Saiu!

Para quem acompanhou no blog minhas crônicas de viagem e os capítulos do livro que adiantei em vários posts, aí está: acabo de parir o rebento, que se põe a chorar e a clamar por leitores como você.

O livro sai por meio do KDP, a ferramenta de autoedição da Amazon, disponível por enquanto apenas para os Kindles da marca.

Turismo cultural e literário na Europa – 65 Destinos: Propostas, Relatos e Diários de Viagem, o nome do livro, do meu livro de viagem, uma razão de ser deste blog.

Clique na imagem acima para chegar à página da Amazon, ou aqui, para ler uma apresentação.

Como sabe quem lê nessas caixinhas, o interessado pode baixar uma amostra grátis das obras em formato eletrônico, antes de se decidir pela compra.

Esta edição reúne minhas pesquisas, anotações, leituras e reflexões sobre o que chamo, humilde e modestamente, a arte da viagem, de 2005 a 2019.

Os textos mais recentes são crônicas de Copenhague, Berlim e Trieste, que adiantei aqui e depois atualizei e ampliei para entrar no livro.

Abaixo, compilo os destinos que surgem ao longo do trabalho em crônicas, ideias, diários e até poemas!

Predominam, como se pode ver, trajetos pela Espanha, Itália e Portugal. Mas as referências literárias, artísticas e históricas se espalham pelo continente.

Diário apaixonado de Trieste

Em minha opinião esta cidade é existencialista, e sua finalidade é ser ela mesma.”
 — Jan Morris

Mesa do Caffè Stella Polare com o “Il Piccolo” de 18/03/2019. Foto: Antônio Siúves

A ignorância é o pior dos guias.

Como sempre faço antes de viajar, li e vi tudo que podia sobre Trieste.

Ler, pesquisar, anotar é dar chance à sorte, abrir caminho ao acaso.  

Ao regressar, me sentia perfeitamente ignorante, mas estimulado, a fim de costurar os retalhos do pouco que pude ver e sentir numa cidade rica e complexa, que jamais atrairá multidões de turistas.

Eu me dava conta de que haveria de viajar a Trieste outras vezes, para um dia, quem sabe, me tornar uma espécie de aluno aplicado e tentar o vestibular.

Cidade mercantil e jardim

Mas, por hora, estou sentado no Caffé Stella Polare, ao lado da Igreja de Santo Antônio milagreiro (Divo Antonio Taumaturgo), diante do majestoso Canal Grande.

Minha xícara de café com leite e o croissant al cioccolato estão servidos.

Hoje é segunda-feira, 18 de março de 2019. Finalmente, abro a edição de “Il Piccolo”, jornal da cidade fundado em 1881, que havia comprado meia hora atrás na praça San Giovanni.


A Piazza dell’Unità vista do Molo Audace, em Trieste, Itália. Foto: Gal Botelho

A manchete, ao estilo meio cifrado dos jornais italianos, me entra no ouvido como som de carrilhões:

“Trieste da 3 secoli/ Porto Franco/ attira gli stranieri” (Trieste há 3 séculos/ Porto Livre/ Atrai estrangeiros”. 

Hosana nas alturas, pensei. Tinha me escapado que estaria aqui, agora, em data tão significativa para Trieste.

Alegra-me o acaso.

Trieste é Trieste graças à abertura do seu porto pelo imperador austríaco Carlo 6º, em 1719.

O status garantiu ao lugar privilégios fiscais e certa autonomia que estimularam seu comércio e a geração de riqueza.

A cidade era protetorado austríaco desde 1382, mas nasce, então, para valer, e começa atrair a gente estrangeira — alemã, eslava, grega, armênia, hebreia, grega — que irá constituir sua herança material e espiritual.

Uma nova cidade é construída no chamado “Borgo Teresiano”, à beira do Adriático. A filha de Carlos 6º, Maria Teresa, comanda o canteiro de obras.

Escavam o Canal Grande e aterram salinas para erguer um bairro em estilo neoclássico com toques barrocos.

O desenho coube a “antigos egressos da Academia de Belas Artes de Viena”, conta Jan Morris na minha tradução espanhola (2017) de “Trieste and the Meaning of Nowhere” (Trieste e o sentido de nenhum lugar), principal obra de referência sobre a cidade no gênero literatura de viagem.

Os arquitetos “se propuseram a criar algo original, uma cidade mercantil que também fosse uma cidade jardim, plena de verde e fontes, ao mesmo tempo que obedeciam as leis imperiais relativas a saneamento, segurança e proporcionalidade”, complementa.

Caderno de “Il Piccolo” sobre os 300 anos do Porto Livre. Foto: Antônio Siúves

Trieste torna-se, desde então, porto avançado de Viena; logo, porto de grande calado e um dos maiores e mais estratégicos para o comércio internacional, à época.

Cidade de Apolo e Mercúrio

Trieste, lembra Claudio Magris — celebrado escritor e professor de literatura alemã, em artigo para o caderno especial desta edição de “Il Piccolo” — é a “cidade de Apolo e Mercúrio, poesia e comércio organicamente inseparáveis, uma alma dupla que não se poderá cindir.”

Assim como o comércio e a finança, a música, a poesia e a literatura, e, já no século 20, a psicanálise, agregariam valor e civilização à cidade recostada na Eslovênia e Croácia, e a um estirão de Veneza — província mítica desta mesma região, o Friuli-Venezia Giulia.

“A Trieste nascida com o porto livre é cidade assimiladora e cosmopolita. Cidade de iniciativa vital, de aventura também fraudulenta, de companhias marítimas que comerciam em vários continentes, mudam de nome e proprietário, falem e renascem; bem mais tarde [será a] cidade das grandes companhias de seguro”, resume Magris no artigo.  

A inelutável decadência desata com a Grande Guerra e a implosão do império austro-húngaro.

As províncias mais a leste vão formar o Reino da Iugoslávia e Trieste é incorporada ao Reino da Itália — para se tornar definitivamente italiana em 1945.

Trieste hoje é rica, mas, por certo, distante anos-luz da cidade que experimentou uma era miraculosa e manteve o aplomb de potência centro-europeia, da “mitteleuropa”.

A Trieste do século 21 aposta no avanço da globalização (na contramão do nacionalismo italiano em voga) e mira o sucesso de Singapura, Hong Kong, Dubai, Duisburg (o porto seco alemão é o maior da Europa).

“Nascida e renascida, separada por 300 anos. Em 2019, observatórios internacionais atribuem ao porto de Trieste a inédita possibilidade de um reavivamento oferecido pelas voltas da geopolítica mundial.”

“Uma coincidência bizarra na história: exatamente três séculos atrás, em 1719, o imperador austríaco fez de uma vila de pescadores a porta de entrada dos bens do Levante para a Europa Central.”

Manifestação em defesa dos imigrantes e das mulheres. Piazza dell’Unità, Trieste.

Os dois trechos acima estão na abertura da entrevista do “Piccolo” com o atual presidente da Autoridade Portuária de Trieste, Zeno D’Agostino, a quem caberá fazer acontecer as oportunidades que surgem.

“O nosso futuro se joga na economia azul e na manufatura”, diz o executivo ao jornal.

