Delícias da pindaíba

Num gesto largo, liberal e moscovita do autor da Ju, os diários de viagem de 2019 estão de volta ao blog

Jurupoca_49. Belo. 27/11 a 3/12/2020. Ano 2

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Altruísta como só ele, o autor da Ju reabriu aqui seus diários de viagem de 2019, num gesto largo, liberal e moscovita, para citar o Álvaro de Campos.

Os diários integram o livro divulgado ao pé dá carta, Turismo cultural e literário na Europa. Reaparece também por aqui o Inferno em Florença, outra crônica de viagem, anterior, depois reescrita e incluída no livro. Debalde, esse texto foi oferecido à Piauí, na honesta tentativa de um jornalista desocupado cavar uns caraminguás, alguém que poderia estar por aí, afanando, trucidando, currando etc.

A revista do Moreira Salles por sinal anda embirrada com a The New Yorker, na qual se decalca na origem, e de onde tirava o suprimento de suas melhores páginas, sempre muito bem traduzidas.

Vai ver que é isso. O Alcino Leite Neto e o José Roberto de Toledo, editores executivos da publicação criada e servida por João Moreira Salles, não dão bola para a marginália fora do “Eixo Rio-Sumpa”, logo um mineiro, residente a menos de 600 quilômetros de Poços de Caldas!, onde os Moreira Salles se estabeleceram.

Mas deixemos de prosa. Aos enlaces, a quem interessar possam:

Diário embriagado de Berlim

Diário congelado de Copenhague e Milão

Diário apaixonado de Trieste

Inferno em Florença

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Das delícias da pindaíba

Um alma poética consegue achar uma ou outra vantagem na dureza, acredite. Duro é quem vive de brisa, sem um puto para beliscar uns profiteroles na padaria da esquina. Se você não pode viajar, viaje ao redor de seu quarto. Não pode se dar ao luxo de novas aquisições de livros? Não morra por isso. Um leitor na pinda sempre tem a redescobrir delícias empoeiradas em suas estantes. Quem sabe ele não terá à mão (e nos braços fortes), e nem se lembra disso, as 1274 páginas (fonte Haarlemmer, corpo 9.5, 1,2 kg) de O homem sem qualidades, o romance inacabado! de Robert Musil, genial romancista austríaco do século 20 comparado a Joyce, Kafka e Proust, hoje desconhecido até dos corretores ortográficos. É leitura para mais de mês. Ou o humor fino e diabólico de Evelyn Waugh no breve (154 págs.) O ente querido. A maior graça de Waugh é fazer seu leitor se sentir mais vivo e inteligente do que é e está.

Abanando o rabo no céu

Em O ente querido, Dennis Barlow é um poeta inglês pilantra, desempregado como roteirista de Hollywood. Ele insiste em ficar nos EUA, e para pagar as contas e o uísque com soda no Clube de Críquete, trabalha numa funerária de pets. Aqui, ainda no início da novela, Barlow atende à chamada de uma senhora milionária, devastada pela perda de seu cachorro, Arthurzinho, atropelado por um caminhão de entregas. Barlow dirige a van preta da empresa rumo à mansão da Via Dolorosa, 270, onde é recebido pelo marido da grã-fina, o sr. Heinkel. Logo desfia o rosário de um papa-defunto de escol para empurrar na freguesia o que a Campo de Caça Mais Feliz tem do bom e do melhor, e mais caro, a oferecer. Nesse caso, os cuidados póstumos de Arthurzinho, um membro da família:

— Com disse?

— Enterrar ou queimar?

— Queimar, eu acho.(…)

— E os ritos religiosos? Temos um pastor que está sempre disponível para ajudar.

— Bem, senhor…?

— Barlow.

— .Senhor  Barlow, nenhum de nós é o que o senhor poderia chamar de pessoas muito devotas, mas acho que numa ocasião como esta a senhora Heinkel desejaria todo o conforto que vocês puderem oferecer.

