Dezembro, mês ou menstruação?

Jurupoca_51. 11 a 17/12/2020. Ano 2

Marte em foto da Nasa.
LISBON REVISITED (1923) – Fernando Pessoa em fase Álvaro de Campos

 Não: não quero nada 
 Já disse que não quero nada.

 Não me venham com conclusões!
 A única conclusão é morrer.

 Não me tragam estéticas!
 Não me falem em moral!
 Tirem-me daqui a metafísica!
 Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
 Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
 Das ciências, das artes, da civilização moderna!

 Que mal fiz eu aos deuses todos?

 Se têm a verdade, guardem-na!

 Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
 Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
 Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

 Não me macem, por amor de Deus!

 Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
 Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
 Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
 Assim, como sou, tenham paciência!
 Vão para o diabo sem mim,
 Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
 Para que havemos de ir juntos?

 Não me peguem no braço!
 Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
 Já disse que sou sozinho!
 Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

 Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
 Eterna verdade vazia e perfeita!
 Ó macio Tejo ancestral e mudo,
 Pequena verdade onde o céu se reflete!
 Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
 Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

 Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
 E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! 

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). / ARQUIVO PESSOA

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Eta dezembro brabo. Tá craude bro. É menos mês que menstruação. O comercial do Chester Sadia pede um Sal de Fruta Eno Tutti Frutti para descer.  E ninguém bebeu nada, ainda. A coisa não alui, só isso. Não é mais novembro e ainda não é janeiro, e o intermezzo é uma caçoada dos infernos.

A mensagem de fim de ano da Globo é outro porre de tubaína. Quanta celebridade criança esperança! no Projac e no Jardim Botânico a brincar de costas pra ela, a roda-dança da morte carioca.

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

A morte de Michael Corleone

Coppola aplainou a compreensão de seu grande filme, ao remontá-lo como desejavam ele o roteirista Mario Puzzo, a quem o título em inglês homenageia. O final da saga O poderoso chefão ressurge fresco e inteiro, capaz de recompor a alma desconsolada de um amante do cinema. Os urros da dor de Michael na escadaria do teatro, diante do corpo morto de Mary, a filha preferida que lhe dava sentido ao viver, nos provoca compaixão por um ser humano monstruoso, assassino do próprio irmão, do filho de seu pai e de sua mãe, como ele diz ao confessar, numa explosão de choro, ao cardeal que logo se tornaria o trágico João Paulo I. Como escreve Javier Cercas, “é esse (…) o lugar eticamente equívoco a que a grande arte nos conduz, e com a qual, precisamente por isso, nos enriquece, permitindo-nos vislumbrar, de nosso posto de leitor ou espectador, áreas de experiência às quais muito provavelmente, felizmente, nunca teremos acesso, e de outra forma nem ousaríamos espreitar”.

Ópera mafiosa

Coppola e Puzzo, neste final, durante e depois da encenação de Cavalleria Rusticana no teatro de Palermo, realizam o epílogo de sua própria ópera sobre a máfia, paralelamente à de Pietro Mascagni, e ao mesmo tempo revelaram no cinema a grande beleza do gênero que já foi a mais popular das formas de representação e hoje perdura praticamente como memento, lembrança, para o deleite de poucos aficionados. Mas talvez a própria arte hoje sobreviva como lembrança em um mundo que afinal conseguiu destruir todas as idealizações do espírito.