A economia azul se refere à exploração sustentável do ambiente marinho.

“…a minha alma está em Trieste…”

Ainda nos tempos áureos, no ano de 1902, desembarca na estação central de Trieste um jovem escritor irlandês em formação chamado James Augustine Aloysius Joyce (1882-1941).

Aqui viveria, aos trancos e barrancos, com a mulher, Nora Barnacle, e o irmão mais novo, Stanislaus, ou manteria laços com esta cidade até o começo dos anos 1920.

Depois de “O Retrato do Artista Quando Jovem”, de “Dublinenses” e, principalmente, do “Ulisses”, a literatura mundial jamais será a mesma.

Essas obras, além da peça “Exilados”, foram escritas ou, no caso do “Ulisses”, esboçadas em Trieste, onde Joyce dava aulas na Berlitz Scholl of Languages (Via San Nicolò 32), perto do café onde leio “Il Piccolo”.

Joyce é festejado logo ali, neste mesmo Canal Grande, com estátua erguida no centenário de seu nascimento, em 2004, e com um busto no Jardim Público, na mesma ocasião.

Uma placa ao pé da figura de bronze do escritor cita frase de uma carta sua a Nora, de 27 de outubro de 1909:

“…la mia anima è a Trieste…” (“…a minha alma está em Trieste…”).

Joyce foi assíduo deste Stella Polare. Aqui encontrava amigos como o escritor Italo Svevo para aperitivos e tertúlias.

Conforme o folheto que eu trouxe do minúsculo e simpático Museu Joyce Sveviano, foi neste café, em 1907 e 1808, que Joyce leu para Stanislaus cada capítulo do “Retrato do Artista Quando Jovem”, tão logo o terminava.

Joyce apreciava os cafés da cidade. Os de Roma, onde morou por breve período, não se comparavam aos de Trieste, ele dizia.

Colaborou no jornal da cidade, então chamado “Il Piccolo della Sera”.

Escrevia em ótimo italiano e dominava o dialeto triestino.

Em “Microcosmos” (Companhia das Letras, 1997), Claudio Magris conta que em carta a Svevo, de 5 de janeiro de 1921, Joyce se refere ao seu livro mais famoso nos seguintes termos:

Ulisse ossia Sua mare grega” (“Ulisses, ou seja, a puta que o pariu”. “Tu mare grega” sendo um xingamento muito triestino.

O irlandês gostava de ir a igrejas, adorava os rituais religiosos e amava o bel canto, tão presente em seus livros.

Também era chegado aos lupanares instalados junto ao mar, na città vecchia, particularmente a uma casa de tolerância tratada por ele e Svevo de “Il metro cubo” (“O metro cúbico”.

Frequentemente tomava porres e precisava ser levado em casa nos ombros de algum companheiro de farra.

O pouco que ganhava ia da mão para boca.

Pobre Nora. Mulher e filhos provaram o pão que o diabo amassou. Significativamente, escreveu Joyce:

And Trieste, ah Trieste ate my liver” (“E Trieste, ah Trieste, Triste comeu meu fígado”).

Trieste cultiva seu passado literário e artístico com afinco.

Em toda a cidade encontramos placas alusivas a essa história, estátuas e monumentos dedicados a artistas e intelectuais.

Existem itinerários de Joyce, Svevo, do poeta e romancista Umberto Saba e de Rainer Maria Rilke.

Rilke, natural de praga, escreveu no castelo de Duíno parte das clássicas “Elegias”, pináculo da poesia em língua alemã.

Duíno se incrusta nos altos de um platô, diante do mar, no povoado homônimo, a meia hora de carro do centro de Trieste, rumo norte.

Aroma irresistível de café

“Trieste sempre foi uma cidade de bares, uma cidade de restaurantes (ainda que dificilmente um paraíso gastronômico) e, sobretudo, uma cidade de cafés”, diz Jan Morris.

“Já em 1830 haviam sido concedidas mais de uma centena de licenças a cafés, e alguns deles ainda sobrevivem: os Cafés Históricos de Trieste, como agora são chamados pelos operadores de turismo”, relata.

“O Tommaseo, o degli Spechi [dos espelhos, belíssimo] o Tergesteo, o Stella Polare, o San Marco, todos datam dos tempos dos Habsburgo e mantêm a tradição de alta burguesa”, acrescenta.

Há anos li na revista “The Economist” artigo sobre o melhor café da Europa. Depois de muito peregrinar, o felizardo autor do texto concluía que a honra sem qualquer dúvida cabia a Trieste.

Para um cafeinômano como o que vos fala, acendeu-se ali uma luz que nunca se apagou.

O aroma da rubiácea nos tenta nas ruas de Trieste como o canto das sereias tentou o Ulisses homérico, sem que precisemos nos mandar amarrar no mastro do navio.

Scipio Slataper, outro cultuado autor triestino imagina Trieste despertando “entre uma cesta de limões e um saco de grãos de café”, em “Il mio Carso”.

(Trieste está sitiada entre o Adriático e um imenso altiplano de rocha calcária que os geólogos denominam Karst; os italianos, Carso; os eslovenos, Kras e os croatas, krs.)

Esta cidade é sede da Illy, marca italiana de café (e das máquinas de café) por excelência.

Os Illy são uma de suas famílias mais afortunadas e tradicionais, e um dos pilares da economia local.

Riccardo Illy, a quem Morris distingue no livro pela “refinada elegância”, foi prefeito de Trieste de 1993 a 2001.

San Marco, um “café de verdade”

O Stella Polare, devo admitir, mesmo escrevendo daqui, tem seu encanto, mas não é o café mais atraente de Trieste, nem o mais fiel à própria tradição.

Vista do interior do salão principal do Caffè San Marco, em Trieste. Foto: Antônio Siúves

A deferência cabe ao San Marco, que fecha às segundas-feiras e está a menos de dez minutos a pé daqui.

A fama de “democrático”, para início de conversa, é mais que apropriada ao lugar.

Executivos em ternos de corte impecável, estudantes, professores, turistas e a variada freguesia cruzam-se e compartilham os espaços de dois venerandos salões que ostentam uma velha classe vienense.

Já estive três vezes ali, duas ainda bem cedo, para a primeira xícara de latte. Vivesse em Trieste, lá bateria o ponto diariamente.

Você pode passar horas no San Marco, a prosear, ler, escrever, talvez namorar as estantes da livraria entre os dois salões da casa.

Trago na sacola, por exemplo, meu exemplar de “La Giornalaia” (“A jornaleira”), da série policial com o detetive Proteo Laurenti. Seu autor é o alemão Veit Heinichen, que labutou em Trieste como livreiro.

Trieste, por sinal, resiste aos tempos, aos modismos e aos imperativos da tecnologia nos costumes.

Ainda é uma cidade de livrarias e há sebos, inclusive móveis, por toda parte.

Jornais impressos, pelo que se percebe no movimento dos cafés e nas ruas, têm assegurada boa sobrevida por aqui.

Claudio Magris, grande habitué do San Marco, dedica à casa o primeiro capítulo de seu “Microcosmos”.

“O San Marco é um café de verdade, periferia da história marcada pela fidelidade conservadora e pelo pluralismo liberal de seus habitués”, define o professor.

