O diário da sexta

Delfim, Scruton e nossa arte de distribuir a riqueza judiciosamente;
Jorge Coli e uma injustiça com Inhotim;
A indústria da música ressurgiu mesmo?;
Rosemary Standley e Dom La Nela

Diário da sexta 17_06

 

A SÍNTESE DELFINIANA

No Valor, Delfim Netto diz que nossa esquerda, “infantil, desinformada, mas com alto poder vocal, não chega sequer a entender” que apenas o mercado pode resolver o problema da informação para se coordenar a necessidade de milhões consumidores com livre escolha com a capacidade produtiva de milhões de produtores igualmente livres para escolher o que produzir. Critica também o liberalismo puro para dizer que não há contradição entre Estado e Mercado. “O que precisamos não é uma política de ‘esquerda’ ou de ‘direita’, mas de uma política que admita as duas!”, diz o professor.

DISTRIBUINDO A RIQUEZA

Delfim talvez tenha tentado empurrar sua premissa ao governo petista, do qual foi conselheiro enquanto as águas eram calmas e o vento a favor do partido. A esquerda brasileira, como o ex-ministro sabe melhor que ninguém, se enquadra à perfeição no que Roger Scruton, referindo-se a certo crítico da Nova Direita, à época de Thatcher e Reagan, escreve em Como Ser um Conservador (Record): “O autor” —diz o filósofo britânico— “supunha que a principal incumbência do governo é a de distribuir a riqueza coletiva da sociedade entre seus membros e que, em matéria de distribuição, o governo é deveras competente. O fato de que a riqueza só pode ser distribuída caso antes tenha sido criada parecia escapar à sua observação.”

O JUDICIÁRIO É UM LUXO SÓ

“Distribuir a riqueza” é o que nossos Poderes têm feito com grande desembaraço, sobretudo o quinhão do PIB destinado às próprias corporações públicas. E o Judiciário é de longe o mais generoso dos três.

Este jornal louvou anteontem o prêmio da ANJ aos jornalistas da Gazeta do Povo, do Paraná, vítimas de “assédio judicial” de magistrados e procuradores no Estado. A tal reportagem que despertou a ira corporativa baseou-se em informações abertas a qualquer interessado. A equipe da Gazeta mostrou que, graças a uma série de benefícios autoconcedidos, o teto salarial do funcionalismo, que é de R$ 33,7 mil por mês, na Justiça paranaense pode saltar, em determinado caso, para R$ 148,7 mil, e várias outras situações semelhantes, todas legais.

Nosso Judiciário é ineficiente, mas continuamente se concede um luxo só em remuneração e privilégios, como gozo de folgas, férias e aposentadoria, coisa para causar inveja aos países mais ricos.

O JS se reportou a Hélio Schwartsman, colunista da Folha, e ao estudo de 2014, citado por ele, de Luciano Da Ros, da UFRGS, a revelar que a Justiça brasileira, sem contar Ministérios Público e defensorias, toma dos pagadores de impostos 1,3% do PIB e é 6,5 vezes mais cara que a francesa e 4 vezes mais cara que a alemã.

COLI E O INHOTIM

Em entrevista a João Pombo Barile, no Suplemento Literário, o filósofo e historiador da arte Jorge Coli faz uma crítica requentada ao Inhotim, que podia fazer algum sentido quando o lugar foi inaugurado e de fato tinha um quê de ilha exótica, como foi notado pela imprensa estrangeira. Hoje bate no vazio, além de chover no molhado.

O problema do lugar, ele diz, é que se parece com a Suíça, um “recorte suntuoso numa geografia de pobreza”. Coli compara a grande obra de Bernardo Paz a “um mundinho perfeito e isolado” e aos desvarios de “antigos ricaços mineiros”, como o contratador de diamantes João Fernandes “rasgando um mar artificial para que Chica da Silva navegasse”.