— Nosso serviço classe A inclui vários itens exclusivos. No momento da cremação, uma pomba branca, simbolizando a alma do falecido, é solta acima do crematório.

— Sim, disse o sr. Heinkel —, calculo que a senhora Heinkel gostaria da pomba.

— E todo aniversário é enviado um cartão de cumprimento sem taxas adicionais. O cartão diz: Seu Arthurzinho está pensando em você no céu hoje e abanando o rabo.

— É um pensamento muito bonito, senhor Barlow.

— Então, basta o senhor assinar o pedido…

Bodes não abanam o rabo

Mais à frente em O ente querido, um Barlow assoberbado pelo trato crematório de canários, cães e gatos, vítimas de uma onda de envenenamento no sul da Califórnia, delibera com o sr. Schultz, seu empregador, sobre o caso excepcional de um bode despachado para o além aos cuidados da Campo de Caça Mais Feliz.

— Agora estou indo embora — disse o sr. Schultz. — Você poderia, por favor, esperar até que [as cinzas] estejam frias o bastante para embalar? São todas para entrega domiciliar, menos a gata. Ela vai para o columbário.

— Certo, senhor Schultz. E quanto ao cartão do bode? Não podemos propriamente dizer que ele está abanando o rabo no céu. Bodes não abanam o rabo.

— Eles abanam quando vão ao banheiro.

— Sim, mas isto não ficaria bem no cartão de cumprimentos. Eles não ronronam como gato. Não cantam uma oração como os pássaros.

— Imagino que eles apenas se lembrem.

    Dennis escreveu: Seu Billy está se lembrando de você esta noite no céu.

Entes Queridos e Entes à Espera

O venenoso Waugh compara o Campo de Caça Mais Feliz aos serviços funerários do verdadeiro Éden higiênico e poético das Clareiras Sussurrantes, luxurioso campo santo hollywoodiano onde não se fala absolutamente em defunto ou cadáver, nem se pronuncia o nome do de cujus. São aos “Entes Queridos”, em vez disso, a quem se destinam os serviços classe AAA daquela MGM das necrópoles. Já para os vivos, isto é, “Entes à Espera”,  existe a previdente Reserva Antes da Necessidade.

Negar o negacionismo (1)

Um crime filmado comove e move mundos e fundos compensatórios. Pois é. Os Entes Queridos brasileiros levados pelo Corona que podiam ainda estar por aí, como Entes à Espera, houvesse governo em Brasília, desgraçadamente não puderam ser filmados ao expirar. Sequer podem ser computados entre as mais de 170 mil almas da contagem oficial do consórcio de imprensa. Mas que existem, existem, ou existiam, tais almas. Ocorre que, como o sangue de Cristo, a negação do negacionismo tem poder. No pau de arara, as estatísticas da pandemia vão mostrar que nunca uma praga fez tão poucas vítimas na história deste mundo. E nada como um dia após o outro até o próximo Carnaval da Democracia.

Negar o negacionismo (2)

O negacionismo de Sua Excrescência Caveirão Jumentíssimo, o Franco, eleito no Carnaval da Democracia de 2018, é negado impunemente no Planalto-Centrão. Negar à “nação”, como se diz no New York Times, o impeachment é nosso modo institucional de negar o negacionismo. Ou estamos aqui nesta Ju a menoscabar nossas operantes instituições?

A tecnologia da indignação

O mundo do espetáculo vai ao paraíso com os telefones inteligentes. No mundo do espetáculo, a indignação é seletiva e intempestiva. Uma boa tragédia, injustiça ou covardia não existe sem um vídeo quente como uma hemorragia. Espancamentos, assassinatos, operações policiais, atropelamentos, avalanches, enchentes. Eis o menu do jornal da noite; eis o tempero amaro na boca e no semblante indignados de um Reinaldo Azevedo (note suas pausas dramáticas) ou de um comentaristas da “família Globonews”.