“O café é uma academia platônica, dizia nos primórdios do século Hermann Bahr [escritor e dramaturgo austríaco] — que também afirmava sentir-se bem em Trieste, porque naquela cidade tinha a impressão de não estar em lugar algum. Nessa academia não se ensina nada, mas apreendem-se a sociabilidade e o desencanto”, diz uma passagem do livro.

“Pseudocafés são aqueles em que acampa uma única tribo, pouco importa se de senhoras de bem, de rapazes ambiciosos, de grupos alternativos ou de intelectuais atualizados. Toda endogamia é asfixiante (..)”, ele diz.

Magris também compara os frequentadores do café a “náufragos agarrados às próprias mesas”.

Mais à frente, cita um célebre habitué do San Marco nostálgico da civilização Habsburgo:

“Se ainda houvesse o Império, tudo teria ficado igual, o mundo teria permanecido um Café San Marco, e acham pouco? É só olhar para fora!”.

“É só olhar para fora!”, repito comigo, já na segunda xícara de café no Stella Polare.

“La fora” vejo o Brasil de Bolsonaro e a Itália de Matteo Salvini, e tenho vontade de me agarrar feito náufrago a esta mesa do Stella Polare.

Queixo caído

Hoje é segunda-feira, repito. Cheguei a Trieste anteontem, sábado, em voo de Munique.

Malas guardadas, era ver o mar.

Trieste pode não encantar quem a vê da janela do trem que traz o visitante do aeroporto, ou quem percebe a falta de originalidade de seus subúrbios.

Mas contemplá-la pela primeira vez desde o passeio marítimo, como fizemos no sábado, fez meu queixo despencar.

Um magnífico conjunto arquitetônico, formado por prédios bem conservados desde as antigas glórias, reluzia diante do Adriático, bem como a abertura cósmica que representa a Piazza dell’Unità d’Italia — um dos corações de Trieste.

“A praça aberta ao mar foi claramente modelada na San Marco veneziana e (cochiche) é ainda mais deslumbrante”, arriscou-se Helen Pickles no jornal britânico “The Telegraph”.

Também anotei — e conferi — as impressões da “destination expert” do “Telegraph” ao caminhar por Trieste e observar a “sequência gloriosa de influências arquitetônicas e étnicas” (eslava, germânica, latina):

“No espaço de 15 minutos, encontrei igrejas ortodoxas sérvias, greco-ortodoxas e evangelistas helvéticas, enquanto a sinagoga da cidade é uma das maiores da Europa”.


Pôr do sol observado do Molo Audace, em Trieste. Foto: Antônio Siúves

O Molo Audace, diante da Piazza dell’Unittà, atrai muita gente (os turistas quase sempre são italianos) para apreciar o pôr do sol — um dos mais belos da Terra, segundo muita gente boa e viajada.

Depois de um ou dois splitz — os drinque à base de Aperol, de cor vermelha ou alaranjada, tão ao gosto de Trieste — no degli Spechi, café-ancoradouro refinado e acessível para quem quer curtir a praça de camarote, você estará em ponto de bala para ver o ocaso no Molo Audace — um píer de 200 metros mar a dentro construído em 1751.

Ao contemplar o astro mergulhar no horizonte entre laranjas ígneos e cinzas que anunciam trevas, pensei em aplaudi-lo, conforme faz há décadas o pessoal do Arpoador, no Rio de Janeiro. Mas, sóbrio, me contive.

Cidade melancólica

A baia de Muggia vista da janela do barco Delfino Verde. Foto: Antônio Siúves

Da janela do barco em direção a Muggia, pequena e adorável província ao sul de Trieste, pensei na ideia de melancolia, tão associada a Trieste.

Havia apenas eu e minha mulher a bordo do Delfino Verde numa manhã cinzenta, gelada e que prenunciava a chegada do La Bora, o temível vento adriático que levou Stendhal — ele trabalhou aqui como funcionário do governo francês — a escrever que lhe dava “reumatismo nas entranhas”

“A melancolia é a principal expressão de Trieste”, diz Jan Morris, um ex-soldado britânico que nos anos 1970 completou sua mudança de sexo. Até então assinava James Morris.

“Em quase tudo que li acerca desta cidade, ao longo dos séculos os escritores evocam sua melancolia”, ela observa no livro.

A escritora lembra que Aristóteles propagou a crença de que os homes interessantes possuíam uma veia melancólica.

Marcel Proust, gênio francês autor do clássico “Em Busca do Tempo Perdido”, nunca esteve na cidade, mas faz seu narrador, Marcel, considerar Trieste um “lugar delicioso onde a gente é pensativa, o por do sol é dourado e o sinos da igreja soam melancólicos”.

Zeno Cosini, herói de “A Consciência de Zeno”, de Italo Svevo (pseudônimo de Aaron Ettore Schimit), e maior obra literária de Trieste, é um doente imaginário, obcecado com psicanálise e dado a constantes crises de melancolia.

Aliás, o leitor do livro de Svevo que sai do San Marco para o Jardim Público (Giardino Pubblico Muzio de Tommasini), como nos sugere Magris, não pode deixar de pensar nos encontros furtivos e fingidos de Zeno com Carla, sua amante aprendiz de canto de dezesseis anos.

Fingidos porque ela só queria permanecer alguns minutos sentadas ao lado do amante, como se eles não se conhecessem. Um capricho a que Zeno cede depois de muito relutar.

Miramare

Castelo e Miramare, Trieste. Foto: Antônio Siúves

Melancólico sem retoque é o lindamente singelo castelo de Miramare, postado contra o mar a nordeste de Trieste, inaugurado em 1860.

Estabelecido em um parque magnífico e muito bem cuidado, a joia que é Miramare foi construída a mando de Maximiliano de Habsburgo, arquiduque da Áustria, para presentear a esposa amada, Carlota.

O casal jamais desfrutaria dos luxuosos aposentos do castelo e das maravilhas do recanto onde existe.

Envolvido num ardil francês, Maximiliano embarca de mala e cuia para o México, onde ia liderar na América Latina um suposto governo de união de potências europeias.

Logo a tragédia. O sensível Maximiliano cai em mãos do bando revolucionário de Benito Juárez, é posto diante de um paredão e fuzilado.

Carlota, poupada, regressa à Europa, para terminar seus dias em desvario.

O significado de nenhuma parte

Jan Morris, hoje aos 92 anos, tirou da passagem já citada de Hermann Bahr um leitmotiv para seu livro, cujo epígrafe é um verso de Wallace Stevens:

Eu era o mundo em que andei, e o que vi,
Escutei e senti brotava de mim mesmo.”

A obra revela um amor profundamente enraizado por Trieste. A respeito do título ela diz, já nas últimas páginas:

o significado de nenhuma parte, esta utopia “meio real, meio desejante, pode ser o que fez um escritor afirmar que “a melhor forma de patriotismo era um espírito generoso de amor”.

Creio que é o máximo que um apaixonado visitante de Trieste pode aspirar, ao querer voltar a esta cidade fronteiriça, encruzilhada de caminhos e civilizações que se preserva dos modismos e neuroses de uma cultura e um mundo ordenados pelo Vale do Silício.