Ora, este “mundinho perfeito” recebe milhares de pessoas anualmente, inclusive milhares de escolares, que bem ou mal têm ali, além da informação cultural de primeira no universo da arte contemporânea, uma experiência estética e sensorial incomum no país, incluído no ingresso o contato delicioso com os jardins e a vegetação da Mata Atlântica que lá se preserva.

Quanto ao “recorte suntuoso numa geografia de pobreza” se poderia dizer o mesmo do MASP, do MAM, da Osesp e da Filarmônica de Minas Gerais. Não falta miséria à volta dessas instituições. O que Coli queria, ver macumba e rodas de samba em quintais de barracões de zinco? Congado e arte barroca em calçadas de capistranas?

O comentário tem a típica petulância preconceituosa da elite intelectual paulistana para quem Minas e o que sobra do Brasil jamais perderão certa essência caipira, incluindo o Rio de Janeiro. Se o Inhotim estivesse nos arredores da capital ou no interior de São Paulo, dificilmente o crítico teria tido a mesma impressão.

VINIL E STREAMING

O Valor de hoje também traz reportagem de Jotabê Medeiros que se vende como “ressurgimento da indústria musical”. O título claramente força a barra. Não há fatos que comprovem o que se anuncia. Por volta dos anos 1980, a indústria da música chegou a movimentar US$ 40 bilhões; hoje fatura menos da metade disso, US$ 15 bilhões.

No Brasil, o vinil parece ter voltado para ficar, com uma nova fábrica para ser aberta em São Paulo capaz de fabricar 30 mil discos por mês. Mas o mais promissor é o streaming, de serviços como Spotify e Dezzer, que desbanca o download e cai no gosto das pessoas, movimentando R$ 200 milhões por ano, com um milhão de assinantes no país.

O que vende hoje, diz Jotabê, é o sertanejo e também os gêneros religiosos, o arrocha (?) e o “funk mais pop, como Ludmilla e Anitta”. As letras duplas, me pergunto, são uma características das estrelas do Funqui?

POSSO CANTAROLAR

Escrevi acima é um luxo só e me lembrei, claro, de Ary Barroco. “…Mexe com as cadeiras mulata/ teu requebrado me maltrata…”. Esses versos já foram enquadrados em nossa “cultura do estupro”?

SAMBINHA

Por que estas duas se escondiam de mim? Ano passado descobri Rosemary Standley, componente do grupo franco-americano Moriarty e, assim, a jovem gaúcha Dom La Nela. Caí de amores por Sambinha e Duerme Negrito, do álbum Birds On A Wire, por sinal com uma bela versão dessa música de Leonard Cohen. Vejam as duas nos vídeos abaixo, em apresentação na Chapelle de la Trinité, em Lyon.

Se você gostar, me diga. Veja também Moriarty Isabella and I will do The Missing live 2/3 in Shakespeare Company, uma graça. Aproveite, em seguida, para dar uma bordejada na Shakespeare and Company em Paris e conhecer a belíssima história dessa livraria, se for o caso.

Duerme Negrito

 

Sambinha

1 Siúves, 3 Antonios e 1 Jobim

Há muito esperava rever a fita. Meu tape em VHS sumiu no porão.

Apareceu no tubo da Google.

O média-metragem 3 Antonios e 1 Jobim, de 1993, realiza a bela ideia de um encontro entre Antonio Callado, Antonio Houaiss, Antonio Candido e Tom Jobim, no Rio de Janeiro.

O diretor Rodolfo Brandão e o produtor executivo Augusto Casé não vão se importar com o gesto da boa alma que o fez subir ao tubo, há coisa de seis meses. Até segunda-feira, apenas uns 3,7 mil o tinham visitado, we few, we happy few.

Os 4 Antonios se reúnem no museu Chácara do Céu, em Santa Tereza, e almoçam um macarrão preparado pelo chef Houaiss; passeiam pela cidade e proseiam risonha e francamente. Em cenas alternadas, cada um fala de si do que acha belo e bom.