Equivalências trágico-midiáticas

Segue válida a “lei de McLurg” , formulada há mais de 50 anos por um eminente jornalista para estabelecer o valor relativo da notícia: um europeu equivalia a 28 chineses, e 2 mineiros galeses a 100 paquistaneses. Considerada a inflação do período, pode-se verificar no câmbio das agências noticiosas que um europeu sai hoje por 180 iraquianos, e 2 americanos por uns 350 afegãos.

McLurg por aí

Na mesma segunda-feira, 2 de novembro, quando se foram 4 almas em Viena, incluindo a de um terrorista, supostos atiradores talibãs fizeram 32 vítimas fatalíssimas na universidade de Cabul, no Afeganistão. Numa homenagem velada a McLurg, essa última notícia não coube no Jornal Nacional e em outros telejornais.

À sombra da indignação

O antirracismo é uma unanimidade no país, ao menos na mídia e sempre que um crime é filmado. A violência policial é coisa nossa, ou talvez o racismo possa mesmo explicar por si só por que se mata tanta gente todo santo ano. Além do racismo policial, haverá o racismo do tráfico, o racismo da milícia e o racismo puro. Uma certeza sucede outra e a indignação de ontem será amanhã uma sombra fugidia.

A viúva de Marielle

Já estamos na eleição da viúva de Marielle no noticiário, e ninguém sabe quem mandou matar a vereadora e seu motorista. Hoje, a morte do menino João Pedro, de 14 anos, uma entre tantas crianças pretas mortas por “bala perdida”, prova que essa forma de morrer incorporou-se à natureza majestosa do Rio; como o raio, o trovão e a roda de samba, não pode ser evitada. O caso de João Freitas segue a toada. Servirá para acordar o Carrefour para os benefícios da renovação publicitário-corporativa. Nas hostes de Sua Excrescência Caveirão Jumentíssimo, o Franco, disfarçaram mal sua excitação com as cenas do estacionamento do macabro supermercado francês; para essa turma, melhor pornô não há, a não ser, claro, as sessões oferecidas pelas milícias que regem a Zona Oeste do Rio.

Um país jovem

O Brasil é um país em permanente renovação. Como um idiota, nunca envelhece.

Dominguinhos & Chico

Chico Buarque é parceiro de Dominguinhos em duas canções: Tantas palavras, 3ª faixa de Chico Buarque (1984) e Xote de navegação, 5ª faixa de As cidades (1998). Ambas estão no núcleo das obras primas do nosso artista maior.

A letra da primeira tem duas versões, uma que é indigna da melodia de Dominguinhos e do próprio Chico, cantada por ele, Chico, na trilha da novela Sabor de mel (Ariola, 1983) e a versão definitiva, gravada no LP autoral do ano seguinte. Aí sim Chico se houve com a própria arte e com a música do grande parceiro.

A segunda letra é a que tem versos como “Trocamos confissões, sons/ No cinema,/ dublando as paixões/ Movendo as bocas/ Com palavras ocas/ Ou fora de si/ Minha boca/ Sem que eu compreendesse Falou c’est fini/ C’est fini”.

Tantas palavras foi arranjada por Cristóvão Bastos, e bastou (me permita, leitora amiga) para o resultado, mais que justo, agregar o acordeom de Dominguinhos aos teclados de Hugo Fattoruso, músico que há décadas acompanha Chico em shows e gravações.

Quinze anos mais tarde — contou Chico em entrevista recomenda na Ju#48 — ele teve a ideia de uma canção, um mote poético, e se lembrou de um dos temas que recebera do amigo e guardava numa fitinha K-7 durante todo esse tempo.

Era o Xote de Navegação, um rubi luminoso incrustado na tiara mais preciosa da canção brasileira.

Na mesma entrevista, Chico lembra que ao ouvir a letra cantada, já no estúdio, Dominguinhos não conseguia parar de chorar. Nos ensaios da gravação, tirava uma introdução atrás da outra na sanfona, cada uma mais bela que a outra, para não se lembrar depois do que havia criado, quando lhe pediam para tocar de novo, agora para valer.

