“Quando os fatos mudam, eu mudo — e o senhor, o que faz?”

Última coletânea de ensaios de Tony Judt lançada no Brasil
mostra que o historiador representou perfeitamente o espírito da liberdade

Judt“Jamais encontrei alguém que demonstrasse um compromisso maior com os fatos do que Tony”, escreve Jennifer Homans, viúva do historiador Tony Judt (1948-2010) e autora do prefácio da coletânea de ensaios lançada recentemente no Brasil pela Editora Objetiva.

Homans, ela própria historiadora, diz que esta frase teve a função de um verdadeiro “mantra” na vida e no trabalho do marido: “Quando os fatos mudam, eu mudo — e o senhor, o que faz”.

Para o leitor acostumado a acompanhar, nos textos de Judt, o curso paciente da argumentação, e se admira com a clareza, a coerência e a honestidade intelectual que norteiam esses escritos, o “mantra” parece inteiramente realizado, se o entendermos com um valor, um fundamento para a existência.

Quando os fatos mudam reúne ensaios e alguns textos curtos, incluindo uns poucos obituários, publicados de 1995 ao ano da morte do autor, vítima de esclerose lateral amiotrófica.

Estes ensaios retomam alguns de seus temas recorrentes: a necessidade de Judt3levarmos o passado em conta e, por outro lado, o perigo de esquecê-lo; a defesa da liberdade e da social-democracia europeia; a demolição dos mitos do marxismo; sua admiração por Eric Hobsbawm (reservada), Albert Camus, Raymond Aron e Leszek Kołakowski (sem reservas, nos três casos); a condenação da política israelense em relação aos assentamentos nos territórios ocupados desde 1967 e a refutação dos “apologistas pusilânimes que compõem a claque americana de Israel”; além do seu grande amor às ferrovias e estações (“catedrais da vida moderna”).

Integra esta coletânea a última palestra de Judt, apresentada apenas alguns meses antes de sua morte. Como se pode ver no vídeo da conferência, Judt não se deixou paralisar pela proximidade da morte; continuou a ler, pensar e escrever até que a doença o impedisse completamente. A ELA o pegou , ao que aparece, poucos anos depois de ele ter enfrentado um câncer.

Este livro é mais uma parte do seu legado precioso e indispensável. Nascido e educado na Capa_O peso da responsabilidade.aiInglaterra, ele se enraizou no meio acadêmico dos EUA, mas estudou e ensinou na França e no Leste Europeu. Familiarizou-se com os idiomas desses países, deixou uma grande obra ensaística e sua obra magna, “Pós-guerra: uma História da Europa desde 1945”, já recomenda pelo JS.

Penso que Judt, como historiador e intelectual, representou com grande brilho a alta tradição de educação e cosmopolitismo dos judeus europeus.

Judt1 - CopiaMas foi, também, essencialmente, um espírito da liberdade, aplicando a ele o que seu colega britânico Timothy Garton Ash diz sobre o jornalista Chistopher Hitchens e o filósofo Isiah Berlin em um ensaio recente, em que procura demostrar que os dois escritores incorporaram, cada um a seu modo, os “dois espíritos da liberdade”: bravura e tolerância.

Ash disserta sobre a gênese de uma e outra corrente na historia das ideias, que filia a Martinho Lutero e Erasmo de Roterdã. Creio que Judt se enquadrou em ambas. Foi alguém que exerceu plenamente a definição, citada por Ash, de “espírito da liberdade” feita pelo juiz e filósofo norte-americano Learned Hand, em Capa O mal ronda a terra.indddiscurso pronunciado em 1944, no qual defendia o envolvimento dos EUA na II Guerra Mundial, definição que, diga-se de passagem, jamais seria compreendida pela esquerda dogmática:

“Qual é então o espírito de liberdade? Eu não posso defini-lo; eu só posso lhes dizer de minha própria fé. O espírito da liberdade é o espírito que não é tão convicto de que está certo; o espírito da liberdade é o espírito que procura compreender as mentes de outros homens e mulheres; o espírito da liberdade é o espírito que pesa a si próprio considerando seus interesses e preconceitos”.

Um brinde a Schnaiderman, outro a Akhmátova

Boris e Anna

Remendo um post antigo, que vai abaixo, para propor ao leitor um brinde à memória de Boris Schnaiderman, escritor, tradutor e professor do curso de Língua e Literatura Russa da USP, morto ontem à noite, em São Paulo.

Schnaiderman nasceu na Ucrânia em 1917 e chegou ao Brasil com a família aos oito anos de idade. O retrato acima é do escrito quando soldado da Força Expedicionária Brasileira, na Segunda Guerra Mundial.

O país deve ao professor —como a outros emigrantes, como a Paulo Rónai— nada menos que a abertura dos horizontes da cultura que adotaram, que é o mesmo que dizer que ele generosamente enriqueceu a vida de leitores como o autor deste jornal.

Tive a alegria de conhecer um pouco da obra de grandes poetas russos por meio das traduções feitas por ele conjuntamente com o irmãos Haroldo e Augusto e Campos.

