Democracia roubada (Diário Tempestivo 2)

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No coliseu ideológico das redes sociais a elegância foi enjaulada diante da troca de arrotos e puns em que a conversa se converteu. Argumentos pueris, bravatas roubadas das arquibancadas, cegueira inculta, ignorância brutal, indisposição permanente com os fatos, com a razão, sempre com o outro. Tudo em nome de uma certa democracia idealizada deusa de bordel. O infernal desfile de imagens com montagens e dizeres indubitavelmente cretinos rodando sem parar —sem falar no esgotamento egotista do selfismo, fontes do mesmo e gordo chorume onde as multidões se comprazem de beber. O som e a fúria e as tempestades de pixels fazem aumentar a cada segundo o valor de mercado das empresas dessas mídias, enquanto a democracia é sistematicamente aviltada. Novo iluminismo o quê! Entramos no neojurássico.

 

Memória e reflexo (Diário Tempestivo 1)

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A ideologia reduz a conversa ao monólogo na (re)ativação de dois ou três circuitos sinápticos fechados (RNA mensageiro, neurônios, proteínas, neurotransmissores, não exatamente nessa ordem). Vale-se da mesma e única memória de longo prazo adquirida nos anos auriverdes —condicionada pela técnica professoral do pensamento unívoco nas classes de humanidades— e replicada. O Nobel de Fisiologia ou Medicina Eric Kandel demonstrou como esse mecanismo ocorre nas lindas aplysias.