A pedofilia com RP

As relações públicas, braço da comunicação social engajado com quem pode pagar pelo serviço, também atendem a um gigante como o Pornhub: 3,5 milhões de visitas por mês, entre as dez maiores potências da internet e à frente de Netflix, Yahoo e Amazon. O portal ajuda cidades a limpar a neve das ruas e investe em instituições antirracistas. Durante a pandemia liberou conteúdo grátis para favorecer o isolamento social. O conglomerado de vários canais de pornografia, com quartel general no Canadá e sede fiscal em Luxemburgo, está infestado de vídeos de estupro e violência contra adolescentes. Essa história é contada em reportagem de Nicholas Kristof, colunista do New York Times. Como no Youtube, os usuários podem postar seus vídeos pessoais na plataforma. Meninas apaixonadas gravam vídeos para namoradinhos pilantras que vão parar nas teias do Pornhub, como estoques de cenas de mulheres no banho ou no vestiário tomadas por câmeras espiãs. No Pornhub é fácil baixar esses vídeos e compartilhar com colegas de ginásio. Depois disso se tornam eternos na internet. Kristof relata tragédias pessoais de crianças terminadas em abandono, dependência química e suicídio. O feminista prafrentex Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, acusa Kristof, não move uma palha para expulsar o antro bilionário de seu higiênico país.

Espelho

A excitação pornográfica é o reflexo necessário de um mundo deserotizado.

Um sonho!

A sonhada democratização da informação com o advento da internet se realiza plenamente na pornografia.

Retratos da pandemia

Sem a distração das viagens internacionais e o turismo de shopping, a pandemia expõe a insignificância de quem não sabe o que fazer da vida.

E passa a récua!

O Corona Kung Flu continua matando, e a récua —coletivo de bestas, o mesmo que canzoada, farândola, cáfila ou parranda — não se dá por vencida. O general da banda e da Saúde vai à frente da comitiva, logo atrás do guia, Sua Excrescência presidente Jumentíssimo, o Franco, e do colega do Meio Ambiente, um adventista dos Santos do Aquecimento Global. Em seguida no tropel avistam-se o bonecão inflável que governa São Paulo, os líderes do Senado e da Câmara, os garantistas e os manobristas da Constituição e todas as autoridades civis e militares do Rio de Janeiro. O governador das Minas do Matos Gerais, Zema-Zen, trota firme no cortejo, mas fica na moita. É difícil saber onde ele está e o que anda aprontando, cê besta!

Abaixo o espanhol!

Uma récua nacionalista e extremista luta na Espanha para abolir o espanhol! Esses supremacistas — se acham mais puros e melhores que os outros — querem impor o euskera e o catalão sobre a língua de Cervantes. A depender da lei, vão conseguir. Só faltam queimar literatura espanhola em praça pública. Mario Vargas Llosa comenta e lamenta cada ato dessa opereta macabra.

A Vale em Marte

Marte é bem feiosinho. O planeta parece ter infinitas jazidas de minério de ferro. Deviam mandar a Vale pra lá. Faria muito bem a Minas, à paisagem que resta e a quem vive perto de suas barragens.

Imagem de Marte tomada pelo veículo espacial da Nasa.

Lobo mau, uma fábula pandêmica

Em seu passeio bem contente pela estrada afora até Tiradentes, ainda no meio do ano, o correspondente desta Jurupoca descreveu uma cena futura: quem enchia bares e daí, baladas, era o lobo mau em pessoa. O malvado acabaria por levar o Corona para a vovozinha, adocicado por carinhos e beijinhos.

Data vênia (1)

Como todo analista político sabe, a suprema corte tem ministros garantistas e manobristas da carta magna. O maior dos garantistas é o novato “Nosso Kassio”, cujo lema reza: “Mateus, primeiro os teus”. Um garantista, claro, pode se tornar de repente manobrista e vice-versa.

Data vênia (2)

Para o ministro Gilmar Mendes, o comentarista político e pop star Reinado Azevedo é “Nosso Reinaldo”. E Reinaldo, ao mesmo tempo, é um garantista quanto a Gilmar e um manobrista no que tange ao garantista “Nosso Kassio”, e vice-versa.