O resultado é desses que revelam ou traduzem o poder da música. O acordeom dá o tom da melodia, arranjada por Dominguinhos e Luiz Claudio Ramos, que faz o violão. Entram Jorge Helder (contrabaixo), Ricardo Amado (violino) e Zé Menezes (José Menezes França), bandolim.

Se Tantas palavras é o romantismo levado à quintessência literária de uma letra de música, esse Xote de navegação é de salvar uma alma sem eira nem beira, ao fazê-la reencontrar o curso franco da existência ao navegar na barcaça onde ‘tudo, tudo passa/ só o tempo não”.

O tempo passa mas agora o vemos, ou flagramos, pois “passam paisagens furta-cor/ Passa e repassa o mesmo cais/ Num mesmo instante eu vejo a flor/ Que desabrocha e se desfaz”. É o tempo da “tua música”, da “tua respiração”.

Dominguinhos (José Domingos de Morais) tinha mesmo que, como se dizia antanho, prorromper em pranto ao ver sua criação ganhar uma nova espécie de vida, por meio da palavra.

TANTAS PALAVRAS – Dominguinhos e Chico Buarque (2ª versão da letra)

Tantas palavras
Que eu conhecia
Só por ouvir falar, falar
Tantas palavras
Que ela gostava
E repetia
Só por gostar

Não tinham tradução
Mas combinavam bem
Toda sessão ela virava uma atriz
"Give me a kiss, darling"
"Play it again"

Trocamos confissões, sons
No cinema, dublando as paixões
Movendo as bocas
Com palavras ocas
Ou fora de si
Minha boca
Sem que eu compreendesse
Falou c'est fini
C'est fini

Tantas palavras
Que eu conhecia
E já não falo mais, jamais
Quantas palavras
Que ela adorava
Saíram de cartaz

Nós aprendemos
Palavras duras
Como dizer perdi, perdi
Palavras tontas
Nossas palavras
Quem falou não está mais aqui

XOTE DE NAVEGAÇÃO – Dominguinhos e Chico Buarque

Eu vejo aquele rio a deslizar
O tempo a atravessar meu vilarejo
E às vezes largo
O afazer
Me pego em sonho
A navegar

Com o nome Paciência
Vai a minha embarcação
Pendulando como o tempo
E tendo igual destinação
Pra quem anda na barcaça
Tudo, tudo passa
Só o tempo não

Passam paisagens furta-cor
Passa e repassa o mesmo cais
Num mesmo instante eu vejo a flor
Que desabrocha e se desfaz

Essa é a tua música
É tua respiração
Mas eu tenho só teu lenço
Em minha mão

Olhando meu navio
O impaciente capataz
Grita da ribanceira
Que navega pra trás
No convés, eu vou sombrio
Cabeleira de rapaz
Pela água do rio
Que é sem fim
E é nunca mais




Liberadas para adultos

Adultos podem se entreter sem susto e sem surtos de acne com estas novas séries: Speakerine (Film & Arts) ambienta nos estúdios da TV francesa uma trama de crime e luxúria durante o mandarinato do general De Gaulle e a perigosa diplomacia na Guerra Fria. A britânica Gangs of London (Starzplay) reúne um elenco de primeira, tem excelente roteiristas e, para os chegados, a Ju está fora, esbanja violência. Já No man’s Land  (Starzplay) é um thriller sobre a Guerra Civil na Síria, na qual se mete um engenheiro francês, Antoine, em busca da irmã supostamente desaparecida. Esta classificação se baseia em um ou dois capítulos e poderá ser alterada sem aviso prévio, na próxima Ju.

Das delícias da pindaíba

Ver séries à vontade, para uma alma serena, é outro benefício da desocupação, enquanto se pode pagar a TV a cabo e a conta de luz.

