Broadchurch, Hinterland e uma palavra sobre séries britânicas

Broadchurd

Os atores David Tennant e Olivia Colman, em “Broadchurch”. Foto: Divulgação

Os EUA são pioneiros no gênero e produzem ótimas séries de TV. O JS tem citado The Wire, Sopranos, Boardwalk Empire e a primeira temporada de True Detectives como exemplos de obras de excelência, com pretensões e realizações artísticas.

Mas, em geral, predomina na indústria americana do seriado televisivo o entretenimento rasteiro e fantasioso que pode ser visto sem percalços cognitivos por crianças e adolescentes de todas as idades, um público carente da mínima formação literária.

Com maior frequência, as séries britânicas que chegam ao Brasil parecem ter sido concebidas com alguma reverência à inteligência e à psique adultas.

Pode-se dizer que nelas a seleção de atores prima pela qualidade dramática e adequação aos personagens, em vez do franchising desfilante de caras jovens e bonitas, ainda que indiferenciadas, tão comum nos EUA.

Há roteiros bem elaborados, com densidade mental e direção de atores que persegue a empatia dos personagens com o público, na condução da trama — requisitos nos quais uma série badalada como a americana Vynil, da HBO, fracassa de maneira retumbante, apenas para dar um contraexemplo.

Além disso, há um show de locações nas séries britânicas, contra o excesso de interiores e cenas urbanas de suas congêneres do outro lado do Atlântico.

Esta nota se deterá em duas séries policiais, ou noir, a lembrar que para o JS a maior referência neste gênero é Wallander, filmada no sul da Suécia.

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Broadchurch e Hinterland, disponíveis para assinantes da Globosat e Netflix, realizam competentemente o que está dito acima.

Os detetives que estrelam as duas series têm em comum, como notou o The Guardian homens e mulheres intensos, conflituosos e em busca de redenção, puxados ao noir escandinavo de Wallander. Ambas estão acima, por exemplo, da também britânica, mas afetada e vazia The Fall.

Hinterland, cuja terceira temporada deve ser exibida este ano, se passa no país de Gales e é originalmente bilíngue, com o título de Y Gwyll no idioma local

Os diálogos entre o detetive Mathias (Richard Harrington), seu chefe e subordinados, como a ótima Mared Rhys (Mali Harris), dentro e fora da delegacia de policia são duros, secos e agudos, quase a clamar, como trilha sonora, por José, esta beleza de canção de Caetano Veloso: “Estou no fundo do poço/ meu grito lixa o céu seco/ O tempo espicha mas ouço/ O eco/ Qual será o Egito que responde…”.

Os episódios transcorrem em uma paisagem desolada e friorenta com fazendas e pequenas vilas distantes entre si fincadas nos limites do oceano.

Mathias é torturado pelo infortúnio de um episódio que o afastou da família e opera à beira da depressão mais grave. A certa altura, seu grau de aflição é tal que o vemos jogar roleta-russa com três tentativas contra a sorte, ou a favor, já não sabemos.

Sua humanidade, como a dos oficiais e dos tipos metidos nos crimes investigados é retirada dos porões da alma, do abandono e da solidão dilacerante. Vivos e mortos dialogam sem parar e somos convidados as participar da conversa.

O AMÁLGAMA DE HINTERLAND

O temperamento do detetive Alec Hardy (David Tennant), de Broadchurch, é apenas ligeiramente mais solar que o de Mathias, e ele divide o primeiro plano com a um tanto reprimida Ellie Miller, interpretada pela excelente Olivia Colman.

Nas duas primeiras temporadas (o produto será continuado), quase toda a gente da minúscula Broadchurch, comunidade fictícia no litoral britânico, se envolve na história do assassinato de um menino com os embaraços e a carga emocional de uma peça de Nelson Rodrigues.

O meio atrapalhado e cardíaco detetive Hardy recruta a pesarosa Miller para ajudá-lo a desvendar o assassínio brutal, e, mais tarde, para resolver um duplo assassinato de uma cidade vizinha, de onde viera transferido para Broadchurch, depois de fracassar na primeira vez.

O mar, o porto e as lindas falésias que vemos a cada cena de Broadchurch, como os exteriores de Hinterland, são filmados com habilidade de modo a não se descolar da apreensão do telespectador, embalado pelo amálgama das emoções e a ambientação exuberante.