Tudo um saco

Não se vende mais disco, streaming é uma roubada, direitos autorais raramente bancam luxos, e o Corona barra a realização de shows. Alguns artistas entraram na pinda pra valer. Os mais sensíveis se irritam ao fazer lives, de onde ainda tiram algum, como as promovidas pelos canais do Sesc e Blue Note. Há quem tenha que alimentar famílias numerosas, já na terceira geração, de candidatos ao estrelato. Sem falar de quem descobriu, graças ao Corona, as delícias do engajamento e as maravilhas das redes sociais. Como Raul, acho tudo isso é um saco: engajamento, fã-clube e o colunismo de rede social, que nos atualiza sobre quem posou de pijama ou fez bundalelê no sítio.

Ah, cuá.

É preciso tocar o barco. Para 2021, prometo que me reinvento e me reciclo. E saio da zona, da zona de conforto!

Vale a pena ver de novo

Jornalista cultural abandona a zona de conforto e se agarra como pode à primeira oportunidade que aparece. Foto: Shamus Culhane/FP_PRESSE

«O triunfal regresso de Sonny Rollins. Yahvé M. de la Cavada escreve no El País sobre o lançamento de Rollins In Holland, gravações de 1967 em excelente estado, recuperadas com a supervisão do saxofonista de 90 anos, o maior do músicos do jazz ainda vivo, e lançadas em LP triplo e CD duplo.»

Último Noel

Nana Caymmi canta — e como canta — Último desejo, de Noel Rosa (originalmente faixa A2 do LP Chora brasileira, de 1985).

E Paulinho da Viola interpreta — e como interpreta — Pra que Mentir, de Noel e Vadico (faixa B1 do LP Memórias cantando, de 1976).

O acompanhamento de Hélio Delmiro (violão) e Rafael Rabello (7 cordas) envolve a voz de Nana Caymmi como um presente luxuoso,  e Nana é capaz de transitar de um grave sensualíssimo a um quase sussurro. O efeito é segurar a música no espaço, enquanto a ouvimos, como num chiaroscuro de Rembrandt.

Último desejo  é a segunda das 10 canções de Noel mais buscadas na rede. Foi muito e esplendidamente gravada por Aracy de Almeida, Isaurinha Garcia, Bethânia, Gal, Ney Matogrosso, o português António Zambujo, como fado, (inclusive juntos, Zambujo e Ney, num encontro memorável)… muita gente bamba.

O samba foi composto em 1937, mesmo ano, ou começo de ano, de Pra que mentir, veja você, com a Indesejada das gentes batendo à porta de Noel, debilitado pela tísica, para finalmente entrar em 4 de maio.  No mesmo ano foi gravado por Aracy de Almeida, em julho, e lançada pela Victor em maço de 1938, conforme o site Discografia Brasileira (IMS).

Pra que mentir, registrado por Silvio Caldas em 1938, também pela Victor, veio a público em fevereiro do ano seguinte.

Há inúmeras boas versões, como a magnífica de Caetano Veloso, mas Paulinho da Viola, acompanhado apenas pelo violão do pai, César Faria (Benedicto Cesar Ramos de Faria), adentra o território do sublime.

Dizem os biógrafos de Noel que essas duas canções se inspiraram, como outras em sua obra, na mocinha Ceci, dançarina de 16 anos do Apollo, um cabaré da Lapa carioca, que ele conhecera em 1934.

As letras não por acaso se tornaram clássicas, patrimoniais.

A aguda dramaticidade de Último desejo só é superada por estes versos de Pra que mentir: “…Se tu sabes que eu te quero/ Apesar de ser traído/ Pelo teu ódio sincero/ Ou por teu amor fingido…”.

 ÚLTIMO DESEJONoel Rosa

Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre, hoje, sem foguete
Sem retrato, sem bilhete
Sem luar e sem violão

Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero seus beijos
Mas meu último desejo
Você não pode negar

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação

E às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é um botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim

PARA QUE MENTIR – Noel Rosa e Vadico

Pra que mentir
Se tu ainda não tens
Esse dom de saber iludir?

Pra quê? Pra que mentir?
Se não há necessidade de me trair?

Pra que mentir, se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher?

Pra que mentir
Se eu sei que gostas de outro
Que te diz que não te quer?

