho a deslizar no macio azul do mar…”, ele recita. Ainda não merece, não.

Retenho o rigor do Houaiss, a honrar sua obra, sua fala meio sibilante, a prosa melodiosa do Callado, semelhante à do sempre suave Candido, com seu delicioso acento interiorano de mineiro e paulistano.

Tom, o mais jovem ali, traz o mundo luminoso, o amor ao Rio, a beleza da música que ele mesmo irradia ao falar de dicionários ou do taquaraçu de espinho que amava tanto.

Saudade.

O filme, de apenas 21 anos atrás, é retrato de certo Brasil (um retrato é um instante mumificado pela luz, eu digo) e de um idioma que se degradou no patoá das tribos infantilizadas.

Houaiss: “Todo homem, para ser homem no futuro, vai ser um viajor”.

Viajor sou.

No final, Jobim cita meu esquecido Cassiano Ricardo: “Chove e eu penso: haverá coisa mais viúva/ que a saudade possuir olhos de chuva/ e eu coração de girassol?”

Tom ainda diz que seu amigo Callado gosta mesmo é de Eliot e manda “April is the cruellest month, breeding/ Lilacs out of the dead land, mixing/ Memory and desire, stirring” — e vão-lhe seguindo: “Dull roots with spring rain. / Winter kept us warm, covering…”

O contubérnio (grazie, Houaiss) termina com os quatro num bar cantando um samba de Noel.


 

(Correções e uma atualização em 24/05/2014; nova atualização em 30/05/2014)