Glórias que não dão cliques

Toninho Horta faturou o Grammy Latino de melhor álbum de MPB. Belo Horizonte foi lançado em maio do ano passado. Aqui e ali deram notas sobre o prêmio. Prêmio e glória, por festivos, dão cliques. Você não encontrará muito além disso. Nada de velharias como entrevista, crítica ou reportagem sobre o disco. Um artista da envergadura de Horta, cuja arte é celebrada há mais de 50 anos da Savassi, no Belo, a Asakusa, em Tóquio, com parada certa em Manhattan, já não passa no crivo dos ex-cadernos de ex-cultura de certos ex-jornais brasileiros. Os ex-cadernos favorecem antes games, influencers e, se você me permite, funkers com causa. Escute ao menos Aqui Ó!  Ficou um primor com a participação de João Bosco, ou Pedra da Lua, com Joyce Moreno.

E o que é diverso à diversidade?

Um tardígrado: única espécie sobrevivente ao jornalismo cultural contemporâneo

Atualizo e resumo um post de cinco anos trás, hoje ainda mais válido:

[1] Acossado pelo infantilismo,  patrulhado pelas milícias do pensamento, tangido pelo advento das redes sociais e das recompensas do caça-clique, o jornalismo cultural perdeu o norte, além do caráter. A geleia geral sem osso ou tutano um dia apontada por Décio Pignatari atomizou-se em farofa cibernética — e vende-se como Baconzitos empacotado com design exclusivo para cada tribo consumidora.

[2] Literatura, teatro e outras artes moribundas doravante só têm o que comunicar com seres errantes, como ursos brancos pendentes em blocos de gelos nos mares glaciais.

[3] Pepe Escobar, velho herói do jornalismo cultural brasileiro, tascava o “juvenilíssimo” que, à época, uma faixa entre os anos 1980 e 1990, predominava nas redações de cultura. E pensar que hipsters de academia, fofoqueiros multimídia, fãs de livros para colorir, Mondrians da cozinha e Rosas do vinho tomariam todas as posições.

[4] O próximo passo do jornalismo cultural será operar em modo algoritmo. O usuário terá o serviço completo em apps de entretenimento com menu de engajamento enviesado ao máximo: “gostei”, “não gostei”, “é demais”, “ri”, “rachei os bicos”, “fiz pipi”, “fiz cocô” etc. Vai assistir a vídeos, interagir com o editor, pautar a redação, contratar e demitir jornalistas. Toda a diversidade será contemplada, exceto o que for diverso à diversidade.

[5] A memória na diluição homeopática do espírito pelo jornalismo cultural desenvolveu seu próprio mal de Alzheimer. E ainda persiste o “vamos todos ligar o foda-se”, em massa, como blague, dos que ainda imaginam a possibilidade de ser livres!

[6] O jornalismo cultural logo vai incorporar como subgêneros, além dos games e do colunismo de rede social, a jardinagem e os cuidados com pets. Mas já incorporaram, não?

[7] Embora não sejam lidos, os poetas vivos sobrevivem no Brasil como entertainers ou, pior ainda, influencers. Suas chances crescem à proporção de sua adesão ao e-Tudo, e da capacidade de seus poemas emocionar no Instagram, além da correção política. Há quem literalmente se vista de palhaço. O mais constrangedor são os adolescentes semicalvos à beira das sete décadas a declamar seu batatinha-quando-nasce por aí, isto é, nas redes sociais.

[8] O provincianismo de metrópole só tem feito expor-se ainda mais no jornalismo cultural carioca e paulista, o que seria impensável há 40 anos.

[9] O leitor médio do jornalismo impresso só lia títulos e bigodes. No jornalismo para telefone inteligente, enxerga apenas as listas de mais clicados ؙ— e, satisfeito, se dá por informado.

[10] Está tudo dominado pelo Homo facebookensis.