Pra que mentir
Tanto assim
Se tu sabes que eu já sei
Que tu não gostas de mim?

Se tu sabes que eu te quero
Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero
Ou por teu amor fingido. 

Chavões para abrir o Brasil

Jurupoca_50. 4 a 10/12/2020. Ano 2

Na última sexta-feira (27/11) me surpreendi com esse efeito de luz , fundo e flor.
Cascatinha do Parque Municipal Renné Gianetti, no Belo.
 
LA VIDA NUEVA – A VIDA NOVA

 MI DIOS ES HAMBRE — MEU DEUS É FOME

 MI DIOS ES NIEVE — MEU DEUS É NEVE

 MI DIOS ES NO — MEU DEUS É NÃO

 MI DIOS ES DESENGAÑO — MEU DEUS É DESENGANO

 MI DIOS ES CARROÑA — MEU DEUS É CARNIÇA

 MI DIOS ES PARAÍSO — MEU DEUS É PARAÍSO

 MI DIOS ES PAMPA — MEU DEUS É PLANÍCIE

 MI DIOS ES CHICANO — MEU DEUS É AFRO    
     
 MI DIOS ES CÁNCER — MEU DEUS É CÂNCER

 MI DIOS ES VACÍO — MEU DEUS É VAZIO

 MI DIOS ES HERIDA – MEU DEUS É FERIDA 
          
 MI DIOS ES GHETTO — MEU DEUS É GUETO

 MI DIOS ES DOLOR — MEU DEUS É DOR

 MI DIOS ES — MEU DEUS É

 MI AMOR DE DIOS — MEU AMOR DE DEUS 

Poema do Chileno Raúl Zurita que teve seus versos formados no rastro de pequenos aviões no céu de Nova York. Extraído do livro Tu vida rompiéndose, Penguin Randon House. Livre tradução de quem vos escreve. Zurita também é autor de poemas escritos (e inscritos) no deserto de Atacama. Um fragmento da performance, ocorrida em 2 de junho de 1982, pode ser visto neste vídeo:

Cascatinha, Parque Municipal Renné Gianetti, BH
Nesse mundo imundo só se escuta a teia da
Teq, teq, tequiri, brode, brode, brode, chá
Nesse mundo imundo só se escuta a teia da
Teq, teq, tequiri, brode, brode, brode, chá

Frufru manera, Frufru manera, Frufru
Frufru manera, Frufru manera, Frufru

 

Trecho de Manera Frufru, manera (Raimundo Fagner e Ricardo Bezerra), canção-título do álbum de Fagner lançado em 15 de maio de 1973, com produção de Roberto Menescal e arranjo de Luiz Cláudio Ramos.

“Versão gravada em 1972. Sobras de estúdio do álbum Manera Frufru Manera”, conforme o canal do YouTube Mucurype 49.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

É só catimbó e o Chicó tá no icó tralalá…

Sou reservista. 5ª Categoria, mas honrado reservista (incluído no “excesso de contingente” de 1980, Certificado da 4ª Região Militar do Ministério do Exército Nº 153652).

De 5ª Categoria são os reservistas que tocavam e cantavam Para não dizer que não falei das flores com a patota inebriada de Brahma e bongo (o mesmo que bagulho). Primeira classe tinha quem cantava Sabiá.

Neste instante estou disposto como uma gaivota a servir a pátria. Vosmecê sabe, a gaivota é uma ave marinha típica das Minas dos Matos Gerais.

E aqui — o Itamar Franco se ufanava disso — temos pólvora, chumbo e bala (apud op. cit. Milton Nascimento & Tavinho Moura).

Nós queremos é guerrear Xi Jinping.

Se a guerra contra China for declarada, aux armes, citoyens! Formez vos bataillons! Marchons, marchons. Qu’un sang impur abreuve nos sillons!

Brasília vai lançar foguete contra os amarelos e dedetizar o Super Corona Kung Flu que eles criaram. Xi Jinping e Kim Jong-un vão contra-atacar.