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Vizinhança da Gernersgade, na área de Sankt Pauls, Copenhague. Foto: Antônio Siúves



ALMA ROÍDA

Ainda tenho a alma roída pelo frio de Copenhague.

Roída também pelo vento sem tréguas dum fim de semana de março.

Alugamos um apartamento em Sankt Pauls, a meia hora de caminhada até Nyhavn, a área central da cidade. Os amigos, mais jovens, fizeram questão de ir a pé a toda parte, na intempérie, a testar minhas forças. Aguentei firme, mais ou menos.

CHOQUE E “RU-GA”

É sobretudo a pé que conhecemos as cidades e a maneira como a vida se organiza e se distingue no seu espaço e tempo.

Estive em outras cidades ricas de mesmo porte, ótimas para morar.

Ainda assim, Copenhague aplica em quem a conhece uma boa descarga de civilização.

Percebo a capital dinamarquesa como a conjugação ótima entre passado e presente projetada no futuro.

A palavra dinamarquesa Hygge (pronuncia-se RU-GA) é intraduzível.

Expressa bem, a meu ver, o estado de arte da cultura e da vida social de Copenhague.

A cidade conforma no seu cotidiano noções enraizadas de elegância, higiene, conforto e bem-estar, ou, se quisermos, de vida plena — ou que pode ser plena.

Está aberta ao mundo ma non troppo.

A riqueza foi convertida em meios de educação, transmissão cultural e aprimoramento constante da sociedade.

Sua atual prefeitura aposta que a cidade será neutra em carbono já em 2025, e não dá para duvidar.

Talvez por isso sua gente sempre se coloque entre as primeiras no Relatório Mundial da Felicidade, divulgado pela ONU.

HAVNERINGEN

A vida é cara para chuchu em København.

Um copo de vinho no mercado de Toverhallerne pode custar o equivalente a 10 euros, ou quase 50 pratas.  

Coroas dinamarquesas dissolvem como ácido reais depauperados.

As pessoas são muito educadas, amáveis e prestativas, ainda que, naturalmente, distantes.

A segurança nunca é ostensiva e praticamente não se nota a presença de policiais nas ruas.

Não se ouvem buzinas e bicicletas imperam como gaivotas em toda a ilha.

Trecho de Havneringen. Foto: Antônio Siúves

Um circuito (ou pista) portuário (Havneringen) com ciclovia e via para pedestre de 13 km de extensão (subseções de 2,4 km e 7 km) foi concluído há alguns anos.

Não há como um brasileiro não se sentir em outro planeta estando ali, ainda mais se conta com as graças do sol por dez minutos.

Marco com informações da Havneringen. Foto: Antônio Siúves

Um dos marcos da pista é a ponte para pedestres e ciclistas Cirkebroen, entre Christianhavn e a área de Applebys Plads.

A estrutura formada por cinco plataformas circulares foi desenhada pelo artista dinamarquês Olafur Eliasson, bem conhecido no Brasil.

Duas de suas obras podem ser vistas há tempos no Inhotim, em Brumadinho:

A instalação com uma fonte iluminada por luz estroboscópica contida num iglu de fibra de vidro chamada “By Means of a Sudden Intuitive Realization”, e “Viewing Machine”, o enorme caleidoscópio em aço inoxidável.

BLOX

Estivemos no Blox, o edifício com estrutura retangular revestido de vidro escuro que é um centro de arquitetura e muito mais. O projeto foi encomendado pela OMA Ellen van Loon ao escritório do célebre arquiteto holandês Rem Koolhaas.

Para o “The Guardian” o lugar aspira a ser uma cidade sob um único teto com museu, escritórios, academia de ginástica, restaurante e moradias. O café que se projeta sobre o canal estava fechado.

Era domingo e apenas a academia funcionava.

Não havia porteiro ou vigilante para barrar a curiosidade de visitantes estrangeiros.

“O lugar todo é um microcosmo do espírito dinamarquês e sua inventividade urbana”, definiu apropriadamente o diário inglês.

Vista do Blox, edifício projetado pelo arquiteto holandês Rem Koolhaas. Foto: Antônio Siúves

DIAMANTE NEGRO

A linda Biblioteca Real da Dinamarca, conhecida como Diamante Negro, é uma aula magna revigorante de arquitetura arrojada, funcionalidade, valor social conferido à educação e respeito ao patrimônio histórico.

O conjunto abriga um acervo de publicações que começa no século 17 e departamentos da Universidade de Copenhague.

Na parte moderna (Diamante Negro) havia muita gente num sábado à tarde. Estudantes circulavam pelas salas e no simpático café.

Um corredor com paredes de vidro claro, que se acede por escada rolante, tem o teto decorado com belos afrescos.

A passagem atravessa por sobre extensa via urbana para juntar o edifício moderno, de 2006, ao prédio centenário da antiga biblioteca. Li alhures que Lenin labutou em suas mesas pelos idos de 1910.

CARRO DE SOL

Revi por acaso, no Museu Nacional da Dinamarca (obrigatório para quem se interessas pela civilização viking) a preciosa joia de puro deleite que é o carro solar de Trundholm, artefato de 1.400 a.C.

A delicada peça havia me encantado sete anos atrás, ao encontrá-la na exposição “Bronze”, organizada pela Academia Real de Londres.

Carro solar de Trundholm, artefato datado de 1.400 a.C. Foto: Antônio Siúves

Encontrado por fazendeiros dinamarqueses em 1902, quando aravam a terra, o objeto representa o deus Sol, ou Sunna, na mitologia nórdica. Nele, conforme o mito, um cavalo puxa diariamente o sol de leste a oeste.

MATISSE E OLIVETTI

Já o Museu do Desenho é um compêndio sobre como imaginação, arte e técnica forjaram a aparência e o uso dos objetos desde o modernismo.

O acervo reúne exemplares históricos de cadeiras e poltronas incorporadas ao cotidiano universal (ovo, Eannes etc.) a motores elétricos, de roupas e sapatos a móveis, de utensílios de cozinha a imagens icônicas da arquitetura moderna e pós-moderna.

Verto uma lágrima diante de “minha” Olivetti Lettera 22 exposta.

Com uma igualzinha atravessei os últimos anos da adolescência perseguido pela poesia e me iniciei no jornalismo.

Obra de Henri Matisse no Museo do Desenho, em Copenhague. Foto: Antônio Siúves

Quase verto outra ao entrar na sala dedicada a tapeçarias e colagens de Matisse. Comparo estas à densidade da música de João Gilberto, na qual a aparente simplicidade das formas e a escolha das cores escondem um longo caminho percorrido na história da arte.

Me lembrei do ensaio de T.J. Clark publicado na “Serrote” #18. No resumo que encabeça o texto diz-se que “O Matisse das colagens dramatiza o conflito entre pintura e decoração que marca as relações dos ideais modernistas com o espectador”. Na mosca.

NO REINO DA LEGO

Fachada da loja Lego, em Copenhague. Foto: Antônio Siúves

A Dinamarca e Copenhague são o parque Tivoli, Hans Christian Andersen (“O Patinho Feio”,”A Pequena Sereia”, “A Roupa Nova do Rei” etc.), Søren Kierkegaard, mas também o reino da Lego.