El pibe de oro

Até a bola se entristece com o destino de Maradona

O fim de Diego Maradona me lembrou a velha frase atribuída a Eurípedes: Os deuses primeiro enlouquecem a quem querem destruir. Podem, os deuses, terem sido uns invejosos, e feito dele “o mais humano dos imortais”, no título lapidar do New York Times. Para quem ama o futebol e o viu em campo, fica o bailarino e coreógrafo e o compositor de trilhas silenciosas que ainda ouvimos quando ele parte com a bola e acende o fogo perpétuo do lance.

«Até dia 30 você pode ver o especial de Monica Salmaso e André Mehmari no Youtube, e quem sabe contribuir pagando um “ingresso consciente”. É o melhor produto cultural de 2020, uma produção impecável em arte e técnica. No piano de Mehmari, a música popular brasileira se faz intemporal, altiva e universal, e Salmaso, vem cá, canta como pouquíssimas estão cantando. A Mônica amou o comentário do primo Franquilim da Silva entre os youtubeiros: “Aplauso, aplauso, aplauso, aplauso, aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso… de pé… continua…”.

«Leila Pinheiro e GuingaCanibaile (Guinga e Aldir Blanc)»

«Se você ainda não ouviu o pianista islandês Vikingur Ólafsson, pode ser que ainda não tenha ouvido esse instrumento em tão boas mãos.»

JURUPOCA, O AUTOR
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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Diário congelado de Copenhague e Milão

Vizinhança da Gernersgade, na área de Sankt Pauls, Copenhague. Foto: Antônio Siúves



ALMA ROÍDA

Ainda tenho a alma roída pelo frio de Copenhague.

Roída também pelo vento sem tréguas dum fim de semana de março.

Alugamos um apartamento em Sankt Pauls, a meia hora de caminhada até Nyhavn, a área central da cidade. Os amigos, mais jovens, fizeram questão de ir a pé a toda parte, na intempérie, a testar minhas forças. Aguentei firme, mais ou menos.

CHOQUE E “RU-GA”

É sobretudo a pé que conhecemos as cidades e a maneira como a vida se organiza e se distingue no seu espaço e tempo.

Estive em outras cidades ricas de mesmo porte, ótimas para morar.

Ainda assim, Copenhague aplica em quem a conhece uma boa descarga de civilização.

Percebo a capital dinamarquesa como a conjugação ótima entre passado e presente projetada no futuro.

A palavra dinamarquesa Hygge (pronuncia-se RU-GA) é intraduzível.

Expressa bem, a meu ver, o estado de arte da cultura e da vida social de Copenhague.

A cidade conforma no seu cotidiano noções enraizadas de elegância, higiene, conforto e bem-estar, ou, se quisermos, de vida plena — ou que pode ser plena.

Está aberta ao mundo ma non troppo.

A riqueza foi convertida em meios de educação, transmissão cultural e aprimoramento constante da sociedade.

Sua atual prefeitura aposta que a cidade será neutra em carbono já em 2025, e não dá para duvidar.

Talvez por isso sua gente sempre se coloque entre as primeiras no Relatório Mundial da Felicidade, divulgado pela ONU.

HAVNERINGEN

A vida é cara para chuchu em København.

Um copo de vinho no mercado de Toverhallerne pode custar o equivalente a 10 euros, ou quase 50 pratas.  

Coroas dinamarquesas dissolvem como ácido reais depauperados.

As pessoas são muito educadas, amáveis e prestativas, ainda que, naturalmente, distantes.

A segurança nunca é ostensiva e praticamente não se nota a presença de policiais nas ruas.

Não se ouvem buzinas e bicicletas imperam como gaivotas em toda a ilha.

Trecho de Havneringen. Foto: Antônio Siúves

Um circuito (ou pista) portuário (Havneringen) com ciclovia e via para pedestre de 13 km de extensão (subseções de 2,4 km e 7 km) foi concluído há alguns anos.

Não há como um brasileiro não se sentir em outro planeta estando ali, ainda mais se conta com as graças do sol por dez minutos.

Marco com informações da Havneringen. Foto: Antônio Siúves

Um dos marcos da pista é a ponte para pedestres e ciclistas Cirkebroen, entre Christianhavn e a área de Applebys Plads.