E até dizem que dessa vez é pra valer: Cuba lança!

E quero ver Cuba lançar!

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

A arte de não abandonar a zona

Confessei, numa furtiva lágrima, numa das primeiras Jurupocas, que o mais gabaritado coaching seria um rematado picareta aqui na redação. Um padre faria um trabalho melhor. Como jornalista inativo, não me reciclei, não me reinventei, não saí da zona, da zona de conforto, não aprendi a fazer biscoito, cookie nem pamonha para fora; criar galinhas poedeiras, então, que utopia! Para não lembrar que quando ouço falar em marketing, mormente “marketing digital”, me segura!, ou pulo do Viaduto das Almas.

O que serei quando crescer

Acho que tenho talento para influenciador analógico! É o que quero ser quando crescer. Como não havia pensado nisso? Precisou de um gênio, Sir Gordon Jô Soares, se definir como tal, influenciador analógico, numa cartinha ao nosso, quer dizer, vosso “ExcelentíSSimo!” (sic) presidente, para que a Ju acordasse e vislumbrasse seu target e seu benchmarking (com o perdão da pornografia) neste mercadão de meu Deus.

Influenciador digital x influenciador analógico

O influenciador digital é quem tudo sabe e tudo ensina sobre cada retalho de uma colcha de retalhos. É capaz de isolar e dividir para “monetizar” um retalhinho assim de nada em pixels, bits e bytes, tudo em inglês, claro. Já a tarefa do influenciador analógico é dura e altruísta. A este profissional cabe referenciar um retalho com outro retalho e outro conjunto de retalhos de uma colcha de retalhos, o antigo contexto. E ninguém entende nada! Perde a paciência. O digital não precisa ter esses cuidados, afinal digitalizou-se também a história. E o tempo (antes, agora, depois) liquefez-se. O digital influencer tem mais é que ir em cima do clic e do stream, e bater bola no Insta, no Face e por aí, tá sabendo; já o analogic… coitado dele.

Uma rara foto do autor da Jurupoca

Jornalista cultural e futuro influenciador analógico, o titular da Ju, um leitor de poesia e ouvinte de música antiga (MPB) agarra-se, para sobreviver, à primeira oportunidade que aparece.  Mas ninguém o tira da zona, de conforto, isso não! Foto: Shamus Culhane/FP_PRESSE 

Poetar é preciso, viver…

“O dia que se deixe de escrever poesia, acabará a Humanidade”, diz o poeta chileno Raúl Zurita, galardoado na Espanha com o prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana. Na mesma entrevista ao El País ele compara o ofício do poeta ao do engenheiro. “Se cai uma ponte pode morrer muita gente, se um poema cai não acontece nada. Mas é muito mais difícil erguer um poema que uma ponte”. Outra do Zurita, agora em conversa com o catalão El Cultural: “A poesia está mais perto do sofrimento real que qualquer outra literatura, por isso é importante escrever poesia agora, ainda que não se leia”, reflete, sugerindo que os poetas devam olhar para as angústias e incertezas da pandemia. Acho que já disse nesta Ju do gosto que tenho por descobrir um grande poeta, seja onde for. Zurita, até onde sei, não é traduzido no Brasil, o que é notável, isto é, notável desinteresse dos editores. O Chile é um país de grandes escritores e tem dois poetas nobelados.

“Irracionalmente relevante”

Andrés Seoane, no El Cultural, lembra no papo com Zurita outro proeminente ficcionista chileno: Alejandro Zambra, para quem o Chile é “um país literário, onde a poesia, curiosamente, é irracionalmente relevante”.

Pornô com “diversidade”

Helahoho! helahoho! Houve um tempo no Brasil em que alguém ainda citava num boteco dois versos de Bandeira, um poemeto de Drummond ou um soneto do Álvares de Azevedo. Agora nem letra de música — gênero vizinho da poesia e que ensinou muita gente o português — mais importa. Toca-se, canta-se e reporta-se qualquer coisa, inclusive o pornô, desde que um pornô com correção política e selo de “diversidade”.