Na loja da marca, em uma das ruas fechadas para pedestres no centro, você encontra kits exclusivos para presentear seu pimpolho.

Meninos que viajaram a outros planetas, deram a volta ao mundo, disputaram corridas de carro e enfrentaram bandidos, graças ao brinquedo, como o que batuca estas linhas, se sentem em Meca ao entrar na loja.

PARAÍSO DA MACONHA

Andamos feito malucos num domingo de manhã para conhecer Christianhavn, área bucólica de moradias de Copenhague onde fica Christiania — o célebre parque temático hippie, por assim dizer.

Chovia a cântaros quando chegamos e nos abrigamos numa espécie de armazém coletivo dentro de um galpão onde se comercia de um ao tudo.

Troquei um punhado de coroas por um guarda-chuva imprestável que terminaria seus dias numa lixeira de Berlim.

O uso da maconha e seu comércio são livres em Christiania.

Na praça em frente ao armazém entrei num pub maneiro para uma IPA.

Você tropeça em cachorros enormes e pode se arriscar em máquinas caça-níqueis.

O olor da cannabis se espraiava numa densa onda comunal.

Por pouco a maré não me faz sair na chuva, como um Fred Astaire deslocado e extemporâneo, a improvisar o tema de “Hair”.

COMO SALVAR UM CHAPÉU

No Churchillparken, um basco arretado, o mais disposto entre nós, arriscou-se ao desembestar por um talude com quase 90 graus de inclinação para resgatar meu chapéu verde invernal que a ventania me roubava, acessório de muitas histórias deste que há anos o adquiri no Rossio lisboeta.

Por pouco o amigo não cai no gélido canal do mar do Norte e pega um resfriado.

Nunca esquecerei seu gesto na vida de minhas retinas tão fatigadas.

CENTRO DA CIVILIZAÇÃO 

Alguém pode viver a mesma experiência em mil outros lugares. Ao flanar pela Vittorio Emanuele II, em Milão, e parar sob a imensa e estonteante cúpula da galeria com seus vitrais, me baixa sempre o espírito da civilização europeia, e percebo o legado iluminista que forjou ideais do belo e bom no Ocidente.

Pude percorrer a galeria (abstraia-se o shopping de alto luxo e os restaurantes turistosos) algumas vezes, inclusive à noite, depois de ouvir uma récita no Scala.

Vivesse em Milão, tentaria bater meu ponto ali diariamente.

A Galeria Vittorio Emanuelle II e sua cúpula. Foto: Wikimedia Commons

O monumental Duomo di Milano, ao lado da galeria, símbolo da cidade, não lhe é páreo em beleza e majestade.

MANTEGNA E BELLINE

Aproveitei meus poucos dias em Milão, hub desta viagem, também para ir duas vezes à riquíssima Pinacoteca de Brera, instalada num palazzo do século 18 neste bairro, onde me hospedei.

Uma enorme e régia biblioteca e centros de educação artística funcionam ali.

Me concentrei na “Pietà” de Belline e, bem ao lado, na “Lamentação sobre o Cristo Morto”, de Mantegna.

“Lamentação sobre o Cristo Morto” ( 1475-1478 ), de Andrea Mantegna. Foto: Wikimedia Commons

Dois passos da paixão na história da arte.

O Cristo de Mantegna é o deus mais humano que um grande artista jamais concebeu.

O diário de Copenhague, amanhã

O Livro de Viagem publica amanhã o diário de Copenhague e Milão. O sentido de Hygge, palavra intraduzível que expressa o estilo de vida da capital dinamarquesa. Notas sobre arquitetura, arte e urbanismo, além de um palavra de carinho sobre a Lego. Em Milão, duas passagens pela Pinacoteca de Brera e o espirito do iluminismo na Galeria Vittorio Emanuele II.

Centro antigo de Nyhavn, em Copenhague. Foto: Antônio Siúves

Diário embriagado de Berlim

Numa quarta-feira à noite do mês passado, a cantora Veronika Harcsa e o violonista Bálint Gyémánt, ambos húngaros, lançavam seu novo disco (“Shapeshifter”) no A-Trane, em Charlottenburg.

A casa estava cheia e o público bebericava cervejas e coquetéis. Curtia-se uma noite de jazz, típico programa berlinense.

No terceiro número, convidaram ao palco o baixista Nicolas Thys e o baterista Antoine Pierre, ambos belgas, e seguiram em quarteto.

A vibração dos músicos logo se refletiu na concentração da audiência e na inconfundível alegria que a música proporciona.

Atrás de nossa mesa sentava-se um grupo encabeçado por Stefanie Marcus, diretora do selo alemão Traumton Records, gravadora de Harcsa.

Cantora inventiva, de técnica virtuosa e grande alcance, Harcsa se dirigiu várias vezes a Stefanie, a quem, compreensivelmente, se mostrava grata.

Na era do streaming, produzir um novo disco de jazz autoral não é para os fracos.

Sim, Harcsa, como é praxe, anunciou que o CD estaria à venda na casa, ao fim do concerto. Suponho que seja assim, com apresentações e divulgação direta, que músicos de grande valor como ela estejam ganhando a vida.

Veronika Harcsa se apresenta no clube A-Trane, em Berlim

Nos intervalos entre os números, ela fez graça com os músicos — contando um atropelo na chegada da banda a Berlim — e até da desgraça do seu país, o que levou a plateia a uma espécie catarse.

A Hungria é governada por Viktor Orbán, um populista e nacionalista alinhado a Putin, Trump e “Bibi” Netanyahu que busca minar a democracia de seu país e os alicerces da União Europeia.

Orbán e a Hungria estão entalados na garganta de quem teme a degeneração fascista que se espelha pelo planeta. Por isso rimos.

A audição confortável de jazz, em qualquer época do ano, é uma dádiva que poucas cidades no mundo repartem com Berlim.

Na noite anterior, no B-Flat, assistimos à performance do saxofonista e compositor Peter Van Huffel e seu octeto berlinense, incluindo a cantora Sophie Tassignon.

A música de Van Huffel, nascido no Canadá e dono de uma celebrada carreira internacional, foi uma surpresa na sua desconcertante “proposta pós-tudo”, como a definiu um crítico.

Cada set, em que até o baterista Christian Marien seguia partituras, moldava e ordenava um bem-humorado caos de dissonância, atonalidade, ruídos eletrônicos e formas sonoras iteradas.


Peter Van Huffel com octeto mandam brasa no B-Flat, Berlim

Alguns improvisos, como os do trombonista Matthias Müller, eram de arrepiar, talvez nos limites da música contemporânea, hoje, ou a expressão de um jazz genuinamente europeu. A-odo, onde estive em viagem anterior, compõem meia dúzia de deliciosos clubes de jazz em Berlim.Oferecem programação diária, ótimas atrações, bons preços e ambientação charmosa e reverente à tradição das casas do gênero.

CIDADE VESTIDA DE CINZA

Dois dias antes de Harcsa subir ao palco, no início de uma tarde de segunda-feira, descíamos em Tegel, vindo de Copenhague (ver continuação deste diário no próximo post).