A estrutura formada por cinco plataformas circulares foi desenhada pelo artista dinamarquês Olafur Eliasson, bem conhecido no Brasil.

Duas de suas obras podem ser vistas há tempos no Inhotim, em Brumadinho:

A instalação com uma fonte iluminada por luz estroboscópica contida num iglu de fibra de vidro chamada “By Means of a Sudden Intuitive Realization”, e “Viewing Machine”, o enorme caleidoscópio em aço inoxidável.

BLOX

Estivemos no Blox, o edifício com estrutura retangular revestido de vidro escuro que é um centro de arquitetura e muito mais. O projeto foi encomendado pela OMA Ellen van Loon ao escritório do célebre arquiteto holandês Rem Koolhaas.

Para o “The Guardian” o lugar aspira a ser uma cidade sob um único teto com museu, escritórios, academia de ginástica, restaurante e moradias. O café que se projeta sobre o canal estava fechado.

Era domingo e apenas a academia funcionava.

Não havia porteiro ou vigilante para barrar a curiosidade de visitantes estrangeiros.

“O lugar todo é um microcosmo do espírito dinamarquês e sua inventividade urbana”, definiu apropriadamente o diário inglês.

Vista do Blox, edifício projetado pelo arquiteto holandês Rem Koolhaas. Foto: Antônio Siúves

DIAMANTE NEGRO

A linda Biblioteca Real da Dinamarca, conhecida como Diamante Negro, é uma aula magna revigorante de arquitetura arrojada, funcionalidade, valor social conferido à educação e respeito ao patrimônio histórico.

O conjunto abriga um acervo de publicações que começa no século 17 e departamentos da Universidade de Copenhague.

Na parte moderna (Diamante Negro) havia muita gente num sábado à tarde. Estudantes circulavam pelas salas e no simpático café.

Um corredor com paredes de vidro claro, que se acede por escada rolante, tem o teto decorado com belos afrescos.

A passagem atravessa por sobre extensa via urbana para juntar o edifício moderno, de 2006, ao prédio centenário da antiga biblioteca. Li alhures que Lenin labutou em suas mesas pelos idos de 1910.

CARRO DE SOL

Revi por acaso, no Museu Nacional da Dinamarca (obrigatório para quem se interessas pela civilização viking) a preciosa joia de puro deleite que é o carro solar de Trundholm, artefato de 1.400 a.C.

A delicada peça havia me encantado sete anos atrás, ao encontrá-la na exposição “Bronze”, organizada pela Academia Real de Londres.

Carro solar de Trundholm, artefato datado de 1.400 a.C. Foto: Antônio Siúves

Encontrado por fazendeiros dinamarqueses em 1902, quando aravam a terra, o objeto representa o deus Sol, ou Sunna, na mitologia nórdica. Nele, conforme o mito, um cavalo puxa diariamente o sol de leste a oeste.

MATISSE E OLIVETTI

Já o Museu do Desenho é um compêndio sobre como imaginação, arte e técnica forjaram a aparência e o uso dos objetos desde o modernismo.

O acervo reúne exemplares históricos de cadeiras e poltronas incorporadas ao cotidiano universal (ovo, Eannes etc.) a motores elétricos, de roupas e sapatos a móveis, de utensílios de cozinha a imagens icônicas da arquitetura moderna e pós-moderna.

Verto uma lágrima diante de “minha” Olivetti Lettera 22 exposta.

Com uma igualzinha atravessei os últimos anos da adolescência perseguido pela poesia e me iniciei no jornalismo.

Obra de Henri Matisse no Museo do Desenho, em Copenhague. Foto: Antônio Siúves

Quase verto outra ao entrar na sala dedicada a tapeçarias e colagens de Matisse. Comparo estas à densidade da música de João Gilberto, na qual a aparente simplicidade das formas e a escolha das cores escondem um longo caminho percorrido na história da arte.