Enquanto isso, no ex-caderno de ex-cultura
mais vanguardeiro da América do Sul…

Os meninos da Barão de Limeira são uns danados, sô. Agora nos revelam, leitores ávidos que somos, a geopolítica da modernidade dos jogos eletrônicos. A Ilustrada, tal ex-caderno, nos próximos capítulos vai nos trazer o que a Hungria de Viktor Orbán e a Bielorrússia de Lukashenko têm de culturalmente mais diverso, embora nesses países, a democracia pene. E a Eslovênia vem aí. A Polônia, berço de literatas como Wisława Szymborska e Olga Tokarczuk, cada qual com seu nobelzinho, foram bem esquecidas. Claro, na música erudita ou no cinema, o país também teria muito a declarar, ontem e hoje, mas isso não tem nada a ver, e onde já se viu um gamer se interessar por outra coisa além games? A Polônia, pobre Polônia, violada por nazistas, soviéticos e autoviolada, agora é potência e vanguarda desse novo gênero de lazer elevado a 9ª ou 11ª arte pela Ilustrada: os jogos eletrônicos, e nada mais vem ao caso. Mas a “democracia pena” por lá. Como pode? Nem uma pista histórica? E a Iara Rennó?, artista genial que “expande os limites da música”. Um Bach, se vivo estivesse, invejaria tal expansão de limites. Disco erótico? Matutamos na redação se o menino ou menina que escreveu a matéria terá ouvido a trilha de Emanuelle, ou o mela-cueca-e-calcinha de primeira que foi Je t’aime moi non plus, com Jane Birkin et Serge Gainsbourg.

Cuba e o negacionismo da esquerda garnisé

A vida do artista inconformado não é fácil lá na Ilha do Fernando Moraes, do Chico Buarque, do Boulos, da Gleisi Helena Hoffmann. Como se sabe, Cuba é um país livre, y cual solamente puede ser libre, e ai de quem não é! A quienes no son solamente libre, os rigores da cana brava e da prensa oficial (digital e analógica). “A primeira coisa que a polícia política faz ao prender um artista é confiscar e desfigurar seu telefone celular”, fofoca o imperalista Rafael Rojas na revista mexicana Letras Libres, num despacho de La Habana. A greve de fome de integrantes do Movimiento San Isidro, coletivo de jovens artistas e intelectuais desse bairro paupérrimo, terminou com a  borracha comendo. A turma protestava contra a sorte do rapper Denis Sólis, que vai curtir oito meses com vista para o sol enquadrada. O coletivo está cheio de “marginais”, “delinquentes”,  “agentes do imperialismo”, como se soube pelas revelações do regime em seus jornais e perfis nas redes sociais. Na Ilha amiga do PSOL e do PT, o regime decide no decreto quem é ou não é artista ou pode ou não pode fazer cinema independente. A reportagem da Ju tentou ouvir o outro lado, a franja cubófila da nossa esquerda garnisé, hoje de muito boas relações com o “mainstream” do jornalismo nacional, mas até o fechamento desta edição, nada.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (1)

Muita saúva, pouca saúde, os males do Brasil são. Mário de Andrade bem que tentou diagnosticar nossa problemática essencial no Macunaíma. Bola fora! Muita saúva, pouco Siúves, os males do Brasil são. A emendava do saudoso colunista Marcelo Rios saiu-se ainda pior. Os índices depravados da má qualidade da educação fundamental e o cocô de metade do país a escorrer por ruas e valas (olha a perpetuação da pobreza aí, gente!), os males do país são. Na, na, ni, na não. A obscenidade da administração pública, o roubo, o sistema de casta do funcionalismo estatal e da Justiça, os planos econômicos delirantes, os males do Brasil são. Ih, tá frio, frio, tá gelado. Nada disso ajuda ninguém mais a pensar direito. Triste Brasil! ó quão dessemelhante. Não sei se ainda se se pode, impunemente, parafrasear o Gregório de Matos sem “direito de fala”. Pode? Cartas para a redação.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (2)