Berlim nos recebia ensopada e metida num manto gris que não mudaria até o final da semana, quando tomaríamos um trem na relativamente ainda nova e grandiosa Hauptbahnhof (Estação Central, em plena operação desde 2006) só para dar um pulo em Munique e, na manhã seguinte, voar para Trieste.

O inverno europeu de 2019 ainda em fevereiro começou a labutar com apressada primavera, mas mal podia-se perceber o fenômeno em Berlim.

Ainda assim eu pude vê-la, a primavera, nas árvores do Tiergarten, bem em frente ao Reischtag, caminhando por ali deste os fundos da Hauptbahnhof.

Os primeiros sinais dessa imensa e poderosa capital, observada da janela do táxi, foram de uma cidade próspera que não para de se reinventar.  

Há construções por toda parte, quarteirões inteiros de prédios residenciais sendo erguidos e uma infinidade de intervenções urbanas.

Veem-se surgir novas estações de metrô e museus, monumentos e sítios históricos, novos ou em reforma.

Berlim definitivamente não é didática sobre as baixas taxas de crescimento da Alemanha.

Havia reservado outra vez o The Circus, na Rosenthaler Platz, na área da antiga Berlin oriental, entre as áreas de Scheunenviertel e Prenzlauer Berg.

O hotel, que mantém um albergue qualificado na mesma praça, perdeu jovialidade e exuberância; seu lobby e bar como que murcharam, e a qualidade do atendimento decaiu um pouco.

Tivemos um problema inusitado com a reposição de toalhas e o cofre do quarto, pifado na segunda noite, pifado permaneceu até nossa saída.

Mas estávamos famintos ao chegar. Encaminhado o check-in tardio, como da primeira vez em Berlim, procuramos o Sophieneck, a cinco minutos a pé do Circus, para restaurar nossas forças.

O pub de comida alemã tradicional também já não era aquele.

Uma única e resfolegante garçonete, coitada, rodopiava pelo salão feito bailarina, a fazer o que podia para atender dez ou doze mesas cheias de comensais.

Não está fácil ganhar a vida em nenhuma parte.

ACERTANDO A HORA

O chucrute, a salsicha com batatas e a cerveja escura sem graça do Sophieneck não me nocautearam nem desanimaram.

Nada me faria perder o último dia e as últimas horas da exposição comemorativa de cem anos do Grupo de Novembro (“Freiheit – Die Kunst der Novembergruppe – 1918-1935”), na Berlinische Galerie, inaugurada em novembro de 2018.

Para lá eu e minha mulher nos mandamos, de Uber.

Aliás, esse aplicativo em Berlim nos permite chamar igualmente táxi com taxímetro ou van. Os preços, como pude constatar, são próximos e razoáveis.

O Grupo de Novembro, nome calcado na revolução alemã de 1918, era um desaguadouro de tendências modernas (Nova Objetividade, O Cavaleiro Azul, Bauhaus, Expressionismo, Modernismo ou Estilo Internacional, O Círculo) e artistas radicais.

Participaram da onda pintores e escultores (Vassili Kandinski, Lyonel Feininger, Käthe Kollwitz); arquitetos como Walter Gropius e Ludwig Mies van der Rohe; compositores (Alan Berg, Kurt Weill) e Bertold Brecht, dramaturgo e poeta.

A mostra e a galeria me proporcionaram prazer e descontração e me repuseram no clima.

Tão logo deparei um George Grosz, o icônico, como crítica social, e de humor ainda selvagem “Os Pilares da Sociedade”, acertei meus ponteiros com a viagem, a arte e uma cidade absurda e culturalmente rica e cosmopolita.

TESOUROS DA ILHA DOS MUSEUS

Na manhã seguinte, dedicamos quase quatro horas à Museumsinsel.

Como ocorre sempre que me dedico a observar seguidamente centenas de obras de arte em um museu, como ao acordarmos de um sono tecido de sonhos, consigo fixar apenas o que, na algaravia, me pareceu mais vivo e intrigante naquela hora.

Ou fixo o que me embriaga.

Posso dizer, parafraseando o crítico da revista “The New Yorker” Peter Schjeldahl, a propósito dos Tintoretto que ele viu na National Gallery de Washington: as obras que guardo são as que mais realimentam minha fé na arte como meio de revigorar o mundo. “Estou mais sóbrio deste então”, diz Schjeldahl, “mas o efeito permanece”.

Assim, ainda trago comigo, em semissobriedade, quadros como os de Adolph Menzel (1815-1905), entre eles “Der Fuß des Künstlers” (O Pé do Artista, de 1876, ou o retrato do seu pé direito doente), uma “antisself”, por assim dizer, algo chocante, pintado por um Menzel já envelhecido.

Trago uma pintura singela de Otto Nagel (1984-1987), “Weddinger Jungen”, de 1928, compadecido das figuras desoladas de dois jovens do distrito berlinense de Weddinger em uniforme militar, como que saídos do alistamento.

Trago a beleza tantalizante de uma escultura de Rudolf Belling (1886-1972), “Kopf in Messing” (Cabeça em Latão) que me faz pensar uma mulher de olhos fundos e penetrantes.

No Altes Museum namorei o retrato de Lise Tréhot, de 1864, amante de Renoir, pintado pelo artista em 1864 (ver foto no slide show, no alto desta página).

Afirma-se que a moça contava 20 anos quando foi retratada.

Lise se assemelha mais a uma Lolita no esplendor dos 16, meio entediada ao pousar longamente para um pintor obsessivo.

Por aquela época Renoir, aos 23 anos, buscava se acertar entre os velhos caminhos da tradição e os novos rumos da revolução estética.

Ler depois na revista “Piauí”, ao chegar em casa, o incrivelmente instrutivo artigo de Lorenzo Mammi sobre o “Rosa e Azul” do Masp, me ajudou a entender melhor o quadro de Berlim.

Olhei e espiei muito mais nos museus da Ilha berlinense, pinturas, relíquias, esquifes, múmias, pergaminhos e registros arqueológico — me fascinam as pequenas cadernetas com anotações a lápis reproduzindo hieróglifos em letra miúda, bonita e precisa. Me recordaram certas iluminuras em livros de horas.

A MAIS BELA CHEGOU

Mas devo registrar aqui uma notícia: 3.359 anos dois da aparição desta obra, alguém, alumbrado, se deteve mais de meia hora à frente e à volta do busto da rainha egípcia Nefertiti, e ali não permaneceu mais tempo pois sabia que o esperavam alhures.  

Senhores, a eterna beleza ainda encanta e seduz, como seduziu gregos, quiçá, troianos — e tantas outras multidões, desde então, se derramaram por ela.  

— E peço licença poética para fazer meus, rapidamente, por empréstimo, a ode de Keats à Urna Grega (“Inviolada noiva de quietude e paz,/ Filha do tempo lento e da muda harmonia…”—

Não me parece justo que um terráqueo nasça e morra sem o gozo de percorrer a pinacoteca vaticana rumo à Capela Sistina, ou a Alhambra dos Nazaries em Sevilha, ou andar por Paris, Veneza, Florença e Roma ou, acrescento, ver-se diante da Nefertiti, uma vez que seja, ao menos para perceber que a simetria apurada pela arte parece estar inscrita em nosso DNA.

