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Última impressão de Burgos

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Santo Domingo de Silos (2016). Foto: Antônio Siúves

É meio-dia e cinquenta e o bar da praça de Santo Domingo de Silos está mais ou menos aberto. Pode-se entrar, mas só para saber que antes de o sino do monastério dar uma hora, nada de bocadillo. É o decreto da mulher que nos atende com um contrafeito buenas.

Saímos do bar para explorar o pueblecito, minúsculo povoado a menos de uma hora de Burgos, Castilla y León, no centro norte da Espanha, onde vivem menos de mil pessoas. Covarrubias, de onde viemos esta manhã, é ainda menor e espelha o mesmo estado de abandono. Logo, entendo por que não há ônibus regular para essas bandas.

Enquanto passeamos, não há vivalma nestas ruas de Espanha em que pouco se tocou nos últimos 500 anos, a não ser para se fazer reparos obrigatórios e admitir uma ou outra tecnologia de época. O pulsar do tempo é quase táctil. Já nos limites de Santo Domingo, encontro uma casa demolida. Os donos deixaram pra trás apenas a carcaça de um fogão a gás e algumas telas de cercado ou galinheiro. Na Rua do Meio vem um senhor em seus 80 e lasca, que se senta no único banco disponível do estreito largo. Ele assente quando lhe peço permissão para fazer umas fotos de uma construção baixa, como quase tudo nestas cidades, de pedra. É o único vivente com quem cruzamos.

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Santo Domingo de Silos (2016). Foto: Antônio Siúves

Hoje é segunda-feira e o claustro românico do século XI não se abre para turistas, mas às 13h45 há canto gregoriano dos beneditinos na celebração das vésperas, tradição mantida há quase dois mil anos, e não perderemos esta chance. A basílica da abadia também guarda o fundador, santo Domingo, sepultado numa rica capela barroca, e a memória dos quatro irmãos mártires da ordem, beatificados recentemente em Madri.

Agora é 1h25, ainda há tempo de voltar ao bar e  beliscar algo que nos permita adiar o almoço. Mas, não, nos diz a mulher, ainda peremptória. Podem beber una copa, mas comer, não, nem pensar, só depois das duas horas, se querem. Nós a ouvimos, tristes, a mirar os pratos de tapas e jamón expostos na vitrine do balcão, ou na barra, como chamam aqui. Logo às 2h, penso compungido, justamente quando fecham para a santa siesta no interior espanhol.

Resignados, deixamos a dona que não sabe se atende ou não atende os não mais de seis ou sete turistas que acorreram ao distrito esta manhã. Ao sair, a vemos abandonar o bar e passar o estabelecimento a chaves. Não é um bom dia, fazer o quê?

As duas frases do canto dos monges não me saem da cabeça enquanto guio na direção de Aranda del Duero pela carretera vazia. Ultrapasso apenas terras em cultivo e árvores coloridas pela estação. A pequena cidade que integra o rota vinícola da Ribeira del Duero está dormindo sua siesta. É difícil para um forasteiro se acostumar com os costumes ibéricos. Nada de café ou venda de vinho aberta.

Pois voltamos à rodovia, desta vez a principal, que, como é comum neste país, beira à perfeição, para nos despedir de Burgos nesta noite, ainda sem visitar a catedral galáctica de Santa Maria e contemplar os quilos de ouro usados na decoração de suas capelas, ouro bem roubado pelos colonizadores de nossos vizinhos sul-americanos.

Mas com muito gosto visitei o ainda novo Museu da Evolução Humana, onde mostram e explicam os achados do sítio arqueológico de Atapuerca. O lugar é uma biblioteca idílica e multimídia, com instalações didáticas de última geração para proveito de professores do ensino básico e seus alunos. É sábado à noite e há mais de uma turma de meninos em excursão. Gosto especialmente da secção reproduzida em madeira e, me parece, em tamanho real, do Beagle, o barco que conduziu Darwin em suas explorações pelas Américas que lhe renderam a obra revolucionária. Edições históricas dos três livros do gênio naturalista também estão expostas ali. Ainda chove quando saímos da imensa caixa de vidro com esqueleto de aço, signo da arquitetura mais cara e atual em nossos dias.