Me lembrei do ensaio de T.J. Clark publicado na “Serrote” #18. No resumo que encabeça o texto diz-se que “O Matisse das colagens dramatiza o conflito entre pintura e decoração que marca as relações dos ideais modernistas com o espectador”. Na mosca.

NO REINO DA LEGO

Fachada da loja Lego, em Copenhague. Foto: Antônio Siúves

A Dinamarca e Copenhague são o parque Tivoli, Hans Christian Andersen (“O Patinho Feio”,”A Pequena Sereia”, “A Roupa Nova do Rei” etc.), Søren Kierkegaard, mas também o reino da Lego.

Na loja da marca, em uma das ruas fechadas para pedestres no centro, você encontra kits exclusivos para presentear seu pimpolho.

Meninos que viajaram a outros planetas, deram a volta ao mundo, disputaram corridas de carro e enfrentaram bandidos, graças ao brinquedo, como o que batuca estas linhas, se sentem em Meca ao entrar na loja.

PARAÍSO DA MACONHA

Andamos feito malucos num domingo de manhã para conhecer Christianhavn, área bucólica de moradias de Copenhague onde fica Christiania — o célebre parque temático hippie, por assim dizer.

Chovia a cântaros quando chegamos e nos abrigamos numa espécie de armazém coletivo dentro de um galpão onde se comercia de um ao tudo.

Troquei um punhado de coroas por um guarda-chuva imprestável que terminaria seus dias numa lixeira de Berlim.

O uso da maconha e seu comércio são livres em Christiania.

Na praça em frente ao armazém entrei num pub maneiro para uma IPA.

Você tropeça em cachorros enormes e pode se arriscar em máquinas caça-níqueis.

O olor da cannabis se espraiava numa densa onda comunal.

Por pouco a maré não me faz sair na chuva, como um Fred Astaire deslocado e extemporâneo, a improvisar o tema de “Hair”.

COMO SALVAR UM CHAPÉU

No Churchillparken, um basco arretado, o mais disposto entre nós, arriscou-se ao desembestar por um talude com quase 90 graus de inclinação para resgatar meu chapéu verde invernal que a ventania me roubava, acessório de muitas histórias deste que há anos o adquiri no Rossio lisboeta.

Por pouco o amigo não cai no gélido canal do mar do Norte e pega um resfriado.

Nunca esquecerei seu gesto na vida de minhas retinas tão fatigadas.

CENTRO DA CIVILIZAÇÃO 

Alguém pode viver a mesma experiência em mil outros lugares. Ao flanar pela Vittorio Emanuele II, em Milão, e parar sob a imensa e estonteante cúpula da galeria com seus vitrais, me baixa sempre o espírito da civilização europeia, e percebo o legado iluminista que forjou ideais do belo e bom no Ocidente.

Pude percorrer a galeria (abstraia-se o shopping de alto luxo e os restaurantes turistosos) algumas vezes, inclusive à noite, depois de ouvir uma récita no Scala.

Vivesse em Milão, tentaria bater meu ponto ali diariamente.

A Galeria Vittorio Emanuelle II e sua cúpula. Foto: Wikimedia Commons

O monumental Duomo di Milano, ao lado da galeria, símbolo da cidade, não lhe é páreo em beleza e majestade.

MANTEGNA E BELLINE

Aproveitei meus poucos dias em Milão, hub desta viagem, também para ir duas vezes à riquíssima Pinacoteca de Brera, instalada num palazzo do século 18 neste bairro, onde me hospedei.

Uma enorme e régia biblioteca e centros de educação artística funcionam ali.

Me concentrei na “Pietà” de Belline e, bem ao lado, na “Lamentação sobre o Cristo Morto”, de Mantegna.

“Lamentação sobre o Cristo Morto” ( 1475-1478 ), de Andrea Mantegna. Foto: Wikimedia Commons

Dois passos da paixão na história da arte.

O Cristo de Mantegna é o deus mais humano que um grande artista jamais concebeu.