Ao terminar essas séries, como ocorrer no melhor do gênero, em vez da típica sensação de termos nossos cérebros esvaziados, sensação que os produtos televisivos em geral nos causa, e isso pode ter lá sua valia, saímos com lembranças, reflexões e insights. Isso provavelmente terá alguma coisa a ver com arte.

Hinterland

Richard Harrington e Mali Harris, de “Hinterland”. Foto: Divulgação

[Atualizado em 23/06/2016, às 08:19, com correções no texto.]

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“Wallander” (o grande final) e um poema de Tranströmer

Wallander é um melancólico, um isolado no mundo,
 um homem quase mudo, divorciado, a viver longe da filha.
Um policial que quase se mata ao tirar a vida de um criminoso.

Wallander BBC

Foto: Cortesia BBC One

 

Uma paisagem gelada e cinzenta, árvores velhas, um lago com ondulações de brisa; acordes de teclado em fundo incidental ressaltam a desolação ambiente.

Um velho de cenho fechado, perplexo, binóculos em punho, abandona sua casa de campo a passos firmes.

Ouvimos então a voz de sir Kenneth Branagh dizer um poema (ver abaixo) do Prêmio Nobel (2011) sueco Tomas Tranströmer, traduzido apenas ocasionalmente no Brasil, em publicações isoladas, até onde sei.

Começa “The Troubled Man”.

Vejo na Netflix o último episódio (assinantes encontram aqui) da quarta e última temporada de “Wallander”, a série britânica estrelada por Branagh baseada em histórias  de Kurt Wallander, policial criado por Henning Mankel (1948-2015) e desenvolvido numa série de livros noir.

Alguns dos títulos estão traduzidos no Brasil pela Companhia das Letras.

Wallander é um melancólico, um isolado no mundo, um ser quase mudo, um homem divorciado à beira do abismo, a viver longe da filha. Um policial que se mata ao tirar a vida de um criminoso.

Ele também é sensível e inteligente.

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Não conheço a série sueca correspondente, mas apenas um ator com os recursos de Branagh pode entrar na pele de personagem tão sutil, a um tempo plano e complexo.

Eis um caso no qual a adaptação televisiva transpõe a obra literária com grandeza.

A série é inesquecível, um dos melhores produtos televisivos que pude assistir.

Rodados na Suécia, principalmente na cidade portuária de Ystad, cenário original dos livros de Mankel, os filmes da série, com episódios de hora e meia de duração, causam sensações que oscilam da beleza reverberada à dor existencial, conforme a estação do ano e conforme o roteiro.

A alternância de tomadas é sempre refrescante. Respiramos o ar limpo e gelado, nos expandimos em estradas abertas, repousamos à beira-mar ou à volta de lagos que espelham bosques centenares.

Que o leitor do blog não perca a série.

Melhor nada dizer sobre o final e o destino de Wallander, a não ser, talvez, que a integridade artística da série e o desempenho de Branagh se expõem com a luz ávida do poema que segue.

Eis uma versão em inglês do magnífico poema de Tomas Tranströmer.

A tradução mais ou menos literal é mais ou menos igual à da legendagem feita pela Netflix.

 

The Half-Finished Heaven

Despondency breaks off its course.
Anguish breaks off its course.
The vulture breaks off its flight.

[O desespero rompe seu curso. A angústia rompe seu curso. O abutre interrompe seu voo.]

The eager light streams out,
even the ghosts take a draught.

[A luz ávida paira no ar, até mesmo os fantasma respiram.]

And our paintings see daylight,
our red beasts of the ice-age studios.

[E as nossas pinturas veem a luz do dia, nossas bestas escarlates dos estúdios da era do glacial.]

Everything begins to look around.
We walk in the sun in hundreds.

[Tudo começa a enxergar. Andamos ao sol às centenas.]

Each man is a half-open door
leading to a room for everyone.

[Cada homem é uma porta semiaberta que leva a um quarto comum.]

The endless ground under us.

[O chão infinito sobre nós.]

The water is shining among the trees.

[A água brilhando entre as árvores.]

The lake is a window into the earth.

[O lago é uma janela para a Terra.]

De Tomas Tranströmer, New Collected Poems,
 translated by Robin Fulton (Bloodaxe Books, 1997/2011)

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