Callado cobriu a Segunda Guerra e ouviu as bombas alemãs silvarem sobre Londres; ao voltar, se interessou pelos índios e enveredou sua obra Brasil a dentro.

Houaiss decanta Portinari e tasca a ditadura manuseando o próprio prontuário do SNI.

O acadêmico deixará sua receita de gafanhotos fritos no “azeite de oliveira”: “quando começar a estalar, você leva à boca: é um camarão delicioso! São João Batista comeu com muito prazer, pode estar certo.” Nosso grande tradutor do “Ulisses” também recomenda a farofa com bundinhas de formigas ao ponto.

Candido enaltece as utopias do século 18, liberalismo, socialismo, comunismo, o anarquismo, a fraternidade universal, a igualdade… “A utopia cria o homem superior. Faz você subir acima de você mesmo”, nos diz. Utopias já eram, lamenta.

Callado lembra a empregada portuguesa da família em Paris. A boa senhora se virava bem no francês mas implicava “com a mania” de chamarem água de “l’eau”. Não, água é água.

Candido louva a imigração. Cita com ternura a memória dum libanês gritando “Nagibêêê, vosso pai está te chamando você!”. “Três formas de tratamento numa frase simples”, diz Callado.

Depois cantarola a “Balada de Pedro Nava”, de Vinicius de Moraes: “Meu amigo Pedro Nava/ Em que navio embarcou: / A bordo do Westphalia/ Ou a bordo do Lidador? // Em que antárticas espumas/ Navega o navegador?”

Como inteligência e elegância fazem diferença. O comunismo de Houaiss, Callado e Candido soa idílico perto do esquerdismo rude e, diria o próprio Houaiss, ágrafo dos nossos dias.

Hoje só temos o Candido entre nós, mestre de mestres com seu “Formação da Literatura Brasileira – Momentos Decisivos”.

Os outros xarás se foram.

Ao revê-los, me dei conta de que a arte da conversa de fato estrebuchou. Não há mais reunião que não seja mediada pelo tédio de telinhas abertas a cada instante para alguém nos exibir fotocas e filmocos engraçadinhos. Não se discutem mais ideias soltas sobre a vida e arte, livros e discos e tal.

Tom: “O Brasil precisa merecer a bossa nova, casar com mulher bonita, ter filhos, passear no barquinho do Menescal… o barquinho vai, a tardinha cai… o barquinho a deslizar no macio azul do mar…”, ele recita. Ainda não merece, não.

Retenho o rigor do Houaiss, a honrar sua obra, sua fala meio sibilante, a prosa melodiosa do Callado, semelhante à do sempre suave Candido, com seu delicioso acento interiorano de mineiro e paulistano.

Tom, o mais jovem ali, traz o mundo luminoso, o amor ao Rio, a beleza da música que ele mesmo irradia ao falar de dicionários ou do taquaraçu de espinho que amava tanto.

Saudade.

O filme, de apenas 21 anos atrás, é retrato de certo Brasil (um retrato é um instante mumificado pela luz, eu digo) e de um idioma que se degradou no patoá das tribos infantilizadas.

Houaiss: “Todo homem, para ser homem no futuro, vai ser um viajor”.

Viajor sou.

No final, Jobim cita meu esquecido Cassiano Ricardo: “Chove e eu penso: haverá coisa mais viúva/ que a saudade possuir olhos de chuva/ e eu coração de girassol?”

Tom ainda diz que seu amigo Callado gosta mesmo é de Eliot e manda “April is the cruellest month, breeding/ Lilacs out of the dead land, mixing/ Memory and desire, stirring” — e vão-lhe seguindo: “Dull roots with spring rain. / Winter kept us warm, covering…”

O contubérnio (grazie, Houaiss) termina com os quatro num bar cantando um samba de Noel.


 

(Correções e uma atualização em 24/05/2014; nova atualização em 30/05/2014)