A imprensa virou uma câmara de eco das redes sociais. Ecos são modas, e todo mundo sabe de tudo desde os cueiros, até que venham novas ondas e modas, novos escândalos, novas gravações quentinhas. Obras seminais sobre escravidão, formação da República, analfabetismo, política oligárquica, patrimonialismo etc., que escarafuncham nossa história com ou sem imaginação, caíram do galho. Anuncia-se para qualquer momento a tradução do país segundo o “lugar de fala”. Vêm aí o Gilberto Freire, o Sérgio Buarque de Holanda, o Raimundo (ou Raymundo) Faoro, o Darcy Ribeiro capaz de revisar tudo sem a miopia da branquitude, como se sugeriu no último Foro de Teresina. Espera-se o advento de um diplomado em Harvard capaz de encaixar a “cultura do estupro” e o “racismo estrutural” na equação.  Asseiam por novas chaves gerais, boas para abrir as portas da esperança no Brasil, e para iluminar nossa natureza e nossa miséria.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (3)

Chaves ideológicas dão hashtags e desaguam no mar teorético, quando sabem a chavões. Chaves gerais abrem cabeças, como o serrote daquela revista. Talvez nos façam menos burros, mais humanos, outra gente que, enfim, vai brincar na nova ordem moral o Carnaval da Democracia.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (4)

Chaves gerais abrem os portais do Brasil, da nacionalidade, da “cultura” disso e daquilo, dos vícios e perversões totalizantes. Afinal, mostram que nada pode ser feito contra realidades “estruturais” e estruturantes, até que caiam as estruturas. Gestores públicos e a velha (ou a nova) política tricotada no Parlamento vão dormir em paz, sossegados para cuidar de seus afazeres, lobbies e pecúlios. Até que caiam as estruturas.

Nossos comerciais, por favor!

Peroba que é madeira. Paca/tatu que é caça. Correinha que é primeira. Correinha que é cachaça. Bote mais uma!

Coppola e o Poderoso chefão 3, coda

O elenco de O poderoso chefão — Desfecho…
Francis Ford Coppola fala sobre O poderoso chefão — Desfecho: A morte de Michael Corleone e explica o sentido do termo “coda” (no título em inglês) emprestado da linguagem musical para rebatizar o filme

«Como Francis Ford Coppola regressou para fazer O poderoso chefão — Desfecho: A morte de Michael Corleone. No New York Times. A nova versão estreia nesta quinta (3) e na terça-feira (8) estará disponível em várias plataformas de streaming: Claro, Sky, Apple TV, Google Play, Vivo, Oi, Xbox Video e PlayStation Store. O longa-metragem foi remasterizado com resolução 4K. O título, em inglês Mario Puzo’s The Godfather, Coda: The Death of Michael Corleone  (O Poderoso Chefão  de Mario Puzzo, coda: A morte de Michael Corleone) valoriza o trabalho de Puzzo (1920-1999), roteirista da saga e autor do romance no qual a trilogia é baseada. A remontagem retoma ideias de Puzzo e Coppola, hoje com 84 anos, recusadas pelo estúdio há 30 anos. O filme, com um novo começo, um novo desfecho e cenas reposicionadas, volta ligeiramente encurtado. »

«A amarga verdade de La dolce vita. No El País.»

«Brasil viveu ‘utopia’ de que internet seria democratizante, diz pesquisador. Entrevista com Francisco Brito Cruz, autor do livro Novo jogo, velhas regras. Na Folha de S.Paulo

«Emmet Cohen Trio feat. Cyrille Aimée: “La Vie en rose”. A live gravada na casa da jazzista francesa está há menos de um mês na youtubaria e já foi vista, quando enlaçada aqui, 234.613 vezes. E quem ainda não viu é mulher do padre!»