HELLO KÄTHE

Depois de fatigar minhas retinas diante de tanta tentativa besta de artistas contemporâneos ao expressar a dor ou a esquisitice humanas, ou dizer algo sobre os esquecidos, desvalidos e deserdados da terra — questões eternas — em mirabolantes e escalafobéticas instalações, ver as gravuras e esculturas de Käthe Kollwitz (1867-19450) é uma redenção e, por certo, uma (re)educação artística.

O museu dedicado à artista, em Charlottenburg, é um primor de síntese e adequaçã=Além da técnica e do vigor das águas-fortes, litografias e esculturas, do traço expressionista a um tempo austero e ressaído, suas obras expressam um teor documental — desespero materno na guerra e na fome foi seu quase seu único Leitmotiv —, que ao mesmo tempo é atemporal e alusivo e cuja tensão apenas a grande arte é capaz de conter.

Uma litografia, “Brot!” (Pão!, 1924) estampa uma mulher de costas e recurvada com duas crianças famintas a lhe agarrar a saia.

O foco do quadro não é o contingente, o social, ou é menos isso, mas antes a transcendência do ser dilacerado da mãe de quem não vemos o rosto, e nem é preciso, pois alcançamos seu coração dilacerado.

Em outra obra — sua primeira xilogravura, de 1921 — vemos a figura de Karl Liebknecht no leito de morte e as distintas expressões de uma dúzia de pessoas que assistem ao funeral.

“Brot!” (Pão), litogravura de Käthe Kollwitz, no museu dedicado à artista em Berlim – Foto: A. Siúves

Ela havia desenhado a cena dois anos antes, após o assassinado do líder socialista parceiro de Rosa Luxemburgo.

O traço expressionista destaca o rigor mortis e a reverência de um amigo ou simpatizante sobre o corpo, mas, do conjunto exala a solenidade de uma pintura clássica.

Käthe e seu grupo, a Nova Objetividade (Neue Sachlichkeit), quiseram ir além da desilusão com a nova República Alemã, diante do crescente extremismo de direita, e com os ideais do expressionismo.

Buscaram exprimir um realismo mais engajado. Käthe foi uma artista engajada, por certo, mas do tipo de engajamento que percorre a história da arte e jamais sairá de moda.

Pelo menos enquanto o Vale do Silício não emplaca a Humanidade 2.0 e a vida eterna, nos quais derrama tantos bilhões.

Saindo pelos fundos do museu Käthe Kollwitz, você pode se sentar para refletir sobre tais questões e, sugiro, também sobre a riquíssima história da arte alemã, no retirado e elegante café da vizinha Literaturhaus Berlin, cujo teto transparente nos enseja o céu invernal e os altos ramos das árvores do jardim.

Depois disso, seu dia em Berlim haverá de estar ganho.

ESTAÇÕES DA HISTÓRIA

Não tive tempo de visitar as exposições que celebram o centenário da Bauhaus ou conhecer o memorial Topografie des Terrors, como planejara.

Mas revistei o Denkmal für die ermordeten Juden Europas (Memorial aos judeus mortos da Europa) e o Jüdisches Museum (Museu Judaico), com sua arquitetura em pedra negra, enviesada e marcante, e registros comoventes de como era a vida socialmente integrada dos judeus em Berlim, antes da aparição da Besta. O museu também apresenta, até o próximo 1° de maio, uma extraordinária exposição sobre Jerusalém.

Para além das controvérsias sobre forma, oportunidade e sentido, esses monumentos são duas entre muitas estações ou passagens de Berlim, assim me parece, indispensáveis para nos pôr a par da história da cidade, da Shoah, da Europa e, silenciosamente, nos levar a meditar sobre a vergonha toda que nos enxovalha a condição humana.  

PASSAGEM PELO SHOPPING

Minha caderneta de viagem aponta uma sessão de compras no shopping Karstadt de Kreuzberg, cuja freguesia é quase exclusivamente turca e árabe.

Esperei longamente os amigos em um bar na cobertura da loja, recostado numa poltrona com uma taça de vinho e a boa vontade da moça que atendia os pouquíssimos clientes naquele início de tarde, a me oferecer petiscos.

Tentava tratar um achaque de dor nas costas apanhada nas andanças sob chuva e friagem.

Numa mesa a dois metros da minha, um casal discutia rispidamente, em turco, supus — depois de ver na Netflix algumas séries no idioma.

Creio que pude imaginar a essência da cena.

Primeiro, trocaram palavras cheias de fagulhas. Ela a lhe cobrar promessas e desfeitas.

Mas, Allahu Akbar, chegam a um entendimento. Reinaria a paz, ou não.

Em quase uma hora que ainda passei ali depois do entrevero, o sujeito derramou uma arenga sem fim nos ouvidinhos da mulher, cobertos por um hijab.

Ele falava, ela escutava.

Pobre dela, pensei, e mais pobre de mim, saindo dali para tomar o metrô de volta ao hotel, me preparar para jantar e, bem cedo na manhã seguinte, dizer mais uma vez auf wiedersehen a Berlim .

Viagem em torno de pintxos e ‘copas’

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Ciudad Rodrigo (Salamanca, 2016). Foto: Antônio Siúves

Peço um pincho de foie fresco a la plancha (€ 2) e um copo de Tempranillo (€ 2,30) duma garrafa de Avan, o melhor Ribera del Duero que provo então. Segundo avalia minha mulher, uma Robert Parker no tema, bebemos um tinto raro, inócuo para enxaquecosos, estes seres sem-teto no planeta Baco.

Estamos tapeando na Taberna La Favorita, em Burgos, pela segunda vez, e voltaremos amanhã para jantar. Está é a cidade do indesviável El Cid Campeador. A capa do herói mercenário esvoaça na estátua gigantesca que o representa, espada em riste sobre o ginete num imaginário campo de batalha flutuante. O monumento cobra a visão total de quem vai à praça que o homenageia, à beira do rio Arlazón. Os ossos do herói descansam na tumba da imensa La Santa Iglesia Catedral Basílica Metropolitana de Santa María, mas seu fantasma parece vigiar a cidade inteira, inclusive o denso silêncio do nosso hotel, por acaso o Mesón del Cid.

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Retomo meu copo de Avan e o pincho de foie. Sinto que estou em uma das casas mais simpáticas que pude conhecer neste país. É ampla, arejada e a um tempo jovial —denomina-se “taberna urbana”— e reverente à tradição castelhana, com indefectíveis embutidos e provisões de jamón a pender do teto. Os pernis daqui são da marca Joselito, se a informação diz algo a alguém. Um barman parece dedicar-se full time à arte de fatiar finamente os quartos de jamón fixados numa bancada própria ao ofício. Os cortes são oferecidos deliciosamente no quadro negro como NUESTRAS CHACINAS. A freguesia alvoroçada se compõe duma mistura da gente local e turistas, que se alternam no balcão (barra), à porta, nos fins de semana, e nas mesas do restaurante (salón comedor).