Schnaiderman, cito o “Estadão”, “verteu para o português importantes obras de autores como Dostoievski, Tolstoi, Chekhov, Máximo Gorki, Isaac Babel, Boris Pasternak, Pushkin e Maiakovski. E atuou como uma espécie de consultor informal de editoras, como quando, sugeriu que a 34 lançasse Contos de Kolimá, brutal relato em vários volumes de Varlam Chalámov sobre a vida no gulag”.

A motivo principal da nota era dizer uma palavra sobre a poeta Ana Akhmátova, de que tanto gosto.

O POST ANTIGO E NOVO POEMA TRANSCRITO

Lendo “Pós-Guerra – Uma História da Europa desde 1945”, de Tony Judt (Objetiva, 2007), deparo este trecho (pág. 205) no final do capítulo sobre as desgraças perpetradas pelo stalinismo, entre as quais os expurgos e os célebres julgamentos fabricados:

“Os principais inimigos [do “povo”] eram supostamente os camponeses e os burgueses. Mas, na prática, os intelectuais costumavam ser o alvo mais fácil, conforme tinham sido para os nazistas. O ataque venenoso desferido por Andrei Zdanov contra Anna Akhmatova – “freira ou meretriz, ou melhor, freira e meretriz”, capaz de combinar prostituição e oração. A poesia de Akhmatova está totalmente distante do povo” – (…)”.

Lembrei-me do meu querido “Nova Antologia Poesia Russa Moderna” (5ª edição, Brasiliense, 1987), que reúne traduções dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.

Aproveito para erguer no blog um brinde à poeta, cujo nome os autores da antologia grafam Ana Akhmátova, e transcrever aqui seu “Dístico”:

Que outros me louvem – seu louvor é cinzas.
Que me reproves – teu rancor, alvíssaras.

DVUSTÍCHIE

Ot druguikh mnié khvalá – tchto Zolá,
Ot tiebiá i khulá – pokhvalá”.

1931

(Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

DE VOLTA

No mesmo livro, na página seguinte, com tradução de Boris e Haroldo, aparece este

Do Ciclo Os Mistérios do Ofício

Não me importa o exército das odes,
Nem o jogo torneado da elegia.
Nos versos, tudo é fora de propósito,
Não como entre as pessoas, — me dizia.

Saibam vocês, o verso, é do monturo
Que ele se alenta, sem vexame disso,
Como um dente-de-leão pegando ao muro,
Anserina, bardana, erva-de-lixo.

Grito de zanga, um travo de alcatrão,
Um bolor misterioso que esverdinha…
E eis o verso, furor e mansidão,
Para alegria de vocês e minha.

1940

Marxismo, religião secular

Quadrado blogDo ensaio  “Adeus a Tudo Isso? Leszek Kołakowski  e o Legado Marxista”.

 

Tony Judt (1948-2010), grande historiador britânico radicado nos EUA, autor do imperdível “Pós-Guerra”, concorda aqui com o filósofo polonês ao dizer: “Kołakowski tem razão, certamente: o marxismo político é acima de tudo uma religião secular.”

Como sabe todo mundo que tenha lido um pouco, os jovens Marx e Engels converteram o determinismo hegeliano, inserindo uma causalidade material na “razão” histórica, o que foi aplicado a ferro e fogo por Lenin e outros herdeiros inspirados na doutrina.

Leszek Kołakowsk (1927-2009) é ignorado no Brasil, onde a crítica mais sólida à tradição intelectual marxista é banida das bibliografias dos cursos de humanas.

Proibido e perseguido na Polônia, o filósofo se  tornou “fellow” do All Souls College de Oxford, em 1970. Foi uma celebridade no mundo acadêmico europeu e norte-americano.

Segundo Judt, era o mais sofisticado filósofo marxista de sua geração até abandonar seu país, já como dissidente.

Judt avalia a obra mais ambiciosa de Kołakowski sobre o tema, “Principais Correntes do Marxismo”, cuja maior originalidade é a perspectiva polonesa: “Isso provavelmente explica a ênfase de sua obra no marxismo enquanto escatologia – ‘uma variação moderna das expectativas apocalípticas que têm sido contínuas na história europeia'”.

A crítica ao marxismo fundamentada por um intelectual com uma formação de primeira grandeza, que viveu dentro do comunismo, é algo insuportável para os ouvidos de “scholars” ocidentais.

“A aplicação da dialética para perturbar mentes e alquebrar corpos normalmente é esquecida pelos estudiosos ocidentais do marxismo”, diz Judt, ao comentar as provocações da obra do polonês.

No final do ensaio Judt se pergunta se as gerações de radicais da nova esquerda teriam em conta os crimes e fracassos de seus predecessores comunistas. Parece que não. “A história registra que não há nada mais poderoso do que uma fantasia cujo momento chegou”, ele diz.

Citações do livro “Reflexões sobre um Século Esquecido – 1901-2000”, Objetiva, 2008.