A última impressão que trago de Burgos, antes de tomar o trem para Bilbao, à parte o máximo do conforto que uma sociedade pode proporcionar a seus velhos (assunto de um próximo post deste Livro de Viagem), e a bacanérrima Taberna La Favorita, é a enorme biblioteca, que avisto ao acaso, ao deixar o centro histórico em busca de uma loja de vinhos que descubro pela internet, já que no hotel insistem em me sugerir duas ou três lojinhas de produtos típicos a cem metros dali. São oito horas da noite e é possível ver através dos vidros centenas de jovens concentrados em suas tarefas escolares, leitores reservados e algumas dezenas de idosos diante de um jornal. Coisa bonita, inesquecível, sonho de brasileiro.

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Santo Domingo de Silos (2016). Foto: Antônio Siúves

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Festa madrilenha entre vivos e mortos

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Burgos. Foto: Antônio Siúves

O outono se mantém aberto em Burgos neste domingo. O resto parece cerrado. Quem não tem um carro alugado não pode ir a Santo Domingo de Silos ver o claustro do mosteiro beneditino do século XI, nem à pequena Covarrubias. Todas as locadoras estão cerradas. O único ônibus que me deixaria no distrito não sai da garagem aos domingos. Quando sai durante a semana, só vai numa perna. Quem quiser que pouse por lá e retorne bem cedo na manhã seguinte, ainda sem poder visitar a abadia milenária. Um táxi com bandeira dois nos custaria uma fortuna. Melhor esquecer por agora.

Sem ânimo de percorrer logo cedo a gigantesca catedral de Santa Maria, cujas torres gêmeas, como ogivas de dois foguetes, no dizer de Cees Nooteboom, aguardam eternamente sua decolagem bem em frente ao nosso hotel, decidimos ir a pé até o Real Monasterio de las Huelgas, que está cerrado inesperadamente, por um funeral. A planta do museu arqueológico da cidade, a dez minutos de táxi dali, que guarda as tumbas visigóticas que ansiava por ver, também cerrada, em reformas.

Mas o Outono, não. Caminhamos mais de uma hora pelo Paseo del Espolón, à beira do Arlanzón, cercado por plátanos e vegetação que durante nossa andança oscilava entre o verde e o amarelo, amarelo que se estende ao chão, ao passar do passeante. A urbanização em torno do rio cristalino é vital para quem vive aqui, presume-se, e ajuda o forasteiro a entender por que Burgos é chamada “cidade do futuro” na propaganda oficial. É uma ordem e beleza que na Espanha eu vira apenas em Sevilha, nos quilômetros do parque planejado à margem do Guadalquivir. A temperatura não passa de seis graus, quase não venta, o sol dá as caras. Penso se alguém pode desejar graça maior.

Cheguei ontem de Madrid pela manhã, em trem. Aproveito as duas horas e meia no conforto da poltrona do meu vagão, enquanto cortamos a meseta rumo ao Norte, para ruminar os quatro dias corridos que tivemos para rever a grande cidade, gozar a arquitetura do museu Reina Sofia e, no dia seguinte, revisitar Velázquez no Prado, com a possível familiaridade com  a obra do pintor que adquire o leitor do livrinho de Ortega y Gasset, lançado há pouco no Brasil, e ainda mais íntimo, as salas de Goya, com a carga do livrão Robert Hughes sobre o artista editado pela Companhia das Letras, que consegui terminar este ano. Mas a pintura, e mesmo a notícia da eleição de Donald Trump (que as gravuras de Goya da séries Caprichos e Desastres, anteveem aos meus olhos), registrada em uma edição do El País concluída às 6h30, foram apendiculares nesta passagem por uma Madrid gelada e seca.

Pela primeira vez, desfrutei a chance insonhada de festejar um encontro europeu com minha família. Bebemos muito vinho, inclusive jerez e manzanilla na escura e inacreditável taberna La Venencia, demos risadas, passeamos muito por Los Austrias e nas ruas em torno da Calle de las Huertas. No delicioso Café Central, para assistir ao quarteto de “jazz cigano” The Hot Norvege, brindamos à memória de nossa mãe, que teria feito 97 anos aquela noite. A trazíamos conosco, como a irmã, como o irmão, como a sobrinha, como a cunhada que se foram há tão pouco. Vivos e mortos, inebriados, compartilhamos a música inspirada em Jean “Django” Reinhardt. Ele também, por certo, compareceu.

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Burgos (novembro de 2016). Foto: Antônio Siúves

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