«Eu moro dentro da casca do meu violão, com João Bosco. 4º e último episódio. É do balacobaco. Ouçam João em Corsário , canção que parte do Adágio do Concierto de Aranjuez, do espanhol Joaquín Rodrigo, e Amigos novos e antigos, inspirada em uma música do disco Abbey Road dos Beatles, Sun King, em que John Lennon diz a palavra “obrigado”. Ambas são dele e Blanc.»

Ê, Minas, oh Minas

Paulo César Pinheiro é letrista de mão cheia, fabuloso, ninguém pode negar. É autor da épica Matita Perê (com Tom Jobim, do disco homônimo de 1972) e de Desenredo (encomenda de Dori Caymmi), uma canção singela sobre vida, morte e a consolação do amor.

Ambas se inspiram em Minas Gerais e na obra de João Guimarães Rosa, evocadas no imaginário dos artistas em foco neste Intervalo.

Em uma entrevista a Ana Clara Brant para Estado de Minas sobre a história dessa composição, em que lembra seus dias no estaleiro, depois de romper o tendão do calcanhar numa fatídica pelada, Dori se apresenta como “33,3% baiano, 33,3% carioca e 33,3% mineiro”.

Nasceu no Rio, fruto da união do baiano Dorival com dona Stella Maris, mineira de Pequeri, vizinha a Juiz de Fora, onde os Caymmi têm casa e onde Nana cumpre esta quarentena.

Sobre a influência de Rosa, César Pinheiro disse ao jornal:

“De tanta paixão, acabei assimilando aquela maneira de escrever. Rosa me ensinou a amar o sertão mineiro; foi a partir da literatura dele que procurei saber tudo. Conheci Minas em seus livros e só depois fui conhecê-la in loco. Quando me casei com a Clara [a cantora Clara Nunes], ela desbravou muitos lugares comigo”.

Desenredo foi composta e lançada por Nana Caymmi em 1976, no LP Renascer. Ela canta a faixa acompanhada pelo violão do mano e um fundo de cordas. Mas vale a pena dar uma olhadela na estelar ficha técnica desse álbum:

João Donato: Piano
Dori Caymmi: Violão, piano
Nelson Ângelo e Milton Nascimento: Violão
Danilo Caymmi: Violão, flauta
Fernando Leporace e Novelli: Baixo elétrico
Luiz Alves: Baixo acústico
Hélio Delmiro: Guitarra
Robertinho Silva: Bateria
Rubinho: Bateria e percussão
Direção de produção e arranjos: Dori Caymmi

Gosto tiquinho mais da gravação de  Edu Lobo no álbum Tempo presente (1980), com participação de Dori no canto. O arranjo, mais uma vez de Dori, é ensolarado como uma manhã de Cordisburgo. Nas duas gravações, seu violão autoral é a alma do negócio. Eis a ficha técnica:

Café: Chaves e coco
Chico Batera: Sino e triângulo
Edu Lobo: Pau de chuva
Chiquinho do Acordeom (Romeu Seibel): Acordeom
Dori Caymmi: Violões
Luiz Alves: Contrabaixo

DESENREDO – Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

Por toda terra que passo
Me espanta tudo o que vejo
A morte tece seu fio
De vida feita ao avesso
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso

Mas quando eu chego eu me enredo
Nas tramas/tranças do teu desejo

O mundo todo marcado
A ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo
A morte é o fim do novelo
O olhar que assusta anda solto/morto
O olhar que avisa anda aceso
Mas quando eu chego eu me perco
Nas tramas do teu segredo

Ê, Minas
Ê, Minas
É hora de partir
Eu vou
Vou-me embora pra bem longe

A cera da vela queimando
O homem fazendo o seu preço
A morte que a vida anda armando
A vida que a morte anda tendo 

O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte indefeso
Mas quando eu chego eu me perco/enrosco
Nas cordas do teu cabelo