Na La Favorita, domingo à noite, vamos nos sentar ao lado de um casal octogenário, ainda a desfrutar a vida de uma maneira impensável para um idoso na grande maioria das cidades brasileiras. Nossos vizinhos de ceia subiram uma vez mais de Madri, onde vivem perto do abençoado parque do Retiro. Ao saber que tenho apreço por poesia, o irresistível Don, homem tipicamente ibérico, forte e compacto, depois de me censurar por ter preferido vinho branco (por sinal um Bornos, € 13 a garrafa, feito com a uva Verdejo na Rueda, em Valladolid), me dirá uns versos do grande poeta sevilhano Antonio Machado, que o alarido da conversação me impedirá de escutar. Pelas tantas e um copo a mais, nos apresentará a um cidadão britânico com ares de quem escapou dum filme dos anos 1960, a envergar um terno classudo cor de mostarda, e à sua companheira holandesa, na mesa ao lado; em seguida, também à guia japonesa, da qual, antes de chegarmos, havia igualmente se tornado amigo de infância, e quem faz as honras a um pequeno grupo de seus compatriotas a duas mesas da nossa.

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No tapeo e na restauração das Espanhas destacam-se — em uma vivência que está longe de menosprezar Barcelona e outras cidades — os bares e restaurante do Norte, como os de Bilbao ou San Sebastián. Nessa cidade basca e em seu entorno está, como se diz, e não é de hoje, a maior concentração mundial de estrelas Michelin por metro quadrado. Mas isso agora pouco me diz. Nunca fui fervoroso em matéria de comida, e me enjoei quando percebi que a gastronomia começava a ocupar o espaço dos velhos cadernos especializados em livros e filmes. Mas perdi o encanto pelo “menu degustação” formulado em laboratórios.

As tapas em Madri — penso nos bares mais manjados, como os da calle Cava Baja e da região central de Los Austrias — raramente seduzem meu paladar. Nesta viagem, aliás, andei comendo mais mal que bem nos quatro dias que lá estivemos. Bastante bem, por certo, em companhia familiar, na Taberna Los Huevos de Lucio, na mesma Cava Baja, numa noite em que nos serviram ótimas raciones e o garçom gentilmente nos apresentou a um vinho da Estremadura, que eu ignorava como região vinícola, de nome e sabor memoráveis: Habla del Silencio, a € 18 no restaurante.

Mas pude constatar que casas tradicionais como El Mollete, que só agora conheci, ou a Taberna Bola, onde voltei, vizinhas de calle em Los Austrias, já não fazem justiça ao prestígio que desfrutam em guias como Lonely Planet. É certo que restaurantes contemporâneos, bem avaliados e cotados em vários cifrões abrem-se a toda hora na capital espanhola. Agora, se você quer gastar algo em torno de € 10 em um menu, num almoço genuíno e honesto, fará muito bem se levar recomendações como as que são feitas pelo jornal El País, e se dispuser a se deslocar para alcançá-los. A cidade é muito bem servida por extensa rede de metrô, sem falar das inúmeras calles fechadas a pedestres, peatonales, um convite que me incentiva a caminhar até músculos e tendões começarem a chiar.

Pois sobram arapucas para turistas desprevenidos e, nesse passo, Madri vai se romanizando cada vez mais ou se degradando em um dos piores traços de Paris. Por preguiça e cansaço, depois de duas horas percorrendo o museu Reina Sofia, deixei-me capturar e à minha querida companhia em uma dessas trampas, na Calle de Santa Isabel, já bem perto do mercado de Antón Martín, onde comi, ou tentei comer, o pior bife com fritas com que deparei numa existência que transborda o meio século.

Trago as melhores impressões, isto sim, das tapas ou, neste caso, dos pintxos que pude provar em Bilbao, San Sebastián ou Pamplona. Meu bocado preferido atende pelo lindo nome de Gilda, originária do País Basco. Cabe num palito composto por azeitona de qualidade descaroçada, guindillas (pimentas verdes finas de um tipo local), anchova do Cantábrico e eventuais acréscimos autorais. O efeito das notas picante, oleosa e marinha combinado com um copo de Txakoli é uma celebração que me aprisionou a essa terra.

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Salamanca (quadro, 2016). Foto: Antônio Siúves

Em bares de Córdoba, Granada, Salamanca e outras tantas cidades espanholas ainda são oferecidas tapas por conta da casa a quem peça um copo de vinho. O preço da copa está entre € 1,30 e € 2,50. Conforme essa tradição, desfrutei nesta viagem de um pequeno festim dessas porções servidas no El Bambú, a uns cinquenta passos da estonteante Plaza Mayor de Salamanca. Fomos convidados ao bar e restaurante por um amigo comum, que vive em Zamora e nessa manhã de domingo estava na cidade, coincidentemente, acompanhando a mulher em uma prova de concurso público. Como bom mineiro, reverenciei em primeiro lugar as jetas, espécie de torresmo assado preparado com nacos das bochechas do animal, que são típicas desta cidade, na qual a carne de porco constitui um império.

As áreas rurais da província são tomadas por fazendas de criação do porco preto ibérico (além de touros para as corridas) e fábricas que processam seus prodigiosos pertences. Os animais se alimentam das castanhas (bellotas) que caem das encinas, árvores gorduchas que dominam a paisagem que divisamos nas estradas da região.

Depois do lindo amarelo que vibra das pedra com a qual Salamanca se ergue e distingue a província entre as Espanhas, carregam-se na memória do visitante também os vermelhos marmóreos e os alaranjados graxos dos lombos defumados, das peças inteiras e dos cortes de jamón de toda classe e da incalculável variedade de embutidos a rebrilhar nas charcutarias espalhadas pelos quatro cantos desta cidade universitária, onde o viajante passa muito bem, sim senhor.

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Verde & Amarelo (Ciudad Rodrigo, Salamanca, 2016). Foto: Antônio Siúves

Pouco antes de tomarmos um ônibus para o aeroporto de Barajas nos despedimos com um almoço de uma espécie que, creio, dificilmente ainda se possa desfrutar fora da Espanha. No menu do El Bardo, a € 12, havia meia dúzia de opções para a escolha de quatro pratos, inclusos sobremesa, água mineral, vinho mais que razoável (uma garrafa para dois), tudo preparado e servido com profissionalismo e esmero. Escolhi sopa de alho, costeleta de porco, perca do mar grelhada com verduras e torta de tiramisu. E assim garanti minha sesta numa poltrona de ônibus para despertar já nas proximidades de Segóvia, com a música ambiente letal de um pop norte-americano que faz muito sucesso na mídia popular espanhola.

Engrosso as estatísticas dos turistas estrangeiros que em 2015 despejaram 15 bilhões de euros em restaurantes e bares de tapas em todo o país. Mas não pertenço aos 14% desse contingente para quem a gastronomias é a principal motivação de uma viagem à Espanha. Os principais destinos dos estrangeiros são Catalunha, Valência e Andaluzia. Sinto-me mais afeito à onda turística interna, que se move rumo ao Norte, ao País Basco e às Astúrias, principalmente.

Retiro esses números do El País, numa sexta-feira muito fria deste novembro, enquanto tomo um café com leite fumegante num bar com vistas para o Museu Guggenheim de Bilbao, de onde retomo este relato, no próximo post.

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Plaza Mayor (Salamanca, 2016). Foto: